“Mas eu não me deixei
amolecer. Avisei logo: ou ajudas
no
mal que me atormenta ou não vais ver um cêntimo para ajudar
a
pagar a sagrada procissão que vai acontecer proximamente,
já
que no que toca a festa profana, bailarico e outros que tais,
não
vais ter sorte nenhuma”
Esta
semana, tudo começou devagar, devagarinho com um pequeno arroto,
assim como se a canalização expelisse ares de cólica abdominal em
vómito anunciado. Não sei se estou a ser claro mas, em boa verdade
os líquidos não corriam livremente como deveria ser.
No primeiro dia, não dei
muito importância, afinal nunca tivera problemas com o encanamento.
Se é certo que nunca tivera muito cuidado com as gorduras, que
provocam a obstrução e o colesterol e, no limite, podem provocar o
colapso, também é certo que tinha um certo uso mas não era muito
velha. Isto é, visto do exterior, tudo indicava estar ali para as
curvas, durante mais umas largas décadas.
O problema é que o
engasgamento continuava e tudo indicava ter vindo para me complicar a
vida. Se no início era um simples expelir de gazes encaracolados em
bolas de sabão, com a continuação o bloqueio foi total e o cheiro
pestilento a podre invadiu tudo em redor. A minha mulher, sem saber o
que fazer, preocupadíssima como sói de ver, só maldizia o azar que
nos calhou em sorte. Às tantas, sabe-se lá, foi bruxedo. Andam para
aí tantas bruxas desencaminhadas, prontas a despejar o veneno em
pessoas boas, como nós.
Comecei por vários produtos
especializados. O primeiro a entornar em dose dupla, para além de
provocar uma sensação de borbulhar, não deu em nada. O segundo,
aparentemente melhor do que o antecedente, dando-se imediatamente por
vencido, nem se dignou promover uma rebelião interior. O terceiro,
sugerido como o melhor à venda no mercado, e acompanhado de banhos
de água quente, rendeu-se logo e deu-se como incapaz no primeiro
assalto.
Os dias iam decorrendo e eu
sem ter melhoras. O cheiro a pútrido era cada vez mais notado.
Várias vezes dei por mim a
pensar que os meus vizinhos chamariam a ASAE por pensar que
transformei a minha casa numa destilaria clandestina.
Deitava-me a pensar em
possíveis soluções milagrosas, acordava a meio da noite a
transpirar de ansiedade, e, para além de umas profundas olheiras
negras, levantava-me sem alento. Comecei a dar por certo que isto era
mesmo mau-olhado, ou, se calhar, o pagamento antecipado pelos muitos
pecados que pratiquei e descrença no sagrado.
Ao terceiro dia a situação
estava simplesmente caótica e sem controlo. À minha falta de
paciência para tal calamidade e empestamento, soçobrava uma apatia
cada vez mais instalada que me impedia de dormir. A minha mulher,
perante o meu “deixa-andar”, encostando-me o dedo
indicador em riste no nariz, lançou um ultimato: ou chamava um
clínico para debelar a doença ou apelava ao transcendente, como
quem diz, recorrer à hagiografia católica e lançar mão à
bem-aventurança de um Santo.
Mas as coisas não eram tão
lineares assim. Se, por um lado, corria o risco de chamar um “médico”
para debelar o imbróglio e, para além de não resolver a anomalia,
me levava o coiro e o cabelo, por outro, como é que ia rogar a um
Santo que me ajudasse nesta aflição se, para além de não
acreditar no seu poder metafísico, há muito tempo, mas muito tempo
mesmo, não falava com nenhum, nem mesmo naqueles momentos mais
introspectivos, de catarse? E mais: a que santo vou pedir auxílio?
Aos da casa, como diz o povo, não valia pena, porque não fazem
milagres.
Até que na última noite,
passada em branco, inteirinha a contar carneiros, tomei uma decisão
drástica e de último recurso: apesar do descrédito sentido, iria
pôr em acção o poder obscuro e enigmático dos santos da casa.
Ontem, em abstração, tive
uma longa conversa com São Sebastião – para quem não
sabe, é o padroeiro da nossa aldeia, e cuja festa anual é no
próximo dia 20. Abri o diálogo – aliás monólogo – logo a
atacar. Não fosse ele pensar que, por ter sido mártir e reconhecido
milagreiro e eu ser um simples humano, me metia medo. Isso é que era
bom! E ainda lhe disse que não acreditava nele. Com aqueles olhos
profundos e fixados em mim, a santidade parecia olhar-me com ternura,
compreensão e contemporaneidade. Mas eu não me deixei amolecer.
Avisei logo: ou me ajudas no mal que atormenta ou, não vais ver um
cêntimo para ajudar a pagar a sagrada procissão que vai acontecer
proximamente, já que no que toca a festa profana, bailarico e outros
que tais, não vais ter sorte nenhuma. Levas uma homilia e um cortejo
em torno da povoação, e dá-te por grande sortudo. E dei por
encerrado o bate-papo.
Entretanto, lembrei-me que,
num canto da minha casa, tinha uma imagem de Santo Onofre, o
protector dos comerciantes, em terra cota com cerca de um
metro de altura. Durante mais de uma década, aparentemente, esteve
a olhar pelo meu negócio numa loja de velharias que tive em Coimbra.
Ou seja, sendo franco, esta imagem fazia companhia a outras que se
destinavam a venda e compunham o acervo do velho estabelecimento
comercial. Como fechei o negócio no final de 2022, dei guarida a algumas
peças não vendidas, uma delas foi a imagem de Santo Onofre.
Num olhos-nos-olhos,
coloquei-lhe a questão friamente: aqui, a tua função de zelador
comercial terminou. Para além disso, como te apercebeste, ninguém
se interessou em levar-te para casa. Ora então, temos que decidir o
teu futuro. Ou vais para uma ermida obscura e perdida no monte, ou
vais para o desemprego, ou, no limite, não tendo lar de acolhimento,
vais aumentar o índice de sem-abrigo por esse Portugal fora – e
que o Marcelo, o Presidente da República, prometeu erradicar da
pobreza.
Coitadinho, fixou os olhos em
mim com tal tristeza que até se me deu um lancinar no lado esquerdo.
Palavra de honra, arrependi-me imediatamente do que tinha proferido.
Podem não acreditar mas, apesar dos meus lapsos e relapsos ao longo
da minha existência, eu até tenho bom coração. Então, moderando
o tom agressivo, sugeri: está bem, não te vou abandonar como se
fosses um preso de longa data que, depois de libertado, não tem onde
cair morto. Vais comigo para a minha residência. Mas, atenção,
vais ter de trabalhar como qualquer comum mortal, que lá em casa não
há pão para malandros. Vais ter de te esforçar e mostrares o que
vales.
Mais uma vez, com voz grave,
como naqueles momentos de grande tensão, interpelei o Onofre e
ordenei: meu amigo, durante o último ano em que permaneceste como
hóspede neste locado, não me apercebi de qualquer graça tua
transcendental. Então, meu caro, chegou a hora de mostrares o que
vales. Considera ser uma oportunidade.
E, pela enésima vez, fui
tentar desentupir o cano do lavatório da cozinha. Sentia-me
esperançado e com muita fé. Algo no meu interior me dizia que ia
mesmo conseguir. Não é para isso que a fé complementa a nossa
limitação, incompletude, e nos empurra para a frente, mesmo
sem ânimo?
Repetindo o processo já
anteriormente tentado, novamente enfiei a longa bicha curvilínea,
mas agora ligada a um berbequim. Como cobra saracoteando na terra
árida, penetrou no longo buraco escuro. E pumba! Já está!
Finalmente! E a água toldada pelo cansaço, como se deslizasse na
planície por entre socalcos, correu alegremente.
Num canto da minha casa uma
certa imagem que simboliza a crença no divino pareceu sorrir.