segunda-feira, 23 de outubro de 2017

EMPRESÁRIO MORREU SUBITAMENTE NA RUA PAÇO DO CONDE





Cerca das 10h00 de ontem, na Rua Paço do Conde, no meio de uma altercação, faleceu subitamente o proprietário do restaurante Retiro do Conde. Manuel Gonçalves, de cerca de 60 anos, natural da zona de Cantanhede, explorava a conhecida casa de comidas há cerca de meia-dúzia de anos. Embora contido, era um empresário muito respeitador e respeitado por todos em redor, nestas ruas estreitas. Pelo que julgo saber, teria estado emigrado na Venezuela à volta de 30 anos.
Por detrás deste desfecho trágico, ao que parece, a originar toda uma quezília está a abertura de um novo estabelecimento em frente ao Retiro do Conde.
Em meu nome pessoal, em nome da Baixa comercial de Coimbra, se posso escrever assim, nesta hora de profundo sofrimento, os nossos mais sentidos pêsames à família enlutada.

MAS, AFINAL O QUE ACONTECEU?

As versões são mais que muitas a circularem nestes becos e ruelas. Como não consegui encontrar uma única testemunha de facto, que merecesse crédito, fui falar com um dos intervenientes desta história que acabou mal para uma das partes. Sem tomar partido, mesmo correndo o risco de estar a ser injusto, uma vez que só é ouvida uma das partes, mesmo assim, ouso plasmar o que ouvi. Vou dar voz a José Neto, dono do café snack-bar Neto, há uma semana em funcionamento no Centro Histórico:

Sou natural de São Miguel, Açores, e estive emigrado nos Estados Unidos. Gosto muito de Coimbra e foi por isso mesmo que decidi estabelecer-me, aqui, com um pequeno estabelecimento de hotelaria.
Abri precisamente há uma semana. Sem saber a razão, logo no início senti uma certa animosidade por parte do meu colega de profissão. Logo no primeiro dia, mais precisamente na segunda-feira passada, estava um cliente meu encostado à sua parede e debaixo do seu toldo. Sem nada o fazer prever, o meu vizinho veio cá fora e, como se estivesse a abrir o pano de proteção, deixou cair o ferro em cima da cabeça do meu cliente. A seguir, numa aparente explosão de raiva, pegou no ferro e sovou o rapaz na zona da barriga. Embora achasse injusto, vi aquilo, não gostei, mas, para não gerar ali um conflito logo no meu primeiro dia, não disse nada. Eu só quero viver em paz. Tenho o meu negócio, só peço que me deixem trabalhar. Fiz de conta que não se tinha passado nada. Dava os bons dias ao casal, mas só a senhora me respondia. Eu nunca troquei uma palavra com ele.
Ontem, Domingo, seriam 9h30, vi dois agentes da PSP transporem a porta do restaurante Retiro do Conde. Passada cerca de meia-hora, saíram de lá e entraram na porta em frente, ou seja, no meu café. Eu estava dentro do balcão e tinha um cliente, a beber, encostado ao balcão. Os dois agentes entraram e dirigiram-se-me a perguntar se eu sabia de alguém que tivesse ameaçado o meu vizinho. Eu disse que não sabia de nada. Foi então que o rapaz disse: “fui eu!”. Os polícias identificaram-no, fizeram as perguntas que acharam por bem, e saíram. Logo que viraram costas, o homem veio cá fora e, à porta do restaurante Retiro do Conde, teria dito palavras pouco corteses para o meu confinante. Como estava cá na minha vida não tomei atenção ao que foi dito. Só sei que, de repente, vi a senhora do restaurante com duas facas, uma em cada mão, pronta para fazer justiça. Da sua casa veio um seu cliente que a agarrou. Veio o seu marido e dizia: “corta-lhe o pescoço que digo que fui eu!”
Os dois agentes da PSP, que já estavam ligeiramente afastados mas que teriam ouvido a algazarra, voltaram para trás e tentaram moderar o conflito. Foi então que subitamente o meu concorrente caiu para trás e se ficou. Veio a ambulância, foi feita reanimação no local mas, infelizmente, nada se pode fazer. Acredite, estou consternado com isto. Palavra de honra! Eu vim apenas para trabalhar, não vim para causar mal a quem quer que fosse. A morte fez das suas, esta é mesmo a verdade. Os meus sinceros sentimentos à família. Gostava que soubessem que estou condoído com tudo o que aconteceu.”

SINAIS...

Sem pretender ser juiz e aberto a outro exame de interpretação, como disse em cima as versões são mais que muitas e ao sabor de cada freguês, tudo indica que estamos perante um caso de concorrência mal aceite que descamba em desgraça.
Já há muito tempo que escrevo sobre um oculto e silencioso ambiente de miséria humana que paulatinamente vai corroendo as almas dos que estão cá estabelecidos e dos que vêm de novo: o medo do futuro. A ansiedade e a depressão, manifestadas numa preocupação constante e implantada, geram uma tensão e são suportadas por ansiolíticos e outros meios mais fáceis e à mão de semear. Os que por cá lutam há muito tempo, diariamente, tentando resistir, vêem-se em palpos de aranha para aguentar este continuado e depauperado ciclo económico. Por outro lado, sem que ninguém lhes possa levar a mal, os que vêm de novo, num direito legítimo que lhes assiste, tentam fazer a sua vida. Uns e outros têm razão: se, por um lado, a oferta é desmesurada, por outro, a procura não chega para todos. Esta é a causa da inquietação que reina pela zona.
Soluções? Não há! A não ser esperar que a economia real melhor, mas de facto. Não a economia que o Governo tanto apregoa, de um enorme crescimento, mas que não se sente no comércio e outras actividades, como a indústria hoteleira.
Sem pretender dar conselhos, devemos praticar um respeito intrínseco por todos quantos lutam para terem uma vida melhor. Por outro lado, não esquecer que só temos mesmo uma vida e, para todos, a cada minuto que passa, cada vez mais curta. Não vale a pena guerrearmos por detalhes. A todo o momento poderemos fazer parte do pó.
Vale a pena pensar nisto?

POST SCRIPTUM

O corpo de Manuel Gonçalves encontra-se em Câmara Ardente na capela de São Mateus, em Cantanhede, a partir das 14h00 de hoje, terça-feira, 24 de Outubro. Pelas 16h30 realizar-se-ão as cerimónias fúnebres, seguindo depois para o Crematório de Taveiro onde, pelas 18h00, se fará a cremação.

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