segunda-feira, 30 de abril de 2018

BAIXA: MAIS DUAS LOJAS QUE SE VÃO





Hoje encerraram mais duas lojas comerciais, respectivamente as Decorações de Coimbra e a Loja Euromania, ambas na Rua da Louça e quase frente a frente.
As Decorações de Coimbra, com cortinados e artigos para o lar, fez parte da nossa família comercial durante trinta anos. Em final dos anos de 1980 ocupou o espaço, até aí, das “Ferragens Rainho”.
No vidro de uma das montras pode ler-se:

O segredo da Mudança
está em tocar toda a sua energia,
não em lutar contra o velho,
mas em construir o novo”

MUDÁMO-NOS CAROS CLIENTES E AMIGOS.
Saímos da baixa.
30 anos a fazer muitas pessoas felizes e satisfeitas.
Vamos fazer os 31 em SANTA CLARA (perto do Lidle).
Sabemos que os nossos clientes nos seguem sempre.
Vamos trabalhar num horário diferente.
MARQUE connosco para nos visitar.
O nosso decorador:
Sr. Dias 917 428 162
A nossa criativa:
Anabela Dias 919 428 162
Gratos por tudo.”


A Loja Euromania -este grupo detém outra similar na Rua da Gala com artigos decorativos variados- esteve instalada na Rua da Louça cerca de três anos.
Embora a mensagem escrita no vidro das Decorações de Coimbra diga tudo, o sentimento projectado no sofrimento da partida de alguém que foi um dos nossos durante décadas, pela angústia que nos cria, sempre acrescento mais algumas palavras. E por isso e para isso, porque escrevemos sobre nostalgia, saudade, tristeza por se partir sem ser verdadeiramente o desejado, por ter sido talvez a única opção possível, começo por relembrar a letra do “Cantar de Emigração”, de Adriano Correia de Oliveira: “Este parte, aquele parte e todos, todos se vão...(se quiser ouvir a melodia, clique aqui em cima). Ou então, já que estou virado para grandes poemas que marcam a minha vida, deixo também o de Sebastião Antunes, do grupo a “Quadrilha” (se quiser ouvir a canção, clique aqui em cima):

Tinha uma história que nunca contava,
trazia um quarto fechado no olhar,
E uma viagem que planeava,
mas não começava para nunca acabar.

Tinha um sorriso guardado em segredo,
mas não sorria para não o contar,
tinha uma chave que fechava o medo,
nalgum arvoredo onde não queria entrar.

E quando a noite já ia serena,
disse-me a frase mais terna que ouvi:
Valeu a pena. Mesmo que o fim da história seja aqui.

E quando a noite já ia serena
disse-me a frase mais terna que ouvi:
Valeu a pena. Mesmo que o fim da história seja aqui.
(…)

Uma salva de palmas para as duas lojas que partem. Mas, correndo o risco de não ser equitativo, um enorme abraço e desejo de boa-sorte para a família Dias.

BOM DIA, PESSOAL...

ADÃO MEDIUM VIDENTE MAIS PRÓXIMO DE SI





Depois de um par de anos na Travessa da Rua Velha, Carlos Alves, mais conhecido no mundo do esoterismo como Adão Medium, passou a dar consultas de Tarot, limpezas energéticas de aura e de chakras na Rua das Padeiras, ao lado do Calçado Guimarães. O “esoterismo é o nome genérico que evidencia um conjunto de tradições e interpretações filosóficas das doutrinas e religiões - ou mesmo das Fraternidades Iniciáticas - que buscam transmitir um rol acerca de determinados assuntos que dizem respeito a aspectos da natureza da vida que estão subtilmente ocultos” -in Wikipédia.
Para além da higienização da alma, para purificar ambientes Adão Medium vende velas, velões de rituário, defumadores, incensos, incensários e cristais, artigos religiosos e livros esotéricos.
Segundo Carlos Alves, de 59 anos de idade, “são os mistérios da existência. Quando nasci deram-me apenas vinte e quatro horas de vida, mas resisti. Mais tarde tive uma intoxicação e fui dado como morto -lembro-me de estar no “túnel da luz”. Teria sido por volta dos seis anos quando comecei a sentir o chamamento de Nossa Senhora. Frequentei a Congregação Salesiana ou Salesianos -“é uma Congregação religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana fundada em1859 por São João Bosco e aprovada em 1874 pelo Papa Pio IX.”. Depois de formação cristã adequada, embora sem me dedicar a tempo inteiro, passei a percorrer o caminho da entreajuda na luz espiritual. Por volta dos quarenta anos, para acalmar a minha intranquilidade que consumia o meu interior, senti uma intensa necessidade de auxiliar as pessoas na área espiritual.
Sou membro da Ordem Rosacruz AMORC” -A Rosacruz AMORC é uma organização internacional de carácter místico-filosófico, que tem por missão despertar o potencial interior do ser humano, auxiliando-o no seu desenvolvimento, em espírito de fraternidade, respeitando a liberdade individual, dentro da Tradição e da Cultura Rosacruz.
Sou um canalizador. Sinto que vim ao mundo para ajudar o próximo!


A MAIOR VERDADE DO ANO...





A grande aventura” desta experiência como comerciante na Baixa de Coimbra é “o prazer que dá abrir as portas todos os dias e sentir que se é uma mais valia para a cidade, para a Baixa e para a Praça do Comércio.”

Carlos Jorge Monteiro, gerente da Galeria O Conde, por ocasião do terceiro aniversário do estabelecimento situado na Praça do Comércio -in Diário de Coimbra de ontem, 29 de Abril.

sábado, 28 de abril de 2018

BOM DIA, PESSOAL...

FEIRA DAS VELHARIAS: TRINTA ANOS PARA NADA!




Como habitualmente, por este Sábado ser o quarto do mês de Abril, realizou-se a Feira de Velharias na Praça do Comércio. Como é recorrente já há uns anos para cá, para além de se apresentarem poucos e cada vez menos pracistas, contrariando uma postura neste certame de feira-franca em que os vendedores se obrigam a manter-se todo o dia até ao entardecer, por volta das 14h00 a maioria dos expositores já estava a arrumar a tenda. Poderemos retirar várias ilacções. Mas isto quer dizer o quê?
Que este evento, que ocorre mensalmente no coração da Baixa, de compra e venda de artigos velhos e usados e que concorre para manter uma certa dinâmica de revitalização, está entregue ao “deixa-arder-que o meu pai é bombeiro”. Por parte do pelouro responsável da Câmara Municipal de Coimbra podemos todos dormir descansados, que da Casa da “Coltura” -de colt, a simbolizar a imposição: ou tens cuidado com o que dizes ou cortamos-te o subsídio- não virão nem bons ventos nem bons casamentos.
Podemos até dizer que, neste fim-de-semana, foi assim porque o tempo mediou entre um Sol radioso e um chuvisco enfadonho ou porque havia uma grande feira-de-ano, de três dias, nas Caldas da Rainha. Podemos arranjar as desculpas que forem necessárias. Uma coisa é certa: a Feira de Velharias está em estado-de-coma já há muito tempo, em decadência continuada, e ninguém move uma palha para mudar seja o que for.
Para aqueles que me acusam de ser um má-lingua, um maledicente desta maioria socialista que só interessa aos próprios, sempre vou acrescentando que os executivos anteriores de coligação laranja, que estiveram no executivo durante 12 anos, de 2001 até 2013, mantiveram a mesma postura. E não foi por falta de alertas em jeito de crónicas que escrevi sobre este assunto. Claro que, na comparação com outros responsáveis pelo pelouro, esta senhora vereadora é muito pior que os seus antecessores! Mas, politicamente escrevendo, não tem só defeitos, também tem qualidades: ser cega, surda e muda e não ligar nada ao que escrevo!
Bem sei que muitos comerciantes que lerem este meu apontamento até vão pensar: ora, ora! Este gajo (que por acaso sou eu) é doido! A Feira de Velharias não faz falta nenhuma à Baixa. No dia do certame é quando faço menos negócio!, dirão. Será mesmo assim? É óbvio que não! Neste dia a parte baixa da cidade é inundada com visitantes aficionados por arte.
Um dos grandes problemas da degradação da Baixa é a falta de visão holística, procurar compreender os fenómenos na sua globalidade, quer pelo poder político quer pelo pelo cidadão, de quem cá trabalha em funções privadas ou públicas. A maioria, senão todos, só vêem o seu umbigo. Quanto a isto estamos conversados!
Siga o enterro! Se a eutanásia já estivesse aprovada, mesmo fazendo um desvio de objecto, podia-se mandar a Feira das Velharias para o outro lado! Para quê continuar a sofrer assim?


A SÍRIUS MUDOU DE GERÊNCIA




Depois de sete meses com nova gerência -após encerrar em Agosto reabriu em Outubro do ano passado-, encerrou esta semana a pastelaria Sírius, na Rua da Sofia. Depois de ler o anúncio colado no vidro e trocar umas breves palavras com um dos novos adquirentes, ficamos a saber que este reputado estabelecimento, que já faz parte da paisagem da rua da sabedoria, passou de mãos para dois novos empreendedores. Na próxima Segunda-feira reabrirá com nova gerência. Embora só eu esteja convidado para lá ir beber um café, aposto, que a convocação pretendia ser geral. Vamos lá? 


GALERIA O CONDE COMEMORA TRÊS ANOS





O Carlos Jorge Monteiro -baptizado pelo mordomo do jornal online Notícias de Coimbra, Fernando Moura, como Conde de Ameal- proprietário da Galeria O Conde, na Praça do Comércio, comemora hoje três anos de abertura e existência do seu nobre estabelecimento. Para fazer jus ao logótipo nada melhor do que trajar a rigor. Que se mantenha por cá durante muitos anos com toda essa irreverência! Muitos parabéns, senhor conde! (seguido do ósculo no anel e da obrigatória curvatura das cruzes, em sinal de respeito)



VERDADES PERCEPCIONADAS APENAS POR ALGUNS




Há dias escrevi este texto. Repare nas similitudes:

A um ano das eleições de deputados para o Parlamento Europeu, em Maio de 2019, e a um ano e meio das eleições para a Assembleia da República, em Setembro ou Outubro de 2019, ainda sem conhecer as alterações ao Arrendamento Urbano mas pelo que se leu nos jornais, o Governo, a toda a pressa, legislou hoje em cima do joelho. Continue a ler (clique em cima)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

BOM DIA, PESSOAL...

"SEM-ABRIGO"

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



UM POEMA DE JOÃO
CARLOS CASCAIS FIGUEIREDO


SEM-ABRIGO

Lúgrebe a noite,
rosto do Inferno,
rasgada pelas luzes,
quanto Inverno
álgido no rebato,
garrafa entornada,
dança macabra,
a fome disputada,
andrajosa negritude.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




Marco Pinto deixou um novo comentário na sua mensagem "O ARRENDAMENTO COMO ARMA DE ARREMESSO":

Totalmente de acordo, Luís. Quando refere “o executivo cedeu à pressão de uma esquerda obcecada em atribuir rendimentos a quem pouco ou nada faz para os conquistar” e depois “É de prever que a desmotivação em criar riqueza vai continuar”. Mais ainda “a demagogia de medidas políticas perpetradas por governantes sem moral, sem ética, sem respeito pela propriedade” e apenas unicamente e exclusivamente “interessados em manter capturada a classe mais baixa dos portugueses.Este tipo de legislação «a pedido», «interesseira e manipuladora» da opinião publica está a estender-se a vários sectores da nossa economia. O governo está refém dos partidos mais à esquerda e há que os manter satisfeitos, de modo ao senhor Costa manter o seu cargo «ganho democraticamente».Quem ler a minha opinião deve pensar que sou um proprietário e senhorio de vários imóveis, mas não infelizmente. Ou se calhar felizmente, sou um inquilino que paga cerca de 35% do seu salário disponibilizado para a renda. Mas tenho uma vizinha, no 1.º andar, que paga a exorbitância de 27euros por um T2. Volta não volta faz valer os seus direitos de arrendatária ao «desgraçado» do nosso senhorio, exigindo (esta é a palavra) obras e outros benefícios!«É tão bom distribuir o que não nos custou a ganhar! Os que vierem atrás, os vindouros, pagarão a factura!»Um abraço, Luís. Desculpe lá o plágio ao seu post mas eu não diria melhor. Pelo menos eu refiro a fonte, ao contrário de antigos primeiros-ministros «escritores».

Marco Pinto
(Coimbra)

FALECEU O MANUEL RATO

Foto de Marina Rodrigues.
Foto de Marina Rodrigues.
(Fotos de Marina Rodrigues)

O “Manel Rato” era meu amigo. Foi um homem simples e anónimo cidadão. Foi um bom pai e bom chefe de família. Trabalhou durante muitas décadas na CP, em Coimbra. Morava nos Moinhos, concelho de Miranda do Corvo. Faleceu ontem e vai ser hoje o seu funeral. As cerimónias fúnebres começarão cerca das 14h00 na capela da sua terra e depois do ritual litúrgico encaminhar-se-á o féretro para o cemitério de Miranda do Corvo.
Para a família enlutada, sobretudo para os seus filhos, a Marina, a Anabela, a Marta e o Cláudio, os meus sentidos pêsames.
Em sua memória, porque gostava muito dele, para que um dos filhos leia na partida, compus este pequeno poema:


POEMA DA DESPEDIDA (PARA O MEU PAI)

Vejo-te estendido, meu pai, pareces somente dormitar,
a reflectir, de olhos fechados, tristes em cor de solidão,
como se estivesses só no mundo, no meio desta multidão,
acredita, não estás sozinho, estamos cá para te acompanhar,
a tua vida foi cheia de tudo, de alegria, e até no trabalhar,
deste muito, foi um gosto ter-te, obrigado pela abnegação.

Quando juntos à lareira, no inverno, víamos o fogo crepitar,
a devorar as cavacas de madeira que esforçadamente cortavas
no alpendre, tendo como testemunhas silenciosas o nosso cão
e os gatos, reparava que nunca choravas, nunca te lamentavas,
como a andorinha que indo e vindo, aceitavas sem formulação,
com o teu sorriso malandro, disfarçando, sorrias e cantavas.

Esses teus cabelos brancos, que lembravam o Cunhal,
remetendo-nos para um moleiro a sair dos moinhos enfarinhado,
faziam de ti um obreiro, o mestre de um velho barco ancorado,
o amigo de todos, o camarada simples, a mensagem espiritual,
foste bom companheiro, “Manel Rato”, serás sempre abençoado,
pelos teus filhos, que sempre te amarão, uma lágrima imortal.
Até sempre, meu pai! Uma salva de palmas pelo teu passado!

(Luís Quintans)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

O ARRENDAMENTO COMO ARMA DE ARREMESSO





A um ano das eleições de deputados para o Parlamento Europeu, em Maio de 2019, e a um ano e meio das eleições para a Assembleia da República, em Setembro ou Outubro de 2019, ainda sem conhecer as alterações ao Arrendamento Urbano mas pelo que se leu nos jornais, o Governo, a toda a pressa, legislou hoje em cima do joelho. Como a preparar-se para rebentar com um contrato bilateral que, por um lado, tem de ser justo para as duas partes, por outro, é um instrumento essencial para o desenvolvimento do país, tudo indica que o executivo cedeu à pressão de uma esquerda obcecada em atribuir rendimentos a quem pouco ou nada faz para os conquistar. A maldição do arrendamento, continuando a sacrificar os proprietários e a beneficiar os inquilinos, ou aqueles que vivem em barracas, já vem de longe, desde a primeira República. É de prever que a desmotivação em criar riqueza vai continuar. Qualquer dia, quando o rico deixar de arriscar o seu capital, não haverá Portugal, nem Comissão Europeia que resistam a esta ideologia interesseira. É o populismo vermelho em toda a sua expressividade! É a demagogia de medidas políticas perpetradas por governantes sem moral, sem ética, sem respeito pela propriedade e apenas interessados em manter capturada a classe mais baixa dos portugueses. É a continuação de políticas de confisco que visam destruir a classe média -se é que ainda existe!
É tão bom distribuir o que não nos custou a ganhar! Os que vierem atrás, os vindouros, pagarão a factura!
Depois de um trabalho notável a combater assimetrias sociais, é lamentável o que António Costa está a fazer ao país! Tristeza! Tristeza!
Diz o povo que “gata apressada tem os filhos mortos!”

BAIXA: CRÓNICA DA SEMANA PASSADA

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1 - Na semana passada, a Antena 1, na rubrica “Portugal em directo” passou uma peça sobre a crise que assola o comércio na Baixa. Lembro que na semana anterior tinha sido realizado um debate promovido pela Confederação Portuguesa das Pequeníssimas, Pequenas e Médias Empresas (CPPME) onde esteve presente dezena e meia de profissionais ligados ao comércio. Fosse por pouca divulgação ou não, a verdade é que a comunicação social, escrita e falada, primou pela ausência. Resultado desta não-inscrição? O Jornal de Notícias (JN), sobre a pena de um jornalista da cidade, a posteriori, deu conta do clima que se sente na Baixa mas meteu água e a direcção da CPPME, com muita razão, mandou-se ao chão de indignação por não ter sido citada na notícia. Mas como uma asneira nunca se fica sozinha, como escrevi em cima, presumivelmente, a Antena 1, numa espécie de copy e paste, seguindo o JN, fez pior. Foi entrevistar um comerciante e uma senhora hoteleira que, alegadamente, nada sabiam sobre o encontro de comerciantes. O desconhecimento sobre o que acontecera, fê-los focar trivialidades. Por seu lado, e para borrar a escrita toda, como quem diz a locução, o jornalista entrevistou Vitor Marques, presidente da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, sobre o que se passava na Baixa. Marques, que teve conhecimento prévio da reunião e informou estar indisponível, sabia bem de tudo. Ora, quando confrontado pelo jornalista, em vez de se dignar chamar à colação o esforço da CPPME, puxou dos galões e falou unicamente do trabalho político da associação a que preside. É um pormenor? Sem dúvida, mas, para além de marcar toda a diferença, explica como a necessidade de protagonismo individual está a corroer e a mandar para o charco o comércio tradicional.
2 No maior segredo da sua gestação, como coelho tirado da cartola, na Sexta-feira da semana passada, irrompeu a notícia no jornal online Notícias de Coimbra de que tinha nascido uma nova associação: a AICEC, Associação industrial, comercial e de Empresários de Coimbra. Por aqui, pelas ruas estreitas e vielas, a pergunta que se atravessa é: Porquê tanto sigilo?
Será que, tendo em conta o aforismo, que “o segredo é a alma do negócio”, será o mistério o sangue novo, o elixir da salvação, que se pretende ministrar aos vendedores de rua?
Repetindo o que foi escrito na crónica anterior, em cima, é um pormenor? Sem dúvida, mas, para além de marcar toda a diferença, explica como a necessidade de protagonismo individual está a corroer e a mandar para o charco o comércio tradicional.

3 – Apesar de, aqui e ali, surgirem substituições e abertura de novos empreendimentos, sobretudo pela desertificação acentuada nas ruas, o negócio continua a cair na Baixa. Os ventos que saem do palácio do paço, na Praça 8 de Maio, continuam fracos e sem conseguirem tocar as velas das centenas de embarcações que precisam de trabalhar neste mar de dificuldades. Até agora, numa espécie de isco para apanhar tolos, o executivo municipal aprovou e colocou em prática o Orçamento Participativo. É pouco? É pouquíssimo! Para se tentar salvar os estabelecimentos que restam com áreas que compõem a diversidade na zona histórica, esperava-se muito mais. Para quem segue a política local com atenção, dá impressão que os eleitos da maioria vivem num mundo à parte. Até onde vai conduzir este desinteresse pela revitalização da Baixa? É a interrogação que perpassa de cidadão para cidadão. Sim, porque, não tenhamos dúvida, este alheamento não será por acaso e por certo terá um objecto! É tudo uma questão de tempo!


4 – A cidade, talvez com maior incidência a Baixa e a Alta, como praga que caiu de um sistema que prima em não combater os indícios e depois, quando actua tardiamente, faz tudo mal, está ser conspurcada por pichagens e grafitados em paredes de edifícios, monumentos, muros. Tudo indica estarmos perante uma pandemia social. Como exemplo de cidadania activa, salienta-se o esforço de um munícipe de nome Bruno Alexandre Borges em denunciar o que nos caiu em má-sorte, na Página da Câmara Municipal de Coimbra (não Oficial).
É certo que, há dois dias numa reunião do executivo municipal, o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, afirmouque é “intolerável a vandalização e a pichagem do património” que tem vindo a acontecer em diversas zonas da cidade.
Portanto, por antecedentes de que palavra prometida é palavra cumprida, levando em conta que sentença de Machado é compromisso realizado, todos podemos dormir descansados -incluindo o nosso concidadão Bruno Borges.

5 – Neste último Sábado, na aldeia de Chelo, no concelho de Penacova, o vetusto salão do União Popular e Cultural de Chelo foi pequeno para receber tantos amigos que, pela sua presença, pretendiam homenagear o Manuel Ribeiro, um ex-comerciante da Baixa. Marcaram presença cerca de 180 pessoas.
O homem que já deu a volta ao mundo, já foi a cara do Infinito, já foi o rosto do Eldorado e agora, pelas voltas que a vida dá, é simplesmente o Ribeiro, por palavras vincadas a ferro de reconhecimento, mostrou-se que a sociedade, nos princípios e valores, não está completamente em desagregação. Ainda se aproveita qualquer coisinha! Será mesmo? Podemos projectar este feito transversalmente? Como quem diz, nas grandes cidades? Ou estes sentimentos de nobreza já só prevalecem nos ambientes rurais? Se, por acaso, esta homenagem fosse em Coimbra, mais propriamente na Baixa, quantos amigos juntaria o Ribeiro? Uma vintena?

6 – Segundo informações obtidas pelo nosso repórter de exterior, mister Olho de Lince, recentemente chegado dos Estados Unidos, ao que parece, a recém-desaparecida Casa do Castelo, que encerrou em junho de 2017, uma livraria que já vinha da velha Alta e durante décadas esteve instalada na Rua da Sofia, em pleno coração da Baixa, muito em breve, para gáudio de todos nós, vai ser ocupada novamente com livros. O novo ocupante, que trata os alfarrábios por tu há muitas décadas, é um nosso conhecido e amigo, o José de Almeida Gomes, que vai complementar o armazém do Tovim de Cima com uma loja na Baixa. Seja bem-vindo, senhor Gomes!

Foto de Baixa de Coimbra.
7 - Promovida pela Agência de Promoção da Baixa de Coimbra (APBC) e em colaboração com a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, de 21 a 28 deste Abril águas mil, está a decorrer a Semana do Bacalhau. O evento tem a adesão de 38 restaurantes, todos situados no casco velho com 13 inscritos a concurso a decorrer, numa “prova cega”, na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra. Cada restaurante, independentemente de se apresentar a concurso ou não, pagará de inscrição 20 euros. Segundo o Diário de Coimbra, “sendo o total de 720 euros distribuído em partes iguais pelo Ninho dos Pequenitos (instalado no Instituto Maternal Bissaya Barreto e Liga dos Pequenitos -associação sediada no Pediátrico de Coimbra).

BOA SEMANA!

terça-feira, 24 de abril de 2018

O HOMEM QUE JÁ FOI INFINITO, ELDORADO E AGORA É UM RIBEIRO (3)





III ACTO


A homenagem a Manuel Ribeiro, “Manel do Eldorado” ou “Manel do Infinito” como também é conhecido, prosseguia a bom ritmo. De estômago bem composto e corpos bem refastelados, apesar de haver pouco espaço para espreguiçar, o ambiente estava no ponto de rebuçado. As dissertações elogiosas ao consagrado continuavam com bom andamento no terceiro acto.
Agora era um grupo de ex-funcionárias do Eldorado e do Infinito, lojas de pronto-a-vestir que o louvado teve na Baixa de Coimbra entre 1969 e 2000. Chamaram à colação pequenos trechos comerciais. Uma das senhoras disse: “enquanto nosso patrão, foi um homem bom, que nos deixou crescer e seguir as nossas vidas. Tudo o que o senhor Manuel Ribeiro nos ensinou foi muito importante! Claro que não esqueço que quando o cliente não comprava, por exemplo uma calça de ganga, lá vinha a interrogação: “porque é que o freguês não comprou? Temos tantas calças!”. Para ele, cliente que não comprasse era sermão certo. Dava-nos cabo da cabeça. Foi lá que aprendi quase tudo sobre comércio e também no senhor Francisco e na Dona Cila, aqui presentes, nas Modas Veiga, na mesma rua.”
Um antigo colaborador do “Manel”, no Eldorado, Manuel Ferreira contou o seguinte: “em 1975 houve uma greve dos empregados do comércio por melhores salários. Os empregados do Eldorado ganhavam acima da tabela. Então, o “Manel veio ter connosco e perguntou: “vocês fazem greve? É que é para saber se abro a loja ou não”. Nós respondemos: não senhor, não fazemos!”. O “Manel”, com aquela sua convicção que lhe reconhecemos, disse: “pela solidariedade para com os vossos colegas, vocês vão fazer greve!
A seguir foi Manuel Saraiva Marques a usar do elogio: “Conheço o “Manel” muito antes de estar no Eldorado. Antes de ser o que foi já era o “Manel da “Ti” Matide, homem do rock, contestatário, contestatário sempre! -a “Ti” Matilde vendia sardinha aqui em Chelo e no concelho, de porta-em-porta. Ia abastecer-se a Coimbra
O presidente da Câmara Municipal de Penacova, Humberto Oliveira, tomando o microfone, alegou: “Começo por dizer que é com muito gosto que estou aqui! Estou na qualidade de presidente da edilidade, mas estaria na mesma se o não fosse! A minha primeira calça de ganga Lewis 501 foram compradas no Infinito”, a última loja do Ribeiro, na Rua da Sofia.
O último dos admiradores a usar da palavra foi Filipe Ribeiro, filho do agraciado. Colocou o seu smartfone em alta voz e ouviu-se a voz de José Afonso, na canção “Filhos da Madrugada”.
Para finalizar, coube a vez ao agraciado, que disse: “hoje tenho dificuldade em encontrar palavras. Hoje fiquei atónito pelo desempenho da Filarmónica Lorvanense em tocar especialmente para mim, o Manuel Ribeiro. O meu avô dizia algumas vezes: “olha, “Manel”, a música é o elemento da alma. Quando a música tomar conta dos homens não haverá mais guerras!
Foi uma honra ter estado aqui hoje. Afinal valeu a pena!
Chelo é a minha aldeia! Chelo é a minha Pátria!

PRESIDENTE HONORÁRIO

Novamente Amável Ferreira, dirigente do Rancho Folclórico “As Paliteiras de Chelo”, pegou no micro e anunciou: “a direcção deste salão decidiu atribuir o nome de Manuel Ribeiro a esta colectividade. Seguidamente, vai ser descerrada a placa com o seu nome. Para além disso, ao lado do seu avô e do seu pai, vamos colocar uma sua foto.”
Em seguida todos os olhares foram para a porta junto ao palco -cujo pagamento da sua construção, foi dito, esteve a cargo do referenciado nos tempos áureos- onde o engenheiro Ralha, Humberto Oliveira, presidente da autarquia de Penacova, acompanhado por Pedro Coimbra, deputado na Assembleia da República pelo círculo de Coimbra, descerraram uma placa em madeira, da autoria de Jorge Neves, um conterrâneo da terra.
O último acto solene foi o destapar da fotografia do “Manel” na parede da vetusta instituição União Popular e Cultural de Chelo.
Até altas horas da matina, as festividades passaram para uma recriação do tempo antigo. Vários artistas do grupo folclórico mostravam uma cena popular onde não faltou a produção de palitos, o diz-que-disse brejeiro, o amassar da broa, o deitar do quebranto, os pregões tão característicos dos vendedores do povo e o bailinho popular no largo da capela.
Pela sua entrega a esta causa nobre de reconhecimento a um homem que estando agora na mó de baixo mas que, quando podia, muito deu à sua terra, o povo de Chelo está de parabéns! Uma lição para Portugal... para quem a aceitar e souber perceber.

TEXTO RELACCIONADOS

"O homem que já foi Infinito, Eldorado e agora é um Ribeiro" (2)
"O homem que já foi Infinito, Eldorado e agora é um Ribeiro" (1)




segunda-feira, 23 de abril de 2018

O HOMEM QUE JÁ FOI INFINITO, ELDORADO E AGORA É UM RIBEIRO (2)





II ACTO
A pequena sala do União Popular e Cultural de Chelo, como a colaborar no evento, parecia ter crescido em espaço. Estava cheiinha que nem ovo. Pensado por gente simples do povo, desenrolava-se o segundo acto de uma cerimónia de homenagem para um homem comum que, pelas suas qualidades solidárias, transcendera essa normalidade. Como é costume em todos os ritos de culto condecorativo, é normal o exagero, o mito ultrapassar em muito a realidade. Mas, mesmo apontando esta premissa e descontando algum excesso que possa existir, a verdade é que, neste caso em apreço, sobra muito para não levarmos em conta o que é narrado pela voz da população.
Um suculento jantar, acompanhado de um vinho de grande qualidade, iria servir de almofada para os discursos elogiosos que se iriam seguir. Nas paredes da vetusta colectividade, expostos solenemente em fotografia, a cerca de uma dezena de presidentes já desaparecidos seguiam atentamente o rebuliço que estava acontecer na pacata associação.
Depois de cerca de 180 pessoas estarem acomodadas, muito juntas e sem espaço para usar garfo e faca, Amável Ferreira, o presidente do rancho típico de Chelo, abriu as vozes do segundo acto: “podem queixar-se de tudo, da comida, do estar apertado, mas ninguém se queixe de estar aqui pela homenagem ao “Manel”! Muitos mais quiseram estar presentes mas não foi possível! Por não haver lugares, a organização teve de abdicar de estar sentada à mesa! Resistam à queixa e dêem as mãos porque esta é uma noite muito especial!
Pensando que mais ninguém da classe comercial se lembraria já do “Manel do Infinito”, numa espécie de representação da Baixa de Coimbra, eu e o Francisco Veiga, das Modas Veiga, acompanhados das esposas, fizemos questão de marcar presença em tão nobre iniciativa promovida pelas gentes agradecidas de Chelo. Para nossa alegria e completa surpresa compareceram também o Taipio, o chinês mais conhecido do nosso bairro, o Marques, da Aba Larga, e o César Branquinho, um comerciante já aposentado destas lides de comerciar.
Por entre a assistência, desde o início da comemoração, podiam ver-se Humberto Oliveira, Presidente da Câmara Municipal de Penacova, e Pedro Coimbra, deputado do PS à Assembleia da República pelo círculo de Coimbra -que chegou mais tarde.
Depois de uma saborosa sopa da pedra, a fazer lembrar a sopa da nossa avó, uma chanfana deliciosa, e umas sobremesas de comer e chorar por mais, entrou em cena o bolo de aniversário oferecido pela filha, Rute Ribeiro. E numa portentosa exaltação, cantaram-se os parabéns de pé aos 79 anos de vida do “Manel do Eldorado”.

E COMEÇARAM OS DISCURSOS

Amável Ferreira, presidente do Rancho Folclórico “As Paliteiras de Chelo”, agradecendo a presença de todos, foi dizendo: “em 1982 eram precisos 300 contos -1500 euros hoje- para construir o novo pavilhão polidesportivo. Fomos ter com o “Manel”! E ele disse: “não é por isso que as pessoas não terão onde treinar! 
Os jovens iam para a tropa, precisavam de umas calças, iam à loja, pediam e traziam. 
Um dia vinha o “Manel” para casa e, no caminho, encontrou um menino descalço. Tirou os seus sapatos e entregou-os ao petiz. Quando chegou a casa a mãe, a “Ti” Matilde, deu-lhe cabo da cabeça.
Hoje é o “Manel” que está aqui. Depois de estar muito doente no hospital, depois de um AVC, Acidente Vascular Cerebral, chegámos a pensar ser tarde de mais.
A seguir foi o engenheiro Ralha, primo do galardoado, que tomou a palavra: “O “Manel” fez parte da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Penacova logo após o 25 de Abril de 1974.
Seguidamente usou da palavra um articulista tão parecido comigo que, iria jurar, parecia mesmo eu. Disse o seguinte: Como não podia deixar de ser, a Baixa tem de estar aqui representada nesta homenagem. E passou a ler uma missiva e um poema:

HOMENAGEM A MANUEL RIBEIRO

Decorria o ano de 1969 quando Manuel Ribeiro, através de um pequeno empréstimo, e juntamente com um sócio, deu à luz a sociedade Diniz & Ribeiro, L.ª. Nascia o Eldorado na Rua Eduardo Coelho.
Logo nos primeiros tempos de existência esta casa, porque rompia com um situacionismo existente na cidade, passou a ser uma catedral de moda em Coimbra. Quando noutras cidades do país os comerciantes viajavam ao estrangeiro para apreender tendências, aqui visitavam o Eldorado e ficavam a saber o que se iria usar durante a próxima estação.
O homem que se homenageia hoje, o Manuel Ribeiro, carinhosamente tratado por “Manel do Eldorado” ou “Manel do Infinito”, é e será para sempre recordado na Baixa como um grande comandante que liderou as tropas de um comércio pujante noutros tempos e hoje, infelizmente, em completa desagregação.
Afirma o nosso consagrado que Coimbra foi sempre uma cidade cinzenta, dividida entre o castanho, azul e o preto. E de facto assim é, autores como Trindade Coelho no “In Illo Tempore”, escrito há mais de um século, transmite-nos esse petrificado e formatação nos costumes. Por isso mesmo, o nosso amigo Ribeiro andou sempre à frente e durante mais de três décadas liderou a moda em Coimbra. Este “ganda maluco”, como se auto-define, sem medo de nada, nem de alguém, passou a vida a afrontar o poder instituído.
Enquanto trabalhadores do comércio na Baixa, por um lado, é com desânimo que constatamos que homens de “H” grande como o “Manel” fazem muita falta na classe dos mercadores, por outro, é com grande alegria que estamos aqui, juntando-nos aos muitos amigos que tomaram esta feliz iniciativa, e verificamos que o Ribeiro, cheio de garra em viver, continua igual a si mesmo!


O “Manel” é como um ribeiro
que nasce nos confins da serra,
desliza humildemente no sendeiro,
cortando o pó árido, abre sulcos na terra,
por onde passa deixa marca no arneiro,
depois da sua passagem tudo se descerra,
garboso, gera invejas, mas é um guerreiro,
só quando, cansado, pousando a espada, aterra.

O “Manel” é como um eldorado,
um ponto sumido no meio do deserto,
aquela nota musical perdida num bailado,
a Lua Cheia em Agosto, o futuro entreaberto
o cantar do pássaro, a erva verde de um prado,
o irmão, o protector, o camarada, o amigo certo,
a espiritualidade da alma, o sacramento, o fado,
a esperança de liberdade vivida pelo liberto.

O “Manel” é como o infinito,
o acreditar no amanhã, a força de um olhar,
andorinha regressada na primavera, o mito,
o cantar do grilo no campo, o Sol a brilhar,
a revolução contra o marasmo, o manguito,
a paz no mundo, o silêncio de um luar,
a espada que corta a intolerância, o grito,
uma estrela no universo sempre a brilhar.









O HOMEM QUE JÁ FOI INFINITO, ELDORADO E AGORA É UM RIBEIRO (1)




1.º ACTO
Este último Sábado, 21 de Abril, ficará para sempre marcado nas gentes de Chelo e arrabaldes desta aldeia pitoresca do concelho de Penacova como uma data gravada para os vindouros.
O entardecer do penúltimo dia da semana decorria pachorrento. O Sol, como a associar-se e a adivinhar festança, como cabelos louros esparramados, estendia os seus raios dourados sobre os montes e vales em redor. No pequeno largo onde foi construída a associação cultural de Chelo há cerca de um século era perceptível uma invulgar empolgação. Aqui e ali, em conversa animada, pequenos magotes de pessoas, apessoadas com fato domingueiro, pareciam esperar qualquer coisa ou alguém. Outros homens e mulheres, vestidos a rigor com vestimentas de antanho e a retratarem o passado, membros do rancho folclórico, atropelavam-se em afazeres de ida e vinda para o interior do clube da terra.
Dos fundos de uma viela surgiu um homem vacilante, de aspecto doentio. Caminhando aos tropeções, amparado num andarilho, encaminhou-se para o meio da praça. Apesar da fragilidade notória, a imagem do surgente parecia irradiar uma força anímica inexplicável. Com um dos olhos toldado pela doença, a outra vista parecia brilhar de intensidade que o transformava em insurgente.
De repente, pela sua aparição, os grupos desfizeram-se e todos correram para dar um abraço ao recém-chegado. Com os olhos humedecidos pela emoção, o consagrado, em meias palavras entrecortadas num tarmudear, ia agradecendo: “muito... obrigado! Muito... obrigado! Eu... não estava à espera... de uma coisa destas! E logo nos meus anos! Foi uma completa surpresa!
O que estava acontecer no largo da União Popular e Cultural de Chelo era uma homenagem a Manuel Ribeiro, um homem que já foi menino pobre, marçano de comércio, comerciante rico na Baixa de Coimbra, que teve o mundo na mão, e agora, como tantos milhares de portugueses, é simplesmente um cidadão que vive da sua pequena pensão de velhice. Ribeiro, amparado e abraçado, talvez sem o saber, por um lado, era ali o símbolo do apogeu e declínio da humanidade. Naquela imagem empobrecida, no melhor e no pior, estava um pouco de todos nós, a história de um comerciante que percorreu o mundo de lés-a-lés e agora, pela contingência e tombos que a vida prega, arrastava-se com dificuldade. Por outro, certamente sem disso se dar conta, o povo anónimo que ali prestava tributo a um homem agora despojado de bens, pelo seu exemplo de reconhecimento, também fazia história. Não é todos os dias que alguém se ajoelha em sinal de respeito perante um comerciante despossuído.
Mas, afinal, o que fez de relevante o agraciado? Quem respondeu foi Manuel Ralha, morador na povoação e membro do rancho típico do lugar: “Manuel Ribeiro, enquanto podia, deu muito a esta terra e a muitas outras em redor. Foi presidente do União Popular e Cultural de Chelo. Bastava pedir e ele trazia em quantidade o que fosse preciso. Desde meias, bolas, equipamentos, ele oferecia tudo para os atletas! Dava tudo sem pedir nada em troca. Mesmo quando não era dirigente do clube foi sempre uma alma nobre. Ajudou muito o concelho de Penacova, incluindo outras instituições. Fez muito bem a toda a zona. É o mínimo que poderíamos fazer pelo “Manel”! Daí esta legítima e mais que merecida homenagem!
Durante cerca de três décadas, o Manuel Ribeiro, com duas grandes casas comerciais em Coimbra, o Eldorado e o Infinito, pelo seu arrojo em quebrar um cinzentismo de modorra, como timoneiro de um navio ao serviço da moda, deu cartas a todos os mercadores da cidade.

E CAÍU O CREPÚSCULO

Lentamente a noite foi estendendo o seu manto sobre os presentes, que à medida que o tempo passava ia engrossando o número e já ultrapassava a centena. No pequeno café da colectividade, Ribeiro não tinha mãos a medir para corresponder a tantos beijos e abraços.
No papel de jornalista de ocasião, interrogo: o que é isto, “Manel”? “Isto resulta de um trabalho de muitos anos. Foi de forma extemporânea. É agradecimento! Cava fundo, vem ao de cimo. É o reconhecimento da sociedade! Sempre gostei de preparar os homens para o dia de amanhã. É preciso saber perder para conseguir ganhar! Nesta altura da minha vida, isto suplanta as minhas expectativas. Está a aparecer aqui um naipe de personagens que não estava à espera. Apesar do tempo, a amizade não foi esquecida. Estou muito, muito agradecido. Muito obrigado a todos!
Cerca das 21h00, o engenheiro Ralha, presidente do União Popular e Cultural de Chelo, tocou a reunir à porta da colectividade. Veio a Filarmónica Lorvanense e executou várias peças em louvor do Ribeiro. Tocou também os parabéns pelos 79 anos de vida do conterrâneo que se celebrava neste mesmo dia. Como grossos pingos de chuva a atravessar a cercania, sem conseguir conter a emoção, as lágrimas caíam pelo rosto cansado e doente do “Manel” do Infinito, como é também carinhosamente reconhecido em Coimbra.
Para quem presenciou, pela simplicidade, foi um espectáculo impressionante. Foi lindo! lindo, lindo de ver!