quinta-feira, 17 de julho de 2008

PORQUÊ?



Eu gostava de entender,
as tuas mudanças de humor,
só precisava de saber,
se o teu insulto é amor;
Quando gritas irritada,
sem uma aparente causa,
não sei se estás só mudada,
ou se é só uma pausa;
Já não sei se te conheço,
se és a mesma que eu amei,
às vezes penso e pareço,
dizer coisas que não sei;
Estás diferente isso sinto,
pode ser ocasional,
é um quadro que eu pinto,
num precipício mortal;
Dizes não ter os porquês,
porque amas ora odeias,
sou um livro que não lês,
sou um fogo que incendeias;
Parece que sou alguém
que noutra vida te fez mal,
não entendo muito bem,
essa irritação fatal;
Posso dar-te uma flor,
embrulhada em paixão,
desconfias deste amor,
que te toca o coração;
Se eu beijar a tua boca,
pensas que não sou sincero,
parece que ficas louca,
não entendes o que quero;
Já não sei o que fazer,
não consigo te agradar,
se eu pudesse ter poder,
preferia adivinhar.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A FÉ SALVADORA



No dia 14 do corrente o Jornal Público, publicava a primeira grande entrevista de Ingrid Betancourt, a colombiana, agora libertada e que foi presa na selva pelas FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, durante quase sete anos.
Retirei algumas passagens, dessa entrevista, que considero bastante interessantes, sobretudo sobre o ponto de vista antropológico.
“(…) Passei por coisas terríveis. Acho que o pior foi ter percebido que os seres humanos podem ser tão horríveis com outros seres humanos. Num ambiente de solidão espiritual, quando à minha volta não havia mais do que inimigos agressivos, aprendi a não reagir como reagia antes. Tive de aprender o silêncio e a baixar a cabeça. Só podia falar com a virgem. Bravo Maria. Descobri que podemos ser levados a odiar uma pessoa, a odiar com todas as forças do nosso ser e, ao mesmo tempo, a encontrar o alívio através do amor. Dizia: Por ti, Senhor, não vou dizer que o odeio. Por vezes um guerrilheiro vinha sentar-se junto de mim, cruel, abominável, e eu era capaz de lhe sorrir. (…) Nunca, nunca, nunca perdi a fé. Deus esteve comigo do primeiro ao último dia da minha horrível experiência. E continua comigo. Eu rezo todos os dias. Desde o momento em que fui libertada peço-lhe que nos conceda o milagre de libertar os outros reféns como fez connosco. Porque para mim foi um milagre”, extracto da entrevista de Ingrid Betancourt.
Depois de lermos estas palavras, sendo crentes ou não, temos de admitir que a fé, para além do ponto de vista de análise antropológica, tem realmente muita força anímica e espiritual. Francamente, depois destas palavras sinceras, deste abrir de coração, desta confissão extraordinária, poderá alguém argumentar contra a fé? Pouco importa se é um dogma –proposição apresentada como irrefutável- e os dogmas, na sua carapaça, petrificantes e herméticos, são limitadores da gnose, do conhecimento, e do livre questionar.
Mesmo havendo agnósticos –aqueles que professam o agnosticismo, sistema filosófico segundo a qual o espírito humano ainda se encontra impossibilitado de alcançar a origem da vida-, ou ateus –aqueles que, no seu cepticismo ou incredulidade, negam a existência de qualquer divindade, como por exemplo Deus-, qualquer um seguidor destes sistemas, de denegar a fé, perante uma confissão destas, fica desarmado.
Uma coisa teremos de admitir, as religiões e a fé a elas coadjuvadas, no âmbito da antropologia têm uma força inegável. Uma força imanente ao ser humano que, nas ocasiões de maior desespero, como é o caso, constitui a esperança de salvação.
Por mais que se discuta a religião, entre prós e contras, fechando-se num cepticismo, não se pode negar os seus efeitos como sendo um “milagre”, absolutamente necessária à humanidade e, pela sua força redentora, impossível de a dissociar da condição do homem.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

UMA SOCIEDADE JUDICIALISTA


(IMAGEM DA WEB)


Um recente estudo entre géneros em idade escolar veio mostrar que, quer o homem quer a mulher adolescentes, encaram a violência contra a integridade física como normal. Vão até ao paradoxo de aceitar também a violência física sexual como algo necessário, despenalizante, e dentro do contexto de envolvimento e excitação.
Ora, ainda que seja com base em amostras, tal estudo dever-nos-ia preocupar profundamente.
O Estado, desde há 30 anos a esta parte, deixou de apostar na educação para centralizar todo o espectro comportamental do indivíduo no direito. O direito passou a ser uma espécie de analgésico que, sem curar, indo ao âmago das coisas, temporariamente retira as dores.
Os sucessivos governos após-25 de Abril em vez de canalizarem a sua acção na educação a montante, a partir do nascimento –formando pais e professores, dando-lhes poder de decisão-, insistindo nas obrigações do indivíduo perante a sociedade, faz ao contrário, para além do contínuo esvaziamento de autoridade dos tutores, começa logo por lhe dar direitos exacerbados até à maioridade, e só a partir dos 16 anos o considera imputável e responsável pelos seus actos. Então, porque já é tarde, legisla em barda a jusante, tentando apanhar os cacos desta displicência tardia. E as consequências estão à vista de todos, com o aumento da violência dentro da família, escolar e urbana. Salvo melhor opinião, a violência na escola será resultado da apreensão consciente de uma certa impunidade social de que os alunos só têm direitos e nenhumas obrigações.
Neste sistema actual, em que não se investe nos pilares fundamentais da educação, o Estado, ao invés de, através do seu longo braço da lei, intervir o menos possível na esfera do indivíduo, desonerando-se e apelando a sãs relações de convivência ou contratuais, invade e trata o cidadão como coisa irresponsável. É um Estado paternalista, tentacular, que, obsessivamente preocupado com os princípios da protecção e da segurança jurídica, contrariamente ao pretendido, manieta e impede que a liberdade individual flua de uma forma natural e baseada no respeito intrínseco da pessoa. Tem como consequência o petrificar das posições e das relações bilaterais. Nada se contratualiza sem a intervenção do direito específico substantivo, quando pela lei geral adjectiva seria perfeitamente possível alcançar os mesmos fins. É uma sociedade monitorizada pela legislação, em que o cidadão se comporta como autómato sem reciprocidade natural.
É uma sociedade agrilhoada, em que aparentemente é livre, mas na prática vive numa teia que lhe cerceia os movimentos e faz dela uma marioneta comandada por fios invisíveis do “big brother” legislador.
Assim, ao ritmo desta produção legislativa, no futuro próximo, não haverá tribunais que cheguem para dirimir tanto conflito. O direito, na sociedade, deveria ser a linha condutora acessória, no conflituar, e jamais o essencial da convivência humana.
Para além disso, como nada se faz sem ser escrito, acaba por minar a confiança interpessoal na palavra e desenvolve o temor de se ser enganado. Faz pensar que o direito tudo resolve e, ansiosamente, deposita na justiça, como deusa omnipotente e justa, uma esperança de compensação de equilíbrio que se vem a concluir frustrante e que, no limite, é geradora de mais conflitos sociais até ao infinito.
Fará sentido o “Livro de Reclamações”? Faz! Quando temos uma comunidade desprovida de ética, onde a palavra dada nada vale, sem respeito pelo outro, e sem responsabilidade individual e acessória.
Uma sociedade que legisla a relação entre pais e filhos, dando a possibilidade a estes de se queixarem dos seus progenitores; uma lei que consigna como crime público a violência doméstica, nas relações familiares; uma presumível lei de proibição de piercings; uma lei do tabaco que, fazendo do cidadão um imberbe, lhe vem impor categoricamente regras de conduta no que lhe faz bem ou mal; diversas posturas municipais a penalizar comportamentos que deveriam ser imanentes e reflexivos, como por exemplo, abandonar os dejectos de animais na via pública, urinar, mandar lixo para o chão; uma sociedade que precisa de ver legislado a destruição de bens culturais, a separação de lixos, a poluição de rios e ribeiras, o fogo-posto, a proibição de fazer queimadas no inverno; uma lei gastronómica que invade os sabores de antanho, impondo regras unilaterais tecnocratas, alterando os costumes e o saber secular, é muito mais do que uma ditadura legislativa, é um fumo ardiloso que invade tudo o que é de mais íntimo.
Uma sociedade com tanta imposição penalizante será uma sociedade livre? Responda quem souber.
Até quando? Perguntará você leitor. Provavelmente até ao dia em que individualmente, cada um de nós, se preocupemos menos com os nossos direitos e cumpramos responsavelmente as nossas obrigações.

domingo, 13 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (25): UM SÉCULO DE VIDA



             

  Corria o mês de Setembro do ano de 1908 quando a aldeia de Barrô, entre a Mealhada e o Luso, foi acordada por um grito estridente de um recém-nascido. Perante um pai inquieto, de olhos com brilho de anseio e um rosto alagado em suores que lhe escorriam em bica pelo rosto abaixo, a parteira, com as mãos ensanguentadas, gritou para o progenitor do novo ser nascente: “é menina, é menina!”
 Acabava de vir ao mundo uma criança que nascera no mesmo ano, em que se dera o Regicídio, em Fevereiro, com a morte do Rei D. Carlos e o Príncipe Luís Filipe, constituindo este atentado o estertor de um sistema fragilizado e caduco pela ostentação de uma classe burguesa insensível e em desfavorecimento maioritário de um povo triste e sofredor. Cairia decrépito, dois anos depois, em 5 de Outubro de 1910 com a implantação da República.
  Esta nova mulher, concebida nos planos da morte do Rei e no fim da Monarquia, seria baptizada com o nome de Lucília Dias. Atravessou a 1ª Grande Guerra, de 1914 a 1918. Sofreu na pele, através da fome e da carência de bens elementares ao seu desenvolvimento, as primeiras turbulências do novo regime político republicano.
  No ano de 1929, com o mundo financeiro a abanar, através do “crash”, da queda, das bolsas mundiais e que daria origem à “grande depressão”, na igreja de Luso, com convicção firme, dava o “sim” a José Morais, “o homem mais pobre que havia na Vacariça”, uma aldeia muito próxima.
Em 1939, quando estala a 2ª Guerra Mundial, Lucília já tinha três filhos, duas raparigas e um rapaz. Uma delas morreu precocemente de uma doença rara e nunca diagnosticada.
 A senhora de quem falo foi sempre uma mulher de “armas”, feita pela sua vontade férrea e indomável cuja personalidade é formada em cenários duros de guerra. Não tinha vergonha de mergulhar as mãos na “massa”, como sói dizer-se. Colocava a mesma vontade no trabalho como qualquer um ao lazer. Tanto labutava no campo rijo e árido como em limpezas em várias casas. Mas havia um talento que viria a marcar muitos habitantes da freguesia de Luso: Lucília era uma excelente cozinheira.
Conversando comigo, lembra-se que cozinhou em muitas casas ricas até ao horizonte onde o sol se perde de vista. Fez muitas festas, muitos casamentos, e até chegou a ir, durante muitos anos, no verão, em colónias de férias do doutor Artur Navega, da Mealhada. O contrato era através de uma outra senhora de boa vontade –que um dia destes falarei-, também de Barrô, que levava as crianças mais pobres do concelho para a praia da Figueira da Foz. Esta mulher de bom coração, tantas vezes incompreendida, e que tanto bem fez aos mais carenciados, era, e é, a senhora Preciosa.
  Quando estalou a Revolução de Abril em Portugal, em 1974, Lucília estava, juntamente com a sua filha Natália, a empalhar garrafas e garrafões para várias grandes empresas vinícolas da região bairradina, como por exemplo as Caves Messias. Trabalhavam na sua oficina cerca de 24 pessoas. Hoje, num tempo que não tem tempo para memórias, só a sua Natália continua, como ícone, a mostrar uma arte em total desaparecimento.
 Se por um lado guarda saudades dessa época, por outro prefere os nossos dias. “isto hoje é uma maravilha, nem vocês sabem quanto!”, atira-me à “queima-roupa”, no meio de um sorriso escancarado de matreirice e com um brilhozinho nos olhos, intervalado com uma palavra obscena, tão apropriada e ditas com a mesma naturalidade com que se diz “bom-dia!”.
 Mas lembrando os tempos passados, endurecendo as linhas do rosto, referindo-se ao povo da aldeia, exclama: “é uma gente mesquinha. Bem podiam ser melhores do que são. Mas, paciência, é o que temos! Vê lá bem, continua a minha querida conterrânea Lucília, com a voz embargada pela dor, que há mais de 30 anos, quando eu mudei da religião Católica para os Evangélicos, praticamente toda aldeia deixou de me falar. Desprezaram-me completamente. Passavam por mim na rua e era como se eu fosse uma cadela. Lembro-me -já o meu querido “Zé” Morais tinha morrido, o meu homem, o meu querido homem!-, um dia, para matar a fome aos meus filhos, fui a casa de um grande lavrador para me vender meio alqueire de milho e sabes o que me respondeu a mulher do ricaço? Que fosse comprá-lo aos da minha religião. Somíticos de uma figa!” Exclama no meio de uma imprecação.
Continua a senhora Lucília, “mas olha, Deus não dorme –apontando com o dedo em riste para cima-, o tempo tudo cura. Acabaram todos por me vir pedir ajuda. Fui eu, sem vinganças ressabiadas, que lhes matei a fome. Acredita, dou-te a minha palavra”, profere esta frase, novamente, já no meio de um sorriso rasgado de orelha a orelha.
 Pois é! Como já viram estas palavras são de uma anciã muito querida que fez no último 19 de Novembro 102 anos. Se vissem a pele do seu rosto, parecia que tinha sete décadas. A sua lucidez era impressionante. Era impossível não gostar desta mulher simples.
Infelizmente a natureza, ou Deus para quem acreditar, levou-nos há dias a nossa humilde Lucília Dias. Onde quer que se encontre, acredito que esteja a sorrir. Teve um século de vida cheia de tudo. De coisas boas e más.
À família enlutada, nesta hora de perda, os nossos sentimentos profundos. Barrô para além de ver partir a pessoa mais idosa do lugar, perdeu uma grande mulher.


sábado, 12 de julho de 2008

HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA (24): O BÍGAMO

(Uma bonita casa de Barrô, muito bem recuperada)

Naturalmente, por volta dos fins da década de 1940, em consequência da 2ª Guerra, com o racionamento de víveres, Portugal vivia tempos de uma infinita miséria. Salazar, quer por força do seu princípio moral de que mais valia só que mal acompanhado, o “honrosamente só”, quer porque não entrara directamente no grande conflito bélico mundial, mantendo-se numa neutralidade duvidosa –se tivermos em conta a exportação de Volfrâmio para a Alemanha- não aceitara a ajuda no âmbito do Plano Marshal –este programa de recuperação Europeia, instituído pelos Estados Unidos da América (EUA) em 1947, consistia em ajudar a recuperar os países Europeus aliados, afectados pela grande guerra. Também conhecido pela doutrina Truman, presidente dos EUA, viria no entanto a tomar o nome do Secretário de Estado, George Marshal.
Então, se em todo o país a pobreza alastrava, é evidente que na minha aldeia, em Barrô, entre a Mealhada e o Luso, a situação não seria melhor. Embora houvesse uma meia dúzia de lavradores abastados, a maioria, trabalhando por conta de outrem, vivia no limiar da indigência. Era natural que muitos tivessem desejos de emigrar mas poucos teriam possibilidades financeiras e a coragem para partir rumo ao desconhecido, em busca de uma vida melhor.
Mas houve um homem que arriscou em deixar aquela terra de carências de tudo. Embora não estivesse no escalão dos mais pobretãos, estava apenas um pouco acima, tinha uma casa razoável, mas não deixava de fazer parte do mesmo clube de esfarrapados. Certamente, ou porque estava farto de tanta miséria, ou porque terá pensado que os seus descendentes mereceriam um amanhã mais sorridente e mais igual aos mais ricos da terra, decidiu partir. Não se sabe se o fez por aventureirismo, se por necessidade de um futuro a que julgava ter direito. jamais saberemos o que iria naquela cabeça com chapéu.
Chamava-se Manuel Rodrigues Vieira. A 19 de Março de 1950, depois de hipotecar a casa e ter contraído um empréstimo a um onzeiro (espécie de agiota que emprestava dinheiro a juros de 11%) de Vila Nova de Monsarros, juntou uns trapos numa pequena mala de cartão e planeou ir para África. Naquele dia solarengo, 19 de Março, hoje dia do pai, naquela casa junto à capela da aldeia, os gritos eram cortantes. Quem passava não ficava imune aos choros lancinantes da Arminda, mulher do Vieira, de quase trinta anos, entrecortados pela fome, misturada com lágrimas, dos seus cinco filhos, a maioria todos crianças. O mais novo tinha 3 anos: “paizinho, não nos deixes! Não nos abandones pai!”
Mas, se cada um de nós tem um destino marcado, acredite-se ou não, o Manuel Vieira achava que tinha de cumprir o seu e partiu para terras africanas de Angola.
A Arminda, com toda esta prole, ficou numa situação desesperada. Do seu marido nunca mais ouvira falar. Quase todos dias, olhando para o carteiro da aldeia, o Daniel, Arminda pensava para com os seus botões: “é hoje que vou receber uma carta!”. Mas essa missiva nunca chegou. Entretanto a sua filha mais velha, a Augusta, começou a namorar e casou com um rapaz que se viria a revelar o salvador daquela casa que era o refúgio de tanta gente. Um grande trabalhador e pessoa muito respeitada, ainda hoje, o José Maria, o Barbeiro, que em apontamento anterior já falei dele. Como o onzeiro, o agiota, ameaçava arrestar a casa por falta de pagamento, o meu amigo “Zé”, como é conhecido pelos amigos, pediu um empréstimo em seu nome, foi a Vila Nova de Monsarros e liquidou a hipoteca e juros num total de 526 contos. Com muita luta braçal, na labuta da agricultura, e nos tempos mortos a escanhoar barbas e a cortar cabelos, a vida foi-se encarregando de recompensar o “Zé” Maria Barbeiro e, aos poucos, a paz de espírito e o desafogo financeiro regressaram aquela casa da Arminda.
Num dia de Março, de 1976, a notícia correu célere em Barrô: “O Vieira, o Angolano, regressara a casa”. Mas, se este facto já por si só era notícia, calcule-se o que não diriam as “cuscas” do lugarejo ao saberem que ele trouxera uma mulher “cabrita” e apresentara-se à Arminda para que ela desse guarida aos dois. “Um escândalo, vejam bem ao que chegámos!”, vociferavam indignadas as mulheres do soalheiro, assim conhecidas na aldeia, por cortarem na casaca de qualquer um.
Como se deve calcular o Vieira viera com o mesmo com que partira, se exceptuarmos a mulher que vinha com ele, ou seja, uma maleta com meia dúzia de trapos. Como não estava divorciado da Arminda, ainda que moralmente ali não tivesse nada, nem sequer uma boa lembrança, legalmente a casa também lhe pertencia. E aí é que estava o problema. Como fazer a coabitação no meio deste ódio, adultério e bigamia? Mas lá se resolveu. O Vieira e a sua "segunda" ficaram a morar noutra casa, a dois passos daquela. Não se sabe muito bem como foram suportáveis os dois anos em que todos viveram na casa, inclusive a Isaura, a “cabrita” extra-matrimónio, mas a verdade é que até ao divórcio ser deliberado pelo tribunal foi assim.
Mesmo perante o meritíssimo, como o Vieira não tinha onde cair morto, o “Zé” Maria prometeu alimentá-lo até à morte. Este meu amigo barbeiro, com tristeza, ainda recorda o sogro, mesmo depois de tanto ser ajudado, a dizer ao juiz: “o meu maior prazer era não deixar cinco tostões a ninguém!”
Como quem não dá não recebe, o Vieira, depois do divórcio, partiu com a sua amante Isaura para Viseu e lá veio a morrer na mais completa indigência.

RIR POR RIR, FAZENDO QUE RI, SEM SORRIR



Estes dois personagens sobejamente conhecidos da nossa praça, José Simão, proprietário e director do Jornal “A Folha de Santa Clara” e presidente da junta de freguesia da outra banda de lá do rio Mondego–a propósito será eticamente correcto que um director de um jornal seja autarca? A mim parece-me incorrecto. Um poder, o chamado quarto, por si só, já é imenso, quanto mais juntá-lo a outro de gerir uma freguesia ou um concelho. Que deve dar jeito, não tenho dúvidas. É assim uma espécie de junção de médico e doente ao mesmo tempo- e Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, foram apanhados neste “boneco” pelo fotografo do Jornal As Beiras, aquando da inauguração da Feira Popular.
Quais serão os motivos para estarem tão sorridentes? Seria apenas um sorriso de circunstância para o “boneco"?
Quanto ao segundo, Carlos Encarnação, até poderemos adivinhar a razão daquele sorriso, entre a matreirice e o contentamento. Afinal foi recebido nas “palminhas” e sendo o convidado de honra do presidente da freguesia de Santa Clara, que ainda há pouco tempo dizia cobras e lagartos desta coligação. Além disso, depois de apresentada a sua recandidatura, tudo corre sobre rodas. Na câmara, a oposição, preocupada em curar as suas chagas, nem se nota que existe. Bem brada João Silva aos cinco Continentes, ex-edil do PS, disparando contra tudo o que mexe, em todos os jornais da cidade contra os seus próprios correligionários, mas, está bem abelha!, ninguém lhe liga.
Ao que tudo parece indicar o seu opositor, na disputa da cadeira autárquica, vai ser mesmo Henrique Fernandes, actual Governador Civil e vice-presidente da autarquia no tempo de Manuel Machado (anteriormente a 2002). Por parte da CDU, certamente será o seu amigo Gouveia Monteiro. Só falta saber quem vai ser o preferido dos bloquistas.
Quanto ao sorriso de José Simão, aí é que está!, de que rirá ele? Não deveria ter feito uma “cara de pau”? Quanto a mim, teria motivos mais que suficientes. Quem é que entende que a Feira Popular se realize após o término da CIC, feira Comercial e Industrial de Coimbra? Fará algum sentido? Para além de engrandecer o certame comercial e industrial, que por motivos vários é sempre uma amostra do que é Coimbra, melhor dizendo, é sempre muito fraco, juntava os dois públicos. E não vale a pena apontar unicamente setas à ACIC, Associação Comercial de Coimbra, que a responsabilidade do fracasso daquele certame deverá ser repartido por vários: conimbricenses em geral, comerciantes e industriais e à própria autarquia que nunca olhou para este certame como espectáculo da cidade. E continua. Como prémio da sã convivência bipartida e partidária, a câmara Coimbrã, ao ceder um terreno junto à rotunda das Lages, para que a ACIC construa um pequeno pavilhão, que para além de não servir para albergar toda a feira, muito menos servirá para realizar grandes espectáculos e todos os eventos temáticos que são feitas na cidade e debaixo de uma grande tenda alugada que, segundo informações correntes, custam aos cofres da autarquia mais de 15.000 Euros por cada evento. Mais uma vez, sem planeamento financeiro futuro, neste pequeno desenrasca, vai ser mandado dinheiro às urtigas.
Enfim! Eles, José Simão e Carlos Encarnação, lá saberão as linhas com que se cozem. Em política partidária a submissão, envolvida num largo sorriso de bonomia, sem reivindicação efectiva, numa espécie de sanduíche, traz sempre resultados futuros para os sorridentes.
Já agora, a talhe de foice, porque será que o povo ri tão pouco? Será porque é demasiado sério? Ou será porque o sorriso, seguindo as linhas económicas, se tornou num bem escasso e só se dá a quem o merece? Ou então o povo, na sua extensa sabedoria, certamente intuiu que, na obsessiva fúria taxativa do governo, o melhor é rir pouco, caso contrário, também apanha pela medida grande e já pouco falta para pagar imposto?
Se por acaso um dia destes uns fulanos bem engravatados lhe perguntarem sobre a sua vida sexual, referindo que é para estudos de mercado, não acredite. Responda que, apesar de, mentalmente, lhe fazer uma falta danada, fisicamente, há mais de um ano que não tem nada com a sua Maria. Homem prevenido, pretensamente assexuado, vale por muitos portugueses.

PROVEDOR DE JUSTIÇA PEDE...JUSTIÇA



"A verdade é que, tendo-me deparado com quatro Governos - Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates - este último ganha aos pontos na "lenga-lenga". É preciso paciência...". É assim que Nascimento Rodrigues faz o balanço dos seus oito anos de mandato como Provedor de Justiça, que terminou na passada terça-feira.
O Provedor - que já por diversas vezes fez saber que está interessado em sair - ainda não tem substituto à vista. O Parlamento fecha na próxima sexta-feira para férias e não é certo que os deputados venham a discutir o assunto antes de deixarem São Bento.
Segundo o Expresso apurou, PS e PSD não chegaram a acordo sobre qual dos partidos tem primazia para indicar o nome do próximo Provedor. Assim, é bem provável que Nascimento Rodrigues venha a prolongar o seu mandato, pelo menos até meados de Setembro."
(in Semanário Expresso,de 12 de Julho de 2008)