Esses teus olhos castanhos,
são fogo no meu inverno,
são mil oceanos tamanhos,
é a porta do inferno;
Se eu olhar o teu olhar,
entro nele sem o sentir,
começo a amaldiçoar,
o meu "colar" e não sair;
Esse teu sorriso louco,
atormenta-me e faz tremer,
sinto que faço pouco,
para me compreender;
É um relâmpago na noite escura,
é uma onda na praia grande,
é uma gota de água na secura,
é um milagre que Deus mande;
Por estranho que pareça,
lá se foi meu ideal,
pode ser que aconteça,
que este amor não faça mal;
curioso como somos,
os modelos que sonhamos,
pomos fora tudo o que fomos,
só com o presente contamos;
tantos sonhos corridos em água,
tantas noites sem dormir,
tantos anos numa mágua,
para os perder sem sentir;
O que importa é o teu sorrir,
dá-me calma e tranquilidade,
pareço nem querer sair,
do teu mundo transcendental;
Essa tua voz timbrada,
ecoa nos ouvidos,
é música de arpa tocada,
um apelo aos meus sentidos;
Passamos horas a falar,
perdidos num espaço banal,
o tempo parece não importar,
quando a conversa é natural.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
sábado, 22 de setembro de 2007
OLÁ BEM-ME-QUER
Bom dia, minha flor,
pérola do meu jardim,
sei que queres um amor,
será que me queres a mim?;
Está bem, sei que sou feio,
mas é linda a minha alma,
é como se fosse centeio,
num campo de imensa calma;
Porque ris, é de mim?
Ou é cara de surpresa?
Será que és sempre assim,
dona de tão grande beleza?!;
Sei que não me ligas, pois sei,
quero só o teu olhar,
dar-te uma flor que não dei,
e um poema ao luar;
Vou-me embora, vou partir,
vou deixar-te este ensejo,
estou cansado, tenho de ir,
vou deixar-te um longo beijo.
pérola do meu jardim,
sei que queres um amor,
será que me queres a mim?;
Está bem, sei que sou feio,
mas é linda a minha alma,
é como se fosse centeio,
num campo de imensa calma;
Porque ris, é de mim?
Ou é cara de surpresa?
Será que és sempre assim,
dona de tão grande beleza?!;
Sei que não me ligas, pois sei,
quero só o teu olhar,
dar-te uma flor que não dei,
e um poema ao luar;
Vou-me embora, vou partir,
vou deixar-te este ensejo,
estou cansado, tenho de ir,
vou deixar-te um longo beijo.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER COMERCIANTE
(FOTO DE BRAGA PINHEIRO)
Anastácio é comerciante na Baixa de Coimbra. Numa daquelas ruas estreitas por onde passaram, Camões, Eça, António Nobre e tantos outros poetas anónimos, cujos desabafos literários não passaram de uma gaveta de madeira carcomida pelo tempo. Aquele homem, se o vendassem, seria capaz de descrever cada edifício, cada recanto, cada ruela, e até cada pedrinha da calçada. Pelo cheiros e pelo ruídos, à força de uma rotina continuada, conseguiria identificar qualquer largo mais recôndito. Este é o universo deste homem, a sua alma, a sua força anímica, um amor sentimental, sem explicação racional, que só quem ama entende, só quem quer bem, consegue explicar.
Anastácio começou a trabalhar no comércio de rua, mal terminou a então escola primária. Corria o ano de 1962, lembra-se, foi o ano em que os Beatles lançaram o seu primeiro trabalho discográfico: “Please, Please me”. Como se, hipoteticamente ou não, fosse uma chamada de atenção para ele, a verdade é que ele pouco ligou à profética frase, até porque tinha absoluta necessidade de trabalhar.
Em 1977, ano do maior acidente aéreo da história -583 pessoas mortas, envolvendo os aviões da Pan Am e KLM, em Tenerife, nas Ilhas Canárias- premonitoriamente ou não, ele não sabe, a verdade é que mudou para um novo patrão. O comércio, dito agora tradicional, corria veloz como navio de velas desfraldadas, tocado por ventos de feição, saídos da Revolução de Abril. Tudo se vendia, o preço pouco importava. Entrava-se na obsessão materialista, onde o que contava era o ter e o parecer, em detrimento do ser. Poucos ou nenhuns adivinhariam que décadas mais tarde, para curar esta dependência obsessiva, numa catarse, em psicanálise continuada, o país, psicologicamente, entraria em crise profunda. E, naturalmente, Anastácio, que não é presciente, legitimamente, sonhava em ser dono do seu destino, queria ser comerciante. Ser dono do seu espaço e aplicar o seu empírico conhecimento em proveito de si próprio.
Em 1996, toma de arrendamento, em cessão de exploração, a loja onde trabalhava. Começou a pagar 400contos, hoje 2000euros. Até 2002 tudo correu sobre rodas, como quem diz , a coluna do “Haver” era superior à do “Deve”.
Dois anos depois da passagem do milénio, a partir do “discurso da tanga”, a coluna do “Deve” entra em vermelho-rubro acelerado. Fala com o seu antigo patrão, tentando sensibilizá-lo para o declive económico que se inicia, para que este abaixe a renda. Ele até é um bom católico, vai todos os domingos à missa, e, afinal de contas, ele nem despendeu nenhuma verba com indemnização de duas décadas de trabalho dedicado. Além de mais, já recebeu em 10 anos qualquer coisa como 50mil contos de rendas. Mas, o homem, bom católico-praticante, não foi sensível. Religião, religião, negócios à parte. Dos três funcionários existentes, faz acordos indemnizatórios com dois e fica apenas com uma empregada. É impossível recuar mais. Os fornecedores começam a fazer marcação cerrada. Há três anos, Anastácio recorre à banca e contrai um empréstimo de 100mil euros e hipoteca a sua casa, fruto de trinta anos de trabalho. Paga aos fornecedores e novamente o “caixa” fica insolvente.
Hoje, têm vários meses de rendas em atraso e não paga os impostos há mais de um ano. O seu dia-a-dia, no seu estabelecimento, é passado em constante sobressalto. Sempre que entra uma cara estranha ele pensa: “é agora! É este que me vai fechar a loja…é das Finanças, de certeza”. Com a espada de Dâmocles suspensa sobre a sua cabeça, sente-se encurralado, não tem para onde fugir. Já não dorme mais de duas horas por noite, e, isto, se tomar, o “Xanax” diário.
Anastácio não sabe o que fazer quanto ao futuro. Com 55 anos é demasiado novo para a reforma e velho de mais para aceder a um emprego. Apesar de descontar 24,5%, mensalmente, para a Segurança Social e a sua empregada 10%, esta vai ter direito a subsídio de desemprego, ele não. Sim, sublinho, ele não terá direito a subsídio de desemprego. Porquê? Perguntarão? Eu respondo por ele: porque as associações de Comerciantes do país, em vez de se preocuparem com a sobrevivência futura dos seus associados, solicitando a inconstitucionalidade sucessiva da norma que exclui os comerciantes do acesso a uma pensão minimamente digna de sobrevivência, continuam, politicamente, a apregoarem a revitalização comercial, como se fossem ouvidos por alguém. Deveriam ter vergonha do mau serviço que prestam aos comerciantes. Estão à espera de quê para o fazer? Estarão à espera que Anastácio mande um tiro na cabeça e, amanhã, seja, pela primeira vez, título de caixa-alta de um qualquer jornal? Endemicamente, muito mal vai um país que maltrata assim os seus filhos.
(HISTÓRIA VERÍDICA)
ELEGIA A UM ANJO MEU
Eu posso ser o teu olhar ,
o poiso-feliz da tua alma,
o porta-aviões para aterrares,
o jardim da tua calma;
Posso até ser a tua Lua,
o mar da tranquilidade,
quem sabe, ser a alma tua,
a recordação da saudade?!
Posso ser o que tu quiseres,
o teu sonho, o teu demónio,
posso ir onde estiveres,
ser citadino ou campónio;
Sei que um dia muito sofreste,
deixa partilhar contigo a tua dor,
afinal, estás viva, não morreste
deixa-me ser o teu amor;
Encosta-te a mim,
deixa-me ser o teu confessor,
quero fazer tudo por ti,
imagina-me o teu salvador;
Sei que sei pouco,
e nem leio o teu olhar,
posso até parecer-te louco,
certamente, estranho, se calhar;
Posso até ser um vadio de amor,
um pedinte, entendendo a mão,
não quero bens, quero calor,
perguntas: o que queres tu então?
Quero pegar na tua alma ao colo,
ser o dono do teu corpo,
posso rastejar no solo,
sei que pensas que sou lorpo;
Mas eu sei que não sou não,
sou apenas sonhador,
o que serei eu então?!
Quero apenas ser o teu amor.
o poiso-feliz da tua alma,
o porta-aviões para aterrares,
o jardim da tua calma;
Posso até ser a tua Lua,
o mar da tranquilidade,
quem sabe, ser a alma tua,
a recordação da saudade?!
Posso ser o que tu quiseres,
o teu sonho, o teu demónio,
posso ir onde estiveres,
ser citadino ou campónio;
Sei que um dia muito sofreste,
deixa partilhar contigo a tua dor,
afinal, estás viva, não morreste
deixa-me ser o teu amor;
Encosta-te a mim,
deixa-me ser o teu confessor,
quero fazer tudo por ti,
imagina-me o teu salvador;
Sei que sei pouco,
e nem leio o teu olhar,
posso até parecer-te louco,
certamente, estranho, se calhar;
Posso até ser um vadio de amor,
um pedinte, entendendo a mão,
não quero bens, quero calor,
perguntas: o que queres tu então?
Quero pegar na tua alma ao colo,
ser o dono do teu corpo,
posso rastejar no solo,
sei que pensas que sou lorpo;
Mas eu sei que não sou não,
sou apenas sonhador,
o que serei eu então?!
Quero apenas ser o teu amor.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
A CANÇÂO DO BANDIDO
Encontrei-a há cerca de 30 dias. Não a via há mais de um ano. A Francelina é mãe de um rapaz amigo do meu filho e com os mesmos problemas deste. Aquele, tem 24 anos, extremamente sensível, talentoso para as artes, letras e música. Senhores duma dialéctica invejável, clarividentes e de uma inteligência acima do comum. Muito achacados à depressão, desde os 16 anos que a sua vida é vivida entre o isolamento do seu quarto, psiquiatras e psicólogos. Já por várias vezes estiveram empregados, mas o máximo que conseguiram permanecer nesse trabalho foram 6 meses. A média andará nos 60 dias de permanência. A cada despedimento corresponde uma profunda crise de identidade e afirmação, e, subsequentemente, mais uns anti-depressivos, mais uns ansiolíticos e mais uma caixa de “xanax”. Como a sua autodisciplina é quase zero, abandonam-se nos braços de morfeu e, como se andassem em círculo, dormem para esquecer, e, quanto mais dormem, cada vez mais vão aumentando a sua carga depressiva de isolamento e solidão. E assim é a suas vidas. Divididas entre a bipolaridade de dois dias completamente capazes de abraçar o mundo e cinco de profunda modorra anémica. Completamente perdidos numa apoplexia de falta de vontade e incapazes até de cuidarem da sua própria higiene pessoal. Devido à sua elevada inteligência, são profundamente manipuladores, conseguindo manobrar as mães como se fossem marionetas de santo Aleixo.
Depois de mais de um ano sem nos vermos, achei a Francelina muito apagada psicologicamente, como se carregasse o mundo às costas. Estava vestida de uma forma pesada, tendo em conta a sua imanente feminilidade. Ela tem 50 anos, talvez 1,60 de altura, o chamado tipo “mignon”, pequenina. Um rosto bem desenhado, num corpo bem torneado, um cabelo louro oxigenado, olhos verdes de grande ingenuidade.
Perguntei-lhe então como ia a família e as coisas lá em casa, nomeadamente com o seu filho João. “Tudo mal senhor Luís!”-exclamou em tom profundo.
“Tudo mal, como?”-interroguei com grande curiosidade e apreensão.
“O meu marido morreu, quase há um ano com um cancro. O meu João, desde essa altura, fechou-se dentro de casa, mal sai. Diz que “morreu” também com o pai que partiu. Agride-me continuamente. Olhe que há dias, cheguei a casa, abri a porta do quarto e deparou-se-me o João completamente com o cabelo rapado como o pai nos últimos dias da sua agonia. Ele é tão parecido com o meu marido que quando o vi assim, comecei a gritar desalmadamente. Parecia que estava a ver o meu marido. Ele fez aquilo para me ferir. Magoa-me muito. Vai ao ponto de dizer que não presto, que sou má mãe. Que não me quer. Só quando me pede dinheiro é que o seu tratamento para comigo muda. Ando muito infeliz senhor Luís! A minha vida resume-se a trabalhar durante o dia; à noite faço o jantar para mim e para ele, lavo a louça, tomo um comprimido para dormir e é esta a minha diária. Nem televisão me apetece ver”.
Apanhado neste turbilhão de infelizes notícias, meio a balbuciar, quase sem saber o que dizer, tentei animá-la com palavras de estímulo: “a Francelina não se pode deixar abater. O João está a viver uma profunda depressão devido ao desaparecimento do pai, num luto continuado que aumenta o seu sofrimento. Depois, duma forma calculada, projecta em si a dor da sua perda. Mas isso vai passar, vai ver. Tente retirar-lhe do quarto tudo o que o faça lembrar-lhe o seu marido: fotos e outros objectos.
Quanto a si, faça por sair de casa, passei, vá ao cinema. A francelina é uma mulher muito bonita, largue as recordações, dando-lhe apenas uma importância relativa e viva a vida. Arranje um companheiro. Comece a pensar nisso. Saia de casa, não se enterre nela como uma tumba”. Deixei-lhe o meu telefone para o caso de precisar de alguma coisa. Despedi-me, e a Francelina foi à sua vida e eu fui à minha e não mais pensei no assunto.
Ontem ligou-me: “senhor Luís posso falar consigo pessoalmente?”
“Claro, quando quiser”, respondi. Veio então tomar café comigo. Era outra Francelina que nada tinha a ver com a que estivera a falar um mês antes. Vinha toda aperaltada; cabelos louros atados, um rímel em volta dos seus bonitos olhos que brilhavam como um sol da meia-noite no Pólo Norte, um prometedor decote e uma saia justa, ligeiramente abaixo dos joelhos. Confesso que tive de disfarçar algum incómodo perante esta bela mulher.
Quando começou a falar, as palavras saíam-lhe em catadupa, numa ansiedade mal contida:
-Ó senhor Luís fiz o que me disse…estou tão feliz…
-Desculpe, Francelina, mas o que lhe disse eu?...Digo tantos disparates! –retorqui, meio a rir, sem me lembrar minimamente do que dissera há um mês atrás.
-Então você não me disse, há um mês, para eu arranjar alguém?! Então, há oito dias respondi a um anúncio no Diário de Coimbra, de um senhor divorciado que procurava uma companheira. Liguei e respondeu-me um homem de voz calma, envolvente. Um cavalheiro. As suas palavras pareciam uma brisa suave numa noite cálida de verão. Combinámos e encontrámo-nos no dia seguinte para beber um café.
Ai senhor Luís, fiquei derretida perante aquele homem charmoso. O seu porte atlético, as suas maneiras doces –começou logo por me perguntar se me podia tratar por querida…era um tratamento cerimonioso, juntamente com o de “você”, referiu.
O seu fato, Don Giovani –que eu vi logo, quando ele tirou o casaco e pôs a etiqueta à vista. As suas calças bem vincadas, a terminar num sapato de verniz. E o seu perfume?! –a mulher parecia em êxtase, no entanto, para não pensar que eu não estava a tomar atenção, fiz uma pergunta:
-E o carro como era? Era novo? Intuí antecipadamente a resposta.
-Era, senhor Luís, um carrão, tipo Opel. –respondeu.
Na segunda vez que nos encontrámos convidou-me para irmos até ao Luso. E fomos! Durante o caminho, as músicas que ele escolheu eram as minhas preferidas: Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Madredeus. Ai, até estou arrepiada! Como é que ele sabia que eram as minhas músicas preferidas?
-Então e o que faz ele profissionalmente? –interroguei, embora também soubesse, mais ou menos, o que iria sair.
-É inspector da Segurança Social. Ganha muito bem. Claro que está a ajudar a ex-mulher e uma filha que está a acabar o curso. Coitado! Ainda ajuda a mãe que mora ali para os lados da Conchada. Disse-me que não é nada materialista. Ele só quer viver o dia-a-dia. O dinheiro não lhe interessa.
Se você visse como ele me trata: todos os dias me liga, logo de manhã e à noite. O seu cumprimento, numa voz pousada, é sempre: “como está o meu docinho, o meu bijuzinho, o meu anjo que Deus proteja na sua glória? À noite, liga-me sempre: “durma com Deus minha querida, que os anjos velem por si”.
Ai senhor Luís este homem é o meu delírio. Durante o dia só penso nele e à noite, durante o sono, ocupa todo o meu espaço de sonho.
Quando lhe perguntei se bebia, disse que não. Nem socialmente. Fumar, muito raramente. Já viu? Até nisso ele é como o meu falecido marido. Ai este homem não existe, é uma aparição! Veja bem, disse-me que tem 100 pares de sapatos e um armário cheio de camisas. Que amanhã irá para o Alentejo, resolver uns problemas acerca de umas herdades que são da mãe. Para a semana vai para Tenerife. –Remata em jeito de conclusão e como se não admitisse réplica.
-Uma coisa, que não entendo, Francelina, porque me está a contar isso tudo? –Tento indagar na bruma dos meus pensamentos interrogativos.
-Ó senhor Luís, estou numa terrível dúvida que me consome a alma. Este homem é demasiado perfeito. É demais para mim. Tenho medo de me enganar. Ajude-me senhor Luís. –Refere em apelo quase místico, fixando em mim os seus lindos olhos verdes de prado sedutor.
-Bom, Francelina, eu posso dizer-lhe o que penso, isso posso, mas o que lhe diz a sua intuição feminina? –inquiro-a.
-Que algo não bate certo, é demasiado perfeito para ser real. É como se ele soubesse tudo o que eu gosto. Como se estivesse dentro de mim. Sinto como se nos conhecêssemos há décadas. É isto que me mete medo.
-Então vou dizer-lhe o que penso, mas alerto-a que é mera intuição, posso enganar-me.
A Francelina está a ser enganada!
-Como?! –Ela desatou num choro compulsivo.
-Repare, há aí uma série de contradições. Por exemplo, vou apenas referir-lhe duas; se ele se diz não-materialista, como explica que ele tenha 100 pares de sapatos? E você acredita nisso? Olhe outra questão que ressalta; sendo ele tão bem apresentado e vivido, precisa de recorrer a um anúncio de jornal? Sabe, diz-nos o senso comum, que só recorre a um jornal, procurando uma conquista amorosa, uma pessoa, com pouco relacionamento social, tímida e introspecta. Ora, não é o caso desse seu conquistador barato. Segundo conta, todo ele é charme e à vontade no campo feminino.
Não gostaria de desapontá-la, no entanto, ele é o típico modelo de D.Juan, rasco, retirado dum velho filme, da década de 80, passado nos nossos ecrãs: “O CAPITÃO ROBY”.
-Mas..mas, como é que ele adivinhou tudo o que eu gosto? –procura ela entender por entre um choro desbragado e umas frases titubeantes.
-Olhe, Francelina, estes travestidos gentlemans têm uma intuição fora do comum. Eles têm vários perfis desenhados, de anteriores mulheres que conheceram. Então este quando olhou para si, bastou-lhe, mentalmente, aplicar a chapa correspondente. Acredite que é muito fácil.
Mas faça o seguinte: quando ele lhe voltar telefonar pergunte-lhe o nome completo. –nem de propósito o telemóvel da senhora toca. Era o cavalheiro. Ela perguntou-lhe o nome, ele a muito custo lá lho deu.
-Ai, sabe uma coisa? -Questiona-me a minha amiga. Eu notei que ele ficou muito atrapalhado. E mais; já nem se despediu com a habitual frase “até amanhã meu doce e adorado anjo”.
Hoje, liguei para a Segurança Social e, naqueles serviços, não existe nenhum inspector com o nome indicado.
Ao comunicar o facto à minha amiga Francelina, ela ficou de rastos e por entre lágrimas sofridas de desilusão interrogava: “porquê eu?”.
(HISTÓRIA VERÍDICA)
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
SAUDADE...
Ela vinha vestida de negro. De passo ondulante, entrou no café e todos os homens presentes levantaram os olhos, como se, o seu andar flutuante e libidinoso, de pé-ante-pé, fosse um ambulante rasgado apelo aos sentidos masculinos.
Porque nos conhecemos, quando me viu, poisou em mim os seus belos olhos castanhos rasgados e veio ter comigo à mesa. No meio de tantos olhares masculinos senti-me um eleito. Um porta-aviões que recebe o protótipo sulcador dos ares e admirado por todos. Conheço esta mulher há uns 3 anos. A Lena tem 45 anos, marcados no calendário do tempo, mas quem olhar para ela não lhe dará mais de 40. Intelectualmente não é muito esperta, meio dividida entre o conhecimento adquirido ao longo da vida, a revista Maria e umas fugazes leituras no jornal diário da cidade. Mas, a verdade, é que às vezes surpreende-me com frases tiradas do fundo de uma alma que parece não ser a sua. A natureza foi pródiga com esta desejada viçosa mulher. Um metro e setenta e poucos, uma cara redonda, cabelos pretos, cor de azeviche, compridos muito bem distribuídos num corpo de ninfa; provavelmente, se vivesse no tempo de Rafael (1483-1520) teria sido, pela certa, um dos modelos que teria posado para uma das suas três graças.
Eu sabia que o seu actual companheiro e último, desde há cerca de dois anos estava muito doente. Ao vê-la de luto, intuí imediatamente o que tinha acontecido. Mesmo assim, arrisquei uma pergunta de resposta conhecida antecipadamente:
-Porque andas de luto Lena? –interroguei, tentando disfarçar a minha intuição presciente.
-Então não sabes?!...O meu António partiu há duas semanas. Deixou-me. Eu sei que está bem! Respondeu, ensimesmada, dividida entre a interrogação e a constatação.
-Os meus pêsames, Lena. Ainda tão novo: tinha há volta de 55 anos, não era? Mas que se há-de fazer? Todos iremos um dia. Afinal a vida é apenas as férias da morte. É bom que todos aproveitemos bem estas “vacances”. Podem acabar a qualquer momento.
Como sabes que está bem? -olho para ela com ar de redobrada admiração.
-Olha, há dias estava a dormir no sofá e, em sonho, vi-o na ombreira da porta da sala. Sorria para mim tranquilamente. O seu rosto estava envolto numa forte luz. Os seus olhos, que conheci tão bem, pareciam de porcelana, brilhavam muito. Todo o seu corpo estava envolto numa luz amarela, parecia os faróis de um carro. Pela forma embevecida como olhava para mim, sei que está bem. No dia da missa do sétimo dia eu “senti” que ele estava ali. Foi uma missa tão linda…
-Vocês eram muito amigos não eram? –interpelei.
-Nós éramos muito mais do que tudo o que se possa imaginar. Ele era o meu companheiro das horas vazias, aquele que estava sempre presente. Era o amante certo, nas horas incertas, sem nunca o ser em tempo algum. –Novamente a Lena pareceu cair numa divagação etérea.
-Explica isso, Lena, “o amante certo, nas horas incertas, sem nunca o ser”? –Interpelei.
-Sim! Sabes que ele tinha um “pacemaker”, de modo que o médico, logo que nos juntámos, avisou que ele não poderia fazer amor comigo. Se o fizesse, poder-se-ia ficar a qualquer momento. E, fogo, já viste, o risco que ele corria? E até para mim, se me acontecesse tal coisa…era um trauma para toda a vida, um homem exalar o último suspiro em cima de mim? Por isso nunca arrisquei a vida dele. Mas também não fez falta nenhuma –soletrou, com aquele seu ar de menina.
O que contava era o seu telefonema a meio da manhã: “então como está o meu anjo?”.
Era o chegar à noite, depois do trabalho, e ter o jantar feito. O que contava eram as suas carícias, embevecidas, nos meus cabelos e no rosto, acompanhadas de palavras embrulhadas em mel:”adoro-te meu amor. És a mulher da minha vida…casa comigo Lena". As saudades que tenho de acordar com ele abraçado ao meu pescoço.
Como hei-de curar esta saudade?...As saudades que tenho dele…-estas palavras foram interrompidas por um desbragado mar de lágrimas…
(HISTÓRIA VERÍDICA)
Porque nos conhecemos, quando me viu, poisou em mim os seus belos olhos castanhos rasgados e veio ter comigo à mesa. No meio de tantos olhares masculinos senti-me um eleito. Um porta-aviões que recebe o protótipo sulcador dos ares e admirado por todos. Conheço esta mulher há uns 3 anos. A Lena tem 45 anos, marcados no calendário do tempo, mas quem olhar para ela não lhe dará mais de 40. Intelectualmente não é muito esperta, meio dividida entre o conhecimento adquirido ao longo da vida, a revista Maria e umas fugazes leituras no jornal diário da cidade. Mas, a verdade, é que às vezes surpreende-me com frases tiradas do fundo de uma alma que parece não ser a sua. A natureza foi pródiga com esta desejada viçosa mulher. Um metro e setenta e poucos, uma cara redonda, cabelos pretos, cor de azeviche, compridos muito bem distribuídos num corpo de ninfa; provavelmente, se vivesse no tempo de Rafael (1483-1520) teria sido, pela certa, um dos modelos que teria posado para uma das suas três graças.
Eu sabia que o seu actual companheiro e último, desde há cerca de dois anos estava muito doente. Ao vê-la de luto, intuí imediatamente o que tinha acontecido. Mesmo assim, arrisquei uma pergunta de resposta conhecida antecipadamente:
-Porque andas de luto Lena? –interroguei, tentando disfarçar a minha intuição presciente.
-Então não sabes?!...O meu António partiu há duas semanas. Deixou-me. Eu sei que está bem! Respondeu, ensimesmada, dividida entre a interrogação e a constatação.
-Os meus pêsames, Lena. Ainda tão novo: tinha há volta de 55 anos, não era? Mas que se há-de fazer? Todos iremos um dia. Afinal a vida é apenas as férias da morte. É bom que todos aproveitemos bem estas “vacances”. Podem acabar a qualquer momento.
Como sabes que está bem? -olho para ela com ar de redobrada admiração.
-Olha, há dias estava a dormir no sofá e, em sonho, vi-o na ombreira da porta da sala. Sorria para mim tranquilamente. O seu rosto estava envolto numa forte luz. Os seus olhos, que conheci tão bem, pareciam de porcelana, brilhavam muito. Todo o seu corpo estava envolto numa luz amarela, parecia os faróis de um carro. Pela forma embevecida como olhava para mim, sei que está bem. No dia da missa do sétimo dia eu “senti” que ele estava ali. Foi uma missa tão linda…
-Vocês eram muito amigos não eram? –interpelei.
-Nós éramos muito mais do que tudo o que se possa imaginar. Ele era o meu companheiro das horas vazias, aquele que estava sempre presente. Era o amante certo, nas horas incertas, sem nunca o ser em tempo algum. –Novamente a Lena pareceu cair numa divagação etérea.
-Explica isso, Lena, “o amante certo, nas horas incertas, sem nunca o ser”? –Interpelei.
-Sim! Sabes que ele tinha um “pacemaker”, de modo que o médico, logo que nos juntámos, avisou que ele não poderia fazer amor comigo. Se o fizesse, poder-se-ia ficar a qualquer momento. E, fogo, já viste, o risco que ele corria? E até para mim, se me acontecesse tal coisa…era um trauma para toda a vida, um homem exalar o último suspiro em cima de mim? Por isso nunca arrisquei a vida dele. Mas também não fez falta nenhuma –soletrou, com aquele seu ar de menina.
O que contava era o seu telefonema a meio da manhã: “então como está o meu anjo?”.
Era o chegar à noite, depois do trabalho, e ter o jantar feito. O que contava eram as suas carícias, embevecidas, nos meus cabelos e no rosto, acompanhadas de palavras embrulhadas em mel:”adoro-te meu amor. És a mulher da minha vida…casa comigo Lena". As saudades que tenho de acordar com ele abraçado ao meu pescoço.
Como hei-de curar esta saudade?...As saudades que tenho dele…-estas palavras foram interrompidas por um desbragado mar de lágrimas…
(HISTÓRIA VERÍDICA)
OLÁ, ROSA!
Bom dia rosa sentida,
mais um dia para vencer,
continuas a ser querida,
um amor te há-de querer;
Afogas-te em labor,
como uma profilaxia,
pareces não querer amor,
mas ele é para ti uma mania;
Tantos sonhos arrumados,
no baú das recordações,
são velhos mas não esfumados,
estão juntos de mil paixões;
Quando olhas o presente,
e pensas não ter futuro,
olhas para tanta gente,
esperas, um dia, ter um furo;
fechas-te na tua couraça,
pareces um caracol,
às vezes ris de chalaça,
por teu amor estar em formol;
Estás usada mas não antiga,
serás uma bela mulher,
corres, corres como formiga,
só te leva quem souber.
mais um dia para vencer,
continuas a ser querida,
um amor te há-de querer;
Afogas-te em labor,
como uma profilaxia,
pareces não querer amor,
mas ele é para ti uma mania;
Tantos sonhos arrumados,
no baú das recordações,
são velhos mas não esfumados,
estão juntos de mil paixões;
Quando olhas o presente,
e pensas não ter futuro,
olhas para tanta gente,
esperas, um dia, ter um furo;
fechas-te na tua couraça,
pareces um caracol,
às vezes ris de chalaça,
por teu amor estar em formol;
Estás usada mas não antiga,
serás uma bela mulher,
corres, corres como formiga,
só te leva quem souber.
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