segunda-feira, 6 de abril de 2015

REABRIU A "TOCA DO GATO" COM NOVA GERÊNCIA



Com nova gerência, reabriu a semana passada a “Toca do Gato”, uma nossa bem conhecida taberna da Baixa de Coimbra. Ao leme desta reconhecida embarcação pantagruélica está o João Pedro Almeida Braga, dono da Retrosaria Ziguezague e situada ao lado do novo estabelecimento.
Encerrada desde Dezembro do ano transacto, a “Toca do Gato” a laborar desde 1930 na cidade, pela sua convivência revitalizadora fazia falta nas Escadas do Gato. Quem nos vai fazer a apresentação é o João Braga: “já sonhava há muito tempo em ter uma tasquinha típica e, agora, surgiu a oportunidade. Até porque, para melhor e pela proximidade dos dois estabelecimentos, com a ajuda da minha mulher, Anabela, consigo conciliar o comércio com a hotelaria. É certo que será muito mais esforçado mas os tempos de dificuldades que atravessamos assim obrigam. No meu novo investimento e na minha reconhecida casa histórica, como manda a tradição, o cliente pode continuar a provar a boa bifana, a sardinha frita, a patanisca, o croquete e o rissol e o ovo cozido. Diariamente, para acompanhar um bom tinto, também temos o pires de orelheira e o polvo em mistura ensalsada. Para além destes petiscos, terá também um prato do dia bem confeccionado e por um preço óptimo.
Aproveito o ensejo para convidar os leitores a visitarem esta minha casa típica.”


BOM DIA, PESSOAL...

sábado, 4 de abril de 2015

A PÁSCOA NA NATUREZA

(Imagem da Web)





O homem está sentado na pedra granítica no ponto alto da montanha. Em cima, as nuvens brancas em fundo azul parecem querer tocar o monte. O Sol, em raios dourados, espalha a alegria em tudo o que toca. Aos pés do homem, num atapetado verde, uma flor maior está acompanhada de várias mais pequenas. Um pouco mais longe uma coelhada, alheia a duas águias esvoaçantes no céu, parece estar feliz. Numa pedra enorme ressaltam vários passarinhos a chilrear. Mais em baixo, um riacho desagua numa cascata e a água, ao bater no fundo, faz-se anunciar em “choc, “choc”, “choc”.
Ao olhar em redor o sujeito apreende que, na sua permanente transformação, a Natureza, numa dualidade, reparte-se entre a imutabilidade e a dinâmica do curso das coisas. Tudo se encaixa numa divisão entre a espontaneidade perecível e o renascimento secular. A cada sopro existencial corresponde um fenecer natural e um novo advento. A cada morte crucificada segue-se a ressurreição, na sua substituição. A cada lugar vazio, deixado por desaparecimento, a curto ou médio prazo, inevitavelmente corresponde uma nova actividade. O ser está em cada planta que se abre ao dia, em cada animal que se reproduz no mundo, em cada recanto da pedra esboroada pela idade que se adapta à realidade intemporal. O brilho da luz, ao mesmo tempo que é efémero, multiplica-se numa perenidade até ao infinito.
A Páscoa está entre nós. Feliz celebração pascal para todos!

VICTOR SANTOS NO RANCHO DE COIMBRA



Victor Santos, o nosso mais querido e famoso cantor e artista de variedades, esvoaçando entre as nossas margens esquerda e direita do Mondego e do Sena, na terra de Obelix, vai actuar no Rancho das Tricanas de Coimbra no próximo domingo, 12 de Abril, entre as 16 e as 20h00, em mais uma extraordinária matiné promovida pela nova direcção da colectividade recreativa com sede na Rua do Moreno, na Baixa da cidade.
Pelo que sei, por parte do seu público admirador, sobretudo o feminino, a expectativa é enorme e conta os dias que faltam com ansiedade. Segundo as declarações do artista, “tenho a certeza de que não irei defraudar as minhas fãs. Vou cantar entre oito a dez canções. A minha participação é gratuita para poder contribuir para a revitalização deste grande espaço de memória. A talhe de foice, aproveito para informar que proximamente vou gravar um novo cd com 10 temas. Provavelmente será depois da minha "tournée" que vou realizar entre a Suíça, Alemanha e Luxemburgo. Vou actuar para a comunidade portuguesa. Sinto um grande contentamento por poder mostrar o meu talento para os nossos emigrantes que tão bem conheço e mantenho no coração.”

PROVÉRBIO ALENTEJANO



"As mulhéris... Se nan fosse a falta que fazem... nan faziam falta nenhuma..."

LEIA O DESPERTAR...



LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Para além  do texto "REFLEXÃO: VENHAM A MIM TODOS OS REINOS", deixo também as crónicas "UMA IDEIA GIRA, MAS..."; "O "POPEYE FOI "ENCARCERADO"; "ESSÊNCIAS GOURMET... DE UMA VIDA".


REFLEXÃO: VENHAM A MIM TODOS OS REINOS

Na edição desta semana do Campeão das Províncias escrevo uma crónica sobre o escândalo das comissões praticadas por alguns guias turísticos para levarem os grupos de excursionistas a comprarem em lojas de artesanato, entre os largos da Portagem e da Sé Velha e passando pelas escadas de Quebra-Costas. Alegadamente, a comissão praticada é de 20 por cento sobre as vendas e pago em dinheiro vivo e por debaixo da mesa. Por que os ofendidos na concorrência desleal continuem a calar e as entidades competentes, talvez com o argumento de que o vício ofende apenas a ética e se trata de um contrato entre particulares, fechem os olhos, a situação arrasta-se há vários anos numa vergonha inqualificável.
Promovida pela ADDAC, Associação de Defesa e Desenvolvimento da Alta de Coimbra, e por três comerciantes, neste último sábado, realizou-se uma feira de artesanato urbano para tentar reanimar a zona do Arco de Almedina. Segundo declarações de um dos promotores, um dos lojistas implantados, para além de, no dia, se opor à fixação de uma banca à sua porta argumentou que não quer a feira e que ia fazer tudo para que certames futuros não se efectuem. Este é o modelo de alguns comerciantes que estão entre nós. Se pudessem até retiravam o ar que respiramos só para eles. Falar-lhes que o sol quando nasce é para todos é pura perda de tempo. É triste, não é?


UMA IDEIA GIRA, MAS…

Era meio-dia deste sábado quando o meu amigo, acompanhado do neto, me entrou pela porta e atirou de supetão: “então vim eu com o meu neto para comprar arrufadas e lhe mostrar como, até há cerca de meio-século, era feita a sua venda aqui na Baixa através do pregão e com os tabuleiros de madeira à cabeça das mulheres e afinal não há nada? Isto é publicidade enganosa!”
De facto, passado um quarto de hora depois do meio-dia já não havia animação na Praça 8 de Maio e conforme o anunciado nos jornais, nomeadamente n’O Despertar: “Os doces e apetecíveis aromas prometem voltar a seduzir quem passar amanhã (Sábado) pela Praça 8 de Maio, antigo Largo do Sansão. Tal como manda a tradição, no sábado da Aleluia, o Grupo Etnográfico da Região de Coimbra (GERC) realiza mais uma Festa da Arrufada, trazendo para a rua centenas de atrativos, fofos e apetitosos bolos. Entre as 9h00 e as 13h00, a praça vai encher-se de vendedeiras que vão colocar os seus tabuleiros em linha e vão apregoar o seu produto. Tal como acontecia no passado, o grupo pretende recriar todo o ambiente festivo associado a esta tradição, onde o burburinho do público quase que abafava os pregões das vendedeiras atarefadas.”
Falei com um operador da zona. Com a minha anuência de não o identificar -perante o tão meu conhecido “não diga que fui eu que disse”-, aceitou falar e declarou o seguinte: Estiveram aí umas cinco bancas, mais ou menos até às 11h00, com pessoas a vender arrufadas. Mas, pareceu-me, traziam poucas –iam adquiri-las a uma carrinha que estava aí estacionada. Este doce tradicional não chegou para as encomendas. Não ouvi nenhum pregão. Até gostava de ter ouvido. Seria uma ótima ideia se fosse mais explorada”. Sei que andou uma vendedeira –pelo menos uma foi vista-, e o seu pregão ecoou pelos beirais.
Prossegue o meu depoente, “esta Praça 8 de Maio está feita numa bandalheira. Olhe ali o espelho de água –está com imensos papéis a boiar. Há gente a atirar os detritos lá para dentro de propósito. Para além disso, por exemplo, a tuna que atuou às 11h00 –Tuna do Instituto Superior De Contabilidade e Administração- coincidiu com a missa na igreja. É uma falta de respeito. Embora não saiba o motivo, creio que o pároco até veio cá fora para colocar alguma ordem. Esta manhã, aqui no antigo Largo de Sansão, o que até poderia ser uma iniciativa muito engraçada foi uma coisa muito triste. Muito pobrezinha!”

ALGUMAS “ILHAS” ESTIVERAM ANIMADAS DURANTE A TARDE

Neste quarto Sábado do mês, por isso mesmo, realizou-se, na Praça do Comércio, a Feira de Velharias. Para além deste certame, nas Escadas do Quebra-Costas havia também uma interessante feira de artesanato urbano. Foi uma organização de alguns lojistas e da ADDAC, Associação para o Desenvolvimento e Defesa da Alta de Coimbra, e, futuramente, vai praticar-se sempre no primeiro Sábado de cada mês –esta produção de hoje foi uma exceção para não coincidir com a Páscoa. Durante a tarde, cerca das 15h00, qualquer um destes eventos estava bem concorrido com público e era notório um ambiente de festa.
No Dia Mundial da Juventude, com espetáculo promovido em parceria entre o Café Santa Cruz e a Câmara Municipal de Coimbra, os gaiteiros “Roncos e Curiscos” exibiam a sua música junto ao vetusto café e juntavam alguma assistência na Praça 8 de Maio e ruas largas. Nas artérias estreitas, com bastantes lojas abertas nesta tarde solarenga, não se passava nada. Nem a festa cá chegou, nem o público veio atrás dos foguetes. Mais uma vez venho bater no ferro frio. Nos dias festivos é preciso ligar estas ilhas. No caso de hoje, Praça 8 de Maio, Praça do Comércio e Escadas do Quebra-Costas. E como é que se fazia a ponte? Bastava descentralizar a Feira de Velharias da antiga Praça Velha e, fazendo um círculo, estendê-la pelas ruas estreitas e largas –como se faz em Aveiro. Por seu lado a feira de artesanato do Quebra-Costas descia até à Rua Ferreira Borges. Qual é a consequência deste isolamento? É que cada um, no seu canto, tenta safar-se. Se estivessem todos ligados, para além de desenvolver toda a Baixa e convidar mais lojas comerciais a estarem abertas ao sábado de tarde, o público de um seria o mesmo do outro. Assim não. Parece que estamos todos de costas voltadas.
No caso das Escadas de Quebra-Costas o que se espera para “derrubar” a psicológica fronteira existente no Arco de Almedina e considerar esta zona –até ao cimo e junto ao Largo da Sé Velha e até ao antigo Governo Civil- como fazendo parte integrante da Baixa? Até parece que estamos na Idade Média e a cidade continua dividida. Ridículo, digo eu!


O “POPEYE” FOI “ENCARCERADO”

O António Simões da Silva, conhecido por “Tónio Bombeiro” e apelidado de “Popeye” foi internado num lar ali para os lados do Areeiro, segundo dois seus grandes amigos, o Jorge Martins, do Quiosque Espírito Santo, na Praça 8 de Maio, e Olímpio Ribeiro, proprietário da barbearia Santa Isabel, na Rua Direita, e cognominado de “Engenheiro”.
O “Tónio” é um daquelas figurantes carismáticos que pululam na Baixa. Pessoas como ele são uma espécie de flores silvestres que nascem e vivem numa área habitacional. Pela forma desligada, na diferença, em consequência da sua leve demência imprimem uma marca inconfundível e, talvez sem o notarem, são amados pela coletividade. Contudo, e aqui reside a ambiguidade, enquanto deambulam pelos becos e ruelas das cidades parecem ser ignorados. Quando se ausentam do meio habitacional, ou por velhice, doença ou morte, todos parecem sentir a sua falta e mostram espasmos de dor pelo seu desaparecimento. Já constatei este procedimento social várias vezes aquando do sumiço de outros “cromos” que nos deixaram na última década.
Por conseguinte já se entende a preocupação do Jorge Martins ao pedir-me que escrevesse sobre o “encarceramento” do “Tónio Bombeiro”. “Tens de escrever sobre isto. A administração do lar onde está internado o “Popeye” tem de ser sensibilizada para o deixar vir à Baixa de vez em quando. Se assim não acontecer, ele vai morrer rapidamente. Sempre aqui viveu. Aqui é o seu mundo.”
Olímpio Ribeiro, o “engenheiro, vai mais longe, “Até entendo a decisão tomada pelo primo –pessoa responsável pela sua administração, creio. Ele fez bem em retirá-lo para uma instituição onde cuidem dele. Ele sozinho não estava bem e, além disso, às vezes, bebia de mais. Mas o “Tónio” faz falta à malta! É uma figura típica e carismática. Ele fazia recados para toda a gente desta rua. O “Tónio” é super-sério. Espero bem que o deixem vir de vez em quando à Baixa. Ainda só foi há dias e já sentimos a sua falta.”


ESSÊNCIAS GOURMET… DE UMA VIDA

Abriu há dias a “Essências Gourmet”, no Terreiro da Erva número 21, ao lado do Restaurante Cantinho do Reis.
Transpomos a porta e, como se recebêssemos uma aura espiritual pelo branco imaculado, somos abraçados pelos odores, pelas essências da terra, que nos envolvem completamente. Para complementar, numa abrangência de cordialidade e simpatia, recebe-nos a Helena Pereira com um sorriso de candura familiar que nos faz acreditar que estamos no nosso meio. Nesta bonita loja de produtos endógenos nacionais –“somente artigos portugueses”, sublinha a anfitriã- podemos apreciar e adquirir biscoitos de vários sabores, chocolates, cerveja artesanal, azeite biológico –Acushla, que ganhou vários prémios-, mel, vinhos de vários pontos do país, conservas, compotas, sal marinho e flor de sal –este, é um sal mais depurado, mais suave- e até algas para fazer um salteado com vegetais. Para além tantas iguarias pantagruélicas, podemos também adquirir sabonetes de leite de burra e muitas variedades de infusões, chás, de muitos sabores.
Embora sem experiência empresarial, Helena está muito satisfeita. “Tenho vendido e está correr muito bem”, enfatiza. O que oferecemos na nossa loja são artigos diferentes dos que se encontram à venda em congéneres na cidade. Procurámos ser um suplemento na oferta e não mais do mesmo. Para não entrar em colisão com quem está, tentamos ser algo diferente.”
A Helena é professora -de Português e Inglês e mestrada em Tecnologias de Informação e Comunicação. Agora a dar formação. Como é que um docente se envolve nas lides comerciais? Interrogo. “Olhe, foi assim: sinto-me pouco empolgada com o caminho que o ensino em Portugal está a tomar. Dei aulas no ensino público cerca de 13 anos. A instrução, enquanto formação necessária ao desenvolvimento humano, está muito degradada. Então, eu e o meu marido gostamos muito de infusões, de chás, de plantas e frutos silvestres. Como temos um amigo que tem um estabelecimento em Aveiro, o “Glory Tea”, seguindo o seu exemplo, surgiu a ideia de abrir uma loja em Coimbra. Foi assim que germinou a Essências Gourmet.”









LEIA O CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS...



Leia aqui o CAMPEÃO DAS PROVÍNCIAS desta semana.

Na página "OLHARES... POR COIMBRA E PELO PAÍS", na rubrica "NÓS POR CÁ..."  leia  o texto "BAIXA: A NOITE TEM MUITOS LUGARES VAZIOS" e "VISITAS GUIADAS COM COMISSÃO".



BAIXA: A NOITE TEM MUITOS LUGARES VAZIOS

É terça-feira, faltam poucos minutos para as vinte e duas badaladas na velha Cabra, na torre da Universidade de Coimbra. O tempo está ameno. Acabei de deixar para trás o Café Santa Cruz onde bebi um chá. Desde uma hora antes que este mítico estabelecimento se manteve todo para mim. Entro na Rua Visconde da Luz e sou envolvido pelo silêncio incomodativo da falta de pessoas. De repente ouço uma voz masculina a cantarolar. Olho para trás, é um homem embriagado que num equilíbrio precário como cana no canavial empurrada pelo vento, ora vai para um lado, ora vai para o outro. Continuo a olhar para a frente e entro na Rua Ferreira Borges. Embora ao longe aviste um ou outro transeunte em passo rápido, como se quisesse fugir da penumbra envolvente que gera insegurança, tal como a vizinha artéria está praticamente vazia. Os primeiros cafés estão fechados e A Brasileira, há poucos anos restaurado como café, pastelaria e restaurante de memória, ainda com as luzes acesas, já está em limpezas e já não recebe clientes. No Largo da Portagem todos os cafés estão fechados. Desço as Escadas do Gato e dou com um grupo de estudantes com capa e batina sentado nos degraus, em frente ao restaurante Aeminium. Rodo a cabeça para o interior desta catedral pantagruélica e verifico que, em paradoxo com os anteriores estabelecimentos de hotelaria, tem a sala cheia de estudantes. Atravesso a Rua Sargento Mor e, para além das suas casas hoteleiras já estarem fechadas, não se vê vivalma. Entro na Praça do Comércio. A Taberninha já está de portas cerradas, no café e restaurante Praça Velha estão a amarrar as cadeiras e mesas da esplanada e só o café do Luís, junto às Escadas de São Tiago, resiste com quatro pessoas sentadas nas cadeiras da esplanada. Faço um desvio para a Rua Adelino Veiga e passo ao lado do restaurante Paço do Conde que, apesar de ter ainda dentro algumas pessoas, já tem o portão principal de acesso no trinco. Dou a volta pela Rua da Gala e só um gato parece dar por mim. Corto para a Rua da Louça e o café do Fernando tem três clientes. Encaminho os meus passos para o Largo do Poço. Depois de dar de caras com o bêbado que encontrara antes na rua de cima na entrada da Rua Eduardo Coelho, sigo para a Rua do Corvo e igualmente esvaziada de movimento de pessoas. Vou visitar o novo Be Scobar que, aproveitando muito bem o mobiliário de uma antiga loja de tecidos a metro, abriu portas há menos de uma semana. Lá dentro, por entre cartazes e luzes indiretas a fazer ressaltar o ambiente retro, um casal de estrangeiros encosta a barriga ao balcão. Do lado de dentro está o Miguel Matias, um dos sócios, e outra pessoa. Tiro uma foto e comento com o Matias que, apesar de ainda ser cedo e a noite ser uma criança, a Baixa está despovoada. Responde o Miguel que só às quintas e sextas-feiras se nota alguma atividade de clientela. Vou espreitar o bar Be Poetry, ao lado e também pertença da mesma sociedade. Lá dentro quatro pessoas parecem conversar com um copo à frente.

COMO É QUE SE PODE DAR A VOLTA A ISTO?

Já escrevi tantos textos a descrever este cenário de solidão urbana noturna que até poderia pegar num qualquer anterior e evitava de me estar a maçar. Mas alguma coisa terá de se fazer para reanimar esta área velha. Estou sempre a fazer perguntas a mim próprio. Por que é que apesar de todos os intervenientes, sobretudo os empresários, termos noção que esta zona histórica está a bater no chão ninguém faz nada? Nos últimos anos a situação comercial tem vindo a piorar cada vez mais e, numa apatia continuada, parece que, como maldição divina, todos aceitamos pacificamente o veredito. É como se, progressivamente, sempre a descer e sem força anímica para inverter a situação, nos fôssemos habituando às cores negras do abismo. Por que, volto a bater na mesma tecla, o estranho é que, apesar de algumas lojas encerrarem –particularmente as mais antigas- os negócios novos mais virados para o dia, com uma fé incomensurável no futuro, continuam a fazer investimentos e a emergir a toda a força nesta zona de antanho. Ora esta movimentação de aparente dinamismo comercial gera uma ideia errada da realidade. Em metáfora, é como se convivêssemos diariamente com um velhote e víssemos que, para nossa inveja, ele anda sempre atrelado com várias mulheres novas e boas. Até ao dia em que somos bombardeados com a notícia da sua morte repentina devido à ingestão massiva de Viagra. Por tanto martelar sobre isto, confesso, já me considero uma espécie de anjo negro da desgraça e, apesar de não conseguir, tento lutar contra a minha vontade.

MAS FAZER O QUÊ?

Se pela desertificação diurna do Centro Histórico, a nível local e ao estado caótico a que isto chegou, pouco se pode fazer – a não ser distribuir melhor o turismo internacional por toda a Baixa e não continuar a usar o mesmo trajeto viciado-, resta-nos acreditar que o próximo governo que vier liberte mais a economia e deixe de sobrecarregar brutalmente as famílias com impostos.
Já com o esvaziamento da noite creio que é um assunto que diz respeito a todos quantos aqui desenvolvem as suas profissões e, em busca de soluções, deveria ser discutido por todos, comerciantes, industriais de hotelaria e autarquia. Ou seja, deveria o presidente da Câmara Municipal, Manuel Machado, chamar a si a responsabilidade de liderar este processo de revitalização e convocar para o Salão Nobre todos os operadores para debater esta questão com frontalidade. Num contrato social de compromisso, cara-a-cara, mostrando vontade de meter as mãos na massa, deveria dizer o óbvio: ou todos dão um pouco de esforço e ganham esta batalha ou, a continuar neste deixa correr, todos vamos perder tudo nesta guerra.

ANIMAÇÃO TODOS OS DIAS À NOITE?

Sobre o lema “Páscoa em Coimbra”, segundo este jornal, até 4 de Abril a Câmara Municipal agendou cerca de 30 iniciativas culturais, turísticas e desportivas. Desde um ciclo de concertos de música vocal e instrumental, percursos turísticos, muitos eventos desportivos, atividades para crianças, ações literárias e gastronómicas. São vários os espetáculos que serão mostrados na rua. Ora, se por esta diligência a edilidade está de parabéns –embora sejam pontuais, visando as épocas da Páscoa e de Verão-, dá para ver que, provavelmente, a  reanimação da noite na Baixa passará por aqui, por planos de animação similares mas diariamente.


VISITAS GUIADAS COM COMISSÃO

Em janeiro de 2011 escrevi sobre este mesmo assunto e enviei para conhecimento às entidades competentes. Nenhuma delas me ligou ou respondeu. Quero dizer, portanto, que estou a chover no molhado. Mas, levando a ousadia ao cúmulo de me auto-classificar e salvo melhor opinião, numa bipolaridade existencial, quem escreve será sempre um pessimista -realista, de pés assentes no chão- e com os olhos num otimismo moderado, mas sem descurar o romantismo e o encantamento das estrelas. É uma espécie de em cima/em baixo –acredita em tudo, não acredita em nada-, um cai/ levanta. Tudo por que se, por um lado, desvaloriza, perdoa, porque entende a natureza humana –no sentido de que sabe e apreende que somos todos incompletos e o errar faz parte da nossa essência-, por outro, nunca perde a fé nesta mesma humanidade, já que a imprevisibilidade, como que a compensar, complementa todo o lado negro e selvagem que existe dentro de nós e, a qualquer momento, sem que nada o faça pressagiar, repentinamente, as coisas mudam.
Há quatro anos entrei numa loja de artesanato de um amigo, na zona do Largo da Sé Velha, e, com ar pungido, lamentava-se o meu conhecido sobre o escândalo das comissões “exigidas” por alguns –sublinho alguns- guias turísticos aos donos das lojas para levarem os turistas que acompanhavam aos seus estabelecimentos. Nessa altura, dizia-me ele, que se por acaso algum “tresmalhado” entrasse e estivesse prestes a comprar o guia chegava a ir chamá-lo dentro do estabelecimento e convencia-o a ir a outro congénere.
Esta semana fui visitar outro amigo que abriu a sua loja há cerca de um ano na mesma zona. E, sem que na conversação houvesse intenção, veio à baila o mesmo assunto. Quanto a mim, o problema continua por que os comerciantes do ramo alegadamente lesados não dão a cara. Neste caso a mesma coisa, vou apresentar o seu depoimento sob anonimato. Achei muito curiosa esta conversa. O meu amigo chega a apresentar uma solução muito interessante, dirigida à Câmara Municipal, para que a rota viciada, seja alterada. Vou então transcrever as suas declarações.
“O que está a acontecer com alguns guias turísticos é um verdadeiro escândalo! Saliento que este suborno não é extensível a todos mas apenas a alguns. Como em todas as profissões também aqui há gente com dignidade. Disse-me um guia meu conhecido que as comissões cobradas, em “cash”, em dinheiro vivo, sobre o total das vendas são de 20 por cento. Isto é um esbulho! É a máfia em toda a sua imponência, nas nossas barbas e com a nossa permissão.
Os turistas vêm em rebanho e o pastor (o guia) encaminha-os para as casas com quem tem contrato. Já me tem sucedido ver um grupo na minha montra e o guia a apontar para os meus produtos e adereços e quando um deles vai para entrar ele chama-o. Ainda há poucos dias aconteceu. Parou um grupo, viram a montra e a guia -era uma mulher- apontando cá para dentro, esteve a mostrar os bens que comercializo e a explicar os meus adornos decorativos e desandaram, com a timoneira a “arrastá-los” para onde lhe convinha, Isto, porque a minha loja não faz parte do seu roteiro concebido anteriormente e de acordo com a sua execrável forma de ser. Passado um bocado entrou a guia cheia de pressa. Veio comprar-me um artigo e a bater-se ao desconto. Isso é que era bom! Até porque, com as margens de lucro que pratico, se alguma vez me “vendesse”, nunca poderia dar vinte por cento de comissão a essa gentalha indigna, que abandalha a sua profissão e desgraça quem trabalha honestamente. Eu já vi um responsável de grupo a empurrar os excursionistas para uma loja. Não alinho nestes jogos miseráveis de bastidores. A maioria dos guias turísticos procede assim. Levam os turistas para as lojas que lhes pagam por debaixo da mesa. É uma indecência! Infelizmente, tenho de confessar, não tenho grande esperança que esta situação alguma vez seja alterada. Não há interesse na mudança porque, se for modificada, é um corte no ordenado do guia.“

É PRECISO TROCAR AS VOLTAS AO MONSTRO

“Você já pensou porque é que não há lojas de artesanato na Rua Visconde da Luz, Praça 8 de Maio e Rua da Sofia –esta que até foi declarada, pela Unesco, como Património Mundial- e está tudo concentrado entre a Rua Ferreira Borges, Arco de Almedina, Escadas de Quebra-Costas e Largo da Sé Velha? Eu explico! Porque os autocarros param todos no Largo da Portagem e os turistas, como carneiros, são ali despejados de qualquer maneira e feitio e encaminhados para os repetidos roteiros: Rua Ferreira Borges, Arco de Almedina, Escadas de Quebra-Costas, Largo da Sé Velha, Universidade e voltam pelo mesmo caminho.
Já reparou que poucos são os grupos que passam do Arco da Barbacã e vão até à Igreja de Santa Cruz? Então para a frente, em direção à Rua da Sofia, é um milagre.
Se houver vontade política camarária, é muito fácil de trocar as voltas ao monstro. Basta consignar o espaço de estacionamento em frente ao Mercado Municipal D. Pedro V para os autocarros turísticos e, para além de o próprio mercado passar a ser visita obrigatória, toda a Rua da Sofia e congéneres passa a fazer parte de um novo itinerário. Mas isto não é claro como a água? É preciso fazer um desenho?”