quarta-feira, 30 de maio de 2018

COIMBRA: MORREU SANTOS CARDOSO

Foto de Deolindo Pessoa.
(Foto retirada do seu mural no Facebook)




Uma sociedade que agiganta a valorização de uns
e desvaloriza abaixo do mínimo outros com passados
similares, na defesa da causa pública, é uma colectividade
despótica, que, agindo na injustiça, constrói mitos e não heróis”

Segundo os jornais diários de hoje, Diário de Coimbra e Diário as Beiras, morreu ontem Santos Cardoso. Hoje, pelas 15h00, no centro Funerário Nossa Senhora de Lourdes realizou-se o funeral, seguindo o féretro para o Complexo da Figueira da Foz, onde foi cremado uma hora depois.
Segundo o Diário de Coimbra (DC), “João José dos Santos Cardoso, que foi vereador na Câmara Municipal de Coimbra em três mandatos, faleceu ontem aos 84 anos. Eleito pelo Partido comunista, Santos Cardoso seria, profissionalmente, um administrador hospitalar de referência e, como ontem destacaram alguns dos seus amigos nas redes sociais, um defensor do Serviço Nacional de Saúde.
Como ressalva, conheci pessoalmente Santos Cardoso, e falei com ele algumas vezes, aquando do falecimento do seu filho João Cardoso, em 2015, este também uma figura muito grada e interventiva aqui na Baixa da cidade. Portanto, tendo sido amigo do seu primogénito, para além de me lembrar muito bem dos mandatos na autarquia, entre 1980 e 90, conhecia mal o agora finado. No entanto, pela pouca convivência que tive, deu para ver que era uma pessoa assertiva, humilde, sensata, comedida e justa.
Segundo alguém muito próximo, foi tudo muito breve. Há uma semana sentiu-se mal e em oito dias tudo acabou. Santos Cardoso, numa modéstia peculiar e absoluta mesmo até no funeral -que mais abaixo desenvolverei-, morreu como sempre viveu.
Embora já tenha dado pessoalmente os meus sentimentos à família enlutada, volto a reiterar em meu nome e em representação da Baixa, se posso escrever assim, um pouco da nossa solidariedade neste momento de sofrimento.

UMA SOCIEDADE INJUSTA, ATÉ NA MORTE

Alguns dias depois do desaparecimento de António Arnault -que em traços sumários o cargo mais relevante que exerceu foi o de ministro dos Assuntos Sociais do segundo Governo Constitucional, em 1978, e responsável pela Lei do Serviço Nacional de Saúde em 1979-, em que foram decretados três dias de Luto Nacional e um em Coimbra e cujas cerimónias fúnebres foram realizadas no Convento de São Francisco, a despedida de Santos Cardoso, vereador comunista na Câmara Municipal de Coimbra durante três mandatos, pela carência de reconhecimento público no acto derradeiro, dá que pensar.
É certo que no velório, entre as 14h00 e as 15h00, para despedida do corpo, permaneceram cerca de trinta pessoas no complexo funerário.
É certo que, em curta visita de condolências, se apresentou Manuel Machado e Carlos Cidade, presidente e vice-presidente da autarquia.
É certo que, desde Manuel Rocha, líder da bancada na Assembleia Municipal pela CDU, até Francisco Queirós, vereador com pelouros no Executivo pela CDU, passando por Manuel Louzã Henriques e outros filiados no Partido comunista, muitos marcaram presença e se mantiveram até ao levantamento da urna.
Já sabemos que nas próximas sessões do Executivo e da Assembleia Municipal vão ser aclamados votos de pesar pelo desaparecimento deste edil comunista.
Sabemos também que, durante dois dias, ontem e hoje, a bandeira do município estará a meia-haste.
E pronto! Enquanto munícipes equitativos e de boa justiça, podemos todos dormir em paz.
Acontece que, ainda que ninguém me leve a sério, perante o que vi e constatei na qualidade de munícipe ergo bem alto a bandeira da injustiça social e da indignação.
Comecemos pela notícia da sua morte nos dos matutinos conimbricenses. Para além da foto, a notícia mereceu um pequeno rectângulo igual ao desaparecimento de um qualquer empresário caído nas teias da morte.
A seguir, para quem se apercebeu no final das exéquias, ressaltou a falta da bandeira do município a cobrir a urna. Uma omissão simplesmente lamentável.
Se calhar, se não tivesse havido exagero nas exéquias de António Arnault, provavelmente não estaria agora a fazer a comparação entre as mesmas cerimónias.
Uma sociedade que agiganta a valorização de uns e desvaloriza abaixo do mínimo outros com passados similares, na defesa da causa pública, é uma colectividade despótica, que, agindo na injustiça, constrói mitos e não heróis -veja-se o caso recente de um migrante em França ao salvar uma criança numa varanda de um prédio.
Sem equilíbrio, não usando a mesma bitola para atribuir a cada um o que merece, tentado distrair as massas para o acessório e esquecendo o essencial, está a surfar-se a onda ocasional do mérito. A consequência é a perda de objectividade do senso comum.
Claro que nada disto é feito ao acaso. Por trás de grandes homenagens estão sempre as máquinas partidárias a tentar capitalizar votos.

UM PRECEDENTE

Não se pense que esta injustiça agora cometida com Santos Cardoso aconteceu assim, em caso isolado, por ele seguir a ideologia comunista. Nada disso! Em Julho de 2013 morreu Mário Nunes, um ilustre conimbricense e também vereador independente ao serviço da coligação PSD/CDS, e aconteceu praticamente o mesmo. Chamei-lhe as exéquias da indignação. E, para tornar o facto mais incompreensível, salienta-se que o governo local era da sua própria cor política. O que leva a supor que em questões de homenagens nenhuma outra força política bate o PS.
Há um porém! Com a morte de Arnault, cedendo o Convento de São Francisco às exéquias, foi aberto um precedente que, numa igualdade obrigatória, futuramente deveria ser extensível a todos os servidores do Estado, entre outros, nomeadamente vereadores e deputados com mais de um mandato cumprido ao serviço de Coimbra.

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