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sábado, 3 de junho de 2017

METRO: UMA NOVA QUESTÃO COIMBRÃ? (2)





Como se sabe, “a Questão Coimbrã (também conhecida como Questão do Bom Senso e Bom Gosto) foi uma polémica literária ocorrida em meados do século XIX em Portugal. Contrapunha os defensores do status quo, do situacionismo, desactualizados em relação à cultura europeia, e um grupo de jovens escritores estudantes em Coimbra, que tinham assimilado as ideias novas.” -retirado da Wikipédia.
Com a reposição do metro ligeiro de superfície temos aí uma nova Questão Coimbrã? Tudo indica que sim. A polémica assenta, de um lado, pelos conservadores do sistema, os defensores do transporte sobre carril, que argumentam que quando foi retirada a linha centenária foi com a promessa de substituição pela mesma estrutura. Dizem ainda que o comboio, enquanto meio de ligação entre as populações, é mais eficiente e mais sustentável no longo prazo. No outro lado, com o Governo à cabeça, estão outros que, em face de vários constrangimentos, financeiros e económicos, pugnam por um sistema mais moderno e adaptável às variáveis demográficas do suburbano e urbano, nomeadamente “diminuir a incerteza nos valores da procura estimada; menor investimento inicial; custos de manutenção e operação mais baixos dos que já conhecidos”.
Ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra, em representação da cidade esteve Manuel Machado. Vindo de Lisboa expressamente para o efeito, esteve o governante Pedro Marques, Ministro do Planeamento e Infraestruturas a anunciar o (novo) projecto que substitui a infraestrutura pesada do carril por pequenos autocarros eléctricos a rodar sobre pneus, denominado de Metrobus.
Como oradores, estiveram Ana Abrunhosa, presidente da CCDRC, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, e Carlos Pina, o presidente do LNEC, Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Tendo em conta os seus lugares institucionais, político e administrativo, para melhor se entender, resumidamente, vamos deixar um cheirinho do que cada um destes representantes disse:
Manuel Machado, político de longa carreira, aspirante ao segundo mandato à frente da edilidade e recandidato pelo Partido Socialista (PS), sem se comprometer em excesso pela palavra do ministro -pressentiu-se ontem na apresentação que não aposta a sua cabeça-, sabe que a realização desta obra é fundamental para o desenvolvimento da zona suburbana da cidade, da Baixa e de Coimbra. Sabe também que se esta promessa for concretizada ficará na história da urbe estudantil. Pelo contrário, se for mais um prometimento vazio, uma nuvem de esperança vâ do seu partido, que já vem de longe desde Guterres até Sócrates -este foi o coveiro da linha-, inevitavelmente, enquanto autarca, ficará associado a mais um desaire e como aproveitador barato para ganhar eleições.
Pedro Marques, político com larga experiência ao serviço do PS, ministro deste Governo, contido nas palavras mas convincente na argumentação, demonstrando um raro pragmatismo, ontem, comprometeu-se pessoalmente pela concretização da obra perante uma vasta assembleia de autarcas e cidadãos comuns. Foi ao ponto de dizer que já foi adjudicado o trabalho topográfico (com varrimento por laser) e que já está no terreno. Se não cumprir, pelo histórico de mentiras no distrito de Coimbra, compromete ainda mais a já muito debilitada credibilidade política/partidária e sobretudo o futuro do PS na zona centro. Resultado de tantos embustes sempre em tempo de eleições, quer do PS quer do PSD/CDS, é por isto mesmo que a solução agora mostrada gera desconfiança e demasiado cepticismo no cidadão comum. Era bom que Pedro Marques tivesse noção de que, com este compromisso pessoal, está a jogar no pano verde a sorte de toda a classe política.
Ana Abrunhosa, líder da CCDRC, para quem foi ontem ao salão da Câmara Municipal de Coimbra sem aprorismos, sem pré-conceitos, sem ideias pré-feitas, de espírito aberto para aceitar, se fosse caso disso, o que se ia ali apresentar vindo de uma entidade que, embora de nomeação política, é administrativa e de função pública, conseguiu sem esforço de maior passar a mensagem. Ficou claro que o anterior projecto, denominado de fase I, assente sobre carris não é financiado pela Comunidade Europeia. E esta posição de Bruxelas é determinante na decisão obrigatória de mudar de comboio para autocarro eléctrico. Abrunhosa foi sucinta e metódica ao declarar que, se por um lado, não há outra hipótese para obter financiamento, por outro, as entidades envolvidas no estudo deste novo plano são competentes, independentes e isentas.
Carlos Pina, presidente do LNEC, delegando o trabalho de apresentação para os seus colaboradores, deixou claro que a entidade que dirige é idónea, autónoma e está ao serviço de Portugal. A mostra feita através de painéis pelos seus adjuntos deixou bem patente que são meros técnicos e não políticos a vender um produto.

CIDADANIA E BAIRRISMO PRECISAM-SE

Não é preciso ser “expert” na matéria para adivinhar que quanto maiores divisões houver em torno desta proposta, maior será a probabilidade da obra não se realizar. E mais, quanto maiores cisões forem criadas, maior é a possibilidade deste Governo se esquivar à promessa feita e argumentar que não fez o prometido por não haver acordo nem condições.
Salvando-se Gouveia Monteiro, candidato do movimento Cidadãos por Coimbra, que soube antecipar e evitar o tiro no pé, é uma pena -para não dizer uma desgraça- que os candidatos à autarquia, em vez de, nesta questão, mostrarem alteridade, galhardia de estadistas, e pugnarem pelo interesse maior das populações envolvidas, sobretudo Miranda e Lousã, numa manipulação indecorosa, continuem a vasculhar no lixo social algum crédito que ainda possam recolher, nem que seja para manter a sua estúpida teimosia. Era bom que explicassem ao povo onde vão buscar os cerca de 300 milhões de euros para reporem a ferrovia. Para além disso, este novo delineamento veio fazer ressuscitar o traçado do metro dentro do perímetro urbano da cidade, uma ideia que parecia já morta e enterrada.


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"Editorial: Metro-autocarro ligeiro vai agora?"
"Os interesseiros do metro"

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

EDITORIAL: OS INTERESSEIROS DO METRO




Neste último Domingo, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, foi recebido na Rua Pedro Monteiro, em Coimbra, com mais uma manifestação de cerca de três centenas de pessoas oriundas dos concelhos de Lousã, Miranda do Corvo, Poiares e Góis para defenderem a concretização do prometido projecto do Metro Ligeiro de Superfície. Segundo o Diário de Coimbra, Passos Coelho, no Instituto Português da Juventude, disse o seguinte: “Acho incrível como o Estado conseguiu gastar uma pipa de dinheiro a desmantelar a linha que funcionava, vendeu os materiais todos e deixou lá um buraco. (…) Assumi um compromisso com a linha da Lousã e gostava de cumprir. Sobre o Metro não assumi nenhum compromisso.”
Antes de prosseguir, para melhor se entender, vamos recuar no tempo. A empresa Metro Mondego foi constituída em 1996 com a seguinte representatividade: Estado Português 53%, município de Coimbra 14%, município da Lousã 14%, Miranda do Corvo 14%, REFER 2,5% e CP 2,5%. Nesta altura era Manuel Machado presidente da edilidade coimbrã. Com um nomeado presidente da Metro Mondego a auferir um salário mensal de cerca de 800 contos, hoje 4000 euros, este plano manteve-se quase no anonimato até 2002 e ganhou velocidade quando Carlos da Encarnação ganhou a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) a Manuel Machado e se estreou a negociação e expropriação de parcelas para a futura avenida central. Em 2005, com grande encenação política por parte de Encarnação que –tal como Fernando Carvalho, na Lousã, e Fátima Ramos, em Miranda- visava a reeleição, deu-se início à desconstrução do casario no Bota-abaixo –mesmo sem estar concluída a demolição já foram gastos 14,5 milhões de euros, noticiava o Diário as Beiras e acrescentava: “em 29 de dezembro de 2006, existiam 36 atividades comerciais ou serviços e 33 habitações neste corredor parcialmente desmantelado.”
Sob a égide do Governo de Sócrates e com a promessa de substituição por um comboio mais moderno, em Dezembro de 2009 começou o levantamento dos carris na linha da Lousã. Segundo o jornal Público de 19 de Janeiro de 2010, o Secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, afirmou que a construção da 2ª fase do projecto Metro Mondego (MM), que ligava a Baixa aos Hospitais da Universidade dependia do estudo custo-benefício para demonstrar a sua viabilidade.
Em finais do ano de 2010, Jaime Ramos, irmão de Fátima Ramos, nesta altura presidente da edilidade mirandense, cria o Movimento Cívico de Lousão e Miranda. Nos primeiros meses de 2011, algumas centenas de pessoas seguiram este líder em várias manifestações locais e em Lisboa contra o Governo de Sócrates –hoje em 2014, apesar de ter mudado o governo, continuam as manifestações.
Em Janeiro daquele ano de 2011 realizou-se as eleições para a presidência da República, vindo a sair vencedor o até aí presidente Cavaco Silva. Antes do sufrágio, em reunião do Movimento Cívico Lousã Miranda ficou acordado que, em solidariedade para com todos os prejudicados pela falta do comboio e num acto de indignação e protesto, não se votaria nas eleições presidenciais. Fátima Ramos, fazendo constar que estava solidária com todos mas rompendo o acordado, votou.
Com as eleições legislativas à porta, em 5 de Junho deste ano de 2011, em campanha eleitoral o PSD prometeu fazer a reposição da linha. Já depois de nomeado ministro da economia, Álvaro Santos Pereira vinculou o Governo de Coligação PSD/CDS.
Em Outubro de 2010, pelo governo socialista, foi anunciada a pretensão de extinguir a Sociedade Metro Mondego.
Em Dezembro de 2010, Carlos Encarnação resigna e cede o seu lugar de presidente da CMC a Barbosa de Melo.
Em 21 de janeiro de 2011, com o PSD na oposição, foi votada na Assembleia da República uma petição pública para a concretização do Metro Mondego, iniciativa do cidadão Bruno Ferreira e apadrinhada pelo Diário de Coimbra.
Em 29 de Outubro de 2011 –retirado das redes sociais-, aqui“o então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, afirmou que o projecto do Metro Mondego iria terminar por ser “perfeitamente inexequível”; calculava que o Metro, como estava planeado, teria um prejuízo anual de 38 milhões de euros, e devia ter um número de passageiros 15 vezes maior para ser sustentável.”
Em 16 de Janeiro de 2012, Carlos Encarnação, presidente da CMC durante quase uma década, e João Rebelo, seu vice-presidente durante cerca de 5 anos, lançam o livro “Como não decidir uma obra pública – Um metro da Razão ao Erro”.
Em Maio de 2012, por este Governo PSD, Carlos Encarnação é nomeado para presidir à Comissão para Reprogramar Obras do Metro.
Em Julho de 2012, depois de já ser administrador executivo, João Rebelo é nomeado presidente executivo da MM. Neste mesmo ano passa nas redes sociais que 7 administradores gerem 5 funcionários na empresa Metro.
Em Novembro de 2012, “Carlos Ferreira, chefe de gabinete e marido de Fátima Ramos, voltou a integrar a gestão da MM, alguns meses depois de ter renunciado ao cargo de administrador não executivo, demarcando-se da suspensão das obras na ferrovia, iniciadas em 2009.” –retirado da revista Visão.
Em Janeiro de 2014 Manuel Machado, presidente da CMC, propõe integrar a MM nos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos (SMTUC). Um dia depois deste anúncio público, Jaime Ramos, líder e defensor da reposição do Ramal, apoia a proposta de Machado.

GOSTO TANTO DE TI, METRO

Segundo o Diário de Notícias, o Relatório e Contas de 2009 da MM “mostra que os encargos totais com recursos humanos foram de 733 mil euros nesse ano. Num quadro de pessoal que, de acordo com o Diário de Notícias, é de 19 funcionários, isto dá uma média mensal de 2.756 euros por pessoas a que acrescem os subsídios de férias e de Natal.
Todavia, uns ganham mais que outros. Maia Seco aufere uma remuneração ilíquida de 58.865 euros por ano, a que se juntam 17.665 euros para despesas de representação e três mil euros de telemóvel e subsídio de alimentação.
Salienta-se ainda outros recortes na imprensa, Jipe BMW para o presidente do Conselho de Administração, o demissionário Álvaro Maia Seco, e dois outros BMW (série 5) para os vogais executivos Carlos Picado e João Rebelo, são uma parte dos custos que a Sociedade Metro Mondego (MM) está a suportar em “regalias e compensações” atribuídas aos seus dirigentes.
Só estas três viaturas custam cerca de 40 mil euros por ano ao erário público em prestações pagas à instituição financeira, combustíveis, seguro e reparações”.
Mais ainda, “Os dois vogais executivos, Carlos Picado e João Rebelo, recebem cada um 51.188 euros e mais 13.663 euros de despesas de representação por ano.
Acrescem custos com segurança social e seguros de vida que, para os sete membros do conselho de administração, incluindo não executivos, é de 30 mil euros anuais.”
Segundo o anunciado nas redes sociais, no Relatório do Tribunal de Contas, “os custos passaram de uma estimativa de 122 milhões de euros, feita em 1997, para 512 milhões em 2011. Chamava ainda a atenção para o despesismo da administração da MM que –todos eles desempenhavam funções remuneradas noutras instituições ou empresas- segundo o relatório, entre 1997 e 2010, despendeu 95% do orçamento com os seus 12 funcionários, cerca de 3,4 milhões de euros.”
Fala-se hoje que a factura Metro Mondego já vai em 150 milhões.

CONCLUSÕES

É fácil concluir que esta ideia de ter um metro ligeiro na cidade partiu de um novo-riquismo que atravessou toda a última década do passado século e que teve o seu paradigma em Mirandela com o seu metro ligeiro nascido em 1995 e criado para fazer um percurso de quatro quilómetros. Hoje, segundo a imprensa, o seu custo é insustentável.
Em Coimbra, até hoje, e sabendo todos os envolvidos que a linha da Lousã dava um prejuízo mensal de 25 mil euros, ainda ninguém demonstrou a viabilidade económica, entre custos e proveitos, da implantação do “tran-tran” entre Serpins e a Estação Velha e a Baixa e o Hospital.

PARA QUE SERVIU?

Conforme se extrai do que é aqui enumerado, salvo melhor opinião e certamente com algumas excepções, este intento serviu para o PS e o PSD colocarem os seus correlegionários em lugares bem remunerados;
Serviu para os presidentes das Câmaras Municipais de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã, respectivamente, Carlos Encarnação, Fátima Ramos e Fernando Carvalho ganharem as consecutivas eleições ao longo da primeira década deste novo milénio;
Serviu para esventrar a Baixa, no seu miolo histórico, e destruir habitações antigas, expulsando para a periferia, quem aqui nasceu e encerrando pequenos negócios industriais e comerciais, e inscrever Coimbra no dicionário da demagogia.

PARA QUE SERVE AGORA?

Num “déjà vu” nosso conhecido, visto e revisto, vai continuar a ser a muleta das três autarquias, Miranda, Lousã e Coimbra, para os seus presidentes, pendurados no comboio, se afirmarem junto dos seus eleitores. Os dois primeiros, Miranda e Lousã, como sabem que só atrelados ao famigerado Metro Ligeiro de Superfície da cidade conseguem inscrever este projecto no próximo QCA, Quadro Comunitário de Apoio, mesmo sabendo que estão a hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos e num egoísmo sem igual, continuam a bater-se pela vida de um projecto-defunto que está morto e enterrado;
Se não se parar o plano de Manuel Machado, na intenção de agregar o metro aos SMTUC, é previsível a destruição futura desta empresa municipal.

O QUE DEVERIA SER FEITO?

Tal como afirmou Passos Coelho, havendo possibilidades financeiras, apenas a linha da Lousã deve ser reposta. Sobretudo, pela dívida moral que o Estado deve às gentes além-Ceira;
Se vivêssemos num Estado de direito, onde a responsabilidade civil estivesse acima da política, todos os implicados directamente neste esbanjamento público e que deles beneficiaram, todos, deveriam ser julgados por gestão danosa da coisa pública.








terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

LEIA O DESPERTAR...


LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Esta semana deixo o textos "REFLEXÃO: OS INTERESSEIROS DO METRO (2)" e "ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O FABULOSO CIDADÃO (1)".


REFLEXÃO: OS INTERESSEIROS DO METRO (1)

Neste último Domingo, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, foi recebido na Rua Pedro Monteiro, em Coimbra, com mais uma manifestação de cerca de três centenas de pessoas oriundas dos concelhos de Lousã, Miranda do Corvo, Poiares e Góis para defenderem a concretização do prometido projeto do Metro Ligeiro de Superfície. Segundo o Diário de Coimbra, Passos Coelho, no Instituto Português da Juventude, disse o seguinte: “Acho incrível como o Estado conseguiu gastar uma pipa de dinheiro a desmantelar a linha que funcionava, vendeu os materiais todos e deixou lá um buraco. (…) Assumi um compromisso com a linha da Lousã e gostava de cumprir. Sobre o Metro não assumi nenhum compromisso.”
Antes de prosseguir, para melhor se entender, vamos recuar no tempo. A empresa Metro Mondego foi constituída em 1996 com a seguinte representatividade: Estado Português 53%, município de Coimbra 14%, município da Lousã 14%, Miranda do Corvo 14%, REFER 2,5% e CP 2,5%. Nesta altura era Manuel Machado presidente da edilidade coimbrã. Com um nomeado presidente da Metro Mondego a auferir um salário mensal de cerca de 800 contos, hoje 4000 euros, este plano manteve-se quase no anonimato até 2002 e ganhou velocidade quando Carlos da Encarnação ganhou a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) a Manuel Machado e se estreou a negociação e expropriação de parcelas para a futura avenida central. Em 2005, com grande encenação política por parte de Encarnação que –tal como Fernando Carvalho, na Lousã, e Fátima Ramos, em Miranda- visava a reeleição, deu-se início à desconstrução do casario no Bota-abaixo –mesmo sem estar concluída a demolição já foram gastos 14,5 milhões de euros, noticiava o Diário as Beiras e acrescentava: “em 29 de dezembro de 2006, existiam 36 atividades comerciais ou serviços e 33 habitações neste corredor parcialmente desmantelado.”
Sob a égide do Governo de Sócrates e com a promessa de substituição por um comboio mais moderno, em Dezembro de 2009 começou o levantamento dos carris na linha da Lousã. Segundo o jornal Público de 19 de Janeiro de 2010, o Secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, afirmou que a construção da 2ª fase do projeto Metro Mondego (MM), que ligava a Baixa aos Hospitais da Universidade dependia do estudo custo-benefício para demonstrar a sua viabilidade.
Em finais do ano de 2010, Jaime Ramos, irmão de Fátima Ramos, nesta altura presidente da edilidade mirandense, cria o Movimento Cívico de Lousã e Miranda. Nos primeiros meses de 2011, algumas centenas de pessoas seguiram este líder em várias manifestações locais e em Lisboa contra o Governo de Sócrates –hoje em 2014, apesar de ter mudado o governo, continuam as manifestações.
Em Janeiro daquele ano de 2011 realizou-se as eleições para a presidência da República, vindo a sair vencedor o até aí presidente Cavaco Silva. Antes do sufrágio, em reunião do Movimento Cívico Lousã Miranda ficou acordado que, em solidariedade para com todos os prejudicados pela falta do comboio e num ato de indignação e protesto, não se votaria nas eleições presidenciais. Fátima Ramos, fazendo constar que estava solidária com todos mas rompendo o acordado, votou.
Com as eleições legislativas à porta, em 5 de Junho deste ano de 2011, em campanha eleitoral o PSD prometeu fazer a reposição da linha. Já depois de nomeado ministro da economia, Álvaro Santos Pereira vinculou o Governo de Coligação PSD/CDS. (Continua na próxima edição)


ROSTOS NOSSOS DESCONHECIDOS: O FABULOSO CIDADÃO (1)

Foi há cerca de oito anos quando mais repetidamente nos passámos a cruzar nestas ruas estreitas da Baixa. Depois, em 2008, a editora Edições Afrontamento tinha dado ao prelo o livro da sua vida: “Memórias do Cidadão José Dias”. Tinha já lido algures que fora condecorado com a Ordem da Liberdade, uma comenda honorífica concedida a quem se distingue por serviços relevantes na vida portuguesa e em prol da dignificação do homem e à causa da Liberdade, e outras condecorações. Sobre o pouco que sabia a seu respeito e sobretudo sustentado na imprensa, imaginava-o um homem alto, ereto, em jeito de torre de marfim, garboso, todo apessoado e embrulhado numa máscara social de sorrisos distribuídos à esquerda e à direita.
Ora a pessoa que diariamente calcorreava as pedras da calçada em passo ligeiro e se confundia com os outros pedestres não tinha nada a ver com o retrato por mim imaginado. Numa absoluta contradição e no paradigma do português médio, era baixo, com um metro e sessenta e poucos, com um rosto fino, onde se salientavam dois olhos pequeninos, sagazes e perscrutadores, de íris azulada e emoldurados por uns óculos de armação simples. Na cabeça, provavelmente para disfarçar uma testa larga e alta que precocemente começou a ser abandonada pelos cabelos, uma tradicional boina portuguesa, ou boné, de pala sobreposta. Perante esta decomposição da pré-formatada imagem, dei por mim a pensar que, afinal, Deus pode perfeitamente estar encorpado no homem mais comum que se possa imaginar.
Até que, nestes anos mais chegados, nos começámos a encontrar em debates políticos multipartidários sobre a cidade e acabámos a conhecer-nos melhor. Reparei que começou a assinar os convites para as suas iniciativas como “Cidadão José Dias”. Porquê? Sei lá! Não faço a mínima ideia! Recentemente esteve por detrás da criação, foi a génese, do movimento Cidadãos por Coimbra. Senhor de uma amabilidade indescritível no trato, não é difícil gostar do “Cidadão José Dias”, como se autoproclama –das razões falaremos lá mais para a frente. Para quem esteve presente no Auditório da Reitoria –e se não esteve viu nos jornais e televisão-, há duas semanas realizou e foi interventor na sessão Cívica “Em Defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social”. Numa mesa de oradores de excelência, de peixe graúdo como sói dizer-se, onde constavam, entre outros, desde António Arnault e Manuel Alegre até Catarina Martins, apercebi-me do sorriso de nervoso miudinho do Dias. Sabendo todos nós que Coimbra, salvo raríssimas exceções à norma, quase nunca dá bola -no sentido literal de passar confiança e numa descarada discriminação- e escorraça pessoas sem canudo, ali naquele painel do anfiteatro universitário, dei por mim a classificar aquele homem simples e não licenciado, sonhador, guerreiro e defensor de uma sociedade melhor, como um cordeiro entre os lobos. Daí, pela sua coragem em tentar partir esta cortina de vidro que divide a sociedade coimbrinha numa descarada bipolaridade em eruditos e plebeus, eu ter pensado em entrevistar o nosso mais extraordinário Cidadão. E nada melhor do que ser o próprio a contar. De onde vens? Onde estás? Para onde vais? Fala, Cidadão “Zé” Dias:
Nasci em Braga, no Minho, por alturas das vindimas, em 1948. A minha querida mãe era da Póvoa do Lanhoso, terra da Maria da Fonte –sabes quem foi esta sublevada, não sabes, Luisinho? Foi a mulher que, em 1846, chefiou a revolta popular contra várias alterações fiscais e essencialmente sobre a proibição de realizar enterros dentro das igrejas. Sou filho, mais velho de um rancho de oito, de pai funcionário público e mãe telefonista dos CTT. Família modesta e com tudo de bom. Como era normal à época por ser funcionário do Estado, o meu progenitor era filiado na União Nacional –e dirigente da Ação Católica, Rural e Operária.
Em 1952 fomos viver para o Porto e por lá, na Cidade Invicta, comecei a minha formação humana, política e académica. Com 15 anos, em 1963, estava no último ano do liceu, fui convidado para ser dirigente da Juventude Operária Católica (JOC). Em 1965 entrei na Universidade do Porto, no curso de Engenharia Eletrotécnica, na alínea F. Sabes o que era esta alínea, Luisinho? Já vi que não. Vou-te contar. A alínea F era a rubrica onde desaguavam todos os maus alunos. Assim uma espécie de vazadouro, a posta-restante do ensino. Estás a ver? –olha lá, antes de continuarmos esta conversa, e se fôssemos beber um café? Sugeres algum local? Não? Então vamos à “Mui Chocolate”, na Rua da Gala. Vamos lá! (leva dois dedos em gancho ao boné). Por gentileza, meu bom amigo! Faz favor! E cede-me a passagem. (Continua na próxima edição)



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VALE MAIS UMA VERDADE INCONVENIENTE DO QUE UMA MENTIRA CONDESCENDENTE


“Governo confirma abandono do metro com solução diferente para Ramal da Lousã Poiares Maduro diz que o Governo procura solução diferente para o Ramal da Lousã.”


Goste-se ou não da declaração do ministro-adjunto Miguel Poiares Maduro, em que este confirmou hoje em Vila Nova de Poiares o mesmo que o seu antecessor no Governo, Álvaro Santos Pereira, “que o projeto da Metro Mondego (MM) "não é minimamente sustentável" e disse que o Governo está empenhado numa solução diferente para o Ramal da Lousã”, estamos perante uma posição louvável, íntegra, avisada e de coragem.
Afirmar preto no branco o que se anda a dizer nos corredores do poder local há anos mas ninguém assume, em que este projecto serviu e serve alguns menos os muitos a que se deveria dirigir, é, a todos os níveis, uma postura elevada, digna de mérito e admiração, do Governo. Chega de tanta indecisão e de tantos milhões gastos –cerca de 140 milhões- num projecto que, para além das demolições, nunca teve outro efeito que gerasse benfeitorias e mais-valias para as populações afectadas, sobretudo as servidas pela Linha da Lousã.
É assim mesmo, com verdade, sem falsas promessas, que os portugueses esperam do Governo que há-de vir. De mentiras torpes estamos todos fartos. Vamos reconstruir o que foi vilmente desactivado pelo ex-governo de Sócrates mas com um projecto viável, de acordo com as nossas posses, e que, pela megalomania dos presidentes das câmaras envolvidas, não seja mais um elefante branco para os nossos filhos e netos pagarem.
Uma grande salva de palmas para o Governo!



TEXTOS RELACIONADOS


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

UM COMENTÁRIO RECEBIDO... E UMA RESPOSTA



David Carvalho deixou um novo comentário na sua mensagem "EDITORIAL: OS INTERESSEIROS DO METRO":


Gostaria de saber, porque é que a Carris, os STCP dão prejuízo atrás de prejuízo, e ninguém põe em causa a sua existência ou exploração estatal!
Este texto é egoísta e fruto de quem não tem problemas de mobilidade mas também não pensa nos outros.


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RESPOSTA DO EDITOR


Começo por lhe agradecer o ter comentado esta minha crónica, senhor David Carvalho. Tenho de lhe confessar que hesitei em lhe responder, mas depois, voltando a ler a sua missiva, cheguei à conclusão que é uma pessoa de bem e, não tem em mente ofender este (in)significante escriba que dá o corpo às balas por escrever o que pensa, nada o move mais do que simplesmente o sentimento de ter sido muito maltratado pelos governos PS e PSD.
Depois desta pequena ressalva, pelo respeito que me merece, vou então responder-lhe ponto-por ponto. Antes disso, começo por lhe dizer que já escrevo sobre o Metro Ligeiro de Superfície desde Junho de 2007 –creio que este foi o meu primeiro texto a insurgir-me sobre este plano fantasma que nos haverá de consumir o corpo, a alma e quem vier a seguir reencarnado. Mais lá no fundo, no fim deste texto, verá que escrevi muitas crónicas sobre este mesmo assunto. Quero dizer, portanto, que sobre o projecto do metro para Coimbra não mudei agora. Antes de prosseguir, alerto sobre aquilo que você já adivinhou: eu não conto nada; não sei nada! Limito-me a tecer umas opiniões. Não passam de comentários baratos. Mas vamos lá ao que interessa que, creio, você terá mais que fazer. Comecemos:

1 -“Gostaria de saber, porque é que a Carris, os STCP dão prejuízo atrás de prejuízo, e ninguém põe em causa a sua existência ou exploração estatal!”

Começo por lhe dar razão. É verdade o que afirma sobre o prejuízo dos transportes de Lisboa e do Porto –e mais grave e discriminatório para os meios de locomoção das outras cidades: o facto de serem subsidiados pelo Orçamento Geral do Estado.
Passando por cima, sem esquecer este atentado contra a igualdade, tenho para mim que os transportes são um dos pilares fundamentais de um país –tal como, por exemplo, a Saúde, a Educação, a Justiça. E quanto escrevo que são pilares desta Nação, quero dizer que os que dão prejuízo podem, em justaposição de subsidiaridade, ter de ser custeados pelos que dão lucro, ou através dos impostos. Porém, esta medida deve ter em conta, pelo menos, três princípios: o da proporcionalidade –isto é, ter em conta o número de utentes no espaço em que se insere- o da utilidadeou seja, faz falta? Se é necessário deve manter-se, se não deve extinguir-se- e o princípio da racionalidade –neste item deve ter-se em conta sempre os custos da sua manutenção e os custeios que esta extinção acarreta para o futuro das populações, nomeadamente  o esvaziamento do interior. É nesta ponderação difícil entre prós e contras que deve sair a decisão política. O que, a ser assim, pode dar uma discussão, entre o sim e o não, ad aeternum –e nunca mais haver deliberação, como em tantos casos que conhecemos. Também aqui surge a pergunta se será melhor para o país uma decisão ou não decisão –isto é, uma resolução atabalhoada ou o deixar correr para que o executivo que vier a seguir decida, como nos têm habituado. Por conseguinte, uma decisão de acabar com qualquer serviço público de proximidade deve ser objecto de muita ponderação e, como está acontecer, o despacho não deve ser de gabinete e sem falar e negociar com os vários intervenientes.
É claro que, a meu ver, já há muitos anos que os municípios –sem falar somente nos do Porto e  de Lisboa- optaram por transportes de luxo ao invés de se escolher meios simples mas eficazes. Em metáfora, vez de se preferir burros, que comem erva, escolheram-se cavalos lusitanos, que só se alimentam de alfarroba. Quero dizer que em vez de se optar por autocarros humildes, com os bancos forrados a “sumópau” e sem ar condicionado, com um custo de transporte para o passageiro acessível, nas últimas décadas escolheu-se o contrário –e com um utente a pretender pagar cada vez menos porque acha que o Estado deve suportar tudo. Como se fosse pouco, entrou-se na loucura de se construir metros ligeiros de superfície –pagos por todos nós. Para piorar, tendo a zona metropolitana de Lisboa cerca de um quinto da população portuguesa e o concelho do Porto 237 mil pessoas (segundo o último censos de 2011), Coimbra, com uma população na cidade de cerca de 100 mil habitantes, também se acha no direito de ter o seu metro. Neste momento, cá na nossa parvónia, ninguém quer saber que os grandes centros urbanos continuam a perder população –o Porto, entre 2001 e 2011, passou de 263,131 para 237,559 e deixou escapar quase 10 por cento dos seus residentes. Coimbra, também neste período, perdeu mais de 5000 habitantes. Se se somar o crescimento do desemprego nos três últimos anos e ao facto destes centros urbanos terem uma ocupação muito envelhecida, com tendência para um desaparecimento acelerado, facilmente se chega a uma conclusão de que a escolha por meios mais ligeiros mas muito mais vultuosos não será virtuosa.

2 –“ Este texto é egoísta e fruto de quem não tem problemas de mobilidade mas também não pensa nos outros.”

Ora bem se é egoísta –que admito que o seja- não foi essa a minha intenção ao escrevê-lo. Tive a pretensão de, juntando extractos da imprensa, mostrar factos. Há uma coisa que talvez desconheça, em 2010 quando o Movimento Cívico de Lousã e Miranda aderiu e passou a ter uma página no Facebook –daí a minha confusão em pensar que tinha sido criado nesta altura- passei também a integrar o movimento –não só por a minha mulher e a sua família directa serem da zona de Miranda do Corvo mas também por entender que a reposição da linha era um imperativo de cidadania e uma luta que deveria envolver todos os conimbricenses. Para além de ter composto duas canções a favor desta luta justa, com custos grandes para a minha vida profissional, fui a várias manifestações de rua –e, em solidariedade, deixei de votar nas eleições presidenciais. Acto de sufrágio que, até esta altura, nunca tinha deixado de participar.
Antes de prosseguir, gostava de enaltecer o desempenho nesta causa do médico Jaime Ramos. Sejam lá quais forem os seus interesses, pessoais ou patrimoniais, são legítimos –escrevo isto com total sinceridade. Nada me move contra este senhor, natural e residente em Miranda do Corvo. Se as suas conveniências patrimoniais se harmonizam com as vantagens das populações –e não tenho dúvida que assim é- nada há a apontar. Aliás, numa colectividade profundamente egoísta, é de sobrevalorizar. Se os seus interesses são pessoais, no sentido de, através do protagonismo, retirar dividendos para outros voos como já se escreveu tanto, também não vejo que daí venha mal ao mundo e também são compreensíveis e genuínos.
Ora, chegados aqui, estará o senhor a interrogar: então por que razão não continuou a enfileirar as manifestações? Eu respondo a esta questão por mim formulada. Cedo me comecei a aperceber do forte carisma de Jaime Ramos –o que estou a escrever pretende ser apenas uma constatação e jamais um encómio barato ao citado. Sem me querer armar, e muito menos querer ofender alguém, depressa dei por mim a acreditar que se estava perante um caso de estudo. Isto é, muitas das várias centenas de pessoas que engrossavam as manifestações iam para agradar ao líder e não pela justiça da causa –admito que esteja completamente errado, mas começou a ser óbvio para mim que a causa infame de se terem suprimido os carris, para muita gente, estava em segundo plano. E retirei esta ilação completamente depois de ter composto uma segunda canção, serenata ao Metro, e a ter apresentado na Praça 8 de Maio. Na altura mostrei a ideia a Jaime Ramos –que tal como na primeira em que se gravou um vídeo e fez o favor de aceitar mesmo sem me conhecer de lado nenhum- e ele deu o plano como bom. Mas disse logo que não poderia estar presente junto à igreja de Santa Cruz na data proposta. É certo que chovia muito, mas saberá o senhor David Carvalho quantas pessoas apoiantes desta causa estiveram presentes? Menos de meia-dúzia –não precisa de se rir. Concordo que o artista não merecia mais! Ou seja, em conclusão, vi ali o que suspeitava há muito: se o líder não estiver presente poucos querem saber da causa que deu origem ao movimento de reivindicação.
Bem sei que fui longo. Quando começo a escrever sou assim. Peço-lhe muita desculpa pelo tempo perdido. Um grande abraço.
Luís Fernandes


TEXTOS RELACIONADOS




sábado, 25 de janeiro de 2014

LEIA O DESPERTAR...


LEIA AQUI O DESPERTAR DESTA SEMANA 

Esta semana deixo o textos "UM AVIÃO NA CALÇADA""REFLEXÃO: OS INTERESSEIROS DO METRO"; e "AS ÁGUAS DE COIMBRA E O MEU MAU-FEITIO".


UM AVIÃO NA CALÇADA


 Como me deito muito tarde, já a noite vai jubilada, estava eu no segundo sono e ainda antes das 9h00, quando o telemóvel retiniu. Era o João Cardoso, “está lá? Ó pá, vai à Rua Visconde da Luz que está lá um avião!”. Ainda meio ensonado, repliquei: um avião? Como? Caiu lá um avião? Do outro lado só ouvi: “vai lá ver, que estou com pressa!”
E lá me vesti a correr e rumei às ruas largas da calçada, a Ferreira Borges e Visconde da Luz. Algumas pessoas, de máquina fotográfica em riste e pronta a disparar, assomavam às janelas, aos varandins e aos patins das portas dos estabelecimentos, cujos donos estavam de esperanças para um novo dia que se abalançava. Os transeuntes, que rumavam com destino certo, paravam e ficavam a olhar o aparato. Compreensível, até. Em cima de um grande camião estava um Cessna, um monomotor. Afinal não é todos os dias que um avião “aterra” –salvo seja- na Baixa de Coimbra. A questão que se colocava era saber o que raio fazia ali a aeronave. Cá para os meus botões ainda semeei a hipótese de transportar o Pai Natal mas lembrei-me imediatamente que não podia ser. Foi então que associei este facto a um novo estabelecimento que proximamente irá abrir no espaço do desaparecido “Armazém Americano”. Seria isso? Sei lá! Interroguei-me em solilóquio. Vamos mas é investigar! Venham daí! Vamos falar com Miguel Faustino, um dos responsáveis por este projeto.


Bom dia, Senhor Miguel. O que é isto? Não me diga que vai colocar a máquina voadora dentro da loja? “É verdade, sim! Vamos mesmo pendurá-lo no teto, por cima e a afocinhar para baixo, nesta antecâmara, com um aspeto lindíssimo, e que o senhor vê. Esta loja é fantástica, olhe aqui esta sala com luz natural. São espaços como estes, entre os 400 e os 800 metros quadrados que procuramos nos centros das cidades. Somos uma empresa familiar, a Sportino, L.ª, com 30 anos e constituída por mim, pelos meus irmãos e o meu pai –sabe como é que o meu criador começou? Ele era sapateiro no Bombarral e depois principiou a andar pelas aldeias de bicicleta. A seguir abriu uma sapataria nesta vila. A partir daí foi sempre a caminhar em direção ao futuro. Hoje temos lojas em Setúbal, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Leiria, Bombarral e agora aqui em Coimbra. A nossa empresa abarca modas de roupa, calçado, passando pelo desporto. Representamos grandes marcas internacionais. Apesar da crise que vivemos, não temos medo. Para além de termos loja online, procuramos que os espaços que abrimos, sempre nos centros históricos, sejam locais de culto, irreverentes na decoração, diferentes na oferta de produtos e na imagem de marca. Daí você verificar a colocação do avião dentro deste espetacular anfiteatro. É lindo, não é?
Não temos receio deste tempo de recessão. O futuro está nos centros das cidades. Em Lisboa já está a começar a verificar-se uma alteração, por parte do consumidor, na procura. As pessoas já estão abandonar as grandes superfícies comerciais. Só primando pela diferença conseguimos inverter esta tendência e combater os grandes grupos económicos. Se tudo correr conforme desejamos, lá para Março, próximo, este nosso mais recente bebé dará à luz nesta encantadora cidade dos estudantes. Contamos criar entre 6 a 8 postos de trabalho. Estou muito entusiasmado. Enquanto representante do grupo Sportino, L.ª, posso afirmar que estamos muito felizes por poder contribuir para a revitalização desta parte nobre e fazer parte desta grande família comercial da Baixa de Coimbra. Posso dizer-lhe que, para além do monomotor, temos outras surpresas, mas não posso divulgar tudo agora. Concorda, não concorda?”


REFLEXÃO: OS INTERESSEIROS DO METRO (1)

Neste último Domingo, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, foi recebido na Rua Pedro Monteiro, em Coimbra, com mais uma manifestação de cerca de três centenas de pessoas oriundas dos concelhos de Lousã, Miranda do Corvo, Poiares e Góis para defenderem a concretização do prometido projeto do Metro Ligeiro de Superfície. Segundo o Diário de Coimbra, Passos Coelho, no Instituto Português da Juventude, disse o seguinte: “Acho incrível como o Estado conseguiu gastar uma pipa de dinheiro a desmantelar a linha que funcionava, vendeu os materiais todos e deixou lá um buraco. (…) Assumi um compromisso com a linha da Lousã e gostava de cumprir. Sobre o Metro não assumi nenhum compromisso.”
Antes de prosseguir, para melhor se entender, vamos recuar no tempo. A empresa Metro Mondego foi constituída em 1996 com a seguinte representatividade: Estado Português 53%, município de Coimbra 14%, município da Lousã 14%, Miranda do Corvo 14%, REFER 2,5% e CP 2,5%. Nesta altura era Manuel Machado presidente da edilidade coimbrã. Com um nomeado presidente da Metro Mondego a auferir um salário mensal de cerca de 800 contos, hoje 4000 euros, este plano manteve-se quase no anonimato até 2002 e ganhou velocidade quando Carlos da Encarnação ganhou a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) a Manuel Machado e se estreou a negociação e expropriação de parcelas para a futura avenida central. Em 2005, com grande encenação política por parte de Encarnação que –tal como Fernando Carvalho, na Lousã, e Fátima Ramos, em Miranda- visava a reeleição, deu-se início à desconstrução do casario no Bota-abaixo –mesmo sem estar concluída a demolição já foram gastos 14,5 milhões de euros, noticiava o Diário as Beiras e acrescentava: “em 29 de dezembro de 2006, existiam 36 atividades comerciais ou serviços e 33 habitações neste corredor parcialmente desmantelado.”
Sob a égide do Governo de Sócrates e com a promessa de substituição por um comboio mais moderno, em Dezembro de 2009 começou o levantamento dos carris na linha da Lousã. Segundo o jornal Público de 19 de Janeiro de 2010, o Secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, afirmou que a construção da 2ª fase do projeto Metro Mondego (MM), que ligava a Baixa aos Hospitais da Universidade dependia do estudo custo-benefício para demonstrar a sua viabilidade.
Em finais do ano de 2010, Jaime Ramos, irmão de Fátima Ramos, nesta altura presidente da edilidade mirandense, cria o Movimento Cívico de Lousã e Miranda. Nos primeiros meses de 2011, algumas centenas de pessoas seguiram este líder em várias manifestações locais e em Lisboa contra o Governo de Sócrates –hoje em 2014, apesar de ter mudado o governo, continuam as manifestações.
Em Janeiro daquele ano de 2011 realizou-se as eleições para a presidência da República, vindo a sair vencedor o até aí presidente Cavaco Silva. Antes do sufrágio, em reunião do Movimento Cívico Lousã Miranda ficou acordado que, em solidariedade para com todos os prejudicados pela falta do comboio e num ato de indignação e protesto, não se votaria nas eleições presidenciais. Fátima Ramos, fazendo constar que estava solidária com todos mas rompendo o acordado, votou.
Com as eleições legislativas à porta, em 5 de Junho deste ano de 2011, em campanha eleitoral o PSD prometeu fazer a reposição da linha. Já depois de nomeado ministro da economia, Álvaro Santos Pereira vinculou o Governo de Coligação PSD/CDS. (Continua na próxima edição)


AS ÁGUAS DE COIMBRA E O MEU MAU FEITIO

Desta vez, e na mesma linha de outros casos que, como denúncia, dou aqui à estampa, a meu ver também na esfera do surreal, fui acometido de mais um coice. No bom sentido, é claro! Como quem diz mais um beijinho de Judas. Antes de contar, o curioso é notar que factos destes estão sempre a cair-me no regaço. Até parece que é o destino a dar-me matéria para eu escrever e alertar outros incautos como eu. Antes de prosseguir, como ressalva e para que não me tomem com outro estatuto, confesso já que sou uma espécie de fidalgote da realeza que aparenta ser rico mas, virado ao contrário, nem um cêntimo toca o chão.
Agora sim, vamos à narração. Tenho vários contratos celebrados com a empresa Águas de Coimbra (AC). Então, como o dinheiro no meu bolso é uma espécie de andorinha que só de tempos-a-tempos regressa, tenho por hábito juntar todas as faturas e, no prazo limite, vou pagar à Loja do Cidadão. Tenho por costume recomendar à funcionária: veja se está tudo, se não fica nada pendurado! Na semana passada, como é hábito, fui liquidar o débito em atraso, mas que pago juros. Desta vez, porque não levei as notificações comigo, sei lá se por achar pouco, fui enumerando as moradas dos contadores. Foi então que a funcionária das AC me transmitiu que um dos contratos estava com interrupção de fornecimento, como se diz na gíria, estava cortado. E portanto, em consequência, teria de pagar 45,34 € para repor o anterior. Acontece que nem tinha um corte no fornecimento nem recebi qualquer comunicação de que tal iria acontecer. E expliquei isto mesmo à senhora. E a funcionária, muito simpática e prestável, atirou logo: “ótimo, nesse caso o senhor só paga metade, mas tem de se dirigir ao outro extremo das cidade, à sede das AC”. Regressei ao meu ninho e constatei que as faturas referentes ao contrato em falta foram colocadas pelo carteiro numa caixa de correio marginal. Verifiquei também que não havia lá nenhum aviso de corte, nem nenhuma informação de que por lá passou um qualquer trabalhador das AC com intenção de bloquear o calculador e, por qualquer impossibilidade, não conseguira.
Sendo assim, já que não me restava outra hipótese e também porque, apesar de ter mais defeitos que buracos numa rede, tenho pelo menos uma qualidade: sou bem-mandado. E lá fui para a Rua da Alegria –quer dizer, alegria só se for para as AC que, com este repetido catar o bolso até já está roto, eu ando triste como a noite. E lá na casa do senhor de todas as águas de Coimbra, mais uma vez, agora perante uma representante da empresa –que, por acaso até é minha conhecida- lá expliquei o que tinha acontecido. Ou seja, não tive interrupção de fornecimento nem qualquer comunicação prévia ou a posteriori a informar-me da impossibilidade de efetuar o bloqueamento no contador –que está à vista e de aceso fácil. Diz-me a minha conhecida aquilo que eu já sabia: “Melhor! Então só desembolsas 22,67 €”! Perante o meu manifesto descontentamento, ainda atirou: “bolas, pagas metade e ainda reclamas?”. Perante a sua compreensão, ali à sua frente estava alguém que ela julgava conhecer mas não passava de um sujeito mal-agradecido. Isto é, por um serviço que não me foi prestado, de facto, eu deveria estar grato, pagar e não bufar. Mas eu não sou flor que se cheire, paguei mas bufei. E lá ficou o registo no Livro de Reclamações. Salvo melhor opinião, porque há outras naturalmente, no meu entendimento bacoco, as AC não podem cobrar uma intenção. Podem exigir um pagamento pelo cumprimento de uma prestação de facto e não por um propósito pensado na secretaria. Mesmo se o funcionário se deslocou ao locado e não cumpriu a obrigação –que não será o caso porque não foi deixada qualquer prova da sua passagem.  No meu sentido de justiça, as AC só podem cobrar este serviço se efetivamente provarem que houve impossibilidade de concretizar o ato. Sei por linhas travessas que as AC são useiras e vezeiras a arrecadar neste género de serviço não consumado de facto e partindo do intuito. Era bom que os senhores administradores, muito bem pagos -e que lhes faça bom proveito que eu por cá, teso mas alegre, fico bem graças a Deus-, descessem à terra e verificassem que o consumidor, como eu e mais liso que uma mó, não pode continuar a ser espoliado de uma maneira infame, só com o argumento de que “é assim porque tem de ser”. Não é não! Digo eu!