segunda-feira, 27 de setembro de 2010

BAIXA: O JULGAMENTO POPULAR SUMÁRIO DO DIA



 Hoje, impreterivelmente –que o senhor doutor juiz não alinha em quartos de hora académicos-, ao bater da segunda badalada na torre da igreja de Santa Cruz, deu-se início ao Julgamento Sumário do Dia.
Como sempre, este acto jurisprudencial de “cidadania activa dos cidadãos nos processos decisórios” –como dizia ontem Rui Alarcão na conferência sobre Justiça e Cidadania-, será supervisionado pelo pai da Nação, el-rei Dom Afonso Henriques, que -um dia bateu na mãe mas isso para aqui não conta nada-, aferirá a justeza da sentença e, perante o povo presente nesta Praça 8 de Maio, proclamou a tradicional frase: "está aberta audiência!"

Como habitualmente em anteriores pleitos, pelo meirinho deste tribunal, oficial de justiça senhor Mendes e mais conhecido por “Fura Mundos”, vai ser lida em voz alta a composição dos altos dignitários residentes e que, em nome do povo –neste caso, excepcionalmente, em nome dos comerciantes- irão fazer justiça.
Vamos tomar atenção ao senhor Mendes, que ele fala baixo:

Juiz Meritíssimo: Doutor Almerindo Abrolhos (aqui);

Acusação em nome do interesse público (dos comerciantes): Senhor Procurador Doutor Adelino Paixão (aqui);

Advogado de defesa: Doutor Carlos “popó” (aqui);

Processo 3/2010

RÉU: ACIC, Associação Comercial e Industrial de Coimbra;

Em grande pose teatral, a fazer lembrar os tempos de tribuno de António José de Almeida –não sei se se recordam, se calhar não!-, o Senhor Procurador Doutor Adelino Paixão começou por lavrar um panegírico à antiga União de Grémios de Lojistas de Coimbra –baptizada em 3 de Maio de 1974 de Associação Comercial e Industrial de Coimbra. Evocou os tempos áureos desta colectividade de interesse público no após 25 de Abril, sobretudo o reinado do senhor José da Costa, aquando do nascimento da CIC, Feira Comercial e Industrial, na extinta, desaparecida em combate, Praça Heróis do Ultramar.
Agora, mudando de atitude, isto é, enfiando a máscara de promotor do interesse dos comerciantes, com um esgar de antipatia, o Senhor Procurador começou por dizer que era ignóbil a notícia de hoje do Diário de Coimbra, em que se proclamava que esta quase agremiação bicentenária se prepara para levantar ferro da Avenida Sá da Bandeira em direcção à Relvinha e arrendar o prédio.
Dirigindo-se directamente ao juíz Almerindo Abrolhos, sublinhou mesmo com ênfase: “Meritíssimo, em nome dos comerciantes desta praça da Baixa, isto é um ultraje. Então anda a APBC, anda o Arménio Pratas (agora demissionário) a tentar que o tribunal da Sofia por lá se mantenha, anda o João Silva a querer manter o quartel dos Bombeiros no Centro Histórico, andam mais uns quantos a puxar serviços públicos para a Baixa e o comandante-em-chefe, senhor de todas as vendas ao balcão e viagens empresariais a Angola, dá à sola para os lados dos ciganos do Ingote? Senhor Doutor, isto é uma afronta aos velhos comerciantes que perderam tudo, desde o trespasse até à alma e passando pela vergonha. Por aqui já se vê porque é que a ACIC nunca tomou uma posição musculada perante a autarquia para resolver aquele constrangimento da venda ambulante no “Bota-abaixo”. A direcção desta associação está declaradamente e inalienável ao lado desta etnia como o Bloco de Esquerda. Não querem saber mais nada, senão defendê-los. Está mal, meritíssimo. É preciso harmonizar os interesses. Se a ACIC está nas lonas também todos os comerciantes estão na mesma. Isto não se faz, senhor Doutor!
É um mau exemplo para todos. Que culpa terão os associados se apenas quatro funcionários, alegadamente, levam mensalmente para casa quase 10 mil euros? Que culpa poderá ser acarretada aos comerciantes se, Pina Prata, por negócios mal conduzidos, deixou a ACIC em estado calamitoso e pelas avenidas da amargura? E mais: tendo já esta velha casa um advogado competente, com conhecimentos em todo o país, mas que, por guerrinhas de interesses, nunca foi aproveitado devidamente, porque razão, após a saída de Prata, e contra o que tinha sido prometido à direcção, foi contratado um novo advogado, e a ganhar mais do que o causídico “velho leão”?
Mais ainda: porque razão, depois do reinado de Paulo Canha, presidente eleito a seguir a Pina, mais uma vez, ficou outro funcionário no quadro e a ganhar mais do que qualquer um dos outros quatro?
Salvo melhor opinião, douto justo homem de leis, a ACIC deve ser condenada. Se não se optar pela prevenção imediata, e sabendo nós que os projectos europeus acabam em 2013, tudo indica que o futuro do edifício histórico onde Castro Matoso se dirigiu à assembleia geral –instrumento utilizado à revelia deste órgão nesta decisão de arrendamento- irá ser alienado”.
Em nome do povo, em nome dos comerciantes falidos e com o espírito hipotecado ao diabo, peço a condenação desta insigne casa de mesteres, que deveria dar o exemplo e não dá.

Testemunhas de defesa: Horácio Pina Prata, ex-presidente, (não compareceu); Paulo Canha, ex-presidente, (não compareceu); Paulo Mendes, actual presidente, (em virtude de estar a ponderar uma nova candidatura, não compareceu); Arménio Pratas, presidente do sector comercial, (que não se sabe se está demissionário ou não, não compareceu); Castro Matoso, ex-presidente deste antigo União de Grémio de Lojistas de Coimbra (não compareceu); Etelvino Metegraxa, comerciante na Baixa, que não gosta de ficar mal com ninguém e quando mete veneno é sempre em surdina, perante este vasto auditório, com grande veemência, defendeu a sua associação que até parecia coisa má.

Depois de rebatidos todos os quesitos, entre prós e contras, quer da defesa, quer da acusação, e após um período para ponderação no Café Santa Cruz e em que bebeu um café e apanhou um abraço de Carlos Encarnação, presidente da autarquia, é convicção profundíssima e imensíssima do Meritíssimo juiz Doutor Almerindo Abrolhos que a ACIC deve ser condenada.
Assim, nas prerrogativas deste Estado de justiça mal amanhado, e tendo em conta todas as atenuantes, que os agora comerciantes, aqui acusadores, pelo deixa-correr, de nunca se importarem com a sua associação, mais: muitos deles, como camaleões, sempre a tentarem esconder o sol com a peneira, deixaram arrastar isto a este estado de alegadamente falência técnica. Mais ainda: outros comerciantes com grandes responsabilidades, na última década, esconderam um gato mas deixaram um rabo de fora.
Assim, em conformidade, condeno a ré ACIC a desenrascar-se conjuntamente com os comerciantes dorminhocos e outros que acordados fizeram que estavam a dormir. Evitam de vir pedir-me um cêntimo, porque para esse peditório já dei, e confesso, não deveria dizer isto, mas estou ressabiado: vão-se lixar!

Está encerrada a sessão –segue-se a tradicional pancada do malho.


O VÍDEO DO DIA...

BAIXA: SER COMERCIANTE E ASSALTADO TOCA A TODOS




 Na longa noite do improviso, calhou à Maria José, a “Zeca” como gosta de ser tratada, da Casa Arménio, na Rua do Corvo, ser assaltada esta noite.
“De manhã, quando cheguei tinha um agente da PSP à porta. Partiram o vidro da entrada principal e introduziram-se no estabelecimento. Levaram todos os trocos da caixa-registadora e cerca de uns 10/12 pares de meias de homem. Não é propriamente o que levaram que causa impacto. O que aborrece é sabermos que alguém andou a mexer nas nossas coisas. Ainda não estou em mim. Deveríamos ter segurança e não temos. Para que servem as câmaras de videovigilância? Para nada!”, enfatiza a Zeca.
Lá lhe fui dizendo que há cerca de um ano a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, através do Armindo Gaspar, tentou implementar um serviço de vigilância nocturna, através de uma empresa privada. Os custos, em média, rondavam os 10 euros por estabelecimento. Na altura, segundo declarações do Gaspar, só cerca de uma dúzia de comerciantes se prontificou a aderir ao projecto de intenção. Retorque a Maria José, "eu não soube de nada, mas não acho que 10 euros fossem muito!”
Mais sorte teve a loja de tecidos, ao lado, do Vieira & Costa, Lª. Forçaram a porta, provavelmente com um pé-de-cabra, mas, fosse lá por que fosse, deixaram-na entreaberta sem levarem nada. “Se calhar, apareceu alguém, sei lá, e eles fugiram. Tivemos sorte, mas foi por acaso. Um dia destes voltam. Deveríamos pensar em ter segurança privada”, alude o Alcides Costa. Mais uma vez lhe repeti a intenção da APBC de há um ano atrás. “Ai, perante essa verba, eu alinhava!”
Saliento, que mesmo depois da Secretária de Estado da Administração Interna ter afirmado há pouco mais de trinta dias em Coimbra “que o sistema de videovigilância reduziu de 15 a 20 por cento o volume de crimes”, a verdade é que paulatinamente as intrusões nocturnas nos estabelecimentos vão acontecendo. Depois da inauguração da videovigilância na Baixa em 15 de Dezembro último, e retirando pequenos furtos ocasionais, já 15 intromissões aos estabelecimentos aconteceram. As mais recentes, há cerca de um mês para cá, ocorreram no Centro Comercial D. Dinis, com três lojas violentadas e o pronto-a-vestir Bambina na Rua das Padeiras.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO (SOBRE...)

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)





Ana "Strobe" Mendes deixou um novo comentário na sua mensagem "UM AMOR PARA TODA A VIDA": 


Lindo o seu post...sabendo que advém de uma história real tocou-me de modo especial. Gostava de saber como lhe caem no colo estes contos vividos na primeira pessoa. 
Descrição muito doce de uma vida vivida de forma tão amarga. 
Beijo. 

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Marco deixou um novo comentário na sua mensagem "UM AMOR PARA TODA A VIDA": 


 Bonito conto, Luís. É uma história de amor que fez lembrar alguém. Até imprimi para lhe dar (não me peça direitos de autor), e a referida pessoa disse-me que a «Rosa» poderia muito bem ser ela.
Marco 

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SDaVeiga deixou um novo comentário na sua mensagem "UM AMOR PARA TODA A VIDA": 


 Enervam-me os finais tristes, especialmente quando se devem às convenções e às outras pessoas e ao que vão pensar e dizer...
Mas a história foi mesmo muito bem contada! Como sempre... 

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 NOTA DO EDITOR:

 Obrigada Ana, Marco e Sónia. Gosto de ouvir o que as pessoas têm para contar. Umas vezes faço para que me contem, outras vezes as histórias vêm ter comigo por acaso. Sou uma espécie de gravador, numa primeira fase, e a seguir, quando as escrevo, uma caixa de ressonância.
Às vezes basta só ter um pouco de atenção, todos temos uma história para contar. Infelizmente, tal como esta Rosa Maria –nome truncado-, são bem dramáticas. O estranho, e penso muito nisso, é que estes dramas convivem todos os dias connosco. Tantas vezes dentro da nossa casa, outras, ao lado, no nosso vizinho, na mesa do café e noutras tantas, em capas de sofrimento, em pessoas que conhecemos mas que têm receio de contar.
Não sei muito bem para onde caminhamos –acho que ninguém sabe-, mas uma coisa tenho a certeza: tudo começa nos afectos mal resolvidos.  Ao longo da vida, num penar existencial, tanta gente que se arrasta pelos caminhos do sofrimento. É coisa nova? Não, não é. Sempre foi assim…e sempre assim será, creio.
Apesar de tudo, para mim, tenho a certeza, se se pudesse aferir a felicidade colectiva, comparativamente com séculos anteriores, nos nossos dias estaremos mais felizes. Nestas coisas das relações contratualizadas, de facto ou de direito, é muito importante a liberdade de escolha. É curioso que, perante tantas separações e divórcios, normalmente, nós mais velhos, achamos que o mundo está louco, que os costumes ensandeceram. É quando vejo histórias destas de sofrimento temporal, que penso que estamos realmente melhor. Claro que, continuo a crer, ainda teremos um longo caminho a percorrer, mas o amor, aquela vontade interior de estar com a pessoa que nos faz bem à alma, tudo ultrapassará e conseguirá chegar ao zénite. Afinal, todos necessitamos de alguém ao nosso lado…

sábado, 25 de setembro de 2010

UM AMOR PARA TODA A VIDA

(IMAGEM DE LEONARDO BRAGA PINHEIRO)










 Era Maio de 1945. As macieiras estavam em flor. Os passarinhos cantavam. Um grilo ensaiava uma composição em si maior. O sol despontava em calor ameno próprio da primavera. A quietude nos campos das faldas da Serra da Lousã era paradisíaca. De repente tocou o sino a rebate no campanário da igreja de Nossa Senhora. Os trabalhadores nos campos em movimento repetido com as enxadas, perante o som intempestivo de alerta ficaram com a ferramenta suspensa entre o ombro e o chão de terra batida.
“O que aconteceu?”, foi a pergunta mais repetida entre suores escorridos nas testas rugosas e intermediados por um golo de tinto bebido directamente do quartilho que correu de boca em boca. “Acabou a guerra!”, alguém respondeu. Ao longe ouviram-se foguetes a estalejar e a romper o céu da tarde.
À mesma hora, ali próximo, na aldeia do sopé, entre gritos de rebeldia, do ventre de Isaltina, nascia Rosa Maria. A menina era a benjamim de já muitas irmãs nascidas e que à mesma hora cortavam erva para os gados ou batiam a terra dura com afinco e raiva, porque de raiva era feita a vida diária desses tempos difíceis.
Rosa Maria era uma criança alegre e viva. Era um anjo de encantamento para a vizinha Etelvina. Idalina, irmã de Rosa, já feita mulher, há muitos anos estava prometida ao seu filho mais velho. “Ai gosto tanto desta Rosa, alegria dos meus olhos”, quem dera que ela casasse um dia com o meu Luís Miguel, o meu mais novo da prole e da mesma idade. Este pensamento tantas vezes foi martelado que um dia disse a Isaltina, mãe da menina: “porque é que não os prometemos um ao outro?”. Se melhor o idealizaram, melhor o fizeram. Perante Deus como testemunha, juntaram as duas crianças, colocaram uma mão de uma sobre a mão de outra, ataram-nas com uma ligadura branca, ungiram-nas com azeite virgem e fizeram umas rezas. Estava consumada a promessa de amor futuro de Rosa Maria com Luís Miguel. A partir de ali as duas crianças estavam prometidas em altar sob a égide de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Fosse lá por isso ou não, a verdade é que os caminhos de Rosa eram sempre atravessados por Miguel. Eram como unha e carne de gente feliz com futuro traçado. Rosa sonhava com Luís e este fantasiava com Rosa. Uma era a Lua e o outro o firmamento. A natureza só concebia a sua existência conjunta. Rosa, a jogar ao lencinho e à macaca, só tinha olhos para Miguel. Este, a jogar ao pião e ao botão, no seu pensamento estava apenas concentrado na sua Rosa, flor da sua existência ainda curta de vida, mas longa em ilusão de amor.
Veio a adolescência e as necessidades carnais de Luís aumentaram da mesma forma que as borbulhas e os pêlos no rosto se multiplicavam. Havia um problema. Rosa não permitia grandes avanços. “Não podemos, é pecado. Só depois de casarmos!”, repisava a rapariga até desgastar a frase recomendada tantas vezes por sua mãe à luz de uma candeia alimentada por petróleo.
Do outro lado da aldeia, Gabriela, moça madura, com mais uma dezena de anos do que Miguel, andava fisgada no miúdo. O tempo já começava a pedir meças e, por lá, já se começava a falar. Daí até fazer olhinhos a Miguel foi um passo. E até fazer um pequeno passeio até ao meio das urzes outro passo. E Luís entra dentro de Gabriela e esta fica prenha de promessas de um novo futuro ao lado do rapaz.
Perante o falatório e as noites mal dormidas de Miguel, Rosa foi peremptória: tens de casar com ela. E o rapaz casou.
Rosa apaixonada virou Rosa sentida, mas ninguém sabia. Só seu coração sangrava abundantemente e, só quando só, os olhos de Maria lacrimejavam de dor e sofrimento, como só um condenado conhece o penar por dentro.
 Acabou por casar com João, porque era preciso acautelar o tempo e o povo não tinha dó de mulher só. Vieram os filhos, mas o tempo, esse tempo que contrariamente ao que se dizia não curava tudo, nunca apagou aquela chama que ardia sem se ver no interior do peito de Maria. Apesar de tudo Rosa estimava João e o tempo, a correr no tempo, foi sempre um laivo de saudade para esta mulher. Mesmo quando passava pelo seu antigo namorado e sempre, sempre, paixão, e o coração disparava de emoção, Maria nunca se deixou levar pelo desejo pecaminoso. Casou com o sofrimento e a dor há-de acompanhá-la até à cova. Tudo corria naturalmente sem emoções e sem perdições.
Há quinze anos o seu marido João, que trabalhava numa grande empresa em Coimbra, em despedimento colectivo foi para uma nova profissão: desempregado. Desgostoso, sabe-se lá porquê, agarrou-se ao álcool como náufrago se agarra a tronco de árvore em alto-mar. Os laços entre João e Rosa, que nunca foram teias entretecidas nem enlaces de amor, começaram a desfazer-se. A estima que Rosa nutria pelo homem começou a descambar. Esta, vá-se lá saber o motivo, num dia de forte discussão confessa ao marido o grande amor da sua vida: Miguel. O marido João, ao descobrir o amor íntimo da esposa, parte para a ofensa verbal e entra em desespero. Ameaça-a com uma arma que possui como caçador.
Rosa tem medo e teme pelos seus dias. Só pede a Deus que, por causa do álcool ingerido dia e noite, João fique entrevado e que assim perca a agressividade latente. Maria, mulher de Deus, esposa de homem só, casada com a angústia, nunca irá largar João. Este foi o destino e destino é fado e este, predestinado, cumpre-se, não se muda.

(HISTÓRIA BASEADA EM FACTOS REAIS)

SANTA CRUZ, LUZ DE VIDA...

SANTA CRUZ, LUZ DE ANJO...