sábado, 7 de junho de 2014

SOCIEDADE ATRASADA E COBARDE

(Imagem da Web)




Ontem, sexta-feira, no café do centro da cidade um grupo de mulheres sentadas numa mesa falava alto e bom som: “a “Leta” –diminutivo truncado- está toda pisadinha. Esta noite levou um enxerto do namorado, que é guarda prisional, e que a deixou num estado lastimoso. Segundo ela me contou, encostando-lhe a arma ao peito, ele ameaçou matá-la se ela denunciar esta agressão. Olhe que ele teve o cuidado de a amassar no corpo mas deixou o rosto sem marcas para que não fossem visíveis. Às tantas é o que ele faz lá na cadeia com os presos por que é responsável?! Coitada!”
Porque frequento este café há muito tempo e conheço praticamente todos os seus clientes identifiquei imediatamente a senhora em causa. A “Leta” é uma mulher linda, de 46 anos de idade e com uma história de solidão maior que o túnel do Canal da Mancha. Como tantos de nós, certamente com uma infância difícil onde não teriam faltado maus-tratos de violência física e outras, esta rapariga carente de afecto, ao longo da sua vida e como passarinho em busca de colo, vai procurando aconchego nos braços de namorados temporários. Porque, mais que certo, só tenha olhos para a remela ou como a desdita raramente imbrica na boa-sorte, tanto quanto julgo saber, sempre lhe calha no sorteio homens que apenas se querem servir do seu corpo bem modelado e nada mais. Quanto às amigas, algumas mais velhas do que ela, cheias de rugas e um pneu incomodativo, só o facto de estarem sentadas ao lado de uma boneca assim desencadeia estigmas e medos, invejas e um ostracismo não declarado. A amizade desta gentinha é do pior, do mais primário que existe dentro de nós. Como é habitual nestes casos e numa hipocrisia mesquinha fazem-se muito próximas e parecem meter a “Leta” pelo coração dentro.
Então ontem, estava o Sol a recompor-se de um dia longo e fastidioso, em face do “cortar na casaca” da vítima desta sociedade dissimulada onde o que é preciso é assunto para tema de conversa e nada mais, à minha chegada uma das mulheres mal me viu e atirou logo: “já sabe a última? A “Leta” levou um enxerto, de caixão à cova, do namorado. Coitadinha! Há pessoas que não têm sorte nenhuma!”. Como? Perguntei. Um absurdo desses, e ninguém vai denunciar essa agressão? Respondeu uma delas: “isso é um problema dela. Ela que faça queixa!”. Enfatizei, nesse caso faço eu a participação à polícia. Isto não pode ficar assim! É demasiado aviltante para nos calarmos! Todos ficamos com a nossa quota-parte de responsabilidade moral se ocultarmos. Diz uma delas, “não me ponha como testemunha que eu nego tudo! Eu não vi nada! Não quero saber de nada! Não é nada comigo!”
Hoje de manhã voltei ao café e encontrei a “Leta”. Às perguntas sobre o assunto, mostrando-me um braço com uma grande equimose negra, as costas e uma das coxas completamente escurecidas com uma rosácea avermelhada e escurecida, respondeu afirmativamente de “que de facto tinha sido sovada e que o seu namorado agressor lhe tinha mostrado o coldre, presumivelmente com a arma lá dentro, e que lhe dissera que se ela denunciasse isto que a matava e se suicidava de seguida”. Pedi-lhe os seus dados e disse-lhe que iria fazer uma participação na polícia. Enquanto me cedia os nomes e moradas ia interrogando: “ele vai ser prejudicado por isto? Ele pode ser despedido por eu falar? E se ele me mata? Ele disse que me matava se eu desse com a língua nos dentes!”
Saí e dirigi-me à PSP. Enquanto estava a prestar declarações perante o agente, recebi vários telefonemas da “Leta” para que não apresentasse queixa. Em grande aflição, misturado em choro compulsivo, implorava: “por favor, senhor Luís, não faça a participação. Ele mata-me! Não faça! Não faça! Se o senhor fizer eu vou atirar-me debaixo do comboio. A minha vida não vale nada! Por favor… por favor!”
Ainda não tinha terminado o processo de inscrição recebi outro telefonema. Era de uma outra “amiga” a quem, certamente, a “Leta” fora pedir para me ligar. “É o senhor Luís? Interrogou a voz feminina. É verdade que vai apresentar queixa em nome da “Leta”? O que é que o senhor tem a ver com isso? Se ela não quer o senhor só tem de respeitar e mais nada. Está a ouvir?”
Eu desliguei-lhe o telefone e não lhe respondi sobre a razão de estar ali. Mas vou replicar agora. Estava ali pelas 38 mulheres mortas às mãos de sacanas que não valem uma merda, assassinos e cobardes, vítimas que morreram no ano passado às mãos destes escroques. Estava ali em memória da minha mãe que enquanto criança tantas vezes presenciei levar bofetadas do meu pai e nada fiz, ou não pude fazer. Mas isto foi há 50 anos e, pelo tempo passado e cultura da época, até já perdoei ao meu desaparecido criador. A estes cobardes frustrados que agridem mulheres com esta selvajaria não posso deixar passar. Temos pena!


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6 comentários:

São Rosas disse...

Parabéns pela coragem!

susana duarte disse...

É à sombra do medo de ter medo, da solidão, do vazio interior, que tudo acontece no silêncio, com a cumplicidade igualmente silente de quem sabe e nada faz.

É por isso, por lutares contra o silêncio, que tenho que te abraçar a partir de onde estou.

LUIS FERNANDES disse...

Obrigada, Susana!

LUIS FERNANDES disse...

Obrigada, Susana!

LUIS FERNANDES disse...

Obrigada, Susana!

LUIS FERNANDES disse...

Obrigado, São Rosas!