Há cerca de
dois meses, nas instalações da antiga Rodoviária Nacional em Coimbra, agora sobre gerência
da Transdev, uma multinacional francesa, duas mulheres, bem-parecidas e na casa
dos sessenta e poucos anos, divertiam-se a esboroar pão e a lançá-lo para o
chão onde dois pombos iam apanhando o óbolo das duas certamente cristãs e tão
boazinhas senhoras. Como eram quatro mãos e somente dois animais voadores, o
resultado foi um tapete de largo espectro no cimentado do centro de camionagem.
Largas dezenas de viajantes, que esperavam embarcar, uns iam levando nos
sapatos parte da oferta destinada às aves e outros, sentados, assistiam impávidos
e serenos à manifestação de tão elevada acção benemérita. Como sou do pior, e
quando vejo certos excessos que me provocam cólicas tenho de despejar,
naturalmente, lancei-me às velhas –na idade pouco mais do que eu, mas isso não
interessa para aqui. Assim a frio, atirei-lhes: digam-me lá, minhas gentis senhoras, acham bem o que estão aqui a fazer?
Faziam o mesmo em vossa casa, na vossa sala?
Olha o que eu fui dizer. Em duo,
viraram as pupilas para mim, apontaram a matraca –como quem diz a boca- e toca
de dar ao gatilho: “quem é o senhor? Tem
alguma coisa contra estes indefesos animaizinhos? Fazem-lhe mal? Fazem?”. É
claro que não contavam que estavam metidas com um rústico, nascido e criado na
aldeola, e o meu troco não se fez esperar. Mas eu era apenas um atirador
solitário contra duas benfeitoras e protectoras dos animais e uma rectaguarda impassível e que nem apoiava nem o contrário. Porque entendia que era assunto que
deveria meter alguém responsável da Transdev, quando passou um condutor da casa
chamei-lhe a atenção para o atapetado à nossa frente. Encolhendo os ombros,
arguiu que não era com ele e deu um passo em frente. A seguir, passou o
anunciante das partidas de autocarro e, mais uma vez, pedi o seu reparo para o
que as matronas provocadoramente estavam a fazer. O diligente funcionário, em
escassos segundos, olhou para mim, olhou para as velhotas, mirou o chão e
rapidamente invocou uma qualquer desculpa esfarrapada que não percebi e
prosseguiu a marcha e fez anunciar nos micros a partida de mais uma camioneta
para um destino que não lembro. Como não me calei, as benemerentes acabaram por
desistir e, a remoer entre dentes a minha falta de compreensão e formação,
afastaram-se. É evidente que, imaginei na altura, perante toda aquela
assistência muda teria passado por parvo.
O TEMPO DE TUDO ÀS
CLARAS
Há cerca de quatro meses, no Rio de Janeiro,
num restaurante completamente apinhado de clientes, um casal, sem qualquer
pudor, fez sexo perante todos. Calmamente, ambos pagaram a conta ao atónito
funcionário e, mais levezinhos de hormonas, foram à sua vidinha.
Quem não se lembra das antigas
cabines telefónicas nos correios e nos cafés onde se ia telefonar? Tudo isso já lá vai, a conversa perdeu a privacidade e passou a ser de todos. Agora, seja no
autocarro, na rua, no cinema –apesar da recomendação em contrário-, na reunião, o particular promiscuiu-se, abandalhou-se, e passou a público.
Nada parece mal. Desde o
embriagamento geral dos jovens, em orgias etílicas, até ritual de praxes onde o
perigo de morte está presente, tudo tem cabimento na nova ordem mundial do “vale tudo em nome do nada”! Tudo passou
a ser relativizado neste tempo dos “monstrinhos”
à solta.
O MUNDO AO CONTRÁRIO
Como a sociedade, em nome de uma
democratização de carneirada que leva à infantilização, perdeu o sentido da
moral e da ética, não sabendo distinguir o bem do mal, o bom-senso do absurdo, o
Estado foi chamado a legislar sobre tudo o que deveria, por direito e obrigação,
caber à família e, individualmente, a cada cidadão responsável. É assim que se
promulgam leis sobre o que cada um deve comer com mais sal ou menos, sobre o
fumar, sobre ceder o lugar a uma grávida ou idoso num autocarro, punir a
violência sobre os mais velhos e por aí adiante. Chega-se a pedir uma lei
específica para os alunos que agridam professores. Não deveríamos antes
defender um comportamento social e responsabilizações colectivas? E pugnar por
uma protecção intrínseca dos princípios e valores e dos bons costumes por parte
de todos, mas sobretudo, dos mais velhos, que, embarcando no facilitismo,
perderam essa capacidade de vigilância?
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