terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS. BOM ANO NOVO

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Com o pretexto de aspirar tudo de bom, porque fica bem e é politicamente correcto nesta época apresentar cumprimentos, desejando umas boas entradas aos amigos, conhecidos e outros que nem tanto – que não sejam a pés-juntos, lagarto, lagarto -, aproveito para formular votos de muita saúde, algum dinheiro e já agora, se não for exigir muito da divina previdência, também uma boa dose, larga, larga, de amor.
Os seguidores deste blogue desde há muitos anos devem estar lembrados que, por esta altura, temos por hábito oferecer “vouchers” para viagens e outras passagens pelo mundo. Embora custe muito admitir, as nossas finanças estão pelas ruas da amargura. Ainda tentámos uma subvenção na Câmara Municipal de Coimbra, em cash, mas nada feito. Se calhar, digo eu, o pessoal de lá não vão à bola connosco. Mas se o meu colega administrador-mor não respondeu em carta timbrada, é verdade que não, também não é mentira que, em resposta oficiosa, como quem diz em recadito atrás de orelha, a frio de Dezembro natalício embrulhado em azeviche, foi dito assim: “Reconhecendo que o blogue Questões Nacionais é um importante posto público de lamentações do seu autor, e uma grande melga, o senhor presidente tem muita pena de não poder disponibilizar um contributo tangível. No entanto, por que as eleições autárquicas estão quase à porta (2021) e precisa do voto útil da maioria de conimbricenses para ser reeleito, vai conceder a cada leitor, amigos e família deste sítio da Internet uma entrada gratuita nos festejos de Fim-de-ano que se vão realizar dentro de poucas horas na Baixa da cidade. Se o encontrarem por aí, mais logo, façam o favor de não lhe agradecerem. Mas, no caso de se recandidatar - que ainda não sabe- aí está bem, não se esqueçam dele em 2021. Um abraço socialista.”
Em resumo, como vêem, não queremos que vos falte nada. Se não há pão, come-se broa. Homessa!
Façam o favor de arrumarem aqueles ressentimentos com o vizinho, que andam a remoer desde o ano passado, e, por volta da meia-noite, vão bater-lhe à porta e, entre uma fatia de bolo-rei e uma filhó, dêem-lhe um abraço de paz e concórdia.
Boas festas e feliz Ano Novo para todos.

sábado, 28 de dezembro de 2019

BAIXA: A FEIRA DE VELHARIAS EM AVENIDA PROVISÓRIA






Provisoriamente, hoje, quarto Sábado do mês de Dezembro, a Feira de Velharias realizou-se no Largo das Olarias, em frente a Loja do Cidadão. Relembra-se que desde o princípio da década de 1990, com cerca de oito dezenas de vendedores em permanência, funcionou na Praça do Comércio. Em Junho de 2018, alegadamente com intuito de revitalizar o Terreiro da Erva, que pouco antes sofrera obras profundas, foi deslocalizada para aquele espaço encravado entre as Ruas Direita e da Sofia. A mudança imposta, e que muita tinta já fez correr incluindo um abaixo-assinado, para além da defesa do presidente do município, Manuel Machado, não agradou nem a vendedores nem a compradores. Por isso mesmo, foi uma razia entre os frequentadores. De quase uma centena de expositores na antiga praça velha, drasticamente, o número passou para, em média por certame, 20 profissionais de compra e venda de adelos.
Neste Sábado de tempo aberto e com Sol a espreitar por tudo quanto é fresta, perto do mesmo número habitual, cerca de vinte e cinco vendedores estiveram presentes no espaço aberto para ser (não se sabe quando) uma avenida central.
Em conversa com alguns deles, em maioria, todos anuíram que este é mesmo o espaço indicado para manter o evento para o futuro – e o salvar, disseram outros. Um ou outro disse ainda que se continuar no Terreiro da Erva, um sítio escondido, sem sombras de protecção no Verão, sem passagem de transeuntes, onde só vai quem sabe, não voltará a expor os seus artigos.


A QUE SE DEVE A TRANSFERÊNCIA?


Até ao passado dia 25 o Terreiro da Erva esteve ocupado com uma pista de gelo e um carrossel para crianças. Ontem, podiam ver-se vários operários a procederem ao seu desmantelamento. Segundo uma fonte da autarquia que pediu o anonimato, “já com casas-de-banho montadas num canto do terreiro, espera-se hoje, a todo o momento, a chegada de um camião com o palco que ali vai ser montado para os festejos de Passagem de Ano.”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

BAIXA: POR UMAS PEDRINHAS CAÍDAS







Nesta última quarta-feira, dia de Natal, por volta das 14h30, uns fragmentos de massa e pedras de pequeníssima dimensão que envolvem a cercadura do beiral desprenderam-se da cércea do edifício onde funcionou até há cerca de um ano e meio as Modas Veiga, na Rua Eduardo Coelho.
Certamente por pensar que estaria perante algo de grave, alguém alertou a PSP e esta força de segurança, por sua vez, teria avisado a Protecção Civil. Alegadamente, vieram os técnicos responsáveis por esta entidade ligada à previdência e, com grades de protecção e fitas da PSP, interditaram totalmente a rua em toda a frente do prédio identificado. De tal modo foi a intervenção que não era possível atravessar a via, nem ingressar no imóvel confinante onde funciona a “Belíssima”, um estabelecimento de artigos de lingerie, nem na edificação em frente.
Segundo Joana Silva, proprietária da Belíssima, “ontem, Quinta-feira de manhã, quando a minha mãe, Rosa, se preparava para abrir a loja, deparou-se com o acesso cortado”.
Agora fala Rosa, “fui à polícia saber o que tinha acontecido e procurar uma solução que me permitisse trabalhar. A PSP aconselhou-me a ir à Câmara Municipal. Nos Paços do Concelho sugeriram-me que que me dirigisse para o ponto de venda e aguardasse a ida de técnicos camarários. Passados pouco mais de cinco minutos já lá estavam os engenheiros e o dono da propriedade” - que foi há pouco tempo transaccionada para um comerciante da nossa praça. Continua Rosa Silva, “os engenheiros foram muito simpáticos e, para além de me tranquilizarem, arredando as grades mais para o lado, permitiram a passagem de transeuntes. Gostava de ter visto o mesmo empenho por parte do proprietário, que nem para mim falou. Se não tivesse ido procurar explicações, estou convencida, não teria havido ninguém a dizer alguma coisa e a rua continuaria intransitável.


O COSTUME... DO (MAU) COSTUME


Sempre que há queda de detritos de um edifício, sobretudo na Baixa, seja de grande ou pequeno volume, é costume, como princípio de precaução, imediatamente a Proteccão Civil interditar o espaço adjacente. Nesta primeira fase - consideremos um tempo de avaliação -, podemos considerar que estaremos perante uma boa medida. O problema é que as grades e as fitas separadoras ficam para ali abandonadas ao Deus dirá como se não estivessem terceiros, sem culpa formada e a serem prejudicados, à espera de uma solução rápida de diagnóstico e não houvesse amanhã.
O princípio da prevenção, não sendo um dever (e direito) absoluto, é uma obrigação relativa. Ou seja, se, por um lado, se deve diligenciar no sentido de prevenir vítimas, por outro, a acção desencadeante não pode tergiversar em excesso de cautela, e com isto aglutinar e prejudicar pessoas alheias ao acaso. Quero dizer que, por parte das autoridades responsáveis, a análise, formas de actuação e consequente reparação da origem do fenómeno devem ser rápidas e eficazes. Ao deixarem perpectuarem no tempo as necessárias prerrogativas securitárias, sem atarem nem desatarem, dá impressão que, o que não fizeram antecipadamente, depois do desastre, querem mostrar trabalho a todo o custo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL A TODOS OS NOSSOS CLIENTES, AMIGOS, INIMIGOS E OUTROS

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(Imagem da Web)



Aproveitando para desejar as habituais festas felizes, e aspirando saúde, paz e amor a todos os clientes do blogue, que está a entrar na adolescência - a caminhar a passos largos para 13 anos de existência -, com muita força, gostava de manifestar a maior esperança no 2020 que se aproxima.
Os que nos acompanham há muitos anos sabem que é costume nesta quadra darmos um bacalhau a cada “associado”. Infelizmente, este ano, o orçamento, por força das cativações do Ministro das Finanças, gorou as nossas nobres intenções. Ainda pensámos numa alternativa mais ligeira mas, à última hora, contivemo-nos. Não devemos contribuir para a peugada consumista, que está contaminar o planeta – nem o menino Jesus escapa.
Informando que vamos continuar abertos 24 sobre 24 horas para vos servir e não deixar que nada vos falte, assim sendo, com votos de boas Festas, com ternura e amizade, um xi coração do vosso amigo director, redactor, foto-jornalista, Luís Quintans, e oferta de um sentido poema:


UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL


É Dezembro…
Uma folha cai… lentamente…
Ziguezagueia por entre a amálgama de gente,
gente apressada, escrava do tempo,
insatisfeita, faces duras sem contento,
pisam a folha, alinhados em parada, com tacões,
ecoam na calçada… como centuriões,
as pedras vibram, com tanta precisão,
uma pedrinha solta-se na multidão,
alguém a pontapeia, ao acaso, em estopada,
e ela rolando, por cá e lá, vai sendo chutada;
O vento sopra, cortante, e a folha voa,
e de cima, olha para baixo, vê à toa,
este exército mal ordenado,
como se estivesse condenado,
a andar, a andar, sem se render,
mesmo sabendo que vai desaparecer,
continua a querer mais, a ambicionar
mesmo que por um metro de terra tenha de matar
e o menino de olhos tristes, cara meiga, faça chorar,
o que importa nesta guerra é o feito, o vencer,
a infelicidade não conta, mesmo sabendo que se vai morrer;
E de novo a folha cai… lentamente…
Um louco ri sozinho… desalmadamente,
pega na folha, com carinho, o anormal,
afaga-a com a mão, como se fosse um pardal,
faz caretas, gesticula, dança ao vento com nobreza,
embala a folha, dá-lhe beijos, filha da natureza,
nem o frio, a refrear o ímpeto, lhe faz mal,
ele sabe que é festa, não sabe que é Natal,
não sente a solidão, não conhece abraços,
não compreende a razão de tantos laços,
E de tantos rostos fechados com ar formal;
Alguns presentes e sacos enfeitados,
tantas almas embrulhadas,
tanto amor materializado,
tanto calor humano… desperdiçado
entre o dever e o ser,
só é gente com… o ter,
e a folha… lentamente,
nos braços de um demente,
sorri… para a turba disforme,
e pensa a folha, se eu falasse… uma frase conforme,
mesmo com a voz do tonto rouco, gritaria em altos berros:
AFINAL QUEM É O LOUCO??!!



domingo, 22 de dezembro de 2019

EDITORIAL: BAIXA, ESTÁS BEM DE SAÚDE, AMIGA?






Por um lado, é da psicologia social, quem está fora
de muros tem tendência a sobrevalorizar pequenos
indícios e fazer deles um resultado final. Por outro, quem está
a viver as coisas com a frieza da prática tem inclinação
para avaliar em função da idade e experiência adquirida.”



São 15h00 deste Domingo, 22 de Dezembro de 2019. Uma chuva incómoda e teimosa persiste em fustigar quem se aventura a percorrer a calçada. Por que é preciso escrever qualquer coisa, podemos perguntar: nesta altura de Natal e final de ano, a nível económico, como vai a nossa amiga Baixa?
Obviamente, como coisa, não pode responder, pelo que vemos, porque vivemos e trabalhamos no seu ventre, aventamos cenários. Começando pelo que lemos nos jornais locais, a Baixa, com mais estabelecimentos abertos, sobretudo de hotelaria, está em franca recuperação - escrevem eles. Claro que, como se trata da célebre teoria do copo meio-cheio/meio-vazio, vale o que vale. Os jornalistas opinarem sobre a Baixa tem o mesmo peso que eu ou outro qualquer leitor afirmar que a imprensa regional está em notada recuperação. Quero dizer com isto que “quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro”.
Por um lado, é da psicologia social, quem está fora de muros tem tendência a sobrevalorizar pequenos indícios e fazer deles um resultado final. Por outro, quem está a viver as coisas com a frieza da prática tem inclinação para avaliar em função da idade e experiência adquirida. Sendo pessoa nova, naturalmente por força do ânimo e sangue na guelra, sem termos comparativos, terá tendência em ver cenários cor-de-rosa. Já sendo pessoas de meia-idade, com memória de referência de outros tempos, fatalmente cai no discurso negativo.
Com esta explanação, quero dizer que, sendo a verdade uma mera convicção, será difícil atingir a realidade. Em acrescento, diremos que, mais que certo, o melhor é adicionar todas as premissas e depois obter o resultado em média. Isso não obsta que não se valorize, por si só, qualquer opinião -já que, à luz de uma leitura individual, todas terão o mesmo peso.
E, então, podemos interrogar: e qual é a minha? Antes de responder, ensaio com uma ressalva e uma introdução. Na ressalva, já sou velhote. Logo, por isso mesmo, como disse em cima, o meu depoimento, irremediavelmente tenderá (embora não obrigatoriamente) em cair para o pessimismo.
Na introdução, começo por dizer que, depois de falar com vários comerciantes, este terá sido, porventura, a pior quadra natalícia dos últimos vinte anos. Para além da falta geral de dinheiro da maioria dos consumidores, para além da concorrência agressiva dos centros comerciais, para além do comércio online, este ano o mau tempo manifestado com inundações no Baixo-mondego e previsão de alagamento de algumas partes baixas no Centro Histórico -que felizmente, salvo um ou outro caso pontual não se verificou -, acabou por reduzir a procura nesta época para níveis mínimos e preocupantes.
Mas há questões que me deixam a interrogar os astros: sendo hoje Domingo, à distância de três dias do Natal, porque é que tão poucas lojas abriram portas? Se na Calçada a maioria está pronta a receber clientes, nas ruas estreitas contam-se pelos dedos de duas mão os comerciantes que estiveram de atalaia. Salienta-se que, sendo poucos ou muitos os que aderiram à causa, os clientes também não marcaram presença. E é aqui, com este resultado igual, que ficamos com as voltas trocadas. Antigamente dizia-se que se tratava de uma pescadinha de rabo na boca. Ou seja, os compradores não vinham porque todo o comércio estava encerrado. Agora, mesmo nas vésperas da Festa do Deus-menino, em que era normal haver um índice de procura acima da média, nem os comerciantes vieram nem os consumidores deram sinal. Como avaliar o comportamento de um e outro grupo?
Por parte dos comerciantes, adivinha-se que terão perdido a esperança. Pensarão, se não vendi nos dias antecedentes, o que venho fazer para aqui ao Domingo?
Já no que toca à parte da procura, mais que certo, teriam pensado: o tempo para além de não estar convidativo, a maioria das lojas estão encerradas. Então, o melhor é ir ao centro comercial.




E NA HOTELARIA?


Quando se fala na mudança para melhor da Baixa, infalivelmente, aponta-se o acréscimo da hotelaria na zona como a amostra de um desenvolvimento que parece tangível sem óculos de aumento. Mas será mesmo assim?
É verdade que este ano, como multiplicação dos pães, os estabelecimentos de café e restaurante cresceram exponencialmente, mas, tomemos nota, já encerraram três. Pode servir de paradigma este claudicar? Não sei. O que sei é que nem tudo são flores. Posso afirmar também que, com a concorrência desenfreada que se adivinha, a vida não está fácil para muitos. Alguns já baixaram preços. É preciso não esquecer que a Baixa trabalha bem, por força do turismo, durante seis meses, de Abril a Setembro. Mas o ano tem doze meses, este é que é o verdadeiro problema.

sábado, 21 de dezembro de 2019

UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL (REPUBLICANDO)

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)



(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS
ESCRITAS EM 2008)


UMA FOLHA CAÍDA NO NATAL


É Dezembro…
Uma folha cai… lentamente…
Ziguezagueia por entre a amálgama de gente,
gente apressada, escrava do tempo,
insatisfeita, faces duras sem contento,
pisam a folha, alinhados em parada, com tacões,
ecoam na calçada… como centuriões,
as pedras vibram, com tanta precisão,
uma pedrinha solta-se na multidão,
alguém a pontapeia, ao acaso, em estopada,
e ela rolando, por cá e lá, vai sendo chutada;
O vento sopra, cortante, e a folha voa,
e de cima, olha para baixo, vê à toa,
este exército mal ordenado,
como se estivesse condenado,
a andar, a andar, sem se render,
mesmo sabendo que vai desaparecer,
continua a querer mais, a ambicionar
mesmo que por um metro de terra tenha de matar
e o menino de olhos tristes, cara meiga, faça chorar,
o que importa nesta guerra é o feito, o vencer,
a infelicidade não conta, mesmo sabendo que se vai morrer;
E de novo a folha cai… lentamente…
Um louco ri sozinho… desalmadamente,
pega na folha, com carinho, o anormal,
afaga-a com a mão, como se fosse um pardal,
faz caretas, gesticula, dança ao vento com nobreza,
embala a folha, dá-lhe beijos, filha da natureza,
nem o frio, a refrear o ímpeto, lhe faz mal,
ele sabe que é festa, não sabe que é Natal,
não sente a solidão, não conhece abraços,
não compreende a razão de tantos laços,
E de tantos rostos fechados com ar formal;
Alguns presentes e sacos enfeitados,
tantas almas embrulhadas,
tanto amor materializado,
tanto calor humano… desperdiçado
entre o dever e o ser,
só é gente com… o ter,
e a folha… lentamente,
nos braços de um demente,
sorri… para a turba disforme,
e pensa a folha, se eu falasse… uma frase conforme,
mesmo com a voz do tonto rouco, gritaria em altos berros:
AFINAL QUEM É O LOUCO??!!

BAIXA: UMA NARRATIVA QUE PARECE IMPOSSÍVEL MAS... (REPUBLICANDO)




(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS
ESCRITAS EM 2018)



Apesar de ser Domingo, a dois dias do Natal seria de supor, por um lado, que todas as lojas comerciais estivessem abertas, por outro, que toda a cidade, em massa e em nome dos velhos tempos, acorresse a fazer compras no coração da tradição. Ora, nem em um nem noutro casos aconteceu assim. Ou seja, nem os estabelecimentos abriram em bloco - só cerca de dez por cento compareceu à chamada laboral –, nem a esperada clientela pôs os pés na zona histórica.
Quer por uns quer por outros, é de admirar este procedimento? Ou não? A ver vamos! Pelos primeiros, os comerciantes, por alguma lamúria avulsa que graça por entre becos e ruelas, seria de supor que abririam portas nesta véspera que já foi tão importante nas vendas anuais. Pelos segundos, os citadinos, sempre tão críticos com a classe política, afoitos e generosos com discursos pungentes sobre o estado da Baixa, também custa a entender. A menos que, nos dois estratos, ocorresse qualquer acaso que forçasse a não comparência. Por conseguinte, se todos temos curiosidade em saber, nada melhor do que perguntar, é ou não é verdade?
A passear calmamente numa das ruas largas como se aferisse o movimento de passantes, de sobretudo comprido com golas coçadas, que já viu melhores dias e mãos nos bolsos, encontrámos um nosso amigo e colega estabelecido -que não identifico por questões de reserva. Depois do cumprimento da praxe, atirei-lhe de supetão: Então não abriste hoje? Anda pouca gente a circular, não é? Tentei contemporizar.
- Não é por isso, pá! – respondeu-me irritado, como se tivesse entendido a minha observação à laia de provocação.
Eu não abri a minha loja em solidariedade com os nossos Coletes Amarelos, que se manifestaram há três dias no nosso país. Por culpa do Governo, do Presidente da República, dos partidos políticos e do nosso presidente da Câmara a nossa cidade está de rastos! Eu nunca vi isto assim! No negócio, o pior Natal dos últimos vinte anos! O mal de tudo é a apatia das pessoas! Ninguém quer saber! Fossem todos como eu e Portugal estaria virado do avesso!


E OS CITADINOS? POR QUE NÃO VIERAM À BAIXA?


Sempre que preciso de escrever sobre questões de cidade, acima de tudo com grande imparcialidade, socorro-me da menina Pulquéria, solteira, boa rapariga e virgem prendada, uma munícipe muito interventiva mormemente nas redes sociais. No Facebook fazem história para a posteridade os seus lamentos memoriáveis: “Quem viu esta Baixa e quem a vê! Meu Deus, os culpados são os políticos da autarquia! Atenção, todos, incluindo a oposição! Ao que chegou a cidade! Ainda sou do tempo em que não se podia romper nas ruas estreitas! São só lojas e mais lojas fechadas! Abandonaram esta parte da cidade à sua sorte, é o que é!”
Cerca das 14h30 cliquei nos números para contactar e ouvir a menina Pulquéria. Como pescador a lançar a rede, atirei: Então a menina nem hoje veio à Baixa? Sigo os seus escritos com atenção no Facebook. Desculpe a franqueza mas a gota não bate com a perdigota! Nem a véspera de Natal mereceu uma visita sua?
- Ai senhor Luís, não me fale nesse tom, por favor! - retorquiu muito irritada. Tenho muita consideração por si, mas primeiro escute as minhas razões e só depois tira conclusões!
- Sou todo ouvidos, menina -enfatizei como a tentar colocar água na fervura extemporânea.
- Já não vou à Baixa desde Quinta-feira, dia da manifestação dos Coletes Amarelos. Em solidariedade com os protestantes, estou de greve. Este país, esta cidade, ambos estão um caos e ninguém quer saber. Haviam de ser todos como eu. Ai se deviam! Então é que isto mudava!
- Mas, então, presumo que esteve na Casa do Sal com os (poucos) manifestadores. Esteve lá, não esteve? Interroguei.
- Infelizmente não pude estar. Deus não quis! Estive de cama todo o dia com uma pancreatite aguda. Valha-me Deus! Nem quero recordar! Quem havia de dizer que seria forçada a faltar?!?


UMA BAIXA SILENCIOSA


Por coincidência com esta quadra natalícia, ou não, a Baixa está muito mais silenciosa. Até parece que o remanso dos cemitérios se instalou nesta parte da cidade. Já não se houve uma cantoria como no tempo da minha ex-vizinha Imaculada, que migrou para norte da cidade, quando, com as suas cantorias, invadia tudo em redor e até os pombos se punham em sentido para a escutar. Nem uma discussão na viela, nem uma desavença no beco, que resultava em trolitada de nariz partido. A minha esperança residia na “Rádio Baixa”, um recente projecto de emissões de música durante o dia. Foi prometido que, pelo menos nos primeiros tempos, a alegria musical seria difundida ao fim-de-semana na Rua Eduardo Coelho e área envolvente e através de meios digitais em streaming -“tecnologia que envia informações multimédia, através da transferência de dados, utilizando redes de computadores, especialmente a Internet.
Subitamente a “Rádio Baixa” deixou de emitir sons que contribuíam para quebrar a rotina de uma urbe envelhecida. O que aconteceu?
À questão formulada, respondeu uma das fundadoras: “Fomos silenciados por um vizinho. Um destes domingos passados, estava eu a emitir música acompanhada com uma colega quando, de repente, vimos entrar intempestivamente um homem de mão em riste para me bater. Quando viu que eu estava acompanhada com uma testemunha refreou o ímpeto, mas, mesmo assim, ainda me retirou os auscultadores dos ouvidos com violência. Chamámos a PSP para identificar o agressor. Depois da tramitação processual o agente aconselhou-nos a não colocar a coluna difusora de som à nossa porta. É por isto que estamos nesta quietude!”

"BON"... "NÁTÁL"!





(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS




É Sábado, 24 de Dezembro, são 9h30 na Rua Eduardo Coelho, em plena Baixa da cidade. O facto de ser véspera de Natal não traz qualquer movimento extraordinário à artéria outrora movimentadíssima nesta época de lembranças e prendas natalícias.
Apesar do Sol bafejar com os seus raios luminosos os largos, os telhados e os beirais, está um vento cortante e frio. Os poucos transeuntes, de sobretudo de lã e alguns com gorro na cabeça, passam, de ar descansado, com as mãos nos bolsos.
Alguns comerciantes estão à porta das suas lojas, como se em cada pessoa que passe esperem ver ali o Natal personificado. Nenhum deles precisa de falar para se adivinhar o que lhes vai na alma. Numa loja da mesma rua, quando interrogo uma funcionária acerca do movimento as lágrimas vem-lhe imediatamente aos olhos. Pelo canto dos lábios, num sussurro de silêncio e envolvido em temor, balbucia: “muito mau! Muito Mau! Não sei o que vai acontecer para o mês que vem.”
Junto à antiga sapataria Reis –encerrada repentinamente há meia dúzia de meses e depois de oito décadas de história comercial- uma cigana romena, com uma criança ao colo com pouco mais de um ano, como grafonola com disco riscado, repete incessantemente: “Bon” Nátál”! “Bon” Nátál”!
As pessoas que calcorreiam as pedras, maioritariamente já com mais de meio século, de aspecto empobrecido, e de rostos fechados, fazem de conta que não ouvem o apelo.
Roda um homem, bem vestido, bombardeado pela lengalenga da cigana, manda-lhe um olhar de soslaio, comprime os lábios -como se dissesse “gostava de te ajudar, mas não posso”- e continua em passo descompassado.
Passa uma prostituta, com a cara meia desfeita, como se na noite anterior o chulo estivesse a treinar boxe e fizesse dela um saco de frustrações, olha, com um olhar sem cor e sem sabor, e continua em direcção à sua vida, provavelmente, sem futuro previsível.
Passa um sem-abrigo –meu conhecido, mas que, pela aparência de bem vestido, poucos adivinharão ser-, olha para a mulher com desdém e profere: “vai trabalhar! Vai-te fornicar!
Durante cerca de um quarto de hora ninguém responde materialmente ao apelo pungente da mendiga. Neste meio tempo ainda passa um homem e, correspondendo à saudação, mas sem dar uma moeda, diz por entre dentes: “bom Natal!
Um rapaz, de cerca de vinte e poucos anos, de aspecto “rap”, com boné de pala a atirar para o infinito e calças ao fundo do rabo, pára e dá a primeira esmola.
Na rua, quase silenciosa, o titubear da cigana é o único som que atravessa um raio de largos metros. Mais uma vez está a dar mama à criança, quem sabe, para a manter sossegada, pois saberá que, a seguir ao aleitamento, irá dormir no seu colo durante meia-hora. Continua a ladainha: “Bon” “Nátál!”
Um homem meu conhecido, a atravessar a idade perigosa dos cinquenta, completamente embriagado, de olhar esgazeado e a babar-se para a camisa, e que em tempos, a escrever, foi uma “pena de ouro”, mas que, por certo, a solidão, esse terrível flagelo dos tempos modernos, empurraram para a depressão e para o álcool e levando a que perdesse o emprego num grande jornal nacional, encosta-se a mim e, borrifando-me com um hálito de alto teor etílico, em tom de ordenança, sentencia: “dá-me uma moeda!”. Como nego a solicitação, passa ao ataque: “tu… tens a mania que… escreves bem, mas não… escreves nada! Estás a… ouvir? Que sabes tu de mim? Para… me…enviares o… e-mail? Tu não… me conheces. Estás a… ouvir?” –Há tempos enviei-lhe um e-mail a oferecer-lhe ajuda para uma desintoxicação ao álcool. Foi-se afastando, a remoer as palavras, como se eu fosse o causador da dor profunda que lhe feria a carne e atormentava a alma. Parou ao pé da cigana a praguejar. Retirou do bolso uma moeda e colocou-a na sua mão. Continuando a atirar palavras ao vento, foi-se afastando em direcção ao seu vazio existencial.
Um caniche preto, aparentemente sem dono e sem beira, pára junto à cigana e, sem pedir licença, alça a pata. A mulher, entretida com o filho, pareceu não reparar naquele acto, como que a dar fundamento ao aforismo de que “quando uma pessoa está no chão até os cães nos vem mijar na perna”.
Passa outra romena, que habitualmente vende pensos e, por força persuasiva, é uma “cola”, em jeito de melga desgraçada, olha de soslaio para o quadro de miséria, e continua na passada, sem lhe dirigir palavra.
Uma mulher já entradota nos “entas”, certamente reformada, de aspecto doméstico e pobre, de cabelos prateados e atados num carrapito, estaca, calmamente retira o porta-moedas do interior do casaco e, em ralenti, dá uma moeda em forma de óbolo à mendicante.
São onze horas da manhã desta véspera de Natal, que já foi um dia, a cigana, quem sabe dorida de estar com as pernas cruzadas no chão frio da calçada, levanta-se e vai para outra vida. Se calhar, para um outro posto, para uma outra esquina, porque esta rua já foi, ou já deu o que tinha a dar.
Duas mulheres, mais que certo serem mãe e filha, vestidas de preto, passam ainda com a pedinte no chão e viram para o Largo da Freiria, encaminhando-se para a montra de uma loja. A mais velha volta atrás para ir entregar um níquel à mendiga, mas esta já ia a passadas dali. Volta para junto da mais nova e diz: “olha, já foi embora! Queria dar-lhe um euro!”. A provavelmente filha, a rir do acto, diz à mãe: “que mania a tua, a de sempre que vês um pobre teres de lhe dar dinheiro!”

O NATAL DE TANTOS ENGANOS (REPUBLICANDO)

(IMAGEM DA WEB)



(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS


Estou sentado naquele banco,
virado para a rua de cima,
não sinto o frio gelado do clima,
nem os rostos fechados de flanco;
Já nem conto os “Feliz Natal”,
tantas frases de vulgaridade,
não deixam rasto de saudade,
nesta selva de cidadania animal;
Olho as gentes, pergunto a mim,
o que quero mesmo, afinal,
que prenda neste Natal,
daria a mim próprio, assim;
Escolheria um sentimento
que pudesse tudo apagar,
nascer hoje, sem recordar,
a tristeza gravada no tempo;
Já fiz um pouco de tudo,
dei vida, vendi-me, matei,
por necessidade, roubei,
por uma moeda de escudo;
Talvez eu seja três em um,
num aquele que gostaria de ser,
outro que se esforça por ter,
e outro diferente de mais nenhum;
Aqui, somos todos viajantes,
à procura de um vento norte
que nos leve, nos transporte,
para outras terras distantes;
Neste mês de nascimento,
tornamo-nos mais humanos,
pastorinhos de mil enganos,
à espera de outro momento;
E quando o Natal passar,
voltamos ao que sempre fomos,
parte que não reparte em gomos,
bestas cruéis a assassinar.

CONTO DE NATAL: MULHER-MÃE BANDEIRA DA VIDA (REPUBLICANDO)

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(IMAGEM DA WEB)


(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS


CONTO DE NATAL: MULHER-MÃE BANDEIRA DA VIDA





Neste 20 de Dezembro o autocarro parou junto ao rio Mondego. Estava o Sol no centro de um dia friorento à sombra. Do meio da pequena multidão uma mulher esguia e de meia-idade saiu em passo ligeiro mas resoluto. Era baixa, com pouco mais de metro e meio. Era incrivelmente magra, muito magra, como se a gordura numa qualquer reivindicação se negasse a encher o corpo. Vestia com simplicidade roupas que, de tanto serem repetidas, pareciam querer manifestar-se pelo excesso de uso. Quem olhasse aquele rosto fechado de frente veria dois olhos negros, embaciados de tristeza mas, ao mesmo tempo, um olhar duro, petrificado pela mágoa, como se o pouco e o muito já não fizessem qualquer diferença, se tivessem imunizados à dor, e estivessem prontos a levar qualquer pancada do destino.
Como fantasma perdido nas trevas em busca de um encosto que lhe consubstanciasse afirmação, atravessou a avenida quase sem dar pelos carros e, no seu andar rápido, entre o suave vacilar de pena e o carregar os pés no chão de dentes cerrados, entrou nas ruas largas da calçada. A sua mente estava longe, cavalgava sobre um corcel de memórias. As pessoas que consigo se cruzavam sem as ver com definição, aos seus olhos, pareciam sombras que se moviam em câmara lenta. Nem a música espalhada ao vento de “O Natal existe” a fez hesitar em calcar as pedras quase com raiva. A letra da canção parecia gozar com a sua disposição “quero ver você não chorar, não olhar para trás nem se arrepender do que faz”. Pensou para si, “não chorar como? Só se fosse pelo motivo da fonte das lágrimas ter secado”. Sentiu-se invadida por uma irritação surda. Se não fosse por coisas, apetecia-lhe mandar um grito para o ar acompanhado de uma grande asneira. “Que merda de tempo este que se vive agora no Natal! Anda tudo lixado, com a alma mais negra que a chaminé da casa de aldeia onde nasci, e tudo finge que é feliz. Esta época natalícia faz-me lembrar o período pré-eleitoral em que anda tudo a cantar hossanas ao candidato. Passado um mês desaparece a nuvem de euforia, vem a solidão e a falta de expectativa, e regressa a realidade que sempre esteve no meio de nós e nos há-de acompanhar até ao fim dos nossos dias. Nunca gostei muito do Natal. Nesta quadra sou assolada por memórias que de boa vontade expurgava. Casei próximo de Dezembro. Rodou o calendário e quando pari os meus filhos andavam S. José e Maria à procura de um estábulo indecente para parecerem os mais segregados desta vida simbólica de pobreza. Também nesta época, estava o solstício de Inverno a preparar-se para polvilhar tudo de branco, foi quando a minha mãe morreu –que saudades que eu tenho dela!
Faz tantos anos que dei o sim lá na igreja da Rainha Santa –tantos, tantos! Quantos? Sei lá! Até já me esqueci. Tantas esperanças que coloquei naquele ramo de camélias amarelas! Era o tempo das flores. Quando casei ainda se apanhava no ar o cheiro dos cravos. Agora o cravo feneceu, já só resta a memória e o espírito revolucionário num livro que tenho lá em casa e nos móveis que ainda mantenho e não pude trocar por outros mais modernos. Do cravo passámos a escravo. Mas, agora que penso nisso, somos subjugados a quê? E Porquê? E Eu? Sou submissa a quem? Se calhar do destino, deste fado de má-sorte. Sempre trabalhei tanto, tanto, até agora para eles! Para todos! Para a minha família! Nunca cuidei de mim. Não soube pugnar pelos meus interesses. Há décadas que não vou ao cinema! Há séculos que não vou dançar. E quando foram as últimas férias que gozei fora? Estive sempre em segundo lugar. A primeira escolha era deles. Eu apanhei sempre o que restava, o que não lhes interessava. Porque é que este meu filho me havia de fazer isto? Deus queira que ele se safe! Tive mesmo azar! Anda uma pessoa a criá-los para isto! Porque é que ele me fez isto? –E olhos começaram a humedecer. Ao longo destas décadas, tanta escada que encerei! Tanta casa que arrumei! Tanta roupa que passei a ferro em casa das senhoras! Tanta merda que eu limpei depois de sair da repartição pública em segundo trabalho forçado e até às tantas. Porque é que ele me fez isto? O que eu sofri para pagar as propinas lá na Faculdade de Economia e não o consegui ver licenciado. Mas ele é tão inteligente! Como é que os mais espertos, tendo um talento inato, se transformam nos mais burrões? Porque é que o meu filho me fez isto?”
Quase sem dar pela distância, chegou à Praça 8 de Maio e entrou na Igreja de Santa Cruz.


II


Transpôs a porta do templo e foi banhada pela atmosfera fria da pedra secular, onde o silêncio envolvente convida à introspecção, ao remanso da essência, e a oração surge sem ser requisitada. Havia um cheiro a Natal misturado em odores de incenso e vela queimada. Algumas mulheres, com ar solene, de cabeça baixa, em sinal de respeito total, encaminhavam-se para um dos lados, presumivelmente onde estaria representada a Sagrada Família e com o Menino Jesus.
Como um saco de águas rebentadas para dar à luz, as lágrimas irromperam por aquela face martirizada pelo tempo e o sossego como testemunha. Num dos muitos bancos de madeira corridos, acomodou-se, deu um último olhar para o púlpito reluzente a ouro enegrecido pelos anos e fumo de velas, marcas de fé num derradeiro milagre, e cerrou os olhos. O pranto, como fio de água provindo das profundezas da terra, continuava a correr pela pele sulcada de bainhas madrastas. Como um condenado à morte, em que lhe resta apenas uns minutos de vida e só um milagre a pode salvar, ajoelhou e mentalmente encetou um monólogo emudecido: “Senhor, ajuda o meu filho! Sabes que nunca Te pedi nada para mim. Dá-me uma mostra de que és bom. Bem sei que não fui boa mãe ao dar-lhe tudo de mão-beijada. Pensei que estava a fazer o melhor. Enquanto eu trabalhava pela noite dentro, correndo de Seca para Meca, contando os cêntimos, ele moinava. Quando eu me levantava de madrugada para deixar o seu almoço prontinho em cima do fogão chegava ele meio borracho e com outras coisas mais que o alucinavam. Eu via mas não queria ver nem crer. Tive sempre esperança que ele mudasse. Ele é bom menino, Senhor! Tenho a certeza. É certo que é muito manipulador e, fazendo que ouvia, nunca escutava ninguém. É muito inteligente, mas pouco disciplinado. Talvez seja este o verdadeiro problema. Nunca tive mão na sua vontade. Às vezes irritava-me com ele mas quando se abraçava a mim, naquele gesto apertado, acabava a derreter-me e estragava tudo. Sempre foi diferente do irmão, o outro meu filho que está lá longe do outro lado da fronteira. Ajuda o meu filho, Senhor! Dá-lhe uma outra oportunidade. Apesar dos seus quase 35 anos continua a ser uma criança crescida. Bem sei que contribuí para ele ser assim. Eu sei! Mas tem dó! Ele é um fruto desta sociedade conspurcada pelo vício, onde a necessidade de abstracção implica a recorrência a ansiolíticos, a álcool, a droga, como ele. Foi por esta que o meu filho, em associação com outros, começou a assaltar pessoas na cidade. E eu sem saber de nada! Levei um baque, Senhor! Quando a polícia me bateu à porta para o levar sob prisão fiquei em choque. Como foi possível? Como foi possível ter-me feito uma coisa destas?
Daqui a meia-hora vai ser lida a sentença no Tribunal. Pela Tua incomensurável misericórdia, neste Natal de 2013, ajuda o meu filho! Pelo Teu omnipotente poder de influência sobre a humanidade, prepondera a juíza. Faz com que ela tenha compaixão e lhe dê uma oportunidade de reinserção social. Fazes isso, Senhor?”


III


A sala fria do Tribunal estava repleta. O ambiente era de tensão, emoção e expectativa. Sabe-se lá o que iria na cabeça de todos aqueles familiares?! Dentro de momentos, pela leitura da sentença proferida pela juíza presidente do colectivo, iria ser decidida a vida, o futuro daqueles três jovens. A súmula de crimes cometidos pelos arguidos contra a comunidade ficou ali bem vincada e esclarecido que causaram temor social, como tal iriam ser castigados. E foi lido o acórdão na parte decisória que mais interessava. E num caso nunca visto a magistrada chorou. De entre os presentes, uma mulher suspirou fundo e olhou para cima. O seu menino tinha sido condenado a pena suspensa.



(BASEADO NUMA HISTÓRIA REAL)

BAIXA: PROCURA-SE A MAGIA DO NATAL (REPUBLICANDO)




(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS



Pela materialização, pela necessidade de saber e mostrar tudo
e fazendo cair os mitos, pela desvalorização das coisas, o
feitiço desapareceu. Salvo pequenas parcelas da população
portuguesa, os nossos infantes de hoje não têm dogmas,
não crêem em entidades sobrenaturais, são seres pragmáticos
gerados num tempo de informação com acesso rápido a todas
as perguntas, são extensões computorizados.”


Apesar dos dias solarengos e sem chuva -era tão normal nesta época cair morrinha-, com o Sol a irromper por nesgas e betesgas e a beijar descaradamente as ruas largas, Visconde da Luz e Ferreira Borges, e largos e praças como a 8 de Maio e a Portagem, a verdade é que, pela proximidade do Natal, se nota uma ausência de essência, de qualquer coisa que falta na Baixa. Como se o circundante estivesse petrificado em pedras milenares e lhe faltasse o encantamento, a magia, desta época, “pressente-se” uma tristeza no ar, uma certa carência do espírito de outros tempos e tão envolvente nesta quadra. É como se os adultos se apresentassem mais velhos, não amolecessem, se mostrassem de rostos duros e fechados, e não ganhassem aquele brilho nos olhos que os transforma e faz parecer crianças crescidas.
A pergunta que emerge é: porquê? Claro que não sei, nem procuro dar resposta objectiva. No máximo posso especular sobre o perceptível -aos meus olhos- esmorecimento sorumbático que se abateu sobre a maioria -digo eu- de pessoas que transitam pelo “bairro baixo” -a título de curiosidade, em meados do século XIX a Baixa era tratada como o “bairro baixo” e a Alta como o “bairro alto”. Como a tristeza é contagiosa, como se adivinha, passou também para os turistas, que nos visitam, e para os comerciantes.
Prosseguindo, por um lado, tenho para mim que a acelerada mudança de costumes está enterrar a alma do Natal em campa rasa. As crianças ainda acreditam no Menino Jesus? Ainda projectam no Pai Natal o mítico fornecedor de brinquedos especiais? Sem pretender ser conclusivo, creio que não. Pela materialização, pela necessidade de saber e mostrar tudo e fazendo cair os mitos, pela desvalorização das coisas, o feitiço desapareceu. Salvo pequenas parcelas da população portuguesa, os nossos infantes de hoje não têm dogmas, não crêem em entidades sobrenaturais, são seres pragmáticos gerados num tempo de informação com acesso rápido a todas as perguntas, são extensões computorizados. O dogma, enquanto materialização do pensamento assente na convicção de existência, no acreditar sem ver, assenta sobretudo na necessidade; na noção de incompletude, e finitude, do homem, na dúvida em, com ajuda de algo que o transcende, fazer acontecer. Portanto, se as crianças, por um lado, são ainda muito tenras para pensar nestas questões metafísicas, por outro, também é certo que é desde pequenino que se semeia a crença. Ora, enquanto adultos, enquanto pais, digo eu, estamos a construir pequenas máquinas que, aparentemente, sabem tudo sobre a geografia do mundo mas não têm experiência real de nada. E julgam ser auto-suficientes. O pior é que, por culpa nossa em tanto pretender a sua protecção, são melindres de fragilidade e, obsessivamente, são tomados pelo medo em pânico continuado.
E os adultos? Por que já pouco ligam ao Natal? Se calhar, pelas crises que a sociedade está a atravessar, da dissolução da família, da instabilidade económica, do desequilíbrio social, na descrença da política. Pela falência de um sistema económico que prometeu de mais e agora, depois da poeira assentar, nos pede dividendos com muitos juros que mal conseguimos saldar. Por outro lado, estou convencido que as tragédias que se abateram sobre Portugal em Junho e Outubro espalhou no país uma neurose colectiva. Ver centenas e centenas de pessoas na miséria, psicologicamente, acabou por nos tocar a todos. Fez-nos ver que a linha que divide o bem-estar hoje e o mal-estar amanhã é muito ténue.
Por outro lado, ainda no tocante à Baixa, o desinvestimento que a Câmara Municipal de Coimbra fez este ano nas iluminações natalícias, nas ruas, acentua e sublinha ainda mais a diferença com os tempos áureos e, mesmo sem o querermos, a nostalgia entra dentro de nós, deprime, angustia, e gera ansiedade. Se a aposta na felicidade colectiva deveria ser uma preocupação constante dos líderes que nos governam, este procedimento do presidente do executivo deixa muito a desejar. Será esta a sua manifestação de carinho por Coimbra? Na sua valorização? Meu caro Manuel Machado, enquanto parte dos conimbricenses, fico com a impressão que ainda vamos acabar todos subnutridos de amor.

"FELIZ NATAL - FELIZ ANO NOVO" (REPUBLICANDO)

(IMAGEM DA WEB)



(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS


FELIZ ANO NOVO - FELIZ NATAL”

Dito assim, parece mais uma mensagem circunstancial igual a tantas outras. Bolas!, mas não é isso que eu quero. Vocês, leitores deste blogue, que tendes tido a paciência de ler o que eu escrevo merecem mais do que uma simples mensagem do tipo: toma lá e vai-te embora. Não é esse tipo de encomenda que vos quero entregar.
Tenho que dizer duas coisas em relação ao Natal. Por um lado, não gosto deste período. Por outro, é um tempo triste e depressivo. Psicologicamente, tem uma explicação. Sei o motivo por que não gosto, mas não vos vou contar, que isso, para aqui, é irrelevante.
Socialmente, este tempo santo, para mim, deixa algo a desejar. É o Dezembro do “
feliz Natal”, quase por obrigação recíproca. A prendinha dada quase da mesma forma. É a preocupação a termo certo com os mais pobres e carenciados. São os almocinhos solidários. É a sopinha dos pobres. É como se durante este mês caísse uma nuvem social de boa vontade e depois, quando ela desaparece, lá para Janeiro, tudo volta à normalidade. Não queria ser demasiado duro, mas é um período que tem acoplado muita hipocrisia –às vezes sem termos noção.
Mas uma coisa é certa, mesmo retirando toda esta carga nublada, acho que o Natal igualmente a outras datas que pretendem chamar a atenção são importantes. Ainda que durante pouco tempo, como bandeira de armistício, salienta e lembra o que de melhor existe dentro de nós: a paz, a solidariedade, a bondade, o respeito pelo outro, a preocupação social no seu todo.
Em relação ao Ano Novo quase a mesma coisa. “Bom ano!”. "Bom ano!”. “Feliz Ano Novo!”. “Boas Festas!”, se repete no último dia 31 para 1 e duplica até à exaustão ainda durante todo o mês de Janeiro. Antecipadamente, sabemos que, salvo raras excepções, este ano de 2014 não vai ser bom. Menos ainda será feliz para a maioria. No entanto, mesmo sabendo que se trata de uma falácia, todos colaboramos nela. Recebemo-la e devolvemos. O que não é de estranhar, porque também nos alimentamos de utopia, na ideia do genial, do fantástico, mesmo crendo que não passa de um sonho imaginário. E este contentamento interior pressupõe uma optimização em todos os campos, dinheiro, emprego, paz na família, e… saúde. Pois é! Escrevi saúde em último lugar intencionalmente. É que, para todos nós, no geral, o vigor é como o ar que respiramos. É um bem adquirido. Tomamos à letra o conceito internacional conferido pela Organização Mundial de Saúde: “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”. Psicologicamente interiorizamos que a saúde é um direito fundamental, intrínseco, consignado, por Deus ou pela Natureza, pelo simples facto de estarmos vivos. Só damos por ela quando nos falta. E lembrei-me de escrever sobre a nossa robustez física porque a um meu familiar muito chegado, há pouco tempo, foi-lhe diagnosticada uma doença grave. Quando lhe telefonei a desejar as boas festas respondeu-me: “só preciso mesmo é de saúde!”.Ora cá está! Ele deixou de se importar com o todo, com o dinheiro, com as viagens, com a necessidade de adquirir um carro novo, para apenas se focar no essencial para viver. Nada do que considerava anteriormente, agora, passou a ter valor.
Quando tenho dúvidas em relação a qualquer escolha que tenha de fazer –porque optar a todo o momento faz parte da condição humana-, tenho por costume aferir entre o mal maior e o mal menor. É assim uma espécie de balançar entre custos e proveitos –nunca podemos ganhar sem inevitavelmente perdermos. Quando chego à conclusão de que o mal menor é a preferência, como quem diz que os proveitos para a sociedade são maiores que os prejuízos (custos), não tenho nenhuma dúvida em embarcar no mesmo cruzeiro social. E é o que penso em relação ao Natal e ao Ano Novo. O homem é um ser de rotinas, de hábitos enraizados. Quase todos afirmamos a pé juntos de que não somos supersticiosos. No entanto, pelas práticas religiosas e pagãs, estas quadras têm muita superstição acoplada. Quer na forma, quer no conteúdo. Como exemplos, ir à missa do galo, na noite de Natal, ou comer as 12 passas na passagem do ano velho para o novo.
Apesar de tudo e mesmo com todas as premissas que enunciei, e na impossibilidade de prolongar estas épocas de paz e amor, é bom existir um Natal e um Ano Novo a cada doze meses que passam.
Boas festas a todos e muito obrigados pela pachorra que têm tido ao ler os meus desabafos semanalmente. O meu sincero obrigado. Neste tempo de tristeza económica, em que parece não haver luz no horizonte, façam os possíveis por serem felizes e não percam a esperança. Não esqueçam que o sol nasce todos os dias e, haja o que houver, teremos sempre primavera. Nos momentos mais tristes, pensem nos passarinhos, que nada tendo materialmente, continuam no seu chilrear de alegria, mesmo até em dias de chuva e vento. Sorriam o mais que puderem. Por enquanto não paga imposto.
Um grande e apertado abraço a todos. Feliz Ano Novo!

QUE DIA É AMANHÃ? (REPUBLICANDO)

(IMAGEM DA WEB)



(REPUBLICANDO UM
AMONTOADO DE LETRAS


QUE DIA É AMANHÃ?


Amanhã é dia de Natal!
Eu quero lá saber se vai chover,
se não vai haver água para beber,
se esta noite vou dormir mal?
Amanhã é dia de Natal!
Que me importa os vetos do presidente,
a dor de corno que alguém com isso sente,
e digam que esse gesto só lhe fica mal?
Amanhã é dia de Natal!
Gritem à vontade contra Copenhaga,
revoltem-se contra o anticlima que é chaga,
Mas, por favor, não batam no meu portal.
Amanhã é dia de Natal!
Não me falem das assinaturas pró Referendo,
acerca do casamento, que eu não entendo,
é uma questão, para homossexuais, natural.
Amanhã é dia de Natal!
Não me embrulhem em coisas religiosas,
ou outras quaisquer vontades manhosas,
deixem-me navegar sozinho no meu canal.
Amanhã é dia de Natal!
Que tenho eu a ver com as directas do PSD,
se foi um erro crasso, não fui eu nem você
que contribuímos para o pantanal.
Amanhã é dia de Natal!
Não me chateiem com as alíneas do Orçamento,
se nem o meu consigo discutir, é um tormento,
deixem-me em paz, cá no meu astral.
Amanhã é dia de Natal!
Livrem-me da polémica da “Face Oculta”,
podem até chamar-me filho de uma puta,
mas não me azucrinem com o Supremo Tribunal.
Amanhã é dia de Natal!
Não me lembrem da guerra dos professores,
de que temos maus alunos, mas muitos doutores,
de que somos mais estúpidos que um animal.
Amanhã é dia de Natal!
Afastem de mim o Marinho e Pinto,
dêem-me antes um bom copo de tinto,
não me falem da demissão do Conselho Geral.
Amanhã é dia de Natal!
Não me tragam imagens do Irão ou do Iraque,
esqueçam, não me recordem que o Bush foi um traque,
esqueçam que existo neste mundo brutal.
Amanhã é dia de Natal!
Não me enviem mais “boas festas”,
como se fossem lembranças funestas,
estou vivo, de boa saúde, não me queiram mal.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

EDITORIAL: A (IN)TRANQUILIDADE CAUSADA POR UM RIO INDOMÁVEL







Ao ver as notícias sobre inundações em vários pontos do país, com a chuva copiosa que se faz sentir por estes dias, quem mora e trabalha na Baixa de Coimbra, provavelmente, sobretudo nesta última noite de Quinta para Sexta-feira, teve o coração ao pé da boca pelo receio das águas invadirem as suas lojas e habitações, como as ocorridas em Setembro de 2008, em que vários estabelecimentos foram alagados.
Embora a preocupação não deva ser colocada totalmente de parte, já que se prevê outra depressão atmosférica para os próximos dias, há, no entanto, uma situação e actuação que ressaltam. A situação é que os cerca de 5 milhões gastos no ano passado no desassoreamento do rio pela Câmara Municipal parecem ter sido eficazes para suster a fúria das águas e poupar o Centro Histórico. Ao que tudo indica, somente com inundações em Ribeira de Frades, uma povoação nos arrabaldes da cidade, apesar do azar para esta localidade, tudo aparenta correr pelo melhor. O Mondego, mais conhecido por Basófias, indica ter aceitado bem o tratamento de extracção de areias nas suas entranhas – há quem fale que o depósito dos inertes a jusante do rio está a dar problemas. Quando vemos o que se passa, por exemplo, em Amarante e comparamos com Coimbra tenho a certeza que ficamos mais descansados. No que toca à actuação da autarquia, temos obrigação de admitir, perante o aviso de temporal pela Protecção Civil, esteve bem ao activar o Plano de Emergência até hoje, Sexta-feira, à noite.


E AS DOCAS? FAZEM SENTIDO AS OBRAS DE AMPLIAÇÃO?





As obras do Parque Verde, mais conhecidas por “Docas”, foram iniciadas, no âmbito do programa Coimbra Polis, por volta do virar do milénio e ainda no antigo mandato de Manuel Machado – que viria a perder as eleições para Carlos Encarnação em 2001. Seria Encarnação que se ocuparia de concluir a obra consignada e a fazer a sua inauguração em 2004.
Se já se adivinhava que o projecto tinha sido mal concebido – com a cota do Parque Verde a cerca de três metros abaixo do Parque Dr. Manuel Braga -, com vários alagamentos desde 2004, em 2016, já com Machado novamente como regedor do Paço desde 2013, com a água a subir vários metros e a fazer estragos de milhões de euros não só nas “Docas” como também no Convento de Santa Clara-a-Velha, ficou-se sem qualquer dúvida do que nos esperava.
Ora, em face da destruição à frente de todos, que aos olhos de qualquer leigo a solução futura do problema obrigava a subir a cota do parque de lazer em pelo menos um metro, o que viria a edilidade a deliberar? Pedir um parecer ao arquitecto Camilo Cortesão, que assinou a obra originária. Este viria a sugerir a construção de um primeiro-andar por cima das instalações existentes. E o executivo aceitou. Com um primeiro auto de consignação falhado – a empresa não concluiu os trabalhos dentro do prazo -, em Setembro deste ano foi assinado novo contrato e promessa de Manuel Machado de os bares abrirem no próximo Verão de 2020.
Por conseguinte, temos o direito de interrogar: faz sentido manter o anterior projecto e, com a ampliação, queimar nele mais uns milhões de euros que, aparentemente, de pouco servirá? Será esta uma boa solução para o futuro?
Se dúvidas houver, basta visionar as fotografias captadas hoje, cerca das 12h30 no local, em que é visível o nível das águas a bater quase em paralelo com a construção. Pode ver-se também que foram colocados vários sacos com areia para tentar o remedeio.
Claro que vozes de burro – o burro sou eu – não chegam ao Céu!