quarta-feira, 30 de outubro de 2013

"FAZ-ME UM LIKE"

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)

 Ontem, depois de sair do pequeno café onde almoço, na Rua da Sofia –deveria dizer o nome, não era? Pois era! Acontece que não me apetece. Sei lá se você ainda me lá iria cravar uma sandocha?-, deparei-me com um gajo ainda novo –deveria ter vinte e poucos anos calcorreados em caminhos de perdição, calculei- a pedir uma moeda a quem passava. Era magricela e com cabelo aparado à índio Cherokee –já sei que você não conhece este corte nem o povo de que falo. Só os licenciados em banda desenhada, com aulas e curso tirado no Quiosque do Senhor Machado, é que sabem de quem se trata. Mas não se preocupe, estou aqui para cuidar da sua ignorância, eu explico. É na forma de apresentar a cabeça rapada à melão e com uma trunfa alta no meio, a parecer as crinas dos cavalos da GNR. Entendeu? Se não, faça o favor de colocar o indicador no ar que volto a reformular. O que me fez estancar foi a forma como ele pedia o níquel. O rapaz, envolvido numa lengalenga que não percebi, contorcia-se todo, quase colocando-se de joelhos e com as mãos coladas em direcção ao céu como se estivesse a orar, punha-se mesmo à frente dos transeuntes e estes, como Ronaldo a driblar o esférico, lá tentavam evitar o seu olhar. Outro dado curioso e que também me chamou a atenção foi o facto de a camisola preta que trazia vestida ostentar no peito a inscrição “Faz-me um like”, acompanhada com uma mão fechada e com o polegar levantado.
Durante largos minutos que estive a apreciar o trabalho do pedinte, nem uma só pessoa lhe deu uma moeda ou sequer atenção. Evitavam-no como se evita um tipo bêbado e a cambalear. E ele, sem desanimar, com uma feição sofrida, estudada mais que certo, continuava. Era de tal modo realista o acto de pedir encarecidamente que me apeteceu passar para o outro lado e ver in loco a sua performance. Como espectador que assiste nas bancadas a um jogo, mantive-me a ver até que me deu na real gana e parti para outras paragens. Em frente à Pastelaria Palmeira um grupo de jovens, suponho que escuteiros, tentou impingir-me um calendário. Junto à Câmara Municipal mais dois rapazolas novos, certamente da mesma escola do “faz-me um like”, estendiam a mão, sem pejo e a arreganhar a fateixa. Mais à frente mais um peditório para uma instituição nossa conhecida. Nos parapeitos de pedra que estão junto à autarquia, no lado esquerdo, uns reformados tentavam ver nos raios solares uma esperança que se esfumou. No lado direito, a comer uma bucha, uns trabalhadores do “Bord’Água” tentavam acalmar o estômago. Reparei que nesta altura há um grande fluxo deste pessoal do leste europeu na Baixa. No Largo da Praça 8 de Maio, apesar de ninguém lhe ligar nenhuma, mais um homem de meia-idade estendia a mão. Na Rua Visconde da Luz, para variar, mais dois jovens pediam para as almas. Na rua Ferreira Borges mais um tipo, cujo corpo já não provava água há dias ou semanas ou meses sei lá!, tratava de ver se condoía o coração duro de quem calcava as pedras da calçada. Dei a volta ao quarteirão. Na Praça do Comércio mais um sujeito mal-encarado, muito feio graças a Deus, tentava a chance com uma moeda. Cortei para a Rua Adelino Veiga e na esquina da Românica lá estava uma velha conhecida destas ruelas estreitas, que prima por colocar as grossas coxas e mostrando um corte numa delas. Na Rua das Padeiras, junto à tasca do Eduardo, mais um, de mão estendida, tentava angariar vinte cêntimos para beber um copo de carrascão na taberna dos dois degraus.
Fosca-se para isto! Pensei cá com os meus botões. A Baixa está transformada num imenso albergue de gente nova, sem ocupação, a estender a mão. Perdeu-se a vergonha para pedir. Não sei se consigo ser claro, mas vou misturar tudo num caldeirão. Dei por mim a pensar na bagunça onde estamos todos metidos. Porra! Isto está um charco onde o cheiro fétido não se sente mas pressente-se. É como se, de repente, tivéssemos a percepção de que estamos a deslizar por uma cano cujo destino termina numa fossa de porcaria. Este pensamento não vem ao acaso. Lembro-me da pouca-vergonha do casal Carrilho, Barbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho, e no triste espectáculo que estão a apresentar ao País. Penso no filme que vi no domingo, no cinema, sobre Hannah Arendt –filósofa alemã de origem judaica- e acabei a perceber toda esta mediocridade dos humanos no seu pior.

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