quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

HOJE TOCOU-ME UMA SAUDADE...




Desde 2010, quando deixou de ser útil, que nunca mais a visitei. Todos os dias passo por ela mas, como alguém que se quer esquecer, olho furtivamente para o seu rosto e continuo a caminhar. No fundo, bem no fundo, é como se não existisse fisicamente e só a sua memória permanecesse incólume na minha cabeça.
Na última segunda-feira um homem, funcionário de uma empresa que não anotei, como médico a esvaziar um corpo de líquidos excedentários, com a ajuda de um motor, durante várias horas, retirou água do seu ventre. O seu rosto, a sua montra, como pessoa que perdeu toda a prestabilidade e com desprezo se maltrata, levou há dias uma calhoada no vidro e, perante a passividade de todos, que passam a bola da responsabilidade para uns quantos, e alguns que têm o encargo de evitar uma tragédia, parece uma velhinha abandonada e sozinha. Alheio a isto tudo, ou talvez não, o enorme vidro da enorme vitrina vai abrindo, abrindo até um dia destes que, mais que certo, vai ferir alguém. Na cave, mesmo apesar de há dias ter sido esvaziada, cerca de um metro de altura água límpida e pura, como pura são os frutos da natureza, sem qualquer resguardo, espera que uma criança, um demente, um ébrio lá morra afogado. Nessa altura, virá lamentar-se a inércia e só a perda de uma vida, num jornal local, vai merecer meia dúzia de linhas. As Galerias Coimbra, uma das mais importantes catedrais de comércio na Baixa de Coimbra, fora da sua época neste tempo sem tempo para a história, não será notícia.
Transponho a porta de entrada que notoriamente foi forçada e penetro no rés-do-chão das Galerias Coimbra. Como se entrasse nos anéis do tempo, faço uma viagem com cerca de trinta e cinco anos para trás.

ANDAR PARA TRÁS NA MEMÓRIA

Tinha 17 anos, em 1973, quando, sem perceber nada de panos, dei entrada na faculdade de retalho, a Casa Santiago, na Praça do Comércio, primeira de outras que se seguiriam pela mão do mesmo timoneiro: José dos Santos Coimbra. Era um prédio inteiro, constituído por três andares, todo destinado a venda de pronto-a-vestir –nesta altura ainda incipiente e a dar os primeiros passos- e com tecidos a metro para mandar confeccionar por medida.
A Casa Santiago ficava mesmo em frente à Igreja com o mesmo nome. Era ali no terreiro, próximo das escadas de pedra, que, diariamente, um vendedor de banha-da-cobra, dando uma lição social na arte de convencimento, juntava em seu redor um grupo de transeuntes de cerca de uma dúzia de pessoas.
Logo no primeiro dia, quase como uma espécie de teste, o patrão, o senhor José dos Santos Coimbra, mandou-me atender uma senhora que precisava de comprar um metro de pano para uma saia. A secção de tecidos a metro era no primeiro-andar. Não sei como fiz, mas também não disse que não era capaz -já trazia sete anos de tarimba experiencial na hotelaria e sabia que tinha de me desenrascar. O que sei é que, quase sem saber pegar numa tesoura, puxando de várias peças de fazenda e arrancando argumentação rebuscada de vendedor, cortei o tecido e vendi.
Foi nesta altura, em 1973, que José Coimbra adquiriu um edifício ao lado e que, cerca de um ano depois, viria a nascer as Galerias Coimbra. Mandando afundar o piso térreo, abaixo do nível das águas do Mondego e que obrigava a ter um motor de sucção permanentemente ligado, fez uma cave. Em cima mais dois pisos, todos para comércio de pronto-a-vestir –mais que certo, pressagiava que a roupa por medida teria os dias contados. E assim foi.

ENTRAR NA MÁQUINA DO TEMPO

Estamos em 10 de Fevereiro de 1980. Estou a atravessar a porta de entrada das Galerias Coimbra. Tenho 23 anos e uma vontade enorme de vencer na vida. Não sei como vou conseguir mas, custe o que custar, tenho de me estabelecer por conta-própria. Deito-me na cama com esse sonho e levanto-me embrulhado na sua imaginação.
Estou no piso térreo. Num ambiente que conheço tão bem, os meus olhos batem tudo em redor. É a “Secção de Senhora”. Os vestidos e casacos, apesar de bem-arrumados, amontoam-se pela enorme quantidade e qualidade dos modelos. Lá mais ao fundo está uma cliente a ser atendida pela Adélia –é uma mulher insinuante, curvilínea, de cabelos negros em cascata e de uma beleza impressionante. Pelo enorme à-vontade, segurança e excelente argumentação, pela simpatia a rodos, faz o que quer de um qualquer comprador. É tiro e queda. Nunca vi ninguém assim. Um pouco ao lado está a Rita. Limpa os vidros dos vários balcões de apoio e que servem de expositores para várias dezenas de saias plissadas -os vincados estão na moda. 
No canto, perto da porta, está o João Guedes, o homem dos sete ofícios. Está a montar mais um expositor de tubos niquelados, certamente porque teria chegado mais mercadoria e é preciso ganhar espaço.
Junto à caixa-registadora está o senhor Coimbra. Como faroleiro que bate tudo em redor e não deixa passar nada, olha para mim e, numa voz imperativa, chicoteante, diz: "o que anda a fazer, Luís? Veja lá! Veja lá! É preciso agarrar bem o cliente. As coisas estão muito más! Vá à cave e arrume as malhas” –havia ali dois princípios: um, o empregado nunca poderia estar sem arrumar fosse o que fosse, outro, cada cliente teria de corresponder a uma venda.
Desço à cave. É a “Secção de Homem”. Com um lote de calças à sua frente e a colocá-las direitinhas, está o Sereno, o mestre das montras –é ele o criativo encarregue de suscitar o desejo do mirone para entrar dentro da loja. Mais ao lado, a sacudir o pó dos fatos, está o Vasco, de cerca de vinte anos, o filho do Senhor Rui –este já veterano na casa e praticamente desde a fundação da firma. No seu lado esquerdo, a ver se alguém descia para ser mais rápido a atender, estava o Valdemar. Na ponta de cá –que se vê da rua- estava a Filomena a mexer em vestidos de criança, também uma excelente vendedora e muito simpática –aliás, a simpatia não era um simples adorno mas uma qualidade imperiosa e saliente que, apesar de imposta obrigatoriamente, tinha de vir de dentro de cada um de nós. Era a nossa "arma" invisível que, conjuntamente com a argumentação na dialética, ajudava no convencimento do freguês. Os antipáticos não tinham ali lugar.
Conforme me foi ordenado, dei um jeito às malhas e como neste dia, talvez devido à chuva copiosa que caía lá fora, não havia muito trabalho, subi ao primeiro-andar. Aqui era a secção de noivas. Num longo expositor vários modelos esperavam a prova de candidatas ao matrimónio. Dei uma graça à Edite, que estava a atender uma noiva.
Talvez por que o senhor Coimbra não estivesse presente no momento –conhecíamos a sua presença pelo seu pigarrear constante-, saí a porta principal, subi mais um piso e fui ao escritório cumprimentar o gerente, o Ramiro, que estava de volta de uma papelada.
Voltei a sair e, dando mais uns passos na rua, que mostrava as pessoas em fila, como formigas, na Rua Eduardo Coelho, entrei nas montras metidas para dentro da Casa Santiago. Junto à caixa-registadora estava a Olinda –já falecida- e irmã da Edite. Virei à direita em direcção às escadas e fui para a cave. Lá em baixo estava o Gonçalves a vender um fato, mais que certo para um comprador que teria um “casório” próximo. Tal como a Adélia na “Secção de Senhora”, o Gonçalves, na “Secção de Homem”, estava para aquele artigo como Anatoly Karpov estava para o xadrez. Era o mestre dos mestres do seu tempo na arte de negociar. Cliente que lhe caísse em mão dificilmente não comprava. Era (e é, porque felizmente ainda está boa saúde) um profundo conhecedor da alma humana. Bastava-lhe ver ainda o cliente a descer as escadas e já estava a “fotografar” o seu íntimo. Pela sua competência a vender chegava a criar invejas entre os restantes colegas. Simplesmente espectacular, este Gonçalves que conheci tão bem e tanto me ensinou –como outros vendedores mais velhos do que eu. Em metáfora, todos e sem excepção, formavam um exército mentalizado e profundamente disciplinado para "matar", ou seja, vender. Quem não seguisse as ordens do "general" -o senhor Coimbra-, e não mostrasse o que valia, só tinha um caminho: a deserção compulsiva.
 Ao lado, à espera de quem viesse, estava o senhor Rui, o pai do Vasco, e, como todos, também bom vendedor. Mais ao lado a arrumar as camisas de homem, estava o João, um rapaz de trinta e poucos anos, garboso e muito senhor de si –pareço estar a vê-lo a cofiar o bigode e a passar a palma da mão pelos cabelos que rareavam na fronte e se alongavam para trás.
Depois de meter conversa com eles –confesso que nem sei me ligaram alguma coisa- subi novamente, agora dois pisos e fui cumprimentar o senhor António. Era o gerente da Casa Santiago. Era um homem robusto, de voz pausada mas forte, que sem elevar a tonalidade se fazia ouvir por todos –por que, parece-me, também sabia escutar os lamentos de cada um.
Continuei a subir o edifício. Em cima, na secção de criança e de tecidos a metro, estava o “Geninho”, um “velhote” em face da minha idade de vinte e poucos anos. Continuei a galgar degraus e mais um andar e fui dar um beijinho à Domitília –a chefe das costureiras. Estava na companhia de mais três profissionais da agulha e do dedal.

HAVIA OUTRAS

Em redor destas duas catedrais, onde tantos e tantos aprendizes de comerciantes como eu tiraram a licenciatura, havia mais lojas de José dos Santos Coimbra -o "Jota", como era reconhecido em abreviação entre nós. Num raio de uma centena de metros mais sete lojas marcavam o terreno. Ao todo oito estabelecimentos que vendiam de tudo, desde brinquedos até sapatos. Na Rua da Louça –com o Carlos, um dedicado e espectacular funcionário. Foi ele que me ensinou muito do que sei de comércio. Na Rua das Padeiras. No Largo da Freiria, na recente loja Romy –na companhia do José Alberto e outra moça que não recordo o nome, abrimos este estabelecimento com o nome “Casa Jovem”, virada para os adolescentes –por conta de José Coimbra. Havia ainda outra entre as Galerias e a Casa Santiago. Mais tarde o antigo Carlos Camiseiro, em frente às Galerias, e a Mango na desaparecida Casa das Gabardinas, na Rua Ferreira Borges.
Ao todo, esta grande firma chegou a ter 38 empregados –infelizmente, que me perdoem, já não lembro o nome de todos. Em 2000 faleceu o grande empresário José Coimbra. Em 2008 encerrou a última das suas “meninas”, as Galerias Coimbra. Hoje, neste Fevereiro de 2016, numa falta de respeito inqualificável, jaz ao abandono. Com imensa tristeza pelo rumo que o comércio tradicional há muitos anos está a tomar, uma lágrima de saudade balança entre cai não cai.


TEXTO RELACIONADO

"A calhoada destruidora"

2 comentários:

SuperFebras disse...

Amigo

Este seu fado em prosa até a mim me transportou aos anos 70 .
Que bom é recordar a minha boa e bonita cidade mãe.
Um dos benefícios de ter partido em 1979 são as recordações de uma Coimbra formigueira, atarefada, cheia de cheiros e sons de gente apressada tamaqueando sinuosas calçadas que pareciam, como pele de tambor, ter sido afinadas ao timbre de cada rua. Ora agudo nas estreitas vias ora grave nas seculares praças da nossa baixa.
É com muita pena que digo que foi pela graça de Deus que fui liberado de assistir ao vagaroso colapso do em tempos açodado comércio e atarefadas oficinas. Foi como Coimbra tivesse sido atirada a uma praça de toiros e sujeita a constante investidas dos marrões sem escrúpulos que como cães raivosos salivando os cantos da boca se foram instalando e de dente afiado protegem a lambuzada baronia que pela trela os guia e lhe vai atirando à pia uns nacos de toucinho para que não se queixem que é pequeno e duro o osso a que se atiraram.
O meu filho, hoje a viver em Portugal eludido pelas histórias que lhe fui contando embelezadas pela dor da saudade, à dias mandou-me uma fotografia por ele tirada na margem esquerda do tão cantado Mondego bem perto do lugar onde jazem alguns dos meus familiares.
A foto é da pose anfiteatral da nossa bela cidade. Mas que bonita continua iluminada por meigos raio de luz poente, o sol de Portugal!
Quem poderá imaginar que dentro daquele casario um cancro de incompetência governamental lhe rói as fundações e a expõe à ameaça de ruir? Que julgamento terão um dia tão fracos políticos, escarros de turbeculoso sangrentos de corrupção?
Que diriam os meus avós se cá voltassem? Que dirão os meus netos das minhas histórias de Coimbra? Apelo que se faça algo ou por mão Divina aconteça algo para que eles não digam que os contos do avô afinal eram da carochinha.

Um abraço esperançado e que lhe transmita força
Álvaro José da Silva Pratas Leitao

Anónimo disse...

Realmente, é uma tristeza o que se passa hoje em dia com a "Baixa" de Coimbra... Também eu recordo com saudade os tempos em que todas essas ruas fervilhavam de movimento e vida.Desafortunadamente, tudo evoluíu (no caso, para bem pior); afortunadamente, também eu conheci (melhor dizendo:conheço!) o Sr. António, Rui, Ramiro, Carlos, João, AGA, Lurdes, Fernanda, Adélia, Gonçalves-irei a Pereira um dia destes-e alguns outros que a memória não abarca.
Obrigado ao autor do blog por estas "estórias"verdadeiras que retratam um tempo que não volta mais...