segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CIÊNCIA FAZ BEM À SAÚDE – APOIO NA VOTAÇÃO

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A deslocação a um hospital ou a outro serviço médico é, quase sempre uma situação de alguma ansiedade e stress, agravando-se fortemente se o paciente for uma criança ou jovem. O Exploratório Centro Ciência Viva de Coimbra, desde há cerca de 1 ano, tem vindo a colocar módulos que procuram criar situações de aprendizagem em que através de uma interação simples, se desencadeiam fenómenos e se colocam questões de natureza científica no Centro de Cirúrgico e no Hospital Pediátrico de Coimbra. Após um processo de avaliação, verifica-se que a sua presença contribuir fortemente para a diminuição dos níveis de stress dos mais jovens, contribuindo para melhorar substancialmente o bem estar pré consulta. A proposta consiste em aproveitar esta experiência e tentar divulga-la pelos Hospitais do país, iniciando este processo pelos com valências pediátricas. A estadia dos módulos nos hospitais deverá ser de 3 a 6 meses, tempo a partir do qual deverão rodar entre os hospitais abrangidos no projeto de forma a variar a oferta. orçamento 85800€ duração 18 meses.”

APOIO NA VOTAÇÃO


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o Exploratório Centro Ciência Viva de Coimbra (ECCVC), junto à rotunda das Lajes, na margem esquerda da Lusa Atenas, temos um projeto nacional de divulgação em que se pretende levar módulos de ciência aos hospitais e, com este acto, se procura baixar níveis de ansiedade nos doentes mais jovens. Para a concretização da ideia a favor de uma melhor saúde através do conhecimento e do entretenimento, o ECCVC necessita do seu voto e se possível apoio na divulgação.
Se você afirma, tantas vezes, que gosta da cidade e está pronto a defender as suas instituições com amor e carinho e, porque não?, com saudável bairrismo,
acredito que vai votar neste projecto social destinado a todos quantos amam os seus filhos, netos, amigos, vizinhos e querem para eles o melhor. É muito simples: basta clicar em cima do link abaixo e escrever o número do seu Bilhete de Identidade ou Cartão de Cidadão.
Eu já votei.
Se o fizer, é possível passar de um simples pano para a concretização de um grande projecto comunitário.
Em nome de todos quantos precisam deste trabalho, muito obrigado!

sábado, 17 de junho de 2017

EDITORIAL: A CARA DE PAU DOS POLÍTICOS DA NOSSA TERRA






Ontem, sexta-feira, alegadamente, Manuel Machado, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, acompanhado com séquito, e naturalmente em pré-campanha eleitoral, andou a percorrer as ruas estreitas do Centro Histórico.
Um reconhecido comerciante destas ruas esquecidas da Baixa da cidade escreveu a seguinte mensagem no Facebook: “A ver se eu entendi:
As autárquicas são de 4 em 4 anos, não é? E serão este ano, certo?
O que se passa é que há 4 anos o nosso presidente da câmara e também da Associação Nacional de Municípios passava aqui na Baixa dia sim dia sim, sempre muito sorridente e cumprimentoso. Depois desapareceu e durante os últimos 4 anos não foi visto nestas paragens. De repente...
Milagre! Voltou hoje! Sorridente e cumprimentoso como convém.
Adivinhem porquê?...”
Concordo completamente com a mensagem do meu colega de ofício. Durante os últimos quatro anos contam-se pelos dedos das mãos as vezes que o actual ocupante da cadeira do poder da Praça 8 de Maio andou pelos becos e ruelas. Para quem não sabe, a Câmara Municipal de Coimbra está implantada no casco velho desta zona protegida e parte dela classificada como Património Mundial da Humanidade . O que, no mínimo, torna a situação caricata. Mas não se pense que a oposição é melhor. Nada disso, seguindo o exemplo do presidente do executivo, aqueles que deveriam primar pela diferença, pelo contacto de porta-a-porta com os eleitores, fizeram a mesma coisa. Raramente neste quadriénio alguém viu por aqui, apresentando-se como tal, os deputados da Assembleia Municipal de Coimbra. Já para não falar nos eleitos que agora compõem a União de Freguesias de Coimbra. Quem são eles? Aposto que poucos saberão. A política local está transformada numa sensaboria, numa coisa insípida, sem sabor, sem utilidade prática, pelo menos, visto sob o olhar da comunidade.
O resultado de tudo isto, sabe-se, é a cada vez maior abstenção e desligamento da colectividade em participar na vida pública. Eles, políticos, importam-se alguma coisa com este divórcio? Claro que não, digo eu, até agradecem. Se é certo que, por um lado, quantos menos cidadãos participarem no acto eleitoral o partido que representam receberá menos, mas, por outro, os cabeças-de-lista e mais dois ou três que lhe seguem serão sempre eleitos, e como prémio: a possibilidade acrescida de arranjarem empregos para familiares e amigos.
A política autárquica, pela irresponsabilidade em gerir a coisa pública, sobretudo fazendo investimentos sem retorno, nomeadamente esbanjando dinheiro a esmo em período eleitoral, está transformada numa actividade criminosa. A coberto da lei, feita à medida por um Parlamento tendencioso, ninguém põe cobro a este escândalo que tão de perto toca uma comunidade cheia de dificuldades. É uma vergonha para todos não haver um tribunal superior ou outra instituição de fiscalização capaz de colocar termo a esta bandalheira.
Em Coimbra, os exemplos estão aí à mão de semear: a mais que discutível construção de uma rotunda e repavimentação das zonas adjacentes que custarão mais de 600 mil euros. Para trazer Ney Matogrosso ao Convento de São Francisco a edilidade, alegadamente, pagou 52,890.00 €. Sabendo-se que, embora esgotado uma semana antes, deu enorme prejuízo aos cofres camarários. A ser discutido em reunião próxima do executivo várias decisões, na mesma linha perdulária vão ser tomadas: nomeadamente a oferta do relvado a três clubes de futebol da periferia que vai orçar em 554 mil euros e o financiamento de 70 mil euros a um festival elitista que só o nome dará aval e justificação. Pergunta-se: o que faz a oposição no executivo? Faz de moldura? Que falta de vergonha, meus senhores!
Sem pretender manipular seja quem for, cada um responde por si, confesso que, perante o situacionismo que fere, este actual executivo gastador jamais levará o meu voto. Mas digo mais: perante o quadro que se apresenta sinto-me completamente perdido. Não sei ainda em quem depositar a minha confiança política. Tenho para mim, que, chegados a 2017, sem tirar de uns para pôr noutros, os candidatos que em alternativa se apresentam ao sufrágio são do mais fraco que se viu até hoje.
O que me resta? Provavelmente, pela primeira vez na minha história de vida, é não ir votar.

A TERESINHA, QUE TODOS CONHECEMOS, MORREU






Durante cerca de vinte e cinco anos a sapataria Teresinha, dando luz, cor e agitação, fez parte activa da Rua Eduardo Coelho. Até há volta de cinco anos, três empregados mal chegavam para dar vazão à clientela. Depois de um deles atingir a idade da reforma, ficaram duas funcionárias. Paulatinamente o negócio em toda a Baixa da cidade, como a líbido de homem velho, foi caindo, caindo e, pelo que se via no movimento da loja, parecia que eram demais. Dizia-se que a sede da empresa, presumivelmente no Norte e que chegou a ter muitas dependências espalhadas no todo nacional, pela crise instalada no país, entrou também em dificuldades económicas e financeiras. Constava-se por aqui que, perante os funcionários, estava em incumprimento com os salários. Uma coisa é verdade, há cerca de um mês as duas funcionárias deixaram o estabelecimento com montras feitas e não voltaram a abrir. Junto das empregadas da sapataria Teresinha, ainda tentei obter a confirmação da falta de pagamento e que estaria na justificação do abandono do posto de trabalho, mas elas, alegando que era um assunto do seu foro privado, não me passaram confiança. O mensageiro é sempre mal-visto. Durante um mês, como corpo sem vida, a loja, com tudo no sítio, ali permaneceu alheia a todas as críticas que pudesse ocasionar. Provavelmente poucos deram por isso. Hoje a morte de um estabelecimento já não é assunto para ninguém. É simplesmente uma montra que se apaga na cidade. É a continuada Marcha fúnebre.
Nesta última quarta-feira, a mostrar que o insucesso não assenta bem a ninguém, quase furtivamente, uma carrinha carregou tudo e, comparando que a história das coisas não difere assim tanto do desaparecimento das pessoas, a montra, como fantasma a pairar na antiga rua dos sapateiros outrora cheia de vida e agora com 8 lojas encerradas, ali ficou abandonada e a desafiar a imaginação de um qualquer escritor.
Uma grande salva de palmas para este estabelecimento que nos deixou. Que descanse em paz.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

BAIXA: A PRAÇA 8 DE MAIO TREME...




Todos sabemos, no nosso bairro, na nossa rua, no nosso pátio, as cidades, as vilas, aldeias ou qualquer outro lugar habitado, na sua cultura, na sua forma de ser, como bandeira desfraldada ao vento, numa distinção baseada em escolha natural, consoante se tornem mais notados, serão pessoas mais individualizadas, todavia mais representativas dos que lá vivem. Nunca são notícia nos jornais, revistas ou televisão. A sua empresa resume-se a elas mesmas enquanto pessoas simples e encadeadas num tecido pouco observado à lupa. Não criam emprego, mas, pelo seu exemplo, dão força anímica e alimentam um exército. São heróis anónimos. Por isso mesmo, pelo seu redutivismo, não são homenageados com a Cruz de Santiago, pelo Presidente da República, ou com uma simples medalha da cidade onde labutam e projectam a sua luminosidade. Como embaixadores de boa vontade, ou o contrário, alguns habitantes mais peculiares, como se todos fossem iguais, acabam em representantes da colectividade. São o sustentáculo que, em amostra, identificam o meio. Sem darmos por isso, pela convivência diária, transformam-se em alicerces da nossa própria existência. São o oposto do cagão oportunista. Numa espécie de último reduto contra o individualismo feroz que conduz a humanidade desenvolvida à solidão, são estes pilares da comunidade que na massa heterogénea recebem quase em exclusivo os bons-dias, as boas-tardes e até, por vezes uma graçola de humor quando nos cruzamos com eles.
Enquanto elos de uma sociedade sempre dinâmica mas presa a princípios e valores, somos seres sociais e associais, tanto precisamos de estar sozinhos, por vezes, como acompanhados. Se quanto à primeira, estar só, não é problema, já no segundo, estar com alguém fisicamente, com quem falar e que nos ouça, é cada vez mais problemático. A justificação é sempre a falta de tempo. Acontece que o tempo é sempre igual, a sua gestão é que pode variar consoante as necessidades de cada um.
Esta semana a Praça 8 de Maio, na sua segurança psico-social, ficou mais afectada e vulnerável. Duas vigas de cerne, que nas últimas décadas, pela resistência ao atrito da vida, têm sido o apoio diário de todos nós, recolheram ao “estaleiro” para restauro e revitalização da estrutura óssea.
A primeira, a Lena, do Quiosque Espírito Santo, foi internada nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, onde se encontra em observação, por declarado excesso de trabalho que, segundo o marido Jorge, “se manifestava em tremores, tonturas e falta de alento para encarar o dia”.
A segunda, a Adelaide, a “última tremoceira” como a “baptizei”, de 93 anos de idade e que, até agora, se apresentou sempre, quer fizesse sol ou chuva, em frente ao Café Santa Cruz a vender pistáchios, amendoins e pinhoadas, fracturou o fémur em dois lados e também está internada nos HUC onde foi submetida a uma intervenção cirúrgica de urgência. Segundo o genro, Carlos Falcão, “na última terça-feira, por volta das 19h15, quando a minha sogra, apoiada nas duas bengalas, se dirigia a pé para casa, na Rua Corpo de Deus, quando passou junto de uns sacos de lixo depositados na via pública, talvez por areias ou viscosidade no chão, escorregou, desequilibrou-se e partiu a perna, junto à anca, em dois lados. Foi operada na quarta-feira e, felizmente, encontra-se bem em convalescença. Apesar deste percalço, continua com a força-toda. Ainda ontem me dizia para eu manter os produtos bem resguardados que, quando sair do hospital, quer voltar a vender.
A estas duas grandes lutadoras, exemplos de grande coragem na luta diária projectada num “serviço público” onde se pressente uma transcendência que foge à lógica comercial, em nome da Baixa se posso escrever assim, desejamos, todos, que recuperem rapidamente a saúde e voltem depressa por que, pelo lugar que ocupam na colectividade, fazem falta. Sem as suas presenças, a Praça 8 de Maio está mais sombria e silenciosa.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

FECHOU PORTAS A F(PH)ARMÁCIA NAZARETH


IMAGEM E EDIÇÃO DO VÍDEO: ALEX RAMOS
LOCUÇÃO E REALIZAÇÃO: LUÍS FERNANDES



Encerrou esta semana a Farmácia Nazareth, na Rua Ferreira Borges, o mais antigo estabelecimento da Lusa Atenas. Esta vetusta botica, que abriu portas em 1815, foi a primeira distribuidora para Portugal de artigos para revelação de fotografia e material radiológico. Estamos a falar dos primórdios do retrato, por volta de 1860, das placas de vidro de gelatino-brometo. Nos clientes célebres da farmácia de artigos radiológicos, entre muitos, contavam-se os falecidos médicos Moura Relvas e Adolfo Rocha, o escritor Miguel Torga. Embora o final já estivesse anunciado, pensa-se sempre que o destino, se houver vontade, pode ser alterado.
Sem prantos de lamúria melosa e esparramada pelo seu desaparecimento, sem que se conheçam esforços para manter em actividade este ícone da cidade, em especulação inventiva, só vai restar uma espécie de epitáfio silencioso na memória colectiva: “Durante mais de dois séculos, aqui existiu um boticário que atravessou a Monarquia e a República. Pelo desleixo e mal-agradecimento dos homens, que não preservam a história de Portugal, morreu abandonado em Junho de 2017. Paz à sua alma comercial.
Como curiosidade, salienta-se que este bicentenário estabelecimento, contrariando os habitantes da urbe, os guias turísticos da cidade e as autoridades municipais ligadas à cultura que nunca lhe deram os devidos valores utilitário e museológico e sempre passaram ao lado, é referido no Guia Michelin com uma menção honrosa, apontando o bom exemplo de conservação do património comercial, e a aconselhar a sua visita como de interesse municipal.
Hoje, nos vidros das montras pode ler-se: “Estamos nas novas instalações Farmácia Nazareth Avenida Afonso Henriques n.º 42 (ao lado do Café Avenida) OU AQUI AO LADO Farmácia Rodrigues da Silva (em frente ao Café Nicola).
O que quererá dizer este aviso? Será que o museu farmacológico, com todo o acervo, e tectos pintados sobre gesso, se transferiu para novas instalações? Nada disso. Pelas leis da física o imóvel não poderia ser trasladado para outro local. Quanto aos ancestrais móveis, que destino lhe será dado? Quanto ao uso futuro daquele magnifico espaço de recordação que tanto enriquecia a Baixa, o que vai acontecer? O que se sabe é que o alvará da Farmácia Nazareth foi adquirido pela gerência da congénere Rodrigues da Silva, que dista menos de uma centena de metros na mesma rua, e, na sua posse exclusiva de autorização legal, abriu hoje uma nova farmácia na Avenida Afonso Henriques. Como declaração de interesses, fica escrito que nada opomos contra esta transacção comercial legítima e de acordo com a lei.
Como já é hábito, numa pergunta incómoda, interrogo: a Câmara Municipal de Coimbra, pelo pelouro da cultura, fez alguma coisa? Isto é, através de magistratura de influência junto do proprietário do edifício, tentou pelo menos que aquelas instalações tenham um futuro digno ligado à farmacopeia nacional e mundial?


UMA RESSALVA E UMA DECLARAÇÃO DO “CORVO”

Como ressalva, tentando adiantar-me a certos comentários jocosos, declaro solenemente que, apesar de lidar bem com a morte, não tenho jeito para cangalheiro. Quero dizer que, embora faça de anjo da desgraça ao anunciar aqui os enterros de muitas superfícies comerciais tradicionais que nos deixam sem um “ai que já foste”, a intenção é, por um lado, para que a sua passagem entre nós não fique nas brumas do silêncio, por outro, em vão, para tentar alertar para a hecatombe, para o extermínio comercial que está acontecer na cidade. Consigo alguma coisa com isso? Obviamente que, para além da sensibilização de quem faz o favor de me ler, pouco ou nada.
Em palavra de honra, o que posso afirmar é que sobre o que plasmo é com total honestidade intelectual. Então sobre assuntos da cidade, que dizem respeito a todos os munícipes, não escrevo por encomenda, nem para agradar a esta agremiação política de esquerda ou aqueloutra de direita. O meu partido é a Baixa -enquanto cá trabalhar e habitar. Sobre assuntos de sociedade, já escrevo há mais de quatro décadas. Até há cerca de três anos, entre a “Página do Leitor” e colaborador semanal, escrevi para os jornais da cidade. Há dez anos que criei este blogue Questões Nacionais. Aqui, até hoje, já espreitaram 1.212.518 visitantes.
Se, como escrevi em cima poucos ligam aos meus desabafos, pode interrogar-se: porque persisto? Por factores vários, entre eles e principais, por um lado, por ser comerciante e estar imbricado na mesma massa da maioria, por outro, já que detenho esta facilidade em me exprimir, exteriorizo o que sinto e divulgo, ampliando e dando eco, às preocupações que apreendo em conversas cruzadas e que algumas vezes, pela lacuna de “editoriais” ou “reportagens” da comunicação social local, seria impossível analisar de fora através de uma crítica fundamentada. Por outro lado ainda, tendo noção que estou no mesmo paralelo de aflições dos meus colegas comerciantes, levo muito a sério a letra do poema de Bertold Brecht (1898-1956):

Quando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse"

Mas há mais: em jeito de expiação confesso que devo ser masoquista. Só pode! Se assim não fosse como entender que, levando pancada a montante e a jusante, continue a escrever?
A montante pelos políticos que ocupam a cadeira do poder da Praça 8 de Maio, que, se por um lado, num alheamento intencional acabam a respeitar o que faço pro bono, por outro, numa relação complicada, não conseguem disfarçar o ostracismo a que sempre me votaram -e isto já vem desde há décadas. A independência paga-se cara, digo eu.
A jusante vem a reacção negativa daqueles que mais teriam a ganhar pelo conhecimento de certas situações: os operadores comerciais. Muitos deles, num enterrar a cabeça na areia, ainda levam a mal ou manifestam-se em surdina venenosa que se escreva sobre o Apocalipse, em exposição e revelação, do que está acontecer às actividades comerciais na cidade.
Para os dois grupos vou deixar uma declaração: como comerciante com loja aberta, se as coisas me correrem bem, conto andar por cá pouco tempo. De modo que, pedindo mais alguma paciência, quando me for embora e deixar de escrever sobre a Baixa, acredito, todos ficarão melhor. Pelo menos faço votos para que assim seja.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

BAIXA: MAIS UM HISTÓRICO CASTELO QUE CAI







A histórica Casa do Castelo - Editora, na Rua da Sofia, mais que certo fechou hoje. Depois de ter encerrado a Livraria 115, na Praça 8 de Maio, em 2012, vai agora o que resta da sociedade: o armazém na Palheira e a loja na Rua da Moeda, esta dedicada a artigos mais virados para “o faça você mesmo”, em bricolage, tintas e pincéis para artes decorativas. Ou seja, dois estabelecimentos vão desaparecer na Baixa e outro armazém na periferia. Falei na sexta-feira com um responsável ligado a esta antiga livraria de Coimbra que me disse que encerrariam por estes dias. Hoje, segunda-feira, estava encerrada. Conclui que o processo já está em curso. Mas pode acontecer não ser assim e ainda abrir temporariamente durante mais alguns dias próximos. O que sei, pelo que me foi dito, é que o fecho deste popular estabelecimento é irreversível.
Diz quem sabe, que esta reconhecida empresa situada na Baixa da cidade chegou a ter 21 funcionários, e a facturar um milhão de euros por mês. O que aconteceu? Poderá ser uma das interrogativas? Uma vez que são vários os factores que contribuíram para o seu declínio, correndo o risco de estar a ser injusto, apontava apenas alguns: a queda do livro, enquanto instrumento de conhecimento através da leitura em papel; a selva em que se transformou este mercado, por um lado, com as grandes editoras a centralizarem a distribuição, por outro, com o livro a ser vendido em qualquer lugar; e por outro ainda, a desertificação do Centro Histórico, com uma procura muito residual, e as políticas de abandono que se verificam por parte da Câmara Municipal para com o comércio local, sobretudo a partir de 1995.

E A FEIRA CULTURAL É UM ESTRONDOSO ÊXITO...

Entretanto nos jornais locais e nacionais lemos que a edição deste ano da Feira Cultural de Coimbra, sucessora da Feira do Livro, que encerrou hoje depois de dez dias em actividade, foi um sucesso gigantesco. Citando o Diário de Notícias, “do programa do certame destaque também, designadamente, para o evento '24 horas culturais', em 09 e 10 de junho, evento que leva ao Parque Verde "manifestações culturais e recreativas ininterruptas", durante o qual terá lugar a iniciativa 'Acampar com histórias', organizada em colaboração com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). (…) "Projeto pluridisciplinar que a Câmara Municipal de Coimbra criou para todos, reflexo de uma política cultural integradora e diversificada, expressa no cruzamento de áreas que vão desde a literatura, ao artesanato, à gastronomia, à música, às artes plásticas, à cultura e criatividade e à animação", a Feira Cultural de Coimbra conta, este ano, com 196 representações, equivalentes a mais 19 instituições do que no ano passado e mais 38 do que em 2015, sublinha a autarquia.
(…) A área do livro foi uma das que mais cresceu" entre 2016 e este ano (aumentou de 51 para 57 representações), respondendo assim ao principal objetivo do evento que é "valorizar o livro e a leitura", sublinhou Manuel Machado,  referindo que a gastronomia e o artesanato também aumentam as suas representações. "Ainda há quem pense que Coimbra não é uma cidade cosmopolita", afirmou o presidente da Câmara, considerando que o modelo adotado pela autarquia, há três anos, e a resposta de operadores, de agentes culturais e da população em geral contraria aquela ideia, que é errada. (…) Para a edição deste ano, a Câmara de Coimbra investe cerca de 170 mil euros, mais perto de 40 mil euros que o ano passado.

MAS A FEIRA É MESMO UM SUCESSO? PARA QUEM?

O que os jornais não dizem é que esta alegoria, do ponto de vista económico, é um desastre e não traz nada de bom para Baixa. Pelo contrário ao apregoado aos sete ventos de andarilho, prejudica a maioria dos operadores que por cá, durante o ano inteiro, lutam para sobreviver. O que os meios de informação noticiosos não escrevem é que este certame é o paradigma do tiro-no-pé. Que à custa do erário público está-se a fazer a festa, a deitar os foguetes e a deixar a apanha das canas para os contribuintes. É pura gestão danosa -no sentido de que, uma vez que não há retorno no investimento, tendo por objecto o festivaleiro vazio, provoca dano nas públicas finanças locais. Ficou confuso? Vou explicar melhor:
Do total de 196 expositores, uns do concelho e outros de várias partes do país, nenhum deles pagou um cêntimo para vender os seus produtos em Coimbra. E mais: quem se deslocou a mais de 60 quilómetros da cidade para estar presente, alegadamente, pelos serviços camarários foi-lhe pago alojamento.
Já está aperceber melhor? Então vou continuar. Isto é, gastando 174 mil euros à custa do dinheiro que é de todos, a Câmara Municipal de Coimbra pagou a forasteiros para vir vender na nossa terra sem levar em conta que há muitos comerciantes dos ramos ali representados que se fossem convidados a preencher os lugares, mais que certo, estariam presentes. Acontece que, tanto quanto julgo saber, os convites aos locais foram poucos e direccionados apenas a alguns. Por conseguinte, com uma lógica completamente virada para encher o olho da populaça, sem olhar a custos, está-se a promover a concorrência desleal e selvagem a todos quantos, estabelecidos com lojas ou “vendedores ambulantes”, exercem a sua actividade comercial -e até industrial.

O QUE É DADO NÃO É AGRADECIDO

O que é mais estranho, ou nem tanto, é que, sendo tudo gratuito, quem esteve a vender deveria estar muito satisfeito. E ficaram? Claro que não, por que, diz o povo, o que é oferecido sem esforço de merecimento é sempre pouco e não é agradecido.
Quem leu o Diário de Coimbra (DC) de ontem e o Diário as Beiras (DB) de hoje recebe uma surpresa. No DC, referindo uma banca de Seia, que “vende sandes de presunto entre outras iguarias para confortar o estômago até ao almoço”, “foi um pouco mais caldo do que no ano passado (…) dando a entender uma menor afluência de visitantes à feira deste ano.
Prosseguindo com o DC em outras declarações de vendedores, “No que toca à organização, elogia a distribuição de espaços de restauração ao longo do parque e, numa próxima edição, sugere a criação de sombras para os stands que não beneficiam da natural sombra das árvores.
Outro expositor vindo de Castelo Branco desabafou o seguinte: “lamenta não ter conseguido montar a sua esplanada e teve o azar de ver a sua “barraquinha” escondida por outras. A fazer contas à vida, dificilmente regressará para o ano.
Passando para a página 7 do DB, encimada com a declaração “Mais uma vez uma edição de sucesso”, diz a vereadora”, entre vários, podemos ler um comentário de um alfarrabista de Braga: “Achei a feira fraquita e ficou aquém das expectativas. Muito público, mas poucas vendas. Isto promete, estava bem organizado, tirando o facto de a luz estar sempre a ir abaixo.
Outra crítica de um senhora vendedora de artesanato, vinda de Viana do Castelo, “Já venho desde a primeira edição da feira. Este ano, acho que está pior do que o ano passado. A feira foi um bocadinho adiantada no tempo, o que terá afastado algumas pessoas. Noto que há menor poder de compra, pelo menos entre os visitantes portugueses.“

TANTO, TANTO SUCESSO, DIZ VEREADORA

Continuando a citar o DB, “Para Carina Gomes, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, esta “é mais uma vez uma edição de sucesso. Estamos na 4.ª edição da Feira Cultural e creio que a satisfação de expositores e visitantes tem vindo a aumentar ao longo das edições”. A responsável lembra que esta “foi uma aposta que assumimos, de transformar a velha Feira do Livro, que entendemos estava a definhar e não tinha condições para continuar. Decidimos implementar este novo modelo, que é uma feira pluridisciplinar, com vários atractivos”. Estamos perfeitamente convictos que este é o modelo certo, que tem vindo a funcionar cada vez melhor em Coimbra”, acrescenta.

COIMBRA, A PRIMEIRA CAPITAL

Já escrevi muito sobre este assunto. Tenho para mim que há actividades fixas e ambulantes, sobretudo ramos e profissões em desaparecimento, que devem (com urgência) merecer uma atenção especial por parte do Governo. São ícones de uma cidade. No caso de lojas antigas, deveria levar-se à prática uma ideia do fim dos anos de 1980 que era a protecção do “estabelecimento de tradição”. No caso de vendedores de feiras, como é o caso de algum artesanato -não todo, não se pode generalizar-, a mesma coisa. Mas há um detalhe importante: esta classificação deve ser rigorosa e feita por uma independente entidade pública sediada em Lisboa. Isto para evitar o habitual olhar enviesado local. Às autarquias apenas deveria calhar o papel de parceiro interessado, mediador na ajuda, e proporem a classificação. Tomando a não discriminação, para os contemplados, como direito, haveria subsídio através do IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional, como obrigação, no caso dos criadores de artigos feitos à mão, deveriam estar obrigados a representar um determinado número de certames no país, no caso de estabelecimentos imóveis, para além de obrigatoriamente se manterem abertos, deveriam ter acoplado a prestação pública ao serviço da cidade, vila ou aldeia.

MAS A CÂMARA DE COIMBRA NÃO ESTÁ A ANTECIPAR-SE?

Já todos sabemos que, certamente pela vigília da Universidade, a Lusa Atenas anda sempre à frente. Porém, sempre mal. Num certo chico-espertismo, sem levar em conta que para beneficiar uma minoria prejudica a maioria. Por exemplo, no caso de “estabelecimento com tradição”, tanto quanto julgo saber, já há pelo menos um contemplado -sublinho que, pelo bom trabalho, merece a distinção. O mal até nem viria ao mundo se tudo fosse feito às claras. O problema é que não é. É tudo feito no segredo dos deuses e por simpatias políticas. E, é claro, para quem sabe de certas coisas e pensa, dá um certo enjoo, uma certa repulsa. É certo também que há outros que recebem às claras, mas destes, já que serão objecto de fiscalização pela oposição no executivo, pouco há a dizer ou a remediar. É o já que está (mesmo mal), e já que está, deixa estar!
Portanto, voltando à Feira Cultural de Coimbra, se for levado como certo o que escrevi, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), ao pagar alojamento a quem vem de longe, sobretudo no artesanato, e dar-lhe espaço para vender os produtos gratuitamente na cidade, no fundo, está antecipar-se ao Governo, isto é, aparentemente, está a fazer o que deveria ser política governamental. Certo? Não, errado. Uma edilidade é sempre de âmbito concelhio, local, e não nacional. Uma autarquia, através de políticas económicas ou sociais, não se pode nunca substituir ao Governo. Por que se o fizer, como é o caso em análise, corre facilmente o risco de discriminar negativamente os autóctones. Cada macaco em seu galho. Repare-se que se fizesse uma feira direccionada aos produtores e comerciantes do concelho ainda vá que não vá -embora, repito, um espaço público onde se faz negócio não deve ser nunca gratuito.
E de tal maneira é assim que, por exemplo, os “vendedores ambulantes” (fixos) estabelecidos na Praça do Comércio, com uma licença provisória, pagam cerca de 12 euros por mês para ali permanecerem a tentar vender alguma coisa -é também certo que, pelo abandono a que estiveram votados nos últimos 16 anos, aos poucos vão desaparecendo e, digo eu, muitos deles já nem pagarão. E a CMC, nas gentes que a comanda, que nem serão maus de todo completamente, e sabendo que dando a mão aos infelizes terão sempre um lugar no Céu, sabem e sentem que cobrar àquelas pessoas a laborar em condições miseráveis é uma tremenda injustiça, digo eu outra vez, vão fazendo de conta que tudo está bem.
E a corroborar o meu argumento de que na Baixa, para estabelecimentos fixos, se procede de modo diferenciado, no ano passado os hoteleiros com espaço público ocupado com esplanadas, até ali gratuito, sem aviso prévio, foram intimados a pagar balúrdios.
Já com os lojistas comerciais -por que, seguindo a doutrina marxista-leninista, representam o Grande Capital- o procedimento segue a mesma bitola da hotelaria. Estes, numa espécie de saco de boxe, sem levar em conta que a maioria está falida, têm de pagar tudo com língua de palmo -que é para poder distribuir pelos outros. Alguém tem de ser sacrificado neste mundo de loucos.

COIMBRA, CAPITAL DO EXTERMÍNIO DO COMÉRCIO LOCAL

Certamente que nenhum expositor que se queira instalar na Feira de Cantanhede estará à espera de ser à borla. Quem vende em feiras de velharias em todo o país, sabe muito bem que os espaços cedidos são pagos. E bem pagos, por exemplo em Aveiro os preços, consoante a área ocupada, podem ultrapassar os 200 euros.
Então, seguindo este raciocínio, por que raio é que em Coimbra, com três certames mensais, nada se paga?
Por que é que, mensalmente, se realiza uma Feira de Artesanato Urbano numa rua onde proliferam lojas deste ramo com rendas elevadíssimas e os que vendem na via pública ninguém paga um cêntimo? Porquê? A propósito, fez algum sentido ontem realizar esta feira com outra a decorrer  a escassa centena de metros, no parque da cidade? Claro que as respostas já as dei em cima: a edilidade está a espalhar o bem... olhando a quem. Ou seja, num egoísmo exacerbado, fazendo a festa aproveitando-se da fragilidade dos operadores e à custa de dinheiros públicos, procurando as palmas dos eleitores, sem pudor em humilhar os que cá trabalham, sem escrúpulos nem mágoa, vai destruindo o tecido económico da Baixa.
Escrevi tanto que até me esqueci: o que tem tudo isto a ver com o encerramento da Casa do Castelo - Editora?

sexta-feira, 9 de junho de 2017

PENA PESADA PARA ESFAQUEADOR DO LARGO DA FREIRIA





Pelas 14h00 de hoje, no Tribunal de Coimbra, foi lido o acórdão relativo a Carlos Leonel Cardoso Gonçalves que, em 11 de Agosto de 2016, esfaqueou no Largo da Freiria um vizinho, Ricardo Alves, junto à carótida por este, segundo as alegações do agressor, reiteradamente provocar barulhos no edifício onde moravam os dois na altura. A pena aplicada foi de 9 anos seis meses.
Numa sala enorme onde a acústica faz retrocesso do eco e o som de ampliação é profundamente deficiente, a audição, em extractos, só foi possível graças à boa-vontade e atenção de Themis, a da deusa da justiça na mitologia grega. Juntemos o ruído dos automóveis na rua, uma leitura lida em voz suave e pausada e o resultado final é que mesmo os órgãos do processo, representados pelo Ministério Público e defesa das partes, mal conseguiram perceber a fundamentação que esteve na base de uma pena ainda mais pesada que a invocada pelo procurador do Ministério Público, que pediu entre 6 e 7 anos. Segundo a juíza presidente do colectivo que julgou este caso, dirigindo-se ao arguido, Carlos Gonçalves, através de vídeo por tele-conferência, “tudo na sua versão naufragou. O senhor já tinha a navalha aberta” -como a querer dizer que houve premeditação. “A sua conduta foi extremamente grave. Foi homicídio qualificado na forma tentada.
Como esclarecimento à minha pergunta porque não foi estabelecido nexo causal por, alegadamente, Carlos Gonçalves sofrer de esquizofrenia, declarou a advogada de Ricardo Alves, o ofendido, “que a pedido do Tribunal foram feitos exames mas não acusaram que sofresse dessa patologia. Por isso mesmo a doença não foi chamada à colação no julgamento. Portanto, à defesa do arguido não restava outro caminho que apostar no excesso de legítima defesa.
Segundo o advogado de defesa, oficioso, haverá recurso da sentença.