Como se sabe, quando estamos dentro do
turbilhão, olhando para a esquerda e para direita, só vemos desgraça. Bem sei
que, enquanto escriba da calamidade, a noticiar o menos bom sou o primeiro
mensageiro. Mas, se posso escrever assim, como todos os anjos do desastre são bipolares, que têm dois polos opostos, de vez
em quando tenho uma espécie de reviravolta e faço uma pirueta. E é assim que
com base em pequenos indícios, parecendo um político, esta semana sinto algum
optimismo em relação ao futuro desta zona velha. A procura de locais para
arrendar continua em alta. É uma pena os proprietários não entenderem que são
uma parte fundamental do futuro que se adivinha e devem baixar as rendas. Tudo
indica que vamos ter uma nova unidade do McDonald’s
na Rua Visconde da Luz –o que, a par de outros investimentos, pode constituir o
motor necessário para revitalizar a Baixa, de dia e de noite. Já aqui dei conta
de imensos obstáculos para os transeuntes e comerciantes em geral e da
responsabilidade da autarquia. Ora, tenho verificado que a resposta, por parte
da edilidade, pode tardar mas é eficaz. Os exemplos são muitos e não vou
descrevê-los. Por outro lado e ainda, para além das iluminações públicas que estão
anunciadas para o próximo dia 6, vários eventos estão calendarizados para esta
quadra de Natal. Com um orçamento baixo, mas racional, parece-me de bom senso.
Bem sei que a tentação para criticar é grande mas, lembremo-nos, estas festas,
contrariando outros tempos, não custam um cêntimo aos comerciantes. Ora, a
cavalo dado não se olha o dente. Estou a ser claro?
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
A VOLUNTÁRIA
(Imagem da Web)
Passam poucos minutos das vinte horas deste
último Sábado, no Pingo Doce da Portela. Três pessoas, dois homens e uma mulher,
envergam camisolas com a inscrição “Banco Alimentar”. Como sentinela alerta, através
dos seus olhos negros e pequeninos, ela olha tudo e todos em redor. Está junto
de quatro carrinhos do supermercado praticamente a abarrotar de géneros
alimentícios. Tem uma figura esbelta. Conheço-a de vista. Tenho a certeza, já
nos encontrámos antes. Afinal, Coimbra é uma aldeia grande, reconhecemo-nos todos
de vista. Apetecia-me escrever sobre a motivação dos voluntários, aquela
vontade que, individualmente, move cada um dos cerca de 42 mil que, neste
fim-de-semana, estiveram presentes em todo o país a angariar alimentos para quem
mais precisa. Não quero saber se foram recolhidas mais ou menos de duas toneladas nesta
primeira acção benemérita. Isso são números para os jornais.
Dá pelo nome de Maria Manuela Afonso e, embora
não pareça, já sessenta e cinco primaveras lhe deixaram marca no corpo, por
sinal, ainda muito belo. Foi bancária até 31 de Dezembro de 2005. Mal o barulho
das rolhas a saltarem das garrafas de espumante se desvaneceu e o estalejar do
fogo-de-artifício se apagou, a 2 de Janeiro já estava à procura de uma
associação para poder trabalhar em prol dos outros. Nunca tinha feito nada no
género mas, como sonho antigo, sabia que era isto que queria. Entrou para a associação
“Casa”, Centro de Apoio ao Sem-abrigo, e durante cinco anos cozinhou na sua
habitação os alimentos que, à noite, eram distribuídos na cidade por outros
voluntários aos mais necessitados. Está há quatro anos na ADAV, Associação de Defesa e Apoio da Vida, na Praça da República.
Passados nove anos, a fazer bem sem olhar
a quem, sente-se muito feliz. “Quando
estou a ajudar transcendo-me, ganho uma segunda alma”, confidencia-me. “Auxiliar uma causa, ou alguém, é uma parte
muito importante da minha vida. Ao retribuir torno-me um ser melhor. As pessoas
dão-me oportunidade de eu agradecer tudo o que tenho. Sei que não posso mudar o
mundo mas se salvar uma única pessoa sinto que estou a fazer algo de único. Sou
católica-praticante, acredito na redenção da alma. Mas, como agora em que
pratico a bondade, a solidariedade, a interação com o outro, religa-me o
sentimento prático de que estou a contribuir para a salvação do corpo de alguém.
As
pessoas mais humildes são as mais generosas. Apercebo-me. Oferecem um pacote de açúcar e pedem desculpa por dar tão pouco. Infelizmente,
não raras vezes, os mais abastados, neste serviço de voluntariado, olham-nos
com sobranceria, como se fôssemos carecentes de amor e, pela solidão, fizéssemos isto em substituição do vazio. Nada de mais errado. Para além de sermos muito felizes, temos muito carinho para dar a quem precisa. Contrariamente ao que se pensa, os
jovens, de vinte e tal anos, também dão com uma humildade impressionante. É
certo que a crise que vivemos toca a todos, mas estou convencida que a
diminuição das ofertas tem mais a ver com a multiplicação das campanhas. Há uma
massificação intensiva das instituições a recorrer à dádiva pública. O resultado é o
cidadão começar a ficar farto e, como defesa, a deixar de responder. Acaba por
ser mau para todos. Estou aqui há três horas. Acredita que não estou cansada?
Se alguém tiver uma vida melhor pelo meu esforço sinto-me muito bem. Sou uma
felizarda. Fui abençoada por Deus!”
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
MEALHADA A FORÇAR UMA VERDADEIRA REFORMA ADMINISTRATIVA
A notícia no Diário de Coimbra com o título “Mealhada inicia debate para mudar para o
distrito de Coimbra” chamou-me a atenção. Eu sou natural dos arrabaldes da
capital do leitão. Ora aqui estava um
assunto que me interessava ouvir debater e foi por isto mesmo que me desloquei
e estive presente na Assembleia Municipal do passado dia 28.
Realizada no auditório da Escola Profissional
Vasconcelos Lebre, a reunião teve início à hora agendada, cerca das 20h30. Depois
do primeiro ponto, referente ao público, seguiram-se outros, incluindo o orçamento,
e até às 23h45 em que o representante da bancada do Partido Socialista (PS) defendeu
a proposta de mudar o distrito para Coimbra. Alegando a proximidade geográfica
-vinte quilómetros de Coimbra e 50 de Aveiro-, o porta-voz do PS invocou os
benefícios para os munícipes, alguns deles já em prática como o abastecimento
de água, recolha de lixo, frequência do ensino universitário e recorrência ao
Centro Hospitalar.
Na réplica, a coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada” –que agrega o Partido Social
Democrata, o Partido Popular, o Movimento Partido da Terra e o Partido Popular
Monárquico- arguiu que a alteração do mapa administrativo era matéria
fundamental e da competência exclusiva da Assembleia da República e não da
Assembleia Municipal. Disse também que esta alteração não estava contemplada
nas propostas eleitorais do PS, aquando das últimas eleições. “É uma traição ao programa do PS e que foi
sufragado pelos eleitores”. Para além disso, “estávamos à espera que houvesse grandes vantagens e afinal tudo o que
se abona já temos. Esta proposta é mais emocional do que racional”, sustentou
o representante da coligação.
O Partido Comunista também estava contra esta moção
apresentada.
Aparentemente sem bandeira branca à vista e já
com a noite a entrar na madrugada foi então que um outro membro da coligação
lançou a proposição de concórdia, paz e o amor: “quanto a mim, estou interessado em discutir este assunto com o PS. Da
discussão nasce a luz. É um tema que precisa de ser debatido sem questões
emocionais”.
A proposta de aprovação de dois
pontos, tendo por objecto a tramitação e a criação de um grupo de trabalho com deputados
de todas as bancadas, foi abençoda por maioria, com o PCP a abster-se a fazer
declaração de voto. E assim se chegou até próximo das duas da matina.
Em juízo de valor, dá para perceber que depois
da apressada agregação das freguesias, da chamada Lei Relvas, está na altura de se iniciar a discussão que vise uma
verdadeira reforma dos municípios e nisto, sem dúvida, a Mealhada vai à frente.
O FOLHETIM DA EX-VICE
Filomena Pinheiro esteve ao serviço da Câmara
Municipal da Mealhada durante vinte anos. Pelo que julgo saber, meia dúzia com
assento na Assembleia Municipal e os restantes no executivo como vereadora e vice
de Carlos Cabral e até às últimas eleições autárquicas realizadas em 29 de
Setembro, de 2013. Depois de cessar funções políticas foi impedida de voltar
para o cargo que exercia na Escola Profissional Vasconcelos Lebre (EPVL). Tendo
o caso sido arrastado para o Tribunal de Trabalho de Coimbra, segundo os jornais
deste Outubro, acabou por haver acordo entre as partes e com a obrigação da
EPVL pagar 35 mil euros à sua antiga funcionária.
Mesmo que para um povo sem memória o passado sem
mácula da ex-edil contasse pouco, depois desta concordância tudo deveria
indicar que o respeito e o silêncio entre as partes deveria ser a norma. Ora, na
discussão sobre o ajuste e nesta última Assembleia Municipal, por parte do
actual presidente da edilidade mealhadense, Rui Marqueiro, a recorrência a “documentos forjados”, implicitamente a
recair na visada, caiu muito mal. De tal modo que até a oposição questionou
brandamente: “se havia matéria, porque
não a enviou ao Ministério Público?”
Subscrever:
Mensagens (Atom)





