quinta-feira, 22 de março de 2018

FALECEU O ALFREDO POÇO







Durante décadas a perder de vista o Alfredo Freire Poço, agarrado à sua inseparável bengala, foi um calcorreante destas pedras calcadas por todos e tão pouco valorizadas. Pelo anúncio necrológico colado em algumas esquinas da Baixa, ficamos a saber que, partindo para a eternidade, foi hoje o seu funeral.
O Alfredo tinha uma leve disfunção mental. Talvez por isso não publicou nenhum livro, não foi professor, não fez parte de nenhum governo central, não foi obreiro no geral. Se nós somos o que fazemos, e por impossibilidade psíquica o Freire Poço foi somente um humilde transeunte no nosso meio que se limitou a viver, logo, por silogismo, o Alfredo passou por nós como se não existisse. Como só tomei conhecimento agora do seu falecimento, desconheço se teria tido muitos ou poucos acompanhantes nas cerimónias funerárias. O Presidente da República não esteve lá de certeza hoje, porque a comunicação social local nada falou da sua deslocação a Coimbra. Esteve anteontem mas noutro velório. Por isso mesmo, por esta não-vivência, sem protagonismo, estou aqui para deixar um elogio fúnebre ao simples, ao amigo que partiu.
Conheci pela primeira vez o Alfredo nos idos anos de 1973, aqui na Baixa, quando comecei a trabalhar no comércio, nas lojas do também desaparecido José dos Santos Coimbra, na Casa Santiago, nas Galerias Coimbra, no Traje e outras cujo nome já não recordo. O pai do agora finado, também já falecido há muitos anos, era o senhor Miguel, o alfaiate sempre de serviço quando era preciso apertar ou alargar um fato de homem. Era um profissional muito discreto. A Amélia, a irmã do Alfredo, chegou a ter um pequeno café na Rua da Fornalhinha, por volta de 1980.
Como curiosidade, o Alfredo quase sempre que vinha à Baixa, fazendo um pequeno desvio, cá deixava o cumprimento repetido na forma seguinte: “Bom dia, Senhor Luís! Não me arranja uma nota de vinte escudos, de Santo António? É que dá-me sorte, sabe?
Às vezes, de tempos a tempos, lá lhe dava o amuleto pretendido.
Para a família enlutada, em meu nome e em nome da Baixa, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames. Descansa em paz, Alfredo!


3 comentários:

jorge ferreira disse...

Obrigado pela genial história do Alfredo Poço.
Quem o conhecia recordará!
Abraço.

jorge ferreira disse...

Obrigado pela genial publicação!!

jorge ferreira disse...

Obrigado pela genial história do Alfredo Poço.
Quem o conhecia recordará!
Abraço.