segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

"TEMPO DE AVANÇAR"




Primeiras sessões públicas do TEMPO DE AVANÇAR
em Coimbra, Faro e Vila Franca de Xira

“Respondendo a um sentimento de urgência nacional, 250 cidadãos lançaram, no dia 17 de novembro de 2014, um movimento com o objetivo de mudar a política e as políticas em Portugal. Com o objetivo de fazer nascer uma candidatura cidadã às eleições legislativas de 2015, convocaram uma convenção para o dia 31 de janeiro. A Candidatura Cidadã tem, até à sua Convenção, a designação de TEMPO DE AVANÇAR. Conta com o apoio público de milhares de subscritores e de quatro organizações políticas: LIVRE, Fórum Manifesto, Renovação Comunista e MIC-Porto. De acordo com a lei, apresentar-se-á às eleições legislativas no quadro legal da única destas organizações que está constituída como partido político: o LIVRE. E será uma candidatura de cidadãos em que todos os subscritores terão idêntica capacidade de participação e decisão democrática.
Com o objetivo de apresentar esta candidatura e fazer crescer este movimento em todo o território nacional, os promotores e subscritores do TEMPO DE AVANÇAR irão realizar, neste mês, sessões públicas um pouco por todo país. As primeiras são já esta semana. Em Vila Franca de Xira, no dia 8 de janeiro, às 21h, no Clube Vila Franquense (Avenida Combatentes da Grande Guerra), com Ana Drago, Diogo Martins e Ofélia Janeiro. Em Coimbra, no dia 9 de janeiro, às 21h, na Casa Municipal da Cultura, com Daniel Oliveira, Abílio Hernandez, José Reis e Isabel Prata. Em Faro, no dia 10 de janeiro, às 15h30, na Associação "Os Artistas" (Rua do Montepio), com Daniel Oliveira, Rui Tavares, Priscila Soares, Carlos Luís Figueira e Anabela Afonso.
As sessões são abertas a todos os cidadãos que nelas queiram participar e à comunicação social.”

BOM DIA, PESSOAL...

sábado, 3 de janeiro de 2015

UMA SESSÃO NA (DES)UNIÃO DAS FREGUESIAS DE COIMBRA







Há vários meses que tencionava assistir a uma sessão na União das Freguesias de Coimbra –com sede no Bairro de Sousa Pinto, e que agrega as extintas freguesias de Santa Cruz, São Bartolomeu, Almedina e Sé Nova. Confesso que, apesar de freguês interessado no que por lá se discute, a minha ida não foi totalmente inocente. Desde há um ano para cá, consta-se que as relações políticas entre o presidente eleito, Hélder Abreu –PSD/PPM/MPT- e a força representada no executivo, o PS, são pouco profícuas. Dizia-se também que, nas assembleias de freguesia, o ambiente era de cortar à faca com os restantes eleitos, nomeadamente, o CPC, a CDU e até mesmo com os próprios correligionários do PSD. Alegadamente, os próprios deputados do PS, o partido representado no executivo, já não sabiam o que haviam de fazer com este imbróglio. Em Junho, de 2014, foi aprovada uma moção de censura ao executivo e movida pelo movimento CPC, Cidadãos por Coimbra. Embora sem efeitos jurídicos e unicamente almejando a consequência política, esta admoestação visava o apoio do parceiro no órgão administrativo, o PS, e o comportamento relacional com a Assembleia do próprio presidente da União de Freguesias de Coimbra, Hélder Abreu. Repare-se na indicação do sentido de sufrágio que levou à aprovação da moção com 7 votos: 2 do CPC, 2 da CDU e 3 do PSD. Houve uma abstenção do PSD e cinco contra, 4 do PS e uma do PSD.
Lembro também que em Julho, deste mesmo ano de 2014, o Ministério Público ilibou sete autarcas desta Assembleia, cujos mandatos foram postos em causa pela Junta. Segundo o Campeão das Províncias da altura, “A pretensão dos elementos da Junta consistia na cassação do mandato a sete membros da Assembleia (três deles social-democratas), porquanto o órgão executivo considerou que eles cometeram uma ilegalidade ao votarem desfavoravelmente o Plano de Atividades e orçamento.”
Não fazendo a menor ideia do que iria encontrar nem o que estava ali a ser discutido, estava presente neste ajuntamento de coração aberto. Apesar de influenciado pelo precedente noticiado na comunicação social, não era nem é minha intenção tomar partido. O que escrevo é uma transcrição absoluta sobre o que se passou na Assembleia de Freguesia da União de Freguesias de Coimbra (UFC) realizada na terça-feira, 30 de Dezembro de 2014.

MALDITO QUARTO DE HORA ACADÉMICO

A reunião política estava marcada para as 21h00. Com algum público presente, à espera e a olhar o relógio, a abertura dos trabalhos começou às 21h24 com a intervenção do presidente da Assembleia, Armando Agria (PS) a pedir aos deputados presentes que a sessão decorresse com a maior serenidade. Passou-se aos pontos em agenda e iniciou-se com a aprovação da acta anterior, assunto polémico, este das actas, que atravessou toda a sessão. Já com alguma tensão no sótão do edifício onde decorria o encontro, as indirectas a Hélder Abreu saídas das várias bancadas iam surgindo umas atrás de outras. Ficou provado de que o sumário não traduzia o que se passara e foi votada e aprovada a alteração subsequente.
Seguiu-se o ponto seguinte e discutiu-se os vários assuntos em análise. E pelo presidente da Assembleia, Armando Agria, foi trazido à colação o nome de um elemento que não se encontrava presente e que durante bastante tempo ocupou os vários deputados. Segundo Agria, pelo teor de uma acta anterior, este vogal ausente nesta sessão exarara um pedido de reparação ao seu bom nome e ameaçara recorrer à via judicial. O presidente da Assembleia proclamou que o que estava no documento era um resumo de todos os membros e, para além de não poder ser alterado, não poderia ser atribuído a um único elemento. Sublinhou Agria que, em seu nome e do órgão a que presidia, “não aceito qualquer ameaça. Considero até abusivo. Este assunto está devidamente esclarecido e encerrado”, disse.

AFINAL HAVIA OUTRA

E saltou para a ribalta a alteração com rasura a outra acta, a número 24, indicada como referente a 21 de Maio. Apolino Pereira, tesoureiro e eleito pelo PS, instado a pronunciar-se sobre a posterior modificação, alegou que “tal possibilidade deixa-me incrédulo”. O presidente da Assembleia, Armando Agria, virando-se para Hélder Abreu, presidente da UFC, com voz firme, ordenou: “senhor presidente da Junta da União de Freguesias de Coimbra responda se foi ou não alterado o documento”. Respondeu Hélder: “não passa de uma falácia. Não houve qualquer alteração nesta acta ou em qualquer outra que não tivesse sido aprovada por todos os elementos, a menos que algum, abusivamente, tivesse feito tal subtracção dos documentos”. Enfatizou Agria, “reuni com o presidente da UFC e chamei a atenção para a gravidade de ter havido alteração à acta. Era uma situação melindrosa que se poderia incorrer. A postura do selo branco nos documentos não acontece. Tenho em meu poder duas actas, uma rasurada e outra não, sem selo branco. E outras que consultei também não detêm o selo branco. Pergunto ao presidente da UFC se a partir desta data em que falámos houve alguma alteração. Isto tem contornos ilícitos”. Respondeu Abreu: “não tenho conhecimento de mais nada!”

UM CASO DE POLÍCIA

Gonçalo Almeida, eleito pela CDU, ligando a acta rasurada e à motivação que lhe deu origem, declarou: “Os pagamentos estão todos mal marcados. É uma situação muito grave. O secretário, que não está aqui hoje, é o responsável por isto. Andam aqui a fazer trapaças. A acta foi entregue pela Junta de Freguesia”. Interrompeu o presidente da Assembleia, Armando Agria, pedindo para não nomear nomes, “ninguém pode ser culpado sem ser julgado”, aludiu. Seguindo o mesmo entendimento não denomino o nome do visado intencionalmente.
Pinto dos Santos, eleito pelo PSD, pedindo a palavra, proferiu: “ o Gonçalo já disse o que eu ia dizer. Fico desorientado. A emenda foi feita ou pelo presidente ou outro membro. Isto não vai ficar assim! Se nada for feito vou denunciar às instâncias competentes. Eu já opinei sobre uma auditoria a esta UFC. Alguém está a mentir. Alguém não merece estar à frente da Junta de Freguesia.”
Carlos Lopes, ex-presidente da junta de Almedina, tal como Pinto dos Santos social-democrata, reiterou que “pelo que tenho a dizer passa a ser um caso de polícia. Cabe à Assembleia mandar indagar.”
O presidente da Assembleia, Armando Agria, virando-se para a secretária Regina Oliveira, interrogou: “qual o motivo de enviar as actas pelo Correio?”. Respondeu a visada: “eu não sei quem fez esse trabalho. Eu não fiz! Enviei porque me foi pedido e mandei para todos.”
Helena Loureiro, eleita pelo CPC, referiu: “o executivo tem cinco elementos. Dois denunciaram. Um deixou de estar presente, mas restam dois. Olhos nos olhos, nos da secretária Regina e nos do presidente Hélder, há uma acta rasurada que não tivemos conhecimento. Digam-me que não têm nada a ver com isto!”
Respondeu Regina: “eu tenho vergonha como as actas estão a ser elaboradas. Não admito que duvidem de mim. Não tenho muita prática nestas coisas. Eu tive a ingenuidade de emendar mas foi do conhecimento e não foi com intenção. Efectivamente alterou-se, mas com conhecimento das pessoas”. Hélder Abreu, presidente da UFC, disse que não tinha conhecimento. Retorquiu Regina, “o senhor presidente estava presente. Não se lembra?”
Apolino Pereira, tesoureiro, instado a pronunciar-se, declarou: “quando assinámos foi a versão integral para justificar a importância devida ao senhor secretário. Lamento as palavras da senhora secretária”. Atalhou o presidente da Assembleia: “a acta original foi enviada pelo executivo a pelo menos duas pessoas!”
Raquel Santos, membro do executivo e eleita pelo PS, expondo a sua versão, disse: “assim que me apercebi das rasuras comuniquei ao senhor presidente”.
Ricardo Nóbrega, eleito pelo CPC, arguiu: “é obrigação da Junta entregar as actas a tempo e horas. A acta entregue foi rasurada e isto é profundamente ilegal. Há aqui uma ilegalidade grave. Temos uma autora que assumiu estas ilegalidades.”
Pinto dos Santos, do PSD, referindo-se ao vogal que não estava presente e alegadamente esteve na origem da necessidade da alteração da acta, remoeu: “isto foi atirar poeira para os olhos das pessoas. Assiduidade e pontualidade? Só se for virtual!”
Interrompeu Armando Agria: “não há contrato nenhum entre a UFC e o vogal que não está cá hoje. Vou remeter os documentos à Administração Local. Há uma configuração de crime público. Como presidente da Assembleia, esta a posição que me vejo forçado para que esta UFC seja tida como pessoa de bem. Vou participar do senhor presidente do executivo. Convido-o colaborar comigo na sua elaboração. É num espírito de boa-fé que estou aqui!”

GRANDES OPÇÕES E O ENTORNAR DO COPO

Passou-se a outro ponto agendado: A aprovação do Plano de Actividades e Orçamento. Mais um problema, um “quid pro quo”, tomar uma coisa por outra. E começou logo na introdução do documento, cheio de metáforas alusivas a Luís de Camões e a “Mirabeau”, eloquente parlamentar francês da segunda metade do século XVIII. O prefácio, presumivelmente escrito por Hélder Abreu, classificava a oposição de destrutiva e dava as boas-vindas aos contributos de quem vier por bem e que não alimente vaidades e posições destrutivas numa lógica de “terra queimada”. Foi a gota que faltava numa noite onde nada parecia encaixar. Quem deveria estar não esteve como, por exemplo, o Técnico Oficial de Contas efectivo, que se fez representar por outro, alegadamente, sem estar mandatado para o efeito. Como seria de prever, as coisas correram mal e os disparos menos cordiais entre Hélder Abreu e alguns membros da Assembleia –estes acusando a recepção do documento de ilegal porque apenas subscrito por três membros, entre outras deficiências- fizeram-se ouvir e, obrigando à intervenção de Armando Agria a repor a tranquilidade, o diploma foi retirado para melhor apreciação por parte do executivo.
Não se percebendo muito bem o procedimento, o público presente e pronto a participar com assuntos pessoais começou a intervir a dez minutos da uma hora da manhã. No fim da sessão, depois de ter exposto as suas preocupações e referindo-se a tudo o que ouviu e viu, Maria do Carmo Ferreira rematou: “isto não é uma comédia, é um drama!”

COISAS QUE AINDA NÃO FIZ EM 2015





Parece impossível, passados dois dias do Novo Ano e ainda não fiz nada de útil. Já deveria ter alterado a foto de perfil do Facebook –ai meus Deus que imagem tão pindérica a que tenho lá! Até pareço o coiso do outro, o gajo da estátua! Assim como quero eu que alguém goste de mim?
Já deveria ter colocado as fotos do meu fim de Ano. Mostrar uma longa mesa farta, cheia de iguarias, e os meus muitos amigos. Ai! O que é que se passa comigo? Eu nunca fui assim! Será que estou perdido nesta vida? Ai, Nosso Senhor Jesus Cristo me valha! Quem me viu e quem me vê!
Ao menos poderia mostrar o meu cão! Que por acaso não tenho mas isso não importa nada. O que é preciso é aparecer. Quem não tem um animal não pode ser boa pessoa!
Ainda não assinei nenhuma petição para libertar o Sócrates. Bolas! Vê-se logo que sou mesmo português sem tomates, carago! Um nacional que se preze deve estar ao lado do antigo primeiro-ministro e integralmente contra a justiça.
Ainda não escrevi nem uma linha no blogue nem contra nem a favor do homem da filosofia de Paris. Devo ser mesmo filho despartidarizado e disfuncional.
Será que o Mário Soares está doente? Já estamos em pleno terceiro dia e o ex-Presidente da República não falou nem escreveu nada sobre o Sócrates? Querem ver que o homem está com uma gripe?
Ainda só passaram dois dias e já estou cheio de saudade do ano passado. Ai se eu pudesse, juro, mandava-lhe um chuto no cú –isto supondo que os anos também têm ânus.
Já estamos a três e ainda não coloquei qualquer coisa à venda num qualquer site de compra e venda. Como é que vou tapar o buraco dos excessos da noite da passagem de ano?
Ainda não desanquei no discurso de fim de Ano Novo de Cavaco Silva? Mau, mau! Sinto que estou a perder qualidades. Quem me viu e quem me vê!
Já estamos em pleno Ano Novo e continuo o mesmo idiota de sempre. Mas o que é que passa? Se é assim, se estou igualzinho, porque mudámos de ano? Isto é uma mania social de mudar tudo! Se falam em poupar, continuávamos no mesmo. São mas é uns perdulários do camano!
Já deveria ter exultado o Papa Francisco. É certo que a minha fé é de carregar pela boca e não vou às vindimas com a minha transcendência mas isso não interessa nada. Fica sempre bem. Vou ali escrever qualquer coisa e volto já!
Já lá vão três dias e ainda não recebi do Facebook o postalito com o meu ano e a mensagem “Foi um ano espectacular! Obrigado por fazeres parte dele!”. Se calhar não gosta de mim! Sinto-me tão infeliz! Onde foi que eu errei? Eu preciso saber!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

ESTAMOS EM 2015? É, NÃO É? E DEPOIS?





Ontem, dia primeiro do Ano Novo que, custe lá o que custar, vamos ter de gramar até ao fim, vi até à exaustão, a passar nos vários canais das televisões generalistas, os muitos milhares de portugueses a comemorarem efusivamente o enterro do velho e o nascimento do novo. Para além de um declarado aumento de impostos o que vai mudar na nossa vida neste Novo Ano?
A sensação é que, como barcaça, sem leme, nos estamos cada vez mais a afastar da costa da nossa identidade. Parecemos nuvens, sombras esparsas de um passado que não voltará mais. Progressivamente fomos saindo de um tempo de produção, a que chamaram industrialização, em que dava gosto desenvolver ideias, e entrámos na era do após qualquer coisa. Agora abominamos os cheiros de uma qualquer fábrica e, com grande pompa de vencedores, fazemos encerrar os últimos espécimes. Naquele tempo que nem é tanto como isso, a criação estava associada à riqueza. Visávamos ser abastados a qualquer custo mas sempre associado ao labor. Entre o nada ter, na pobreza, e o bem-estar, no desenvolvimento, apenas se conhecia uma ponte: o trabalho. Entendia-se a labuta como algo de tangível e baseado no esforço físico, no sujo fato do mecânico carregado de odor a óleo queimado. Havia uma vontade comum em inventar o que ainda não fora inventado. O que transparece nos nossos dias é que já não se cria nada. Não vale a pena. Não é compensatório para o esforço despendido. Surfamos a água plana sem nos aventurarmos na onda alterosa. Deixámos de arriscar. A luta deixou de fazer parte da vida e a apatia fez de nós caminhantes erráticos sem destino. Tentamos apenas sobreviver. Largámos a escarpa, o lugar de actores interveniente e passámos a assistentes sentados, impávidos de pasmo, que nada nos faz mover para a acção e a ver o desastre acontecer.
Mesmo sem nos dizerem, temos noção de que nasce tudo a Oriente. A China e os países emergentes passaram a ser a fábrica dos milagres. Por lá se faz o impossível a um preço tão baratinho que não faz sentido movermos um músculo até para coçarmos a omoplata quanto mais mandarmos reparar o velho secador. Avariou deposita-se no lixo. O contentor passou a ser o cemitério das nossas memórias. Como fidalgo a enumerar o brasão, orgulhosamente e com grande estilo somos consumidores. Não produzimos nada mas consumimos muito. E vendemos o que resta de outros tempos, do que os nossos pais, tirando da sua boca, nos deixaram com tanto sacrifício. Começamos por nos fazermos caros, para mostrar um estatuto que não existe, mas depressa vendemos a qualquer preço porque sabemos que estamos endividados e inseridos num oceano de pobreza. É preciso fazer dinheiro para pagar a satisfação das necessidades urgentes. Curiosamente, como em tempos idos, já não é a alimentação mas os acessórios da modernidade a que chamam bem-estar como a electricidade, a água, o gás e as comunicações -o telemóvel e o Facebook, que sem estes instrumentos não existimos. O estômago pode esperar, até para mais andar magro é estar na moda. Somos todos vendedores de alguma coisa, nem que sejam ideais. As ideias deram lugar à ideologia.
A perda deixou de ser uma probabilidade evidente entre o ser e o ter. O ter, enquanto verbo de posse, passou a ser a infra-estrutura, a razão de existir. O medo na possibilidade de perder tudo passou a constituir o terramoto natural de uma coexistência conflitual. A probabilidade de começar do zero apavora-nos. Ou estamos velhos, sem força anímica para combater, ou somos jovens, sem experiência, que não conhecemos o dissenso enquanto motor do desenvolvimento. A inveja e a pequena trica tomou-nos e, pelo egoísmo, somos surdos e cegos guerrilheiros urbanos silenciosos onde o ódio, porquanto verdade distorcida, assentou arraiais de ressentimento. Nada se perde, tudo se transforma em algo certo. Por isso matamos na vã suposição de não perder. Estamos transformados em feras, no entanto, pasme-se, a vida humana vale menos do que o animal irracional. Os sentimentos de partilha, gratidão, reconhecimento e perdão, apesar de cada vez mais badalados no Natal, são cada vez mais floreados e vazios de conteúdo humanista. Deixámos de conviver com o sofrimento. Refugiamo-nos dele no que calha, seja em ansiolíticos, álcool, drogas, jogos ou outra qualquer forma de ilusão. Somos passageiros de um trem a que tem por destino a felicidade. Viajamos em primeira classe. Evitamos não parar na estação da frustração porque somos filhos da Natureza, ou de Deus, e, por isso mesmo, temos direito a tudo e obrigações nenhumas. Somos eleitos. Melhores do que qualquer um. Olhamos os mais desfavorecidos com altivez como se eles tivessem o que merecem. Temos um secreto prazer em vê-los no chão da sorte. Em contrapartida estamos muito além do que deveríamos possuir. Somos muito injustiçados pela ventura. Merecemos muito mais.
Enquanto seres de espiritualidade, substituímos a religiosidade orgânica por uma fé mecânica. Tornamo-nos ecléticos, passámos a acreditar em várias correntes, e desprovidos de santidade, de humanidade, deixámos de acreditar num mundo melhor mas somente num universo possível onde, arrastando-nos, consigamos contemplar as belas estradas, cheias de traços brancos e resguardos luzidios, pontes e pontões em megalómanas construções arquitectónicas modernas de sumptuosidade.
A esperança deixou de ser o amanhã para ser o agora! ! Imediatamente! Tornamo-nos cépticos militantes. Ninguém nos convence facilmente. Desconfiamos dos amigos, dos familiares, dos políticos locais, do Governo, da Europa e do Mundo. A Globalização assusta-nos e passou a ser o papão-mor de todos os fantasmas. O medo tomou conta de nós e desistimos de arriscar. Nenhum esforço vale seja o que for. Sentimos a nossa fragilidade até para nos soerguermos da cama e abrir a janela para deixar entrar o Sol. Somos versos em estrofe à deriva num poema sem sentido alavancados em uma sociedade dividida entre a nobreza e a plebe. O nobre engorda e o plebeu emagrece e desaparece do nosso olhar.
O amor passou a ter um fim anunciado. É como uma gripe, só dura enquanto há febre. Perdeu o encanto da sua imortalidade. A paixão é o começo e o fim em si mesmo e deixou de ser a ligação à perenidade. Os anciãos, como totens de um modelo relacional a dois que se finou há muito tempo, são fotografias a preto e branco nos valores.
As coisas simples já não tocam a nossa atenção. O virtual ocupou o espaço do material. Passamos bem sem cheirar uma flor encostada às narinas. Apalpar as mamas de uma mulher passou a ser dispensável em planos de visionamento de longas masturbações solitárias. O tradicional deixou de ser a base e passou a mofo de sótão velho. Lavrar um campo, dar os bons dias, ir à missa ao domingo, ajudar o velhinho passaram a ser descrição para a história de um povo tristonho.
A vontade de fuga passou a ser o nosso pensamento diário. O estrangeiro passou a ser a Meca para os mais novos e a aposentação o campo da morte lenta para os de meia-idade e mais velhos. Fugir disto tudo, nem que seja para um outro qualquer inferno pelo menos onde o controlo e o domínio do Estado nos faça acreditar na liberdade que já foi um dia e onde possamos voltar a ser ao mesmo tempo contribuintes e beneficiários.
A poesia morreu na leitura que feneceu e a escrita é cada vez mais um ano novo numa única vez por ano. O que é que vai mudar este ano?


FIM DE ANO EM COIMBRA




Veja aqui muitas fotos da noite da passagem de ano, a maioria da autoria de Dinis Manuel Alves e outras que misturei e que são de outro autor e que, certamente, não me levará a mal da mistura.

"Álbum com 70 imagens reportando alguns momentos do espectáculo piromusical, um dos pontos altos dos festejos de passagem de ano organizados pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e pela Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC), e inseridos no programa “Luzes sobre a Baixa de Coimbra – Natal e Fim de Ano 2014“."




E MUITO MAIS AQUI: 

e

e
E

BOM DIA, PESSOAL...