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O dia, ensolarado e bem temperado com a canícula, não
convidava a grandes elucrubações, meditações, sobre o passado.
Relativamente perto, a cerca de quatro dezenas de quilómetros, o
mar, esparramado na areia fina, parecia enviar convites apelativos e
invisíveis.
Embora a data de 25 de Abril,
com feriado registado no Calendário Gregoriano, fosse de apologia,
exaltação, pelos significados transformador e revolucionário, a
verdade é que, por volta das 11h00, a cidade da Mealhada estava mais
calma do que noutros dias de semana, com pouco ou nenhum movimento
nas suas ruas e ruelas interiores. Até as sombras avançavam
devagar.
O Café Cote d’Azur, para
feriado de início de semana e contrariamente ao habitual, estava a
meio-gás. Metade das mesas e cadeiras apelavam a quem as ocupasse. A
trocar as voltas ao ritmo frenético costumeiro – “dois
galões, três bicas, um Martine e um pastel de nata”-, o
senhor João, o empregado de mesa e embaixador de boa-vontade da
gerência, funcionava em rame-rame.
Numa mesa, a cumprimentar quem
entrava, o Marcial, o “Menino Mota”, figura icónica da
cidade, do alto das suas 65 primaveras, fazia as honras da casa.
Tendo em conta a efeméride da
implantação da Liberdade, estranhamente, ou talvez não, nem um
único cliente ostentava um cravo vermelho na lapela.
Noutra mesa ao lado, a
professora de música Maria Antónia Mota, como mãe-galinha
que protege o seu pintainho, envaidecida pelo sucesso do adolescente
na recente Gala da TVI, “Uma Canção para Ti”, conversava
e aconselhava o seu pupilo Pedro Pimenta, natural de Luso. O “miúdo”,
de apenas 14 anos, esguio e de altura considerável, com cabelo
encaracolado à “Tom Jones” dos idos anos de 1980, calça
e blusa cavada com rendas justas ao corpo e em redor do pescoço um colar a imitar
pérolas, no visual de artista, dá para ver que está a conquistar o
seu espaço carismático no difícil mundo do espectáculo.
2
– Há mesma hora, como quem diz 11h00 batidas na igreja
paroquial, decorria já há cerca de quarenta e cinco minutos a
sessão solene da Assembleia Municipal especial evocativa ao 49º 25
de Abril no Salão Nobre da Câmara Municipal, e transmitida para o
Mundo via “streaming”, no YouTube.
Lá dentro, nos assistentes e
intervenientes, a forma de vestir dividia as ideologias. Se era
simpatizante da esquerda (PCP) as vestes, em completa informalidade,
eram constituídas por calça de ganga, t-shirt ou camisa aberta por
cima da cintura – cravos só na mão.
Se
era do centro/esquerda (PS) a forma de apresentação, como marca de
distinção, assentava num fato e gravata de cor ligeiramente escura
e sapatinho bem polido – e cravo vermelho na lapela.
Se
era do centro-direita (PSD) a inclinação ia para o desportivo com
pullover e camisa aberta e calça branca – cravos vermelhos
ao peito, presumidamente, poucos ou nenhuns.
Se
era simpatizante/apoiante do Movimento Independente Mais e Melhor a
indumentária era uma parte da esquerda e outra parte da direita –
ou não quisesse este movimento político local implantar-se e
conquistar território ao PS e ao PSD. A forma de vestir era o fato
institucional e camisa branca aberta, sem gravata – e com cravo no
bolso pequeno do casaco.
3
– Quanto aos discursos no seu pendor interpretativo e
ideológico, o PCP, pela voz do deputado João Louceiro, fez uma
resenha do antes e do depois, aqui com críticas sublinhadas à
Comunicação Social e ao imperialismo conduzido pelos Estados Unidos
e aos lucros obscenos das grandes empresas em detrimento de mais de
dois milhões de pobres. E rematou a intervenção com “25 de
Abril sempre, fascismo nunca mais”.
Por
parte da Coligação “Juntos
pelo Concelho da Mealhada”,
que agrega o
PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal, Movimento Partido da Terra, Partido
Monárquico,
falou Pedro Semedo. Com um naipe relatado de conquistas no longínquo
ano de 1974, criticou o analfabetismo ainda vigente no país e, em
contradição, enalteceu a vinda de estrangeiros em busca de
tratamentos médicos. “Abril
vai-se cumprindo”,
disse. E continuou, “a
utopia de uns seria o pesadelo de todos os outros”.
“A
liberdade conquistada é o valor mais valorizado (…)”.
“A
brutalidade do totalitarismo”.
“Vivemos
dias difíceis”,
enfatizou. Para logo a seguir afirmar que “há
uma ideia generalizada de que o mundo está pior, não é verdade”.
E terminou com “viva
o 25 de Abril, viva a Liberdade e viva a Humanidade”.
Pelo
PS, pela voz do deputado municipal João Silva, abrindo a porta do
passado, resumidamente foi contada a história da ditadura em
Portugal dirigida à sombra de Salazar.
E,
já mais virado para dentro com uma longa lista de conquistas,
disse: “curiosamente,
em todos os campos que nomeei, o Partido Socialista teve um papel de
criador”.
E
criticou alguém: “na
Mealhada temos de continuar a pugnar por um Concelho mais forte.
Parece que andamos adormecidos e a assobiar para o lado no que a isso
diz respeito, condenando as gerações futuras e o próprio Concelho,
desculpando-nos consecutivamente com o passado, tem de haver
capacidade e rigor”.
E terminou com um elogio a vários fundadores do PS e uma salva:
“Viva
o 25 de Abril. Obrigado”
Pelo
Movimento Independente Mais e Melhor, pela voz de André Melo, num
discurso cáustico, a tocar o pessimismo, foi dito que
“Tinha por certo
que em 2024 estaríamos a celebrar a consolidação democrática. Que
viveríamos numa sociedade de iguais e sem castas e onde os todos
teríamos as mesmas responsabilidades, oportunidades, obrigações e
direitos.
(…)
Não sei se foi apenas ingenuidade ou se realmente durante algum
tempo estivemos nesse caminho. Sei
que hoje verifico que não estamos”.
E prosseguiu, “Continuamos
a ter uma imprensa muitas vezes condicionada pela “câmara
corporativa” dos velhos poderes, seletiva nas opiniões e com
agenda.
(…)
Com
intromissões à gestão infantis de políticos que claramente não
têm categoria para o cargo, seja a nível local na Ersuc com claros
choques éticos e até legais entre a administração da empresa e o
poder político que a devia escrutinar.
(…)
Não serão os
populistas, os extremistas ou os fascistas a matar Abril!” (…)
Viva o 25 de Abril”.
4
- Por parte de
António Jorge Franco, Presidente da Câmara Municipal, foi contado
o nascimento da revolução vista na sua tenra idade e da sua janela.
Deixou bem vincada a esperança num amanhã melhor, “ é
nossa responsabilidade continuar a construir um Concelho mais justo e
mais próspero onde todos os cidadãos tenham as mesmas oportunidades
e os mesmos direitos”. (…) “Viva o 25 de Abril, viva a
Mealhada, viva Portugal”.
E
a encerrar a sessão discursou Carlos Cabral, Presidente da
Assembleia Municipal. Falando de improviso, sem papel escrito
previamente, “comemorar
o 25 de Abril é sempre um dia de emoção”.
E
continuou: (…) “não
é fácil trabalhar com as limitações que o poder central, regra
geral, estejam os governos que estiverem, com as migalhas que vêm
para as autarquias”.
E
continuou: “eu
queria felicitar o nosso Presidente da Câmara pelo trabalho que tem
desempenhado neste mandato. O nosso Presidente merece o nosso
profundo respeito, porque sendo um homem com muita bonomia,
certamente está a modificar a mentalidade existente (…). Ele,
hoje, é um exemplo vivo do que é uma pessoa com muita simpatia e,
sobretudo, com grande capacidade de trabalho (…)”.
E
terminou com “Viva o 25 de Abril, viva Portugal”.