domingo, 16 de agosto de 2026

PELA HONRA DE UM PRESUNTO (2)


 



Ontem, sexta-feira, em crónica acintosa (intenção de provocar ou contrariar alguém para desbloquear um imbróglio, uma trapalhada, uma situação muito confusa), escrevi aqui que no dia 2 de agosto, último, num maravilhoso cruzeiro organizado pela empresa Tomaz do Douro, no Rio Douro, entre o cais de Barca de Alva e a cidade de Peso da Régua, num sorteio improvisado por alguns passageiros e cujo prémio seria um presunto, fui o contemplado.

Fiquei com a noção subjectiva de que o grupo excursionista, promotor do entretenimento, era natural da aldeia transfronteiriça de Barca de Alva.

Escrevi também, ontem, que só no final me foi dito pelo organizador que o troféu me seria enviado para a minha morada na semana subsequente – ficaram com o meu endereço e contacto telefónico. Entre abraços e promessas de cumprimento, despedi-me com um “até mais ver o presunto!”.

Hoje, cerca das 11h00, recebi um telefonema a informar-me de que, viajando de automóvel, estavam próximo do Luso e tinham na sua posse um presunto que eu tinha ganho há cerca de duas semanas num cruzeiro no Rio Douro. Como à hora prometida não me encontrava na morada, indiquei o sítio na Mealhada onde poderia ser depositado.

Fiquei a saber tratar-se de elementos pertencentes à Comissão de Festas de Ligares, a cerca de meia-dúzia de quilómetros de Barca de Alva.

Foi então que o interlocutor referiu estar um pouco constrangido pela publicidade desencadeada. Foi-me dito que ficara convencido de que tinha acordado comigo entregar-me o presunto “um dia que viesse à Mealhada”.

Pedindo desculpa pela confusão gerada em torno de um presunto, admitiu a possibilidade de ter havido engano e desta conversa controversa não ter sido comigo.

Pela parte que me toca, pela referência, começo por pedir desculpa aos naturais de Barca de Alva. Embora reitere não ter culpa no cartório, não deixo de proclamar um pedido de desculpas para os encómios causados à Associação de Ligares.

Tudo resolvido pelo melhor. Tudo bem quando acaba em bem.


António Luis Fernandes Quintans


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

PELA HONRA DE UM PRESUNTO

 



No dia 2 de agosto, último, juntamente com a minha mulher e um grupo de seis dezenas de amigos, em programada excursão em autocarro, partindo de Luso e tendo como destino Barca D’Alva, fizemos um passeio no Rio Douro por um dia, com início no cais da bonita vila fronteiriça e a finalizar no Peso da Régua.

Cerca das 9h30 embarcámos no cruzeiro Tomaz do Douro em direção à cidade localizada no distrito de Vila Real. Com um serviço prestado de cinco estrelas pela empresa com o mesmo logotipo, marca, do navio, passámos uma experiência digna de figurar nos anais da memória e para repetir um dia destes.

Durante a tarde, enquanto descíamos o rio através do sistema de eclusas – sistema de engenharia em que várias comportas ao longo do percurso são cheias ou esvaziadas para permitir o nivelamento do curso de água -, para desenvolver o entretenimento durante cerca de duas horas, entre os passageiros aderentes, um grupo de excursionistas de Barca D’Alva, com um custo de um Euro cada rifa, realizou um chorudo sorteio de um presunto. Cerca de uma dezena de viajantes, com apostas variadas, habilitou-se ao concurso.

Calhou a um miúdo retirar a senha do contemplado do interior de um pequeno saco improvisado. Coube a sorte de ter sido eu a ganhar o troféu. Foi então que, com alguma surpresa, foi anunciado que o prémio seria enviado para a minha morada durante a semana que começava no dia subsequente.

À saída do navio de cruzeiro, entre sorrisos e abraços por parte dos grupos excursionistas de Luso e Barca D’Alva, despedimo-nos com a promessa do sorteador “de que estivesse descansado que o presunto seria enviado na semana seguinte”. Pela minha parte, licitante sorteado, proclamei: até mais ver o presunto!”.

Passadas duas semanas, da perna de porco salgada e curada nem cheiro.

Pela minha provecta idade, defendo que, individualmente ou em grupo, pelos nossos actos, positivos ou negativos, somos embaixadores, isto é, representantes da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país.

Repito, sem, de modo algum, tentar colocar mácula na empresa Tomaz do Douro, que nesta história é alheia, este procedimento, de certo modo impróprio e indecoroso, por parte de uma ou mais pessoas naturais de Barca D’Alva, conspurca, mancha, a identidade, a dignidade e seriedade de toda a aldeia transfronteiriça.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

BARRÔ, UMA FESTA DE ARROMBA

 

(Foto de Jorge Pais)



As festas anuais, normalmente em honra de um santo padroeiro evocado na Hagiografia -estudo e descrição dos santos, beatos e figuras veneradas-, são celebrações tradicionais fundadas na religiosidade, cultura e laços comunitários ancorados na ancestralidade, fortalecendo a identidade e memória colectiva do povo de um lugar.

É uma data de reencontro entre várias gerações, uns que moram no mesmo sítio desde o nascimento, outros que, vindo de longe, da diáspora, assente na dispersão entre várias regiões do mundo, partiram cedo em busca de um futuro melhor.

Na aldeia de Barrô, talvez pelo lento esvair de um espírito de repartição entre todos os habitantes, nos últimos anos, a festa em honra do mártir de São Sebastião foi decaindo a ponto de apenas se realizar a Procissão solene. As razões para explicar este definhamento serão várias. Desde o individualismo feroz que domina a forma de ser de cada um, num fechamento incompreensível, até à permanente ocupação nas redes sociais, as pessoas parecem querer alhear-se de um costume que eleva e enriquece a alma de cada um.

Mas este ano, nomeadamente no último fim-de-semana, as coisas foram diferentes. Logo no Sábado de manhã, a percorrer as ruas da aldeia, ouviu-se o rufar dos tambores e o seu som cadenciado e penetrante a mostrar que algo quebrava o silêncio e a sua quietude habituais.

À frente do grupo musical, em passo ritmado, vinham o Jorge Pais e o Paulo Neves, ambos moradores desta encantadora localidade. Tratava-se de uma angariação de fundos para realizar a festa de São Sebastião. Depois de explicar ao que vinham, disse o Jorge que ficara sozinho na feitura da celebração eucarística e festa pagã. Foi então, continuou o Pais, que convidou o Paulo Neves para o ajudar a erguer o evento e este, imediatamente, se disponibilizou.

Ainda no Sábado, com o frio gelado a querer cortar o passo aos mais afoitos, os sons vibrantes da banda musical “Magnum” invadiram o salão recreativo e redondezas, convidando os vizinhos a abandonarem o conforto do sofá e a lareira fumegante.

No Domingo, com São Sebastião a participar com um Sol radioso e um tempo de veraneio, pelas 14h00 a Banda Filarmónica da Pampilhosa deu lugar a uma arruada que deu brado em toda a área envolvente. Às 15h00 começou a homilia na pequena capela do mártir patrono. A percorrer o lugar, segui-se uma longa procissão solene dirigida pelo padre Rudolfo, e acompanhada pela música da banda pampilhosense.

Das 18h00 até às 21h00, A célebre organista e cantora Vânia Mariza, com música popular, deu um concerto digno de respeito, enchendo parcialmente o salão de baile, como há muito se não via.

O Jorge Pais e o Paulo Neves retinham no rosto um contentamento visível. À minha pergunta se as dádivas recebidas davam para cobrir os custos, respondeu o Pais que, felizmente, as doações chegaram para cobrir os custos de cerca de 2500,00€. E rematou: “foi um risco grande e muito esforço dos dois, mas valeu a pena”.

Parabéns, Jorge e Paulo pela galhardia. Um exemplo a seguir.


A JUNTA DE FREGUESIA COOPEROU


De salientar a participação do executivo da Junta de Freguesia de Luso que, durante a semana, enviou vários funcionários para alindar as ruas e limpar as bermas de ervas daninhas.

Embora discreto, salienta-se também a presença no Salão do recentemente eleito jovem presidente da junta, João Leite. 



O GOSTO AMARGO DA CARIDAD

 

(Retirado da Web)





o sábado, o penúltimo dia da semana, o ilusório apeadeiro do tempo que, dentro da vida agitada que vivemos, devendo servir de paragem num ciclo de duração imprevisível, na aparência das coisas, corre mais veloz que o vento. O tempo, no modo como o olhamos, corre a par da nossa existência, da nossa idade, do estado de saúde, desde o momento do nascimento, até ao último suspiro. Quanto mais depressa atingirmos o envelhecimento mais nos apercebemos que a nossa vida foi uma oportunidade perdida, no “carpe diem”, no aproveitar o dia num gozo a raiar o bem-estar, a felicidade, vivendo intensamente o presente, sem nos preocuparmos com o futuro.

Sobretudo na Europa ocidental, elegendo o materialismo, ter e mais ter, como zénite e desvalorizando a moral nos princípios e valores, como viciados sem controle sobre a vontade, vivemos focados no progresso tecnológico e na ambição de ter um conforto incontrolável, que nos atrofia e nos torna escravos de um devir. Quando somos novos, sem pensar no tempo que foge, no apogeu, arrogamo-nos ter o mundo na mão e, quase de forma provocadora, deixamos que a movida de fruição nos fuja por entre os dedos. Quando somos velhos, no epílogo da existência, valorizando cada minuto que passa, revemos um passado que não volta mais.

Quanto mais alto atingirmos o Desenvolvimento, mais nos afastamos da mensagem que nos forma o intelecto e nos religa subrepticiamente uns aos outros, da solidariedade, da caridade e repartição, da justiça enquanto virtude universal.

Como nunca aconteceu, a comunicação, enquanto sistema de ligação virtual entre humanos, tomou conta do Mundo, no entanto, pasme-se, num individualismo feroz, vizinhos mal falam entre si, na aldeia, no bairro, na pequena cidade. Cada vez mais o Ser Humano, buscando incessantemente algo que preencha o buraco e o vazio na alma, tornando-se associal e solitário, é menos considerado que um animal de quatro patas.

O desrespeito pela dignidade, o desvalor pelo Direito, Liberdades e Garantias é cada vez mais o dia-a-dia, mesmo em instituições que deveriam ser o azimute.

Depois de divagar sobre o etéreo, vou recomeçar sobre o que me levou a escrever.

Razão terão os judeus em guardar o Sábado como dia semanal sagrado e de santificação. Desde o pôr-do-sol de Sexta-feira até ao pôr-do-sol de Sábado. É um dia para parar de trabalhar, focando-se na oração, família e estudos da Torá (Livro Sagrado do Judaísmo).

Foi num destes Sábados, juntamente com a minha mulher, estávamos sentados no café da cidade que frequentamos, pelo menos, um dia por semana. Era uma hora de acalmia. Só três ou quatro mesas estavam ocupadas com clientes.

Uma mulher, nova, declaradamente de Leste, e com uma barriga demasiado pronunciada a indicar ser fingida, com saia comprida e lenço na cabeça, depois de entrar, dirigiu-se à nossa mesa, estendeu uma das mãos em concha e com a outra fez um movimento junto à boca – a querer indicar que a moeda se destinaria a colmatar a fome. Convidámo-la a comer uma sandes ou um bolo. Recusou. Com gestos e arremedos de espasmo, mostrou que só o dinheiro dava jeito. Negámos, e ostensivamente virou-nos as costas, Seguimo-la com o olhar. A resmungar, dirigiu-se a uma outra mesa onde estava sentada um senhora de cabelos brancos. Comentei com a minha mulher que a “pedincha”, provavelmente, iria ali dar o golpe. A anciã, que estava a tomar o pequeno-almoço, curvou-se para retirar o porta-moedas. A mulher de leste curvou-se também e entornou um copo com café e leite sobre a mesa. A cliente, um pouco atarantada, chamou o empregado e, dando uma moeda à prevaricadora, pediu outro galão.

A intrusa, fitando-nos com ar de vitória ao roçar a nossa mesa, transpondo a porta de saída, desapareceu na rua, que a engoliu numa mistura de gentes de várias cores.

Mais tarde, ficámos a saber que, como arte de mágica bem ensaiada, a anciã viu desaparecer 200,00 € que tinha acabado de levantar no Multibanco.