Numa
sala meio-vazia do CineTeatro Messias onde reinava o bocejo, afinal
estava em causa uma Assembleia Municipal Extraordinária para
aprovação de três actas desaparecidas no passar do testemunho do
velho para o novo executivo, respectivamente, do ano de 2021, com as
datas de decorrência de 29 de Junho (sessão ordinária), de 20 de
Setembro (sessão extraordinária) e 30 de Setembro (sessão
ordinária).
Para
encontrar as ditas perdidas nos longos corredores bucólicos da
administração pensou-se em várias soluções. Desde chamar o
ex-padre exorcista Humberto Gama para desmanchar o mistério e
exorcizar o paço do concelho, até mandar vir o C.S.I – Las Vegas,
a mítica série de investigação, para deslindar o “estranho
caso das actas desaparecidas”, pensou-se em muita coisa e em
varias soluções. Depois de muita noite mal-dormida a contar
carneirinhos, à mistura com sonhos de duendes e fantasmas, Carlos
Cabral, o presidente da Assembleia Municipal, fez aprovar uma moção
para que fosse pedido um parecer à CCDRC, Comissão de Coordenação
e Desenvolvimento do Centro, para que fosse deslindado o imbróglio.
Ora
esta sessão Extraordinária de hoje foi convocada expressamente para que os
deputados se pronunciassem e votassem o (des)aparecimento das
transcrições pelo modo proposto pela CCDRC, o novo “Governo
Civil” da Regionalização que se aproxima a todo o gás, ou
melhor, a toda a pressa, já que os liquefeitos estão pela hora da
morte.
Pelo
chover em chuva molhada contado com pouca graça, já se adivinha o
(des)alento de todos os presentes. Como carentes de afecto em busca
de um carinho, olhavam uns para os outros em busca de um brilho
espiritual que servisse de ponte e lhes renovasse a disposição.
Qualquer coisinha servia, desde que acabasse com aquele
enfastiamento, pareciam dizer, sem dizer, obviamente.
Foi
então que das calendas do mistério, passo entre passo, assim mais
ou menos devagarinho, surgiu um vulto parecido com alguém muito
conhecido.
Ouviu-se
um colectivo clamor de surpresa. Não! Não! E outra vez não.
Jamais
poderia ser a esfinge que se pensava ser. Era impossível ser quem se
adivinhava parecer. Durante oito meses, nunca apareceu em qualquer
encontro com os deputados. Por que razão iria logo hoje, numa noite
tão desenxaibida? Só se fosse um milagre de Nossa Senhora do IC1,
questionavam em solilóquio alguns deputados mais ortodoxos e
fervorosos.
Durante
segundos que pareceram minutos a maioria deixou cair o queixo com
estrondo. Bum!
E
o vulto, lentamente, pelos passos de um descrente, desacompanhado e
sozinho, como se gozasse completamente com o assombro trazido à
histórica sala de teatro, encaminhou-se para o palco e sentou-se
atrás de Carlos Cabral, o presidente da Mesa. E de repente ouviu-se
um murmúrio alongado e alguém disse: é mesmo ele! É o Rui
Marqueiro! Aleluia! Aleluia!