quinta-feira, 18 de agosto de 2016

EDITORIAL:VARRER OS TOXICODEPENDENTES PARA DEBAIXO DO TAPETE

(Foto de Leonardo Braga Pinheiro)




O Diário de Coimbra (DC) de hoje titula em primeira página: “Tráfico e consumo de droga na Baixa à vista de todos”. Numa reportagem assinada por Ana Margalho, pode ler-se que os “moradores dizem que toxicodependentes “se transferiram para as imediações, sendo notório o aumento do tráfico de droga. Injectam-se na rua e deixam seringas espalhadas no chão.
Continuando a citar o DC, “Temos alertado as autoridades competentes”, confirma Sandra Costa, administradora do condomínio e gestora do parque de estacionamento do Edifício Horizonte, fazendo questão de deixar claro que nada há da sua parte e da dos moradores contra as obras no Terreiro da Erva, que são “de aplaudir”, mas lamentando que “nada tenha sido feito para minimizar o impacto desta requalificação para quem mora e circula na zona envolvente. E os transtornos são, além do ruído nocturno, que já era sentido antes, “um aumento grande do número de consumidores e traficantes” que tem consequências visíveis, por exemplo, na quantidade de seringas que se vêem espalhadas na via pública, nomeadamente na Rua da Nogueira -como o Diário de Coimbra pôde comprovar- onde Sandra Costa vê quase diariamente pessoas a injectarem-se.”

AUTORIDADES RESPONDEM MAS NÃO HÁ MELHORIAS”

Continuando a parafrasear o DC, “(...) à Câmara de Coimbra num email que (Sandra Costa) enviou foi respondido pela Divisão do Ambiente da autarquia. “Informaram-me que iam estar atentos à limpeza dos arruamentos nesta zona, dando indicações à empresa que presta limpeza para estar especialmente atenta na rua da Nogueira e na rua do Carmo, onde são encontradas mais seringas.”
Por seu lado, “A PSP de Coimbra confirmou ao DC ter recebido “algumas comunicações” quanto à presença de toxicodependentes na zona envolvente ao Terreiro da Erva e ocorrências a ela associadas, tendo esta motivado “a orientação de esforços no sentido (…) ali intensificar o policiamento e a intervenção policial. Foi, aliás, reforçado o policiamento e implementadas várias operações de prevenção e combate ao fenómeno da toxicodependência” das quais resultaram já “várias detenções por tráfico de estupefacientes, apreensões de substâncias e identificação de vários indivíduos suspeitos. A PSP de Coimbra garante que o “assunto está a merecer a melhor atenção” mas que, disposições legais em vigor e o funcionamento de estruturas de apoio a toxicodependentes naquela área nem sempre facilitam a actuação das autoridades policiais. Trata-se “não só de uma questão policial mas também de um assunto com uma grande componente social, cuja solução terá, também,, que resultar da intervenção de diversas entidades com competências específicas na área de apoio social, as saúde, da limpeza urbana e outras”, remata a PSP de Coimbra.”

SANDRA CHUTA À BALIZA E OS RESPONSÁVEIS PARA CANTO

Gostei de ler a peça de Ana Margalho. No entanto, a meu ver, para ser excelente, faltou lá as declarações dos técnicos responsáveis pelo gabinete de apoio aos toxicodependentes, da Cáritas Diocesana de Coimbra, e a merecer uma segunda reportagem tendo por fundo o trabalho desenvolvido no espaço do Terreiro da Erva. O terreiro do pó. Até por que, depois das inusitadas declarações da PSP ao implicitamente responsabilizar aqueles serviços pelo alastrar da situação, no mínimo, deveriam ser ouvidos. Quantas pessoas estão registadas e são apoiadas pelo centro? Quantas seringas são distribuídas diariamente? Onde dormem? Onde se injectam? Perguntas que ficam sem resposta, que me elucidavam e me permitia aferir melhor da importância que este gabinete exerce na sociologia da Baixa.
Ao ler as declarações prestadas pelos envolvidos, particulares e entidades responsáveis pela prevenção e combate ao flagelo social, só uma pessoa se salienta: Sandra Costa -que desconheço. De uma forma desassombrada, sem receio e colocando o dedo na ferida, assume as queixas, pessoais e colectivas, identificando-se.
Quanto à resposta escrita da autarquia, ao dizer que vai recomendar que se faça a recolha com mais atenção, é simplesmente um desaforo, um desrespeito, o que não surpreende de todo se tivermos em conta o enunciado, há pouco mais de um ano, por Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, em que defendia a retirada dos serviços de apoio a toxicodependentes para outro local. Ou seja, a edilidade, pela voz do seu responsável máximo, não está interessada em resolver o problema mas, surfando a onda da ignorância colectiva, somente varrê-lo para debaixo do tapete. Se fosse possível, mais que certo, até mandaria os aditos para o meio do oceano.
No que toca à enunciação dos responsáveis da PSP, é simplesmente deplorável. Seguindo a linha “política” da edilidade chutam para canto e, num facilitismo deprimente, culpam quem está a fazer um bom trabalho social. É completamente anacrónico, e incompreensível, a falta de solidariedade institucional entre entidades que deveriam defender quem está no terreno e dá o corpo às balas. Como não podem responder ao fenómeno do aumento da toxicodependência por falta de instrumentos legais -assente na incapacidade dos políticos eleitos na Assembleia da República para compreender e, através da lei, solucionar o problema-, é mais fácil dizer o que a populaça quer ouvir. Maioritariamente, o colectivo esquecendo que não há famílias sem ser tocadas pelas malhas da droga e que esta chaga social só se resolve com frontalidade e menos hipocrisia, quer é despachar o quadro depressivo para outro qualquer vizinho. Então, sem se solucionar seja o que for, de zona em zona, a pandemia arrasta-se sem fim à vista.
Já o escrevi várias vezes, se a Baixa não tivesse esta estrutura de apoio, quase de certeza, teríamos muitos mais atentados à pessoa e à propriedade

ONDE ESTÁ A VIOLÊNCIA DESCRITA NESTA INVASÃO? POR QUE ACONTECE?

Desde o início das obras de requalificação do Terreiro da Erva, há cerca de meio-ano, que a visão “terrífica”, com os toxicodependentes a injectarem-se em pleno dia e noite junto ao Edifício Azul passou a ser uma constante. E porquê? Interrogamos. Porque, por um lado, era neste terreiro e nas casas decrépitas à sua volta que se traficava e se fazia a injecção endovenosa. Com o encerramento total do espaço os drogados foram obrigados a deslocalizarem-se para outros locais, no caso, os becos periféricos. Acontece que também a partir das obras do Terreiro da Erva, paulatinamente, foram murando os edifícios em ruína e colocando portões em ferro nos becos (do crack) em redor. Isto é, o que era feito às escondidas, por falta destas estruturas decrépitas que desempenhavam uma função social, passou a ser feito às claras, às vistas de todos.
Novamente pode perguntar-se: mas há violência por parte destes doentes sociais? Com algum conhecimento na matéria, afirmo convictamente: não há! -estaciono o carro no parque horizonte e, algumas vezes, saio de lá a pé por volta da 01 hora da manhã e nunca tive o mínimo encontro violento. Choca ver aquele quadro com, por vezes, quase uma dúzia de rapazes e raparigas a espetarem seringas nos braços? Claro que choca. Provoca receio de sermos assaltados por algum deles? Claro que sim, mas, é como procedo, procuro não olhar fixamente para o que fazem e faço de conta que estão a beber vinho de uma garrafa. No fundo, bem no fundo, tenho o direito de me imiscuir na sua vida privada? Não, não tenho. Enquanto cidadão, tenho apenas obrigação de denunciar o que está acontecer publicamente, mas no sentido de serem criadas soluções pelo Estado para combater o consumo desmesurado de substâncias tóxicas, que dizimam milhares de compatriotas.

E O QUE É QUE SE PODE FAZER?

Como escrevi em cima, de certo modo, andamos todos, incluindo as entidades policiais e políticas, a fazer de conta que não se passa nada. Só reclamamos quando temos o problema debaixo da nossa janela. As polícias, por que estão sujeitas à prescrição da lei e mais não se lhes exige, limitam-se a cumprir calendário. Ou seja, volta e meia fazem operações em nome da “prevenção”, ou por denúncia, e prendem uns traficantes e fazem anunciar o feito nos jornais -que tem dois efeitos: por um lado mostrar à sociedade que estão atentas e a combater o crime, por outro, para tranquilizar as populações e mostrar que estão seguras. O que acontece é que -retirando as excepções de grandes apreensões em barcos e no aeroporto- o que surge amiúde é a notícia da detenção da arraia miúda. Chega a ser uma provocação -no sentido de que marca uma vida e é tudo menos terapêutico- certas informações na imprensa diária de se ter detido um jovem com dois pés de cannabis, que cultivava em sua casa.
Embora esteja despenalizado o consumo de drogas leves e duras, continuamos a marear no campo político da hipocrisia.
Faz algum sentido que seja proibido cultivar plantas alucinógenas para consumo próprio?
Tem jeito obrigar os consumidores de drogas leves e pesadas a andarem atrás dos traficantes e sujeitos a misturas que colocam em risco a sua vida já vulnerável pela condição de viciado?
Por que é que o Estado, através da Assembleia da República em lei, não chama a si a distribuição, através de venda, de estupefacientes em farmácias e com prescrição médica?
Os governos não deveriam ganhar coragem e, de uma vez por todas, enfrentar o problema de frente e, sobretudo, afrontar as mentalidades mais conservadoras?

E O PROBLEMA DA BAIXA?

Em face do que está acontecer na Baixa com os toxicodependentes, se tivéssemos um executivo municipal verdadeiramente preocupado com o problema, garanto, seguia uma política de olho no futuro, apresentando duas medidas concretas:
-Defendia o reforço público no apoio aos toxicodependentes e mantinha no Terreiro da Erva os serviços de acompanhamento, que é onde sempre estiveram e devem estar, como quem diz, é no centro do vulcão que se mede a temperatura da lava e não fora.
-Contra ventos e marés, sujeitando-se à critica acintosa de alguns, deveria mandar construir uma sala de chuto na zona do Terreiro da Erva, e quanto antes. É a única forma de restituir alguma dignidade aos toxicodependentes e restituir a merecida harmonia aos moradores, comerciantes e visitantes da Baixa.

* Como ressalva, o autor declara sobre palavra de honra que até hoje nunca consumiu qualquer substância tóxica, conhecida como droga, leve ou dura. Como é óbvio, como ainda está para as curvas e algumas rectas, não pode afirmar dessa água não beberá.

2 comentários:

paulo anjos disse...

Existem razões históricas para que a Estrutura da Caritas de apoio a Utilizadores de Drogas (UD) se encontre neste local, no terreiro da Erva.
Por diversas razões vou-me abster de efetuar comentários sobre a qualidade do trabalho desenvolvido por esta estrutura.
Existe, no entanto, pelo menos, um problema que pode ser assacado a este tipo de estrutura; a ausência de uma estrutura móvel, o que corriqueiramente se designa por equipas de rua, compostas maioritariamente por técnicos de diversas áreas, que desenvolvam intervenções nos locais onde os UD desenvolvem as suas mais diversas actividades. Este tipo de intervenção tinha logo à partida duas vantagens.
A primeira seria que assegurava uma maior limpeza das ruas, um menor número de seringas espalhadas pelas ruas. (Já gora, em forma de acrescento, o facto de existirem seringas espalhadas pelas ruas pressupõe que o trabalho da estrutura de apoio aos UD está a desenvolver de forma desadequada a sua intervenção.
A segunda porque as equipas de rua permitiriam que em determinadas situações os UD não necessitassem de se deslocarem até ao Terreiro da Erva, minimizando, desta forma o impacto que a sua presença na Baixa de Coimbra.

Tétisq disse...

são questões interessantes e pertinentes. mas não comungo daquilo que me parece uma excessiva desculpabilização desses indivíduos, 'doentes sociais'. Se cometem crimes devem ser punidos, se uns consomem outros traficam pelo que será importante terminar com esse tipo de negócio para fazer dispersar essa comunidade.
No final dos anos 80 a minha vila ocupava o lugar de maior centro de consumo e tráfico de droga da zona Norte. Desde os 6 anos que convivo com a imagem de indivíduos a injectarem-se, as seringas abandonadas eram frequentes no caminho da escola e sendo que nessa altura havia um 'entendimento' da comunidade toxicodependente de que era importante viciar os mais novos foi nessa altura que comecei a recusar os 'doces' que me tentavam impingir no portão da escola.
Cresci a ter medo de circular nas ruas da minha vila e nas ruas do Porto e quando vim para Coimbra fiquei feliz porque me sentia segura e podia gabar-me aos amigos de que em Coimbra andava na rua sozinha a qualquer hora, mesmo que fosse noite mas, agora. até de dia sinto medo e nojo quando ando nas ruas da baixa.
Tenho medo porque já assisti a discussões entre indivíduos desse grupo onde empunhavam facas que não me ameaçando directamente me podiam prejudicar.Tenho medo e nojo porque os animais, principalmente cães, que estes indivíduos trazem com eles parecem uma ameaça à saúde publica. E, no fundo, tenho medo porque me cruzo mais vezes com eles enquanto praticam ilícitos do que com patrulhamento policial.
Tirando o policia que fica em frente ao Banco de Portugal como se fosse um meco, já que não pode sair de lá, raramente vejo policia nas ruas da baixa. Acho que as várias entidades, câmara, cáritas, associação comercial e autoridades deviam chegar a um acordo para que o patrulhamento aumente e todos se sintam mais seguros. Os turistas que já vi muitas vezes desistir de entrar nos becos da baixa por medo e que deixaram certamente de consumir nas lojas aí situadas, os cidadãos que assistem às cenas que descrevi, e os trabalhadores que têm nessa zona o seu local de trabalho: call center NOS, Pingo Doce, Continente e diversas estruturas cujos trabalhadores maioritariamente jovens começam a ter medo de estacionar ou simplesmente apanhar um autocarro ali perto...
Nem na minha vila nem nas zonas mais problemáticas do Porto situações semelhantes a esta se resolveram sem o aumento do policiamento, é imperativo eliminar o tráfico para evitar outros pequenos delitos que por ali se repetem e perpetuam.