sábado, 20 de fevereiro de 2021

GENTE DA MINHA TERRA




Filha, esposa, viúva, mãe, avó, nascida e criada em Barrô, a Conceição Pires é o rosto da resiliência, a capacidade de superar, de recuperar de adversidades. De baixa estatura e de pequena compleição física, ninguém imagina a força interior, motriz e espiritual, que a move. Simpática, irónica, cheia de graça, parece ter sempre uma resposta pronta, mordaz, que afasta o infortúnio que a acompanhou nos primeiros tempos da sua vida.

Se fosse possível ler o destino, mais que certo, pelos pontapés que a má-sorte lhe destinou em sorte, o mais provável seria afirmar que, nas mesmas circunstâncias, ninguém aguentaria tanta infelicidade. Como se a tristeza fosse uma marca traumatizante para sempre, a única marca angustiante que se lhe reconhece é a dificuldade em sorrir. Por mais que se insista, a “São”, como é conhecida com carinho na nossa aldeia, não consegue plantar um sorriso aberto no seu rosto amendoado. Já contei aqui a sua história. Uma narrativa cheia de percalços mas também de superação. Uma lição para todos. Uma grande salva para a “nossa” “São”.

 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A VIDA TRANSFORMADA EM CARNAVAL

 

(Imagem da Web)




Hoje é terça-feira, dia de Carnaval. A pandemia veio trocar-nos as voltas completamente. Até ao ano passado, de 2020, sobretudo os mais foliões, saíamos de casa e, para nos divertirmos em cortejos carnavalescos ou sozinhos, expurgávamos os fantasmas, as preocupações de um ano inteiro passado.

Este ano de 2021, para mal de todos nós, é diferente em tudo, para pior, até no Carnaval. O sermos obrigados a estar confinados a um concelho ou à habitação, psicologicamente, transforma-nos em prisioneiros de nós mesmos. É como se a liberdade de circulação fosse cortada em fatias. É como se o horizonte passasse a ser a janela do nosso vizinho.

Passámos a ter medo de tudo e de todos. A comunicação entre humanos, com este choque endémico, levou um revés dificilmente ultrapassável nos tempos que se avizinham.

Por outro lado, o uso imposto de máscara, sem darmos por isso, transforma-nos numa espécie de assaltantes de cara tapada, encapuzados, prontos a divergir da ordem estabelecida. Por vezes, pela protecção que o ornamento concede à identidade, pergunto-me como não têm aumentado desmesuradamente os assaltos à mão armada.

Em especulação, dá para pensar que, depois das roupas todas iguais provindas da China, que praticamente transformou tudo o que vestimos numa espécie de fardamentos de Mao mais modernos. Para não nos distinguirmos no meio da molhe social, só faltava mesmo a máscara para nos fazer mais iguais entre desiguais.

Se bem que há quem diga que depois deste acumular de restrições por causa do Covid-19 nos vamos tornar mais humildes e valorativos nas pequenas coisas da vida. Que esta pandemia foi uma mensagem da natureza, para que a respeitemos integralmente e não pensarmos que estamos acima das suas leis naturais.

Claro que há outros que, fazendo-nos crer numa tese de conspiração, acreditam que o que se está a passar é um plano urdido pelo grande capital mundial para, à medida que a generalidade vai ficando mais pobre e mais frágil, nos tornar cada vez mais dependentes da grande ordem financeira global.

Seja lá que significado este tempo tiver, não podemos, nem devemos perder a esperança. É esta mesma natureza que nos ensina que depois de um vale, inevitavelmente, virá sempre uma montanha.

Para o ano voltará a haver carnaval. E, curiosamente, volta a ser à Terça-feira.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

BARRÔ: A TRISTEZA DA LAVADEIRA

  




Seja Verão, seja Inverno, faça Sol, faça chuva, no pequeno lavadouro público de Barrô, construído pela Junta de Freguesia de Luso há cerca de quatro décadas, praticamente desde o primeiro dia que a obra comunitária foi erguida, vamos encontrar a Augusta de Jesus Vieira, de 78 anos, debruçada sobre o tanque de um total de oito lugares. Com vista privilegiada para o Barreiro, o vale fértil e celeiro da aldeia, onde se avistam a dois passos laranjeiras e outras árvores frutícolas, a Ribeira do Salgueiral e o velho moinho e, misturado com o chilreio dos passarinhos, se ouve as suas águas límpidas a baterem palmas à natureza, pela acalmia paradisíaca, presume-se, Deus teria passado por ali.

De um grupo de três resistentes, a Augusta é a única que marca o ponto todos os dias. Ou melhor, marcava, porque desde há cerca de um mês que, por avaria no sistema de enchimento automático, as torneiras do Lavadouro estão secas e silenciosas. Desde esse dia de secura, os dias de Augusta nunca mais foram iguais. Segundo diz, já por mais que uma vez comunicou a anomalia ao senhor presidente da Junta de Freguesia de Luso. Por entre uma tristeza velada no rosto, vai dizendo: “tenho a certeza que este atraso se deve à pandemia. Só pode ser, porque o Miro - Claudemiro Semedo, presidente da Junta de Freguesia de Luso -, nunca me falhou.

Ainda há dias, para ver se fico mais bem-disposta, liguei uma mangueira da minha casa - que é ao lado - para encher um tanque e conseguir lavar uns tapetes. Sabes, esfregar, torcer e lavar ali é o meu refúgio espiritual. Entendes? Se calhar não… É lá que ponho os meus pensamentos em dia. É um distraio! Se lavar em casa não é a mesma coisa!

Nos primeiros anos de 1960, a Augusta, a esposa do “” Maria, barbeiro, juntamente com um grupo de mulheres de Barrô, onde se incluía a minha mãe, foi lavadeira do Grande Hotel de Luso – engraçado é que eu, mesmo tendo cerca de cinco anos nessa altura, consigo lembrar-me desse tempo.

Prossegue a Augusta, “tenho a certeza que este meu gosto veio daí, do lavar a roupa do Grande Hotel, à mão. Apesar das imensas dificuldades, quem me dera esse tempo de volta, ter a mesma idade, e saber o que sei hoje!


BARRÔ: O TURISTA INDESEJADO

 



Aparentando cara de poucos amigos, aportou à nossa aldeia há cerca de um mês. Vestindo completamente de preto com as roupas que a natureza lhe deu, pose simples mas estudada de gentledog, rosto alongado, encimado por dois olhos brilhantes, não parece um nómada igual a alguns outros que percorrem as estradas e os caminhos de Barrô. De poucas falas, montou acampamento no adro da capela. Se avista gente da minha terra com sacos de lixo em direcção ao contentor, é certo e sabido que vai seguir o seu olhar. Aproximando-se lentamente, enfiando a melhor máscara de humilde pedinte, vai ficar à espera que lhe calhe qualquer coisinha em sorte. Se não vem, o que é um problema para o seu estômago, também não se manifesta. O seu olhar cândido e angélico vai manter-se sem qualquer alteração. Se o passante lhe fizer uma festa no dorso, vai deliciar-se com a atenção dispensada. Nesta altura da crónica já deveria estar a chamá-lo pelo nome, mas o nosso visitante de quatro patas, o melhor amigo do homem, não tem identificação.

Com um ar pacífico e meiguinho, o cão que descrevo, se vivêssemos numa sociedade ideal, nem serviria de nota. O mais certo seria estar a fazer companhia a uma qualquer família, numa qualquer casa da freguesia de Luso. Mas se alguma vez, enquanto comunidade, estivemos próximos de atingir a perfeição, os tempos que decorrem, em luta desigual entre iguais, estão muito longe de o ser. E a primeira manifestação que soçobra é o abandono de animais. E contra isto, por mais leis e decretos-lei promulgados em defesa, não há lei que valha aos chamados sencientes.

E poderia terminar esta “estória” por aqui. Mas há mais: o nosso amigo que enalteço, por força das circunstâncias, já que um cão vadio não é de ferro e precisa de se alimentar, deu em ladrão salteador. É certo que, como se esperava de um felino aristocrata caído em desgraça, nem é muito esquisito. Ora pode ir uma galinha do galinheiro mais à mão, ora vão uns ovos caseiros, assim como pode ir o pão, deixado pelo padeiro na entrada da madrugada pendurado nas portas principais.

Quem não está para condescendências e outros perdões humanitários são os lesados, que, com razão, se vêem privados dos seus bens. Vai daí, no princípio deste Fevereiro, alegadamente, comunicaram à Câmara Municipal da Mealhada e à Associação Quatro Patas e Focinhos para recolher o pobre animal, que, no fundo, bem no fundo, até gera pena colectiva pelo seu abandono por algum mastronço sem classificação. Isto, se por ventura tiver sido abandonado. Porque também pode andar perdido.

Alegadamente, no segundo dia deste Fevereiro deslocou-se à nossa aldeia um grupo de três pessoas ligadas à autarquia e à associação de animais para adopção. Depois de um exame em jeito de diagnóstico rápido foi dito, alegadamente, que, por um lado, o vagabundo não era possuidor de “chip”, por outro, também não haveria lugar na associação com protocolo com a edilidade para recolher animais perdidos.

E os dias sempre iguais vão passando neste tempo de pandemia.

Por um lado, se o cão falasse, o mais certo seria perguntar: que mal fiz eu para ser obrigado a roubar para matar a fome? Por outro, se fosse possível descrever a “vox populi”, a voz do povo, com certeza que também interrogaria: se as autoridades nada fazem, seremos nós que temos de tomar medidas?


sábado, 6 de fevereiro de 2021

BARÓMETRO DOS JORNAIS EM PAPEL PUBLICADOS NA BAIRRADA





Jornal da Mealhada (edição de 3 de Fevereiro)


POSITIVO


A edição desta semana, abarcando transversalmente vários temas do concelho da Mealhada, está bem conseguida e, quanto aos conteúdos apresentados, nada há apontar. Com espaços para notícias bem distribuídos, com fotografias sem exagero e em quantidade que baste, está agradável e convidativo para se ler.


MENOS BONS


A capa, que é o desencadeante estimulador para se comprar o jornal, continua com cores mortiças e pouco apelativas. Demasiadamente assoberbada com publicidade, não deixando espaço para títulos de caixa alta, faz lembrar os jornais publicitários distribuídos nas médias e grandes superfícies.

Com uma notícia, “Presidentes de Junta reagem a entrevista do Jornal da Mealhada”, que nos remete para duas edições passadas, mostra-se facilmente que, sendo quinzenário, num tempo em que a informação é voraz da memória, perde actualidade. Era bom que a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, proprietária do periódico, pensasse em investir mais na informação e formação do concelho e o transformasse em semanário.

A necessidade de publicar entrevistas a figuras do concelho que se destaquem no social, económico, político, religioso continua a ser uma premência.

Continua a ser notória a falta de cronistas que abarquem o espectro social, económico e político-partidário.

É preciso estimular a interacção dos leitores com o jornal. Seja por concurso de poesia ou prosa, é preciso criar uma “página do leitor”.

De zero a 20, atribuo a esta edição 14 valores.


(Publicado na página do “Mealhadenses que amam a sua terra”, do Facebook)


Jornal da Bairrada (edição de 4 de Fevereiro)


POSITIVO


Com uma capa apelativa, onde sobressai uma bipolarização de cores entre o vermelho e o preto, esta tiragem apresenta-se bem conseguida.

A fazer jus ao seu âmbito, apresenta uma ampla cobertura de terras da Bairrada.

Com um texto de opinião e colunistas que falam de terras da Bairrada, esta edição satisfaz.


MENOS BOM


Com três páginas dedicadas a pessoas falecidas é pastilha demasiado lúgrebe. Bem sabemos que é receita que não se pode desaproveitar, porém, neste tempo triste e de morte, tanto espaço dedicado à necrologia, puxa por uma tristeza e depressão que alastram na nossa alma. Uma das soluções para reduzir o impacto poderia ser, por exemplo, minimizar o tamanho das fotos dos que partem.

Numa avaliação global de 0 a 20, avaliaria esta edição com 17.

 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

MEALHADA: ASSIM É FÁCIL SER SENHORIO

 





Sem se apreender se foi por unanimidade, segundo informações vinculadas, sob proposta da oposição, a maioria da Câmara Municipal da Mealhada aprovou o perdão de rendas, durante todo o ano de 2021, a quem explora cafés, esplanadas, quiosques e outras estruturas que são propriedade do Município.

Segundo o Jornal da Bairrada, “À semelhança do que já havia acontecido em 2020, nos meses de confinamento, os exploradores de espaços e equipamentos, como cafés, restaurantes, entre outros, confrontam-se com inevitável perda de receita, pelo que o município os dispensará do pagamento de rendas pelo uso de espaços, este ano.

Não podemos cobrar rendas quando estas pessoas têm a sua atividade parada. O Município, nesta pandemia, procura ajudar as famílias, pelo que não iria agravar ainda mais uma situação que por si só já é difícil, uma vez que a maior parte destes casos são de pessoas que a título individual ou com empresas unipessoais dali retiram o seu sustento”, refere o presidente da Câmara da Mealhada.

E chegados aqui levantam-se algumas dúvidas e questões de igualdade entre inquilinos de senhorio público e privado. Por que razão se deve discriminar positivamente os arrendatários do sector público? Sofrem mais pelo prejuízo causado pela pandemia do que os dos sectores privados? Não. Infelizmente estão todos no mesmo barco que ameaça submergir. Então, porque se teima em beneficiar este grupo?

Ou será que, para equilibrar a balança da equidade, a autarquia vai atribuir aos privados a mesma tranche de benesses?

Ainda continuando a citar o Jornal da Bairrada, “Na mesma reunião, o executivo de Rui Marqueiro aprovou os primeiros apoios a micro e pequenas empresas do concelho da Mealhada elegíveis e beneficiárias dos programas Apoiar+ e Apoiar Restauração. Os primeiros 23 apoios totalizam 28.523,45€ e abrangem empresas que atuam em ramos tão diversificados como a restauração e hotelaria, venda automóvel, comércio, cabeleireiros ou atividades de saúde.

Ou seja, uma vez que os inquilinos da edilidade vêem dispensados o pagamento de rendas e ficam no mesmo patamar para serem apoiados no programa “Apoiar+”, em relação aos privados, acabam a receber uma receita indevida, que, se vivêssemos num Estado justo o tratamento deveria ser geral e abstrato.

Bem sabemos que não se pode obrigar os senhorios privados a fazerem descontos nos seus contratos. Então, especulando, para ser justa, a Câmara Municipal deveria atribuir um subsídio extra aos privados. Por ser inexequível, a edilidade deveria primar pelo tratamento igual para inquilinos diferentes. É sua obrigação enquanto ente representativo de uma comunidade de cerca de vinte mil habitantes.

Mas, se não o faz, porquê? Porque são medidas escandalosamente eleitoralistas. É muito fácil fazer “caridadezinha” à custa do erário público.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

BARÓMETRO DOS JORNAIS EM PAPEL PUBLICADOS NA BAIRRADA

 



Jornal da Mealhada (edição de 20 de Janeiro)


POSITIVO


Comparando com anteriores, esta edição quinzenária, no tocante ao grafismo está com bom preenchimento de espaços com notícias diversas do concelho e sem demasiadas fotos como tem sido usual, apresenta-se bem conseguida.


MENOS BOM


Diria que a capa, para além de cores mortiças, está demasiadamente sobrecarregada com publicidade.

Continua a ser notório a falta de colunistas que abarquem o espectro social, económico e político-partidário.

Sobre o lema “esta semana falamos com…”, necessidade de publicar entrevistas quinzenalmente a figuras do concelho que se destaquem no social, económico, político, religioso.

Numa avaliação global de 0 a 20, digamos que avaliaria esta tiragem em 14.


Jornal da Bairrada (edição de 28 de Janeiro)


POSITIVO


Com uma capa apelativa, onde sobressai uma miscelanização de cores apelativas, entre o vermelho, o verde e o azul marinho, apresenta-se bem conseguida.

Com um texto de opinião e um painel de colunistas divido por terras da Bairrada, dá gosto ler este semanário.

Salienta-se a página de entrevista “À conversa com…”.

A fazer jus ao seu âmbito, apresenta uma ampla cobertura de terras da bairrada.

Prestes a comemorar 70 anos – são muitas décadas a “virar frangos” – para nosso gáudio, está quase a soprar velas.


MENOS BOM


Quase três páginas dedicadas a pessoas falecidas (necrologia) é dose. Bem sabemos que é receita que não se pode desaproveitar, porém, neste tempo triste e de morte, puxa por uma tristeza e depressão que alastram na nossa alma. Uma das soluções para reduzir o impacto poderia ser, por exemplo, minimizar o tamanho das fotos dos que partem.

Nuna avaliação global de 0 a 20, avaliaria esta edição com 18.