segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

BARRÔ, UMA FESTA DE ARROMBA

 

(Foto de Jorge Pais)



As festas anuais, normalmente em honra de um santo padroeiro evocado na Hagiografia -estudo e descrição dos santos, beatos e figuras veneradas-, são celebrações tradicionais fundadas na religiosidade, cultura e laços comunitários ancorados na ancestralidade, fortalecendo a identidade e memória colectiva do povo de um lugar.

É uma data de reencontro entre várias gerações, uns que moram no mesmo sítio desde o nascimento, outros que, vindo de longe, da diáspora, assente na dispersão entre várias regiões do mundo, partiram cedo em busca de um futuro melhor.

Na aldeia de Barrô, talvez pelo lento esvair de um espírito de repartição entre todos os habitantes, nos últimos anos, a festa em honra do mártir de São Sebastião foi decaindo a ponto de apenas se realizar a Procissão solene. As razões para explicar este definhamento serão várias. Desde o individualismo feroz que domina a forma de ser de cada um, num fechamento incompreensível, até à permanente ocupação nas redes sociais, as pessoas parecem querer alhear-se de um costume que eleva e enriquece a alma de cada um.

Mas este ano, nomeadamente no último fim-de-semana, as coisas foram diferentes. Logo no Sábado de manhã, a percorrer as ruas da aldeia, ouviu-se o rufar dos tambores e o seu som cadenciado e penetrante a mostrar que algo quebrava o silêncio e a sua quietude habituais.

À frente do grupo musical, em passo ritmado, vinham o Jorge Pais e o Paulo Neves, ambos moradores desta encantadora localidade. Tratava-se de uma angariação de fundos para realizar a festa de São Sebastião. Depois de explicar ao que vinham, disse o Jorge que ficara sozinho na feitura da celebração eucarística e festa pagã. Foi então, continuou o Pais, que convidou o Paulo Neves para o ajudar a erguer o evento e este, imediatamente, se disponibilizou.

Ainda no Sábado, com o frio gelado a querer cortar o passo aos mais afoitos, os sons vibrantes da banda musical “Magnum” invadiram o salão recreativo e redondezas, convidando os vizinhos a abandonarem o conforto do sofá e a lareira fumegante.

No Domingo, com São Sebastião a participar com um Sol radioso e um tempo de veraneio, pelas 14h00 a Banda Filarmónica da Pampilhosa deu lugar a uma arruada que deu brado em toda a área envolvente. Às 15h00 começou a homilia na pequena capela do mártir patrono. A percorrer o lugar, segui-se uma longa procissão solene dirigida pelo padre Rudolfo, e acompanhada pela música da banda pampilhosense.

Das 18h00 até às 21h00, A célebre organista e cantora Vânia Mariza, com música popular, deu um concerto digno de respeito, enchendo parcialmente o salão de baile, como há muito se não via.

O Jorge Pais e o Paulo Neves retinham no rosto um contentamento visível. À minha pergunta se as dádivas recebidas davam para cobrir os custos, respondeu o Pais que, felizmente, as doações chegaram para cobrir os custos de cerca de 2500,00€. E rematou: “foi um risco grande e muito esforço dos dois, mas valeu a pena”.

Parabéns, Jorge e Paulo pela galhardia. Um exemplo a seguir.


A JUNTA DE FREGUESIA COOPEROU


De salientar a participação do executivo da Junta de Freguesia de Luso que, durante a semana, enviou vários funcionários para alindar as ruas e limpar as bermas de ervas daninhas.

Embora discreto, salienta-se também a presença no Salão do recentemente eleito jovem presidente da junta, João Leite. 



O GOSTO AMARGO DA CARIDAD

 

(Retirado da Web)





o sábado, o penúltimo dia da semana, o ilusório apeadeiro do tempo que, dentro da vida agitada que vivemos, devendo servir de paragem num ciclo de duração imprevisível, na aparência das coisas, corre mais veloz que o vento. O tempo, no modo como o olhamos, corre a par da nossa existência, da nossa idade, do estado de saúde, desde o momento do nascimento, até ao último suspiro. Quanto mais depressa atingirmos o envelhecimento mais nos apercebemos que a nossa vida foi uma oportunidade perdida, no “carpe diem”, no aproveitar o dia num gozo a raiar o bem-estar, a felicidade, vivendo intensamente o presente, sem nos preocuparmos com o futuro.

Sobretudo na Europa ocidental, elegendo o materialismo, ter e mais ter, como zénite e desvalorizando a moral nos princípios e valores, como viciados sem controle sobre a vontade, vivemos focados no progresso tecnológico e na ambição de ter um conforto incontrolável, que nos atrofia e nos torna escravos de um devir. Quando somos novos, sem pensar no tempo que foge, no apogeu, arrogamo-nos ter o mundo na mão e, quase de forma provocadora, deixamos que a movida de fruição nos fuja por entre os dedos. Quando somos velhos, no epílogo da existência, valorizando cada minuto que passa, revemos um passado que não volta mais.

Quanto mais alto atingirmos o Desenvolvimento, mais nos afastamos da mensagem que nos forma o intelecto e nos religa subrepticiamente uns aos outros, da solidariedade, da caridade e repartição, da justiça enquanto virtude universal.

Como nunca aconteceu, a comunicação, enquanto sistema de ligação virtual entre humanos, tomou conta do Mundo, no entanto, pasme-se, num individualismo feroz, vizinhos mal falam entre si, na aldeia, no bairro, na pequena cidade. Cada vez mais o Ser Humano, buscando incessantemente algo que preencha o buraco e o vazio na alma, tornando-se associal e solitário, é menos considerado que um animal de quatro patas.

O desrespeito pela dignidade, o desvalor pelo Direito, Liberdades e Garantias é cada vez mais o dia-a-dia, mesmo em instituições que deveriam ser o azimute.

Depois de divagar sobre o etéreo, vou recomeçar sobre o que me levou a escrever.

Razão terão os judeus em guardar o Sábado como dia semanal sagrado e de santificação. Desde o pôr-do-sol de Sexta-feira até ao pôr-do-sol de Sábado. É um dia para parar de trabalhar, focando-se na oração, família e estudos da Torá (Livro Sagrado do Judaísmo).

Foi num destes Sábados, juntamente com a minha mulher, estávamos sentados no café da cidade que frequentamos, pelo menos, um dia por semana. Era uma hora de acalmia. Só três ou quatro mesas estavam ocupadas com clientes.

Uma mulher, nova, declaradamente de Leste, e com uma barriga demasiado pronunciada a indicar ser fingida, com saia comprida e lenço na cabeça, depois de entrar, dirigiu-se à nossa mesa, estendeu uma das mãos em concha e com a outra fez um movimento junto à boca – a querer indicar que a moeda se destinaria a colmatar a fome. Convidámo-la a comer uma sandes ou um bolo. Recusou. Com gestos e arremedos de espasmo, mostrou que só o dinheiro dava jeito. Negámos, e ostensivamente virou-nos as costas, Seguimo-la com o olhar. A resmungar, dirigiu-se a uma outra mesa onde estava sentada um senhora de cabelos brancos. Comentei com a minha mulher que a “pedincha”, provavelmente, iria ali dar o golpe. A anciã, que estava a tomar o pequeno-almoço, curvou-se para retirar o porta-moedas. A mulher de leste curvou-se também e entornou um copo com café e leite sobre a mesa. A cliente, um pouco atarantada, chamou o empregado e, dando uma moeda à prevaricadora, pediu outro galão.

A intrusa, fitando-nos com ar de vitória ao roçar a nossa mesa, transpondo a porta de saída, desapareceu na rua, que a engoliu numa mistura de gentes de várias cores.

Mais tarde, ficámos a saber que, como arte de mágica bem ensaiada, a anciã viu desaparecer 200,00 € que tinha acabado de levantar no Multibanco.