terça-feira, 29 de janeiro de 2019

5 – HISTÓRIAS AO VIRAR DA ESQUINA: “MONSIEUR VELHUSTRO”

(Imagem de arquivo)





Decorria a década de 1980 a bom ritmo, nem me passava pela cabeça que anos mais tarde enveredaria pelo mesmo ramo de negócio, quando, pela primeira vez, travei conversa com o Carlos Manuel Dias no Largo do Romal, no rés-do-chão de um prédio que, cerca de cinco anos depois e ainda nos gloriosos anos oitenta, viria a ser demolido pela autarquia para alargar uma das mais pitorescas pracetas da Baixa de Coimbra. Após o desmantelamento do prédio passou para o Pátio do Castilho, junto ao Arco de Almedina. Como ficava mais próximo do meu estabelecimento, na altura, volta e meia lá lhe fazia uma visita e comprava uma velharia. Sempre senti uma fascinação absolutamente incontrolável por tudo o que sejam peças antigas. Ao longo da minha vida, lembro-me, sempre que em viagem encontrava uma placa a indicar coisas velhas, imediatamente parava. É inevitável esta ligação a objectos que marcaram o passado passado e passado recente. Basta apenas que sejam originais e singulares.
Nunca foi acessível estabelecer conversa com o “senhor Carlos do Velhustro”, como sempre foi carinhosamente conhecido. Homem de argumentos eloquentes, convicções poderosas e ideias feitas acerca de tudo o que o rodeava, não era fácil condescender e apanhar a sua flexibilidade. Sem aparente filiação ideológica, não era fácil de chegar ao pensamento crítico interior que o movia. Talvez fosse um anti-sistema ou, sei lá, um anti-poder instituído, no sentido que, embora não o afirmasse claramente, sabia que toda a autoridade corrompe e pode ser corrompida.
Com o seu bigodinho fino por cima do lábio superior, numa mistura entre a sedução de Errol Flyn e a intransigência do escritor filósofo e romancista Albert Camus em aceitar de ânimo leve as correntes existencialistas e marxistas, a verdade é que, fosse pela imagem, fosse pela sua idiossincrasia, Carlos Dias - sem o ser - foi sempre um “intelectual”, um figurão respeitado na sua área profissional e até pelos presidentes camarários que se foram sucedendo na cidade.
Nos últimos anos da década de 1980 voltou novamente ao Largo do Romal onde ainda hoje mantém o estabelecimento identificado, com placa alusiva, como “Velhustro”. Juntamente com o apoio da direcção da Escola Silva Gaio e o do Departamento da Cultura, da Câmara Municipal de Coimbra, em 1991, fundou a “Feira dos Trastes”, na Praça do Comércio. Mais tarde este popular certame passou a chamar-seFeira das Velharias de Coimbrae ganhou uma Comissão de Feira composta pela Câmara Municipal de Coimbra/Departamento de Cultura, Junta de Freguesia de São Bartolomeu, Polícia de Segurança Pública, Escola C+S Silva Gaio, Grupo de Arqueologia e Arte do Centro e o “Velhustro” - como se sabe, a mando da edilidade, este popular evento adeleiro, em Julho do ano passado, foi transferido para o Terreiro da Erva. Notoriamente a extinguir-se aos poucos, em farrapos de memória - o Diário de Coimbra deste último Domingo, em bom trabalho jornalístico de uma página, disso dava conta -, era bom saber se as entidades constituídas em Comissão de Feira foram consultadas. Uma coisa tenho a certeza: fosse o dono do “Velhustro” mais novo e estivesse de boa saúde jamais permitiria que fosse feita uma trasladação tão absurda da menina dos seus olhos.
Prestes a comemorar 95 anos, apesar disso e da sua natural fragilidade inerente ao peso da vivência, o estimado Carlos Dias conserva a sua peculiar lucidez. Segundo um familiar directo com quem falei, “sofreu recentemente uma pequena cirurgia mas está muito bem! Devido ao frio que se tem feito sentir, e para não se constipar, mantém-se em casa. Mas, embora tenha de ser acompanhado, um dia destes vai andar por aí, pela Baixa.”
Pelo significado, pela importância carismática que marcou a ferros a nossa memória colectiva contemporânea, o nosso amigo da arte vária, por direito próprio conquistado, merece fazer parte da nossa galeria “Rostos Nossos (Des)conhecidos”. Muita saúde, e muitos anos de vida, senhor Carlos Dias!

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