quarta-feira, 15 de abril de 2015

BAIXA: DEZ MINUTOS DE BÁTEGA



Cerca do meio-dia, bastaram dez minutos de chuva grossa para, mais uma vez e tal como em anos anteriores, a Praça 8 de Maio ficar intransitável com cerca de 25 centímetros de altura de água e a entrar na vetusta igreja de Santa Cruz. Contrariamente ao anunciado nas televisões, felizmente, houve poucos estabelecimentos inundados na Baixa. A enchente circunscreveu-se ao adro do memorial.
A maior cheia que há lembrança ocorreu em 22 de Setembro de 2008 em que dezenas de lojas ficaram inundadas nas ruas estreitas adjacentes e no antigo largo de Sansão –assim conhecido por ter existido um chafariz com a estátua de Sansão desde 1592 até 1838, quando foi demolido por apresentar avançado estado de ruína. Em 1874 a sua toponímia foi alterada para Praça 8 de Maio, por alturas das comemorações do aniversário da entrada das forças liberais do Duque da Terceira na cidade de Coimbra em 8 de Maio de 1834. No Verão de 1995, sob a égide de Manuel Machado, na altura presidente da Câmara Municipal e actual, e projecto de Fernando Távora, iniciaram-se as obras de rebaixamento da praça com a intenção de nivelar a entrada da igreja de Santa Cruz e libertar o trânsito da zona e modificar as ruas do canal para vias pedonais. A verdade é que esta alteração arquitectónica, cuja intenção a par da pedonalização era transformar o largo em palco natural de festividades, nunca obteve unanimidade entre os conimbricenses e mais particularmente entre os comerciantes. Do ponto de vista económico, nestes vinte anos, tem sido um sorvedouro de dinheiros públicos. Começou logo nas rampas de acesso às artérias laterais que, sendo apresentadas inicialmente com pedra de Ançã, proporcionou grandes trambolhões a muitos transeuntes. Uma senhora de Almalaguês viria a morrer nos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra, por uma queda ocorrida no local –por desistência da família em levar o acidente à barra nunca foi estabelecido o nexo de causalidade. Os custos de projecto continuaram a aumentar, nomeadamente, com os corrimões, que já foram substituídos e reparados várias vezes, o lajeado demasiado escorregadio do chão do rossio e o lago central. No princípio era um tanque arredondado com água parada o que, em consequência, passou a ser um repositório de lixo. Em 2001, Carlos Encarnação ganhou a autarquia e, para colmatar maiores prejuízos para uma ideia infeliz, mandou colocar repuxos e fazer o tamponamento com uma rede em alumínio. Como em 2013 Manuel Machado, em representação do PS, Partido Socialista, viria a recuperar a edilidade e a apear a Coligação por Coimbra, cujo partido maioritário era o PSD, das suas obras recentes, uma foi, há pouco tempo, transformar novamente o arredondado tanque e voltar a enchê-lo. Os resultados, como era de prever, é, volta e meia, os funcionários camarários andarem a pescar “sardunhos” –uma espécie biodegradável tão nossa conhecida. Salvo melhor opinião, é uma praça com pouca dignidade tendo em conta a sua importância de localização junto do Panteão Nacional.
Ao longo desta vintena de anos e com maior incidência nos últimos sete anos -provavelmente ligado ao assoreamento do Mondego-, as enchentes são mais do que muitas na velha praça e levando a grandes prejuízos para os comerciantes, sobretudo as de Setembro de 2008 e Dezembro de 2013. Como já é tradicional, logo a seguir às enxurradas vêm os responsáveis, da Protecção Civil e outros, largarem pérolas e lágrimas sobre as águas, aumentando ainda mais o caudal, e a prometerem uma solução para este continuado desleixo que incomoda quem cá vive e vem de fora. É óbvio que não somos engenheiros mas para se ser saber se um cozinhado está bom também não se precisa ser cozinheiro. Quero dizer que para se apreciar as funções de uma obra, na sua eficácia, não é necessário ser diplomado. Ora, o que ressalta à vista desarmada é que as grelhas de escoamento nesta praceta são demasiadamente estreitas e, com o rebaixamento do largo e a funcionar como depósito receptor das águas que provém da Alta da cidade juntamente com folhas e lixo diverso, devido à torrente elevada, não podem cumprir a sua tarefa.
Será desta que esta obra tão necessária vai arrancar? Hum!...

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