Mais
logo, ao bater das sete badaladas na torre sineira da igreja de São Bartolomeu,
vai encerrar-se um capítulo para a Maria Hermínia Matos, mais conhecida como a “Anita”,
do Cantinho da Anita, uma reconhecida e pitoresca casa de artesanato situada na
Rua Sargento-Mor. Passados 29 anos, comemorados no passado 24 de Março,
Hermínia chega ao fim de uma parte da sua história. Durante quase três décadas
ali foi a sua segunda casa, o lar, doce lar de uma vida comercial cheia e
realizada. Vai encerrar o seu estabelecimento hoje. Atiro-lhe uma frase de
provocação: missão cumprida?
“Sim, missão cumprida! Diz bem! E feliz! É um ciclo da minha vida que
se acaba. Sinto que fiz tudo o que podia. Sinto que me realizei Agora chegou a
hora! Não me sinto frustrada. Sinto que as pessoas minhas amigas, que foram clientes
também, nos últimos meses do planeamento da minha partida estiveram presentes e
ajudaram a escoar quase tudo. Estou-lhes muito grata. Sinto-me reconfortada. Vou-me
embora, mas vou feliz!
Pergunta-me sobre a recuperação da Baixa? Sim, pressinto que vai dar a
volta. Mais dois anos e tudo se vai alterar para melhor. Não me pergunte porque
digo isto, é algo intuitivo, não sei explicar. Vai mesmo! Esta mudança tem de
ser feita pelos mais novos. Vou-me embora porque estou cansada, já não dava,
mas, repito, parto satisfeita.
É certo que houve aqui muitas pessoas hipócritas a espreitar na porta e
a dizer: Vai fechar? Ai que pena! Ai que pena! Mas nem antes nem agora vieram
comprar alguma coisa para me ajudar. Só lamento este tipo de procedimento. Quer
dizer, fazemos parte da paisagem urbana e alimentamo-nos do ar? Só quando
desaparecemos é que nos dão valor? Mas não é por lamentos infelizes como estes
que me vai tirar o sono. Isso é que era bom!
Fica aqui metade da minha alma. Este meu espaço de O Cantinho da Anita
tem muita luz. Foi por isso mesmo que o escolhi. É uma nova etapa que se abre.
Só quero ter saúde para desfrutar na companhia do meu marido, e que Deus dê
saúde à minha mãezinha, que ainda esta de boa saúde. Agora terei mais tempo
para estar com ela. Talvez logo, a acompanhar a última volta da chave na
fechadura, uma lágrima vá rolar mas sei que parto feliz!”
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