segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

BARRÔ E A DESERTIFICAÇÃO DA ALDEIA







Barrô, a aldeia da minha naturalidade situada entre a Mealhada e o Luso, solenizou neste fim-de-semana a festa anual em honra do seu padroeiro São Sebastião. Ontem, domingo, com a celebração da Eucaristia e subsequente procissão, foi o apogeu da festas profana e religiosa.
Comparando anos recuados, em que seria um dia cheio em todo o lugar e mais propriamente no largo da capela com a vinda de filhos da Diáspora e pelos nativos, deu para ver o quanto a aldeia, por um lado, estará esvaziada de habitantes, por outro, o quanto o Dia da Festa de Ano perdeu importância no encontro de pessoas que por lá nasceram e cresceram. Por outro ainda, e pode ser o caso, o divórcio entre as pessoas que lá habitam e a comemoração anual.
Há cerca de uma trintena de anos, esta povoação do concelho da Mealhada e pertencente ao distrito de Aveiro teria cerca de meia-centena de casas, a maioria em mau estado de conservação, e mais ou menos uma centena de habitantes. Com gente muito Preciosa, nessa altura, através dos sentidos, apanhávamos o fervilhar de vida da localidade pelo ruído, pelo cheiro e pelo rodopiar de agricultores, com as suas enchadas ao ombro ou foicinhos a tiracolo, a sulcar caminhos de terra-batida em direcção às suas leiras, que, juntamente com o ordenado da fábrica, complementavam o seu sustento. Ao entrar no pequeno povoado, entre outro burburinho, éramos recebidos pelo mugir dos bois, pelo zurrar dos burros e pelo latir dos cães. Tudo parecia indicar que a população estava em multiplicação sem fim à vista. Edificou-se uma nova escola primária (básica) e um enorme pavilhão multiusos.
Com a facilidade de crédito bancário, foram construídas novas vivendas com jardim exterior que, pela arquitectura, rivalizam com a cidade, e muitas das restantes foram restauradas a preceito.
Como motor de desenvolvimento e ponto de encontro, a dar força anímica ao pequeno lugarejo, havia um café à entrada do burgo e, mais para cima, passando o campanário com a capela agregada em relativo estado de conservação, encontrávamos a taberna do senhor António, o “Toino da Loja”, conjunta com a mercearia e onde se podia comprar tudo desde linhas até petróleo.
Para além da festa anual, em Janeiro, realizavam-se ainda mais duas: as Alminhas e a de São José.
Na última década, talvez para ser equitativa em relação a outras aldeias, a Junta de Freguesia de Luso (ou a Câmara Municipal da Mealhada), mandou alcatroar todas as ruas do interior e em redor do sítio. Para além disso, louve-se a acção, mandou colocar placas toponímicas e deu números de polícia a todas as habitações.
Há cerca de cinco anos o santuário, cujo santo mártir é São Sebastião, com uma coleta entre o povo, foi restaurado e, pela grandiosidade, transformou-se num pequeno templo faraónico. Era ali, no seu terreiro em redor, perante arcadas de acácias e as ruas engalanadas com flores de papel, que as festas anuais de Janeiro eram organizadas. Nesta alegoria, o povo saía à rua e, com o coreto de madeira a desafiar o Sol, e com o intenso cheiro a carne assada nos fornos de lenha, era ali que se dançava até altas horas da noite.
Em contraposição, mais que certo por serem pequenas capelinhas e por falta de interesse da comunidade, deixou-se morrer as celebrações em honra de São José a das Alminhas.
Agora, deu para apreender que tudo mudou. As artérias, outrora enfeitadas com arcadas populares e pétalas de rosas no chão, detinham apenas uma fita plástica, colorida, aqui e acolá. Quem não soubesse, pelo embelezamento, não adivinhava que havia festa no lugar.
O baile, realizado tradicionalmente no largo da capela, talvez pelo frio assustador que a comunicação social apregoa ao mundo, teve lugar no pavilhão multi-usos.
O templo e os andores, outrora ornamentados de forma amadora e simples pelos mordomos, deu lugar a um arranjo de flores sumptuoso, certamente profissionalizado por uma florista, que enchia o olho -imagina-se que teriam sido gastos largas centenas de euros na ornamentação.
Ontem, após a celebração da missa, a procissão, com vários andores erguendo imagens de santos, saiu à rua por volta das 16h30. Ao longo de cerca de noventa minutos, o cortejo litúrgico percorreu as principais vielas. Na sua cauda, acolitando a banda filarmónica, pouco mais de uma dúzia de pessoas seguiam em fila a comitiva. De salientar que, ao longo do percurso, apenas uma dezena de janelas estavam abertas a saudar o préstito, o que, repetindo, dá para questionar sobre o que está a acontecer ao aldeamento: ou está vazio de residentes ou os seus habitantes, sentados nos seus acolhedores sofás e tendo em frente um computador, estiveram a marimbar-se para alegoria.
Qualquer uma destas premissas, a desertificação acentuada ou o desinteresse crescente, pode ser verdade. A contribuir para a evacuação da população, há muitos anos que as fábricas que davam trabalho encerraram. A escola, por falta de crianças, fechou. O café e a taberna e mercearia do “Toino da Loja”, como um protesto surdo contra o abandono a que estão sujeitas as nossas terras, encerraram portas. Só o pavilhão centro-desportivo, remando contra-a-maré, vai resistindo à destruição do convívio.
Ontem, enquanto se circulava pela estrada principal e secundárias, em que só a música da banda filarmónica quebrava o silêncio atroador, deu para verificar que, apesar de tudo, poucos são os prédios em ruína completa. É uma pena que das chaminés daqueles reformados edifícios, outrora cheios de alma e que neste dia rebentavam pelas costuras com familiares vindos de longe, não saísse o tal fiosinho de fumo em direcção ao céu. Estamos perante uma ilusão de óptica da modernidade.

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