quinta-feira, 1 de março de 2018

LIVRARIA MIGUEL CARVALHO VAI ENCERRAR





Talvez o termo “abatido” não seja o correcto,
encontrei um homem cansado de lutar contra
a displicência, o amorfismo, o deixa-correr que
atravessa toda esta parte baixa da cidade.
Como eu entendo! Sinto o mesmo!
Por conseguinte, tal como lhe disse, vou também embora.”


Subitamente o anúncio triste deu à estampa no Facebook: “Venho por este meio anunciar o encerramento das portas da minha livraria sito no Adro (baixa de Coimbra) a partir de 31 de Março, portas estas que, ao longo de três espaços comerciais, permitiram actividade livresca desde 1994. Passarei a partir desta data a actuar comercialmente com propostas livreiras descritas na minha livraria profissional on-line www.livro-antigo.com e também com participação nas Feiras do Livro para as quais for convidado.
Depois de mais de vinte anos a servir Coimbra com espaço físico, o Miguel Carvalho, um dos mais importantes livreiros a nível nacional, com um acervo digno de uma grande cidade capital, vai encerrar a sua loja no Adro de Cima, por trás da Igreja de São Bartolomeu e junto à Praça do Comércio. Depois da livraria Coimbra Editora, depois da livraria 115, depois da livraria Casa do Castelo restam apenas duas casas a venderem livros novos na Baixa. Até quando?
Fui falar com o Miguel. Com a frente do estabelecimento pejado de carros -aliás, toda a Baixa está transformada num enorme estacionamento caótico-, encontrei-o um pouco abatido. Talvez o termo “abatido” não seja o correcto, encontrei um homem cansado de lutar contra a displicência, o amorfismo, o deixa-correr que atravessa toda esta parte baixa da cidade. Como eu entendo! Sinto o mesmo! Por conseguinte, tal como lhe disse, vou também embora.
Quando quem, nas penúltimas e últimas eleições autárquicas, foi eleito para proteger e pensar a cidade no desenvolvimento harmónico das suas actividades, comerciais, serviços, industriais, prometendo uma nova dinâmica e regeneração, no caso a maioria socialista na Câmara Municipal, não quer saber e abandona à sua sorte uma zona histórica tão rica em monumentalidade recentemente classificada pela UNESCO como Património Mundial ao deus dirá, só resta aos intervenientes desistirem de lutar. É que o comércio, para quem não sabe, é uma actividade que visa o lucro e só se realiza na sua plenitude havendo gente e dinheiro a circular. Se a Baixa da cidade sofre de uma desertificação acelerada de pessoas como nunca se viu, quem espera milagres? É óbvio que, com a postura municipal, mais estabelecimentos fecharão portas.
Resta-me a esperança, se calhar vã, deste presidente da autarquia, Manuel Machado, conforme se consta por aqui, partir para um cargo político importante e ser substituído por alguém com mais visão política e cidadã. Vá, Machado! Mas vá depressa, que não deixa saudades!
Na sua página do Facebook, Miguel Carvalho agradece a todos quantos colaboraram com o seu negócio, “quero agradecer a todos os clientes (bons porque nunca me ficaram a dever dinheiro) e amigos/as que desde 1994 me apoiaram nesta nobre actividade de livreiro na cidade de Coimbra. Um grande bem haja também, e muito especial com imenso carinho, a todos os poetas, escritores, pintores, fotógrafos, editores, académicos, críticos, investigadores, etc, que nestas instalações assim como nas anteriores da Rua Ferreira Borges, realizaram apresentações, mostras, leituras, reuniões e tertúlias partilhando presencialmente com o público a suas paixões, as suas propostas e as suas visões.
Da mesma forma, porque conheço o Miguel há mais de vinte anos e reconheço nele qualidades ímpares de generosidade e sã camaradagem -coisa rara nos nossos dias-, em nome da Baixa, se posso escrever assim, e em meu nome pessoal, o nosso muito obrigado. Uma grande salva de palmas! 


6 comentários:

susana duarte disse...

Subscrevo.
Palmas para o Miguel, para o que construiu e as amizades que soube, como poucos, honrar.

DOM RAFAEL O CASTELÃO disse...

Não sei como vai ser dada volta a esta situação que vai desertificando comercialmente a Baixa com encerramentos a ritmo cada vez maior(se é que ainda resta algum com verdadeiro interesse...)O mal é profundo e quem devia tomar decisões concretas não as toma porque o que há a fazer não passa por meros remendos ...mas sim por uma discussão alargada a todas as forças vivas da cidade e não só, donde saiam medidas de fundo realistas.Ou então nada fazendo ficaremos apenas com uma cidade virada para o Turismo Univeritario e Monumental...e com os "eucaliptos comerciais" a cercar a cidade até se ramificarem para o seu coração,secando secando uma bela cidade!

Maria Isabel disse...

Que pena, aos poucos e poucos se destrói o que tínhamos de bom em Coimbra. A cultura nunca foi tão maltratada e Coimbra nunca foi tão desprezada. Lástima!!

Maria Isabel disse...

Que pena, aos poucos e poucos se destrói o que tínhamos de bom em Coimbra. A cultura nunca foi tão maltratada e Coimbra nunca foi tão desprezada. Lástima!!

Rui Rodrigues disse...

Só uma referência à hipotética substituição de MM, se sair o n.º 1 assume o n.º 2. Acha que há diferenças?
Pois, vã esperança essa...

João Rasteiro disse...

...será, para mim, sem dúvida, uma das grandes tristezas de 2018 - sim, eu sei, ele e eu, continuaremos a ser AMIGOS, mas...quando me "vejo" / quando o "vejo" há mais de 20 anos na Rua de Tomar com o seu primeiro espaço, sinceramente, hoje, as lágrimas afloram...