sexta-feira, 14 de agosto de 2026

PELA HONRA DE UM PRESUNTO

 



No dia 2 de agosto, último, juntamente com a minha mulher e um grupo de seis dezenas de amigos, em programada excursão em autocarro, partindo de Luso e tendo como destino Barca D’Alva, fizemos um passeio no Rio Douro por um dia, com início no cais da bonita vila fronteiriça e a finalizar no Peso da Régua.

Cerca das 9h30 embarcámos no cruzeiro Tomaz do Douro em direção à cidade localizada no distrito de Vila Real. Com um serviço prestado de cinco estrelas pela empresa com o mesmo logotipo, marca, do navio, passámos uma experiência digna de figurar nos anais da memória e para repetir um dia destes.

Durante a tarde, enquanto descíamos o rio através do sistema de eclusas – sistema de engenharia em que várias comportas ao longo do percurso são cheias ou esvaziadas para permitir o nivelamento do curso de água -, para desenvolver o entretenimento durante cerca de duas horas, entre os passageiros aderentes, um grupo de excursionistas de Barca D’Alva, com um custo de um Euro cada rifa, realizou um chorudo sorteio de um presunto. Cerca de uma dezena de viajantes, com apostas variadas, habilitou-se ao concurso.

Calhou a um miúdo retirar a senha do contemplado do interior de um pequeno saco improvisado. Coube a sorte de ter sido eu a ganhar o troféu. Foi então que, com alguma surpresa, foi anunciado que o prémio seria enviado para a minha morada durante a semana que começava no dia subsequente.

À saída do navio de cruzeiro, entre sorrisos e abraços por parte dos grupos excursionistas de Luso e Barca D’Alva, despedimo-nos com a promessa do sorteador “de que estivesse descansado que o presunto seria enviado na semana seguinte”. Pela minha parte, licitante sorteado, proclamei: até mais ver o presunto!”.

Passadas duas semanas, da perna de porco salgada e curada nem cheiro.

Pela minha provecta idade, defendo que, individualmente ou em grupo, pelos nossos actos, positivos ou negativos, somos embaixadores, isto é, representantes da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país.

Repito, sem, de modo algum, tentar colocar mácula na empresa Tomaz do Douro, que nesta história é alheia, este procedimento, de certo modo impróprio e indecoroso, por parte de uma ou mais pessoas naturais de Barca D’Alva, conspurca, mancha, a identidade, a dignidade e seriedade de toda a vila transfronteiriça.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

BARRÔ, UMA FESTA DE ARROMBA

 

(Foto de Jorge Pais)



As festas anuais, normalmente em honra de um santo padroeiro evocado na Hagiografia -estudo e descrição dos santos, beatos e figuras veneradas-, são celebrações tradicionais fundadas na religiosidade, cultura e laços comunitários ancorados na ancestralidade, fortalecendo a identidade e memória colectiva do povo de um lugar.

É uma data de reencontro entre várias gerações, uns que moram no mesmo sítio desde o nascimento, outros que, vindo de longe, da diáspora, assente na dispersão entre várias regiões do mundo, partiram cedo em busca de um futuro melhor.

Na aldeia de Barrô, talvez pelo lento esvair de um espírito de repartição entre todos os habitantes, nos últimos anos, a festa em honra do mártir de São Sebastião foi decaindo a ponto de apenas se realizar a Procissão solene. As razões para explicar este definhamento serão várias. Desde o individualismo feroz que domina a forma de ser de cada um, num fechamento incompreensível, até à permanente ocupação nas redes sociais, as pessoas parecem querer alhear-se de um costume que eleva e enriquece a alma de cada um.

Mas este ano, nomeadamente no último fim-de-semana, as coisas foram diferentes. Logo no Sábado de manhã, a percorrer as ruas da aldeia, ouviu-se o rufar dos tambores e o seu som cadenciado e penetrante a mostrar que algo quebrava o silêncio e a sua quietude habituais.

À frente do grupo musical, em passo ritmado, vinham o Jorge Pais e o Paulo Neves, ambos moradores desta encantadora localidade. Tratava-se de uma angariação de fundos para realizar a festa de São Sebastião. Depois de explicar ao que vinham, disse o Jorge que ficara sozinho na feitura da celebração eucarística e festa pagã. Foi então, continuou o Pais, que convidou o Paulo Neves para o ajudar a erguer o evento e este, imediatamente, se disponibilizou.

Ainda no Sábado, com o frio gelado a querer cortar o passo aos mais afoitos, os sons vibrantes da banda musical “Magnum” invadiram o salão recreativo e redondezas, convidando os vizinhos a abandonarem o conforto do sofá e a lareira fumegante.

No Domingo, com São Sebastião a participar com um Sol radioso e um tempo de veraneio, pelas 14h00 a Banda Filarmónica da Pampilhosa deu lugar a uma arruada que deu brado em toda a área envolvente. Às 15h00 começou a homilia na pequena capela do mártir patrono. A percorrer o lugar, segui-se uma longa procissão solene dirigida pelo padre Rudolfo, e acompanhada pela música da banda pampilhosense.

Das 18h00 até às 21h00, A célebre organista e cantora Vânia Mariza, com música popular, deu um concerto digno de respeito, enchendo parcialmente o salão de baile, como há muito se não via.

O Jorge Pais e o Paulo Neves retinham no rosto um contentamento visível. À minha pergunta se as dádivas recebidas davam para cobrir os custos, respondeu o Pais que, felizmente, as doações chegaram para cobrir os custos de cerca de 2500,00€. E rematou: “foi um risco grande e muito esforço dos dois, mas valeu a pena”.

Parabéns, Jorge e Paulo pela galhardia. Um exemplo a seguir.


A JUNTA DE FREGUESIA COOPEROU


De salientar a participação do executivo da Junta de Freguesia de Luso que, durante a semana, enviou vários funcionários para alindar as ruas e limpar as bermas de ervas daninhas.

Embora discreto, salienta-se também a presença no Salão do recentemente eleito jovem presidente da junta, João Leite. 



O GOSTO AMARGO DA CARIDAD

 

(Retirado da Web)





o sábado, o penúltimo dia da semana, o ilusório apeadeiro do tempo que, dentro da vida agitada que vivemos, devendo servir de paragem num ciclo de duração imprevisível, na aparência das coisas, corre mais veloz que o vento. O tempo, no modo como o olhamos, corre a par da nossa existência, da nossa idade, do estado de saúde, desde o momento do nascimento, até ao último suspiro. Quanto mais depressa atingirmos o envelhecimento mais nos apercebemos que a nossa vida foi uma oportunidade perdida, no “carpe diem”, no aproveitar o dia num gozo a raiar o bem-estar, a felicidade, vivendo intensamente o presente, sem nos preocuparmos com o futuro.

Sobretudo na Europa ocidental, elegendo o materialismo, ter e mais ter, como zénite e desvalorizando a moral nos princípios e valores, como viciados sem controle sobre a vontade, vivemos focados no progresso tecnológico e na ambição de ter um conforto incontrolável, que nos atrofia e nos torna escravos de um devir. Quando somos novos, sem pensar no tempo que foge, no apogeu, arrogamo-nos ter o mundo na mão e, quase de forma provocadora, deixamos que a movida de fruição nos fuja por entre os dedos. Quando somos velhos, no epílogo da existência, valorizando cada minuto que passa, revemos um passado que não volta mais.

Quanto mais alto atingirmos o Desenvolvimento, mais nos afastamos da mensagem que nos forma o intelecto e nos religa subrepticiamente uns aos outros, da solidariedade, da caridade e repartição, da justiça enquanto virtude universal.

Como nunca aconteceu, a comunicação, enquanto sistema de ligação virtual entre humanos, tomou conta do Mundo, no entanto, pasme-se, num individualismo feroz, vizinhos mal falam entre si, na aldeia, no bairro, na pequena cidade. Cada vez mais o Ser Humano, buscando incessantemente algo que preencha o buraco e o vazio na alma, tornando-se associal e solitário, é menos considerado que um animal de quatro patas.

O desrespeito pela dignidade, o desvalor pelo Direito, Liberdades e Garantias é cada vez mais o dia-a-dia, mesmo em instituições que deveriam ser o azimute.

Depois de divagar sobre o etéreo, vou recomeçar sobre o que me levou a escrever.

Razão terão os judeus em guardar o Sábado como dia semanal sagrado e de santificação. Desde o pôr-do-sol de Sexta-feira até ao pôr-do-sol de Sábado. É um dia para parar de trabalhar, focando-se na oração, família e estudos da Torá (Livro Sagrado do Judaísmo).

Foi num destes Sábados, juntamente com a minha mulher, estávamos sentados no café da cidade que frequentamos, pelo menos, um dia por semana. Era uma hora de acalmia. Só três ou quatro mesas estavam ocupadas com clientes.

Uma mulher, nova, declaradamente de Leste, e com uma barriga demasiado pronunciada a indicar ser fingida, com saia comprida e lenço na cabeça, depois de entrar, dirigiu-se à nossa mesa, estendeu uma das mãos em concha e com a outra fez um movimento junto à boca – a querer indicar que a moeda se destinaria a colmatar a fome. Convidámo-la a comer uma sandes ou um bolo. Recusou. Com gestos e arremedos de espasmo, mostrou que só o dinheiro dava jeito. Negámos, e ostensivamente virou-nos as costas, Seguimo-la com o olhar. A resmungar, dirigiu-se a uma outra mesa onde estava sentada um senhora de cabelos brancos. Comentei com a minha mulher que a “pedincha”, provavelmente, iria ali dar o golpe. A anciã, que estava a tomar o pequeno-almoço, curvou-se para retirar o porta-moedas. A mulher de leste curvou-se também e entornou um copo com café e leite sobre a mesa. A cliente, um pouco atarantada, chamou o empregado e, dando uma moeda à prevaricadora, pediu outro galão.

A intrusa, fitando-nos com ar de vitória ao roçar a nossa mesa, transpondo a porta de saída, desapareceu na rua, que a engoliu numa mistura de gentes de várias cores.

Mais tarde, ficámos a saber que, como arte de mágica bem ensaiada, a anciã viu desaparecer 200,00 € que tinha acabado de levantar no Multibanco.


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

CADELINHA TRESMALHADA

 





Tem uns olhos tristes, tão tristes, tão tristes, que, por parecer carregar toda a solidão do mundo, até parecem humanos. Embora a idade já mostre marcas num rosto sereno emoldurado com olheiras profundas, mostra um corpo seco como as palhas da manjedoura onde teria nascido o Menino Jesus.

Dizem que é uma “agarrada” a velhos hábitos que, vindos do tempo dos hebreus, diariamente ingerindo um álcool manhoso, faz, desfaz e liquefaz um fígado que regula o metabolismo e se quer forte para a desintoxicação do sangue que lhe corre pelas veias.

Dizem que o vício é tal que para obter a satisfação que a mantém de pé e aparentemente lhe levanta uma auto-estima que há muito perdeu nas veredas do emaranhado da psicologia e antropologia humanas, qualquer recurso serve.

Em busca de consolo físico e espiritual, ultrapassando pela direita uma moral que se perdeu na bruma do silêncio, transpõe qualquer obstáculo que se atravesse. Como tomada por um encosto de espírito maléfico que, ainda não conseguindo o metafísico descanso eterno, vagueia pelos caminhos e veredas da aldeia. Sem músculo que se vislumbre nos magros membros, como atleta de alta competição, transpõe uma cancela em ferro de altura considerável, uma qualquer porta mal fechada, força sem dificuldade qualquer janela bem trancada a sete chaves em busca de uma garrafinha com conteúdo inqualificável pelos enólogos, licoroso, amargo, tinto, branco, velho ou novo, tanto faz. Mas se por acaso não há pinga, pouco importa. Sempre se deita a mão a uns quaisquer bens que rendam qualquer coisinha e se possam trocar por uns cobres.

O santo padroeiro do lugar, pregado num tronco cuja cepa não é identificável, como recepcionista de promessas em vão de escada, classificado pelos Romanos como culpado de heresia e pagador de todas as maldades do Universo, pelo respeito que viu esvoaçar nas trovas invisíveis do vento, há muito que perdeu a fé. Em catarse, interroga-se sobre o seu desempenho representativo da igreja Católica Apostólica Romana neste lugar de perdição. Se ninguém lhe liga nenhuma, o que faz ali? Sem paciência para ser o saco das marradas da frustração colectiva, está farto de ter um papel meramente decorativo e ser ornamentado com flores. A tampa saltou-lhe quando, dentro da capela, para uma dúzia de convidados, há dias, um partido reconhecidamente secular decidiu fazer uma auscultação política sobre as necessidades do povoado para o próximo quadriénio, que se aproxima com as eleições autárquicas. O que mais o incomodou nem foi o carácter privado do encontro de amigos na casa de oração, antes, foi a discussão e os altos berros que ecoaram pela vizinhança e fizeram acordar a passarada pronta nos beirais à volta para dormitar ao entardecer e o lusco-fusco da noite que se aproximava.

Mesmo assim, com alguma indulgência, São Sebastião continua com os olhos pregados nas cintilantes estrelas do Céu, que nos cobre como guarda-chuva esburacado, na esperança de que aconteça um milagre na conversão dos hereges.


quarta-feira, 26 de março de 2025

EM MAIO DE 2011 ESCREVI “O HOMEM DA BICICLETA ÀS CORES”

 




EM MAIO DE 2011 ESCREVI “O HOMEM DA BICICLETA ÀS CORES”


(QUALQUER SEMELHANÇA COM A NARRATIVA QUE SE PASSA ACTUALMENTE) NA MEALHADA É PURA COINCIDÊNCIA)



Todos sabemos, as cidades, na sua diversidade, são uma galeria de arte vária. A maioria de nós não se apercebe das diferenças que subsistem entre os seus elementos. Talvez porque, por um lado, estamos inteiramente afundados nas pessoais preocupações financeiras, e, por outro, pela acultura que destrói a sensibilidade individual, sem querer, acabamos por olhar para tudo e todos como fazendo parte da mesma massificação.

Às vezes, temos um quadro vivo, em expressão surrealista, mesmo à nossa frente e é apenas mais um entre os demais. Há várias razões, mas destaco apenas uma, que nas últimas décadas tem caído no esquecimento: a educação para a arte. Ou seja, a partir da escola básica dever-se-ia incutir nos jovens o despertar mágico da sensibilidade para a faculdade de ver para além do comum. Porque, afinal, se nos pedirem para descrever a arte, aposto, não é fácil. No meu conceito, direi que a arte é toda a manifestação viva ou inactiva que toca os nossos sentidos. O que quer dizer que, mesmo na morte, e desde que seja tratada como tal, esta, pode ser uma exteriorização de cultura e arte.

E escrevi este longo prólogo para apresentar o “homem da bicicleta às cores”. Já há umas semanas passei por ele na Ponte de Santa Clara e achei que estava perante um raro quadro urbano ou suburbano de cultura viva. Ao olhar para esta ambiguidade de homem/bicicleta, senti o mesmo que olhar para uma pintura surrealista de Salvador Dali.

Chama-se Celso Loureiro, (Já falecido) e morava nos arredores de Coimbra. Foi com alguma desconfiança que me deixou fotografá-lo. Enquanto lhe dizia que era para um blogue e que, na sua postura de homem/máquina, siameses colados entre o humano e a técnica, o considerava um quadro digno de nota na paisagem urbana corriqueira e quase sempre igual, um pouco com palavras arrancadas a saca-rolhas, lá me foi dizendo que optou por pintar a sua “companheira” de cores vivas porque gostava muito. “Fui eu mesmo que a pintei!”, foi-me dizendo, como se estivesse orgulhoso da sua obra de arte, mas ao mesmo tempo sem me dar muita confiança. Afinal é assim mesmo. Artista não liga a “paparazzi”. Deu para perceber uma qualquer disfunção na sua personalidade. Mas também quantos de nós, psiquicamente, seremos completamente funcionais? Mesmo preenchendo o requisito de normalidade, este valor andará sempre a balouçar numa grande imprecisão de relatividade, quer pelo meio, quer pela vontade, na resistência ao estandardizado, do próprio indivíduo.




quarta-feira, 19 de março de 2025

HOJE É O DIA DO PAI

 




Pelo menos em cerca de uma dúzia de países, incluindo os Estados Unidos, foi convencionado comemorar o Dia do Pai a 19 de Março.

Pai (do latim patre, também chamado de genitor, progenitor ou gerador) é a figura masculina de ascendente de parentesco que na instituição Família, do ponto de vista histórico, mais foi perdendo importância.

Hoje, ser pai, sobretudo com o manto branco da terceira-idade, é ser um viajante solitário, abandonado e carregado de malas vazias, cheias de nada, com narrativas que já ninguém quer ouvir, e muito menos os seus filhos.

Em metáfora, está sentado num banco de uma estação de caminhos-de-ferro e vê passar os comboios. Cada trem que chega, simbolizando o passado, com o ruído do rodado a malhar no ferro a avivar memórias, carregado de velhos do seu tempo, traz para si a recordação de uma história vivida lá longe, nos anéis do tempo, e já tantas vezes revista e analisada na sua cabeça em catarse, como se cada retalho da vida, lembrado em trauma, estivesse sujeito a uma purga emocional, a um exame minucioso e mental onde o arrependimento sublinha a sua existência.

Cada composição que parte em direção ao futuro, com as margens a transbordar de gente nova e que sem o saberem tem por destino a velhice, leva consigo o implacável culto da juventude.

Ser velho neste tempo pleno de modas e convenções é cada vez menos glorificante.


terça-feira, 18 de março de 2025

A ÚLTIMA VISITA






Contrariamente aos fins-de-semana antecedentes deste Março chuvoso e cinzento, que têm sido prolixo em tempestades, como se apresentasse com um brilho novo a auspiciar uma primavera cheia de força como a dar alento à madressilva trepadeira, o dia apresentava-se soalheiro e convidava a sair do sofá caseiro. Foi nos primeiros dias de janeiro que, por negligência grosseira, dei uma aparatosa queda, resultando várias fracturas, e durante os dois meses seguintes me impediu presencialmente de ir dar um abraço e dois dedos de conversa à minha tia Dorinda, que, por sua vontade e generosidade dos filhos, meus primos, para ter mais cuidados médicos e amigos da mesma idade, estava instalada numa “residencial sénior” ali para os lados de Oliveira do Bairro. Em diálogos anteriores, num tempo de quase total desligamento dos mais novos pelos mais velhos, manifestava regozijo e felicidade por poder usufruir de tanto carinho vindo das suas “joias”. Nos últimos tempos, aquando de outros encontros, amiúde, várias vezes repetia ser uma mulher com muita sorte. “Sou uma pessoa muito feliz. Deus foi sempre muito meu amigo. Todos dias rezo, de manhã e à noite, por eles e por vocês - e mostrava dois terços, um vindo de Fátima envolto no pescoço e outro nas mãos apertando as contas do Rosário. Vocês fazem parte de mim. Gosto muito de vocês, meus amores!”.

Foi no último domingo que passámos na instituição para lhe dar um abraço caloroso e dois beijinhos repenicados a manifestar afeição e respeito por alguém que fez parte da nossa existência. Olhos serenos, a mostrar tranquilidade, e maçãs do rosto cheio, quando nos via abria os braços como se imitasse a estátua do Cristo Rei.

Embora faladora e pronta a contar retalhos de uma vida plena junto do “seu Manel”, companheiro já falecido, encontrámo-la muito debilitada. Durante cerca de uma hora, falou de, apesar de ter feito há pouco 90 anos, quanto era bom agradecer por estar entre nós. Mesmo tendo noção que era altura de virmos embora para não a cansarmos, como se fôssemos uma ponte, deixem-se estar. E passando o recado junto ao ouvido da minha minha mulher, redizia: “Gosto muito de si, Ana. Muito, muito, muito”. Parecia relutante em separar-se de nós.

Despedimo-nos com uma estranha sensação de angústia, como se fosse a última vez que nos encontrávamos com vida.

No dia seguinte, segunda-feira, 16 de Março, a minha tia Dorinda, imaginando que num sono profundo de paz e amor, partiu para a eternidade.

Várzeas ficou mais pobre e vazia.

Até sempre tia Dorinda. Até um dia.