POR MÁRCIO RAMOS
Coimbra, em termos turísticos, faz-me lembrar
a Coreia do Norte. O regime desse Estado, na movimentação, faz com que os
visitantes percorram certos monumentos que mostram a suposta grandiosidade do
país e o seu ditador. Não estamos em ditadura mas a Lusa Atenas é parecida
nesse aspecto, o turista só vê a Universidade, o Largo da Portagem e a Igreja
de Santa Cruz. Havendo tanto para ver, de enorme beleza e relevo histórico, o
restante é descartado. Não vejo muitos estrangeiros a ver a Igreja de Santo
António dos Olivais e poucos visitam a última morada da nossa Padroeira, no
Convento de Santa Clara-a-nova.
Embora aqui, no artigo do blogue,
se fale de uma matéria específica, a falta de turistas numa zona classificada
como Património Mundial da UNESCO, acho que o problema relatado é
mais uma consequência. A origem é outra. Vou mostrar:
Parecendo frio e duro vamos a factos.
Como querem que os turistas visitem a Rua da Sofia, se é só uma via, como as
centenas ou milhares existentes em Coimbra? Parece contra-senso? Não o é! Passo
a explicar. De que vale uma artéria ser considerada Património Mundial da Humanidade
se o que esteve no fundamento da classificação -a sua monumentalidade
histórica- está inacessível ao público? Sem isso, a antiga rua dos colégios e
só mais uma entre centenas
Uma igreja no meio desta artéria foi
intervencionada. Foram gastos alguns milhões de euros. As obras supostamente já
estão acabadas e, vá-se lá perceber, o monumento mantém-se fechado ao público.
Mais à frente, para quem vem da Praça 8 de Maio, temos duas basílicas, uma sim
está sempre aberta, a outra, feita centro comercial e que ainda restam vestígios
da antiga igreja, não tem acesso.
Continuando, o colégio militar, antigo
quartel, muitas vezes está fechado. O Palácio da Justiça não se pode visitar –e
porque não? Seguindo a rota, subindo uma rampa e umas escadas, deslumbramos o
imponente templo de Santa Justa, (in)justamente fechado.
Já não falo dos colégios onde os monges
estudaram e não podem ser visitados, pois estão ocupados, mas o que vale os
turistas irem visitar esta artéria da cidade classificada se o que devem ver
esta fechado, ou interdito? Um problema leva ao outro. Depois há ainda blocos
que não foram requalificados e de grande relevo.
A falta de turistas nesta zona é só uma
consequência de vários factores, desde monumentos fechados, interditos, passando
por outros que não são requalificados.
Mesmo na Alta classificada, há
igrejas encerradas onde os turistas passam ao lado e que podiam e deveriam ser
visitadas. Um dos exemplos claros é igreja de S. Salvador, perto do Museu
Nacional Machado de Castro e da imponente Sé Nova
Se há culpados nesta matéria, de longe, não
serão os visitantes ou operadores turísticos, mas sim a Universidade de Coimbra
e o poder político.
Querem a Rua da Sofia com turistas? Há que os
cativar. Não é assim, apresentando monumentos de grande relevo histórico
degradados e fechados ao público, que os vão conquistar.