segunda-feira, 23 de maio de 2016

FALECEU PEDRO FREITAS, O "VAN GOGH" PORTUGUÊS





Foi ao abrir o Diário as Beiras de hoje que tomei contacto com a triste realidade: o Pedro Freitas faleceu. Quase sem se dar por ele, morreu como sempre viveu. Homem de extraordinário talento, arrastando-se, andou pela Baixa de Coimbra nos últimos dois anos quase sempre aos caídos por opção própria. Algumas pessoas fizeram o que podiam para o ajudar mas ele denegou sempre auxílio. Só mesmo quando a sua condição física já não permitia continuar a percorrer os becos e ruelas do Centro Histórico foi então acolhido no Farol, uma instituição destinada aos sem-abrigo e desabrigados da sorte.
Internado nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, em estado bastante debilitado no início deste ano, viria a contrair a bactéria multi-resistente aos antibióticos e, presumivelmente, teria sido esta infecção que o teria levado desta vida.

A INSENSIBILIDADE DOS SERVIÇOS HOSPITALARES

A primeira vez que o fui visitar foi em Fevereiro aos serviços de infecto-contagiosas de Cirurgia, embora me dissesse que não ia escapar dali com vida, com aspecto frágil, parecia estar ainda para as curvas. Nos serviços da enfermaria deixei o meu número de contacto para o caso de acontecer alguma coisa de grave. Foi-me prometido que, se algo anómalo ocorresse, seria informado. À medida que o fui visitando, nos meses seguintes, fui notando a sua decrepitude notória, física e psíquica.
Em meados do mês de Abril, último, recebi um telefonema de uma assistente social dos HUC a solicitar-me que, para transferir o Pedro Freitas para uma unidade de trabalhos continuados, fosse assinar uns documentos –a alegação da técnica foi que a sua familiar não queria assumir e não respondia aos telefonemas. Fui, assinei e, em seguida, desloquei-me aos serviços da Segurança Social, na Loja do Cidadão, mas comecei a aperceber-me de algum abuso por parte da assistente social para com a minha pessoa e apresentei um pedido de inquérito à administração –que ainda não recebi qualquer conclusão.

REVANCHE?

Fosse ou não por ter reclamado um melhor tratamento humanitário para o Pedro Freitas, a verdade é que, estando nos serviços de cirurgia o meu contacto, não fui avisado do triste desenlace. É triste morrer sozinho.
Hoje, logo a seguir a ter lido a notícia no Diário as Beiras, liguei para os serviços de Cirurgia dos HUC, a interrogar a razão de não ter sido informado. Resposta de funcionário: “sabe que, mesmo tendo cá o seu contacto, primeiro é a família, e esta foi avisada”.
Perguntei então, por favor, se poderia informar-me da hora do funeral? “Não sabemos! Isso é com a família!”, respondeu a enfermeira. Continuei, e, agora que ele faleceu, pode dar-me o contacto da irmã, familiar do defunto? “Não, não podemos!”
Voltei a telefonar para o número geral do hospital e pedi que me ligassem à secretaria da Capela Mortuária. “Qual era o assunto?”, interrogaram do outro lado. Respondi que pretendia saber a que horas seria o funeral de um doente que faleceu no fim-de-semana no hospital. “Ai isso não damos!”, foi atirado de chofre. Insisti e apelei à humanidade e sensibilidade da senhora com quem falava que fizesse a transferência da chamada. Depois de alguns momentos de hesitação, lá me passou a chamada. Fiquei a saber que, hoje, o corpo de Pedro Freitas estará em câmara ardente na Capela Mortuária, dos HUC, por volta das 15h00. Em seguida, cerca das 16h30, o féretro seguirá para o crematório da Figueira da Foz.

11 comentários:

Palavras Soltas disse...

De facto é uma triste realidade portuguesa. Os desprotegidos da sorte não têm quaisquer direitos, nem sequer aos da amizade. Esse hospital devia ser inquirido das razões que o levaram a recusar informações de uma pessoa que estava interessada em saber do doente e depois até da sua morte. Crueza, insensibilidade e até alguma maldade nos últimos momentos de uma vida.

Ana Constança Pardal Monteiro Reis disse...

Triste notícia, mas o Pedro não estava a ser "acompanhado" pela irmã? Pelo menos foi o que deduzi no seu outro artigo sobre ele. Descansa em Paz, Pedro. Serás para sempre lembrado por mim e muitos outros.

Anónimo disse...

Grande amigo descansa em paz.

C.Marreiros

Tiago Albuquerque disse...

A minha infância foi a ver este excelente pintor.
Viveu no bairro onde ainda hoje habito.
Tem um Curriculum como poucos. Isto, antes de cair na malha da droga.
Grande pintor que nos deixou.
Obrigado Luís Fernandes, por tentar um final mais digno deste homem.
Obrigado por nos dar esta notícia, esperada mas sempre triste.

Unknown disse...

Conheci o Pedro Freitas, na Parede. Tenho algumas obras dele e uma em especial que foi feita por encomenda. Se como artista era extraordinário, como pessoa não existem palavras para o descrever. A sua simplicidade, a sua beleza interior deveriam servir de exemplo a muitos que por aí andam e olharam muitas vezes de lado para este SENHOR. Onde quer que estejas, recebe um grande abraço e até um dia, Pedro.
Jorge Marques

Anónimo disse...

Que país cheio de pessoas de merda que só tratam bem que lhes pode vir a trazer benefícios!!valha uma minoria excepção...obrigada,conheço muita gentalha que merece isso mas o Pedro não! tive o prazer de o conhecer um pouco,tenho uma obra dele e o currículo :(

JC disse...

Grande artista que conheci há muitos anos atrás na Parede. Apesar de "pintar a metro" a arte corria-lhe nas veias com tal intensidade que os quadros nem tinham tempo para secar.

Pedro Silva disse...

Triste noticia.
Conheci o Pedro há cerca de 20 anos, em Coimbra. Excelente artista, ser humano superior de extrema delicadeza e educação.
Tenho várias obras dele e em algumas fez questão de colocar dedicatórias especiais e muito pessoais...
Tenho muita pena de lhe ter perdido o rasto e de não ter sabido por onde e como andava nestes últimos anos, pelo que lhe peço desculpas :-(...
Até sempre Pedro Freitas e descanse em paz!

Jose Lourenco disse...

Fomos amigos e companheiros há muitos, muitos anos. Um grupo de amigos: o Xico Baião, o Toninho - Zapata, o Filipe, o Abreu, o Caincho, o Paulo Castanheira, entre outros. A última vez que estivemos juntos, foi na Parede, aquando lhe adquiri um dos seus quadros, que o guardo. Deixei de o ver. Não o sabia em Coimbra. Foi pena, pois vou lá regularmente. Adeus Pedro. Um abraço e até sempre.

Jose Lourenco disse...

Fomos amigos e companheiros há muitos, muitos anos. Um grupo de amigos: o Pedro, o Xico Baião, o Abreu, o Toninho Zapata, o Filipe, o Paulo Castanheira, o Caincho, entre outros. Um grupo quase todo de artistas - músicos e pintores. A última vez que estivemos junto, foi na Parede há uns anos atrás, aquando lhe adquiri um quadro seu, que o guardo. Deixei de o ver. Não o sabia em Coimbra. É pena porque vou lá regularmente. Adeus Pedro. Um abraço e até sempre.

Rui Villas-Boas Gomes disse...

Você é um ser Humano magnífico.