Como
há muito não se via, nesta Sexta-feira, desde o raiar da aurora,
Barrô esteve todo em estranho alvoroço, como há muito já se não
via.
Logo
de manhã, vieram vários funcionários da Junta de Freguesia com uma
camioneta de caixa-aberta e em cima uma máquina de rasto. Com os
seus coletes reflectores, como um pequeno pelotão em busca de um
renegado invasor, o grupo dividiu-se pelas artérias da aldeia. Uns
levavam máquinas de cortar erva a tiracolo, outros vassouras,
enxadas e pás. Com voz de comando anteriormente comunicada, ali o
inimigo a abater eram as ervas rastejantes e algumas elevadas e
presas nos muros de pedra das bermas dos caminhos.
Durante
a tarde, veio um camião-cisterna dos Bombeiros da Mealhada com
homens, e, estes, mandando deslocar os pachorrentos automóveis do
seu letárgico e pacífico estacionamento de fim-de-semana, com uma
longa agulheta de alta-pressão para pôr o alcatrão a brilhar,
impondo as ordens com voz grossa e rasgada de comando, puseram o
pessoal barrosense em sentido.
Perante
tanto ensurdecedor barulho, as cabras, em berros lancinantes,
protestaram com veemência, as ovelhas, olhando com desdém o que se
passava à volta mugiam a bom mugir, as galinhas, alvoraçadas,
fazendo desta sexta-feira um dia negro, não puseram ovos como
habitualmente.
Quem
viesse de fora e visse a inusitada faxina, mais que certo, pensaria
que viria um ministro em visita à povoação, mesmo de governo em
gestão, e promessas de partidos candidatos em banho-maria.
Mas
o motivo de tanto empenho não era nada disso.
Um
insólito e profundo matraquear vindo da capela, mesmo lá de dentro,
como se viesse das profundezas da terra, fazia parar os poucos
transeuntes que trocavam as voltas a mais um dia de calendário
gregoriano. Um ou outro, surpreendido pelo ribombar de trovoada, mais
fiel e seguidor dos destinos da vontade divina, pensando ser um
milagre de santo, durante largos minutos, ajoelhava no frio negro da
calçada e cruzava o braço em sinal da cruz. Outros, mais desligados
do santificado, assim, como hei-de dizer, católicos a tempo parcial,
que só recorrem ao auxílio de São Sebastião quando estão em
extrema aflição, passavam ao largo, pouco se importando se o
Padroeiro contra a fome, peste e contra a guerra, e protector da
povoação, por acaso estaria em padecimento. Sim, porque Santo, como
humano que já foi, também sente e sofre na pele o desprezo a que é
votado.
Santo,
como é mais que óbvio, alimenta-se essencial e especificamente do
espiritual. Mas se aqui, neste lugar habitado, poucas pessoas rezam
com verdadeiro fervor no silêncio epicural, como pode aguentar-se o
apóstolo do Criador? Imagine-se que a imagem para sobreviver e
manter-se na capela firme e hirto, comia como todos nós. Quem se
dignava dar-lhe uma côdea?
Ninguém
se admire se, a curto prazo e já que estamos a entrar em campanha
eleitoral, houver manifestações públicas da Esquerda à Direita,
acusando-se uns e outros de discriminação, abuso e exploração
para com as imagens veneradas em todas as igrejas e capelinhas.
Em
boa verdade, esta defesa dos direitos sociais e económicos de todos
os trabalhadores para a fé até deveria ser feita pela classe
episcopal, desde padres a bispos, passando pelos cardeais, deveriam
deixar cair a sotaina que esconde os abusos.
Até
podem rir-se e chamarem-me bacoco, pouco me importa. Mas uma coisa é
certa, São Sebastião nasceu em França. Ainda jovem mudou-se para
Milão, Itália. Tornou-se soldado e preferido pelo imperador
Diocleciano, que o nomeou comandante da Guarda Pretoriana. Não vou
adiantar muito mais, até por que o resto da sua história de vida é
por demais conhecida, mas sabe-se que veio para Portugal por ter sido
maltratado no país transalpino. Em suma, é mais um refugiado, um
imigrante (com “i”, como agora se diz) entre nós em busca
de uma dignidade perdida.
FUI
FALAR COM O SANTO
Ainda
não disse isto aqui: sou unha com carne com o meu amigo São
Sebastião – Sebastião, simplesmente como eu o trato, e ele a mim
chama-me “Toino”.
A
nossa amizade – que não tem nada a ver com esta do Facebook –
começou há cerca de quatro anos, quando vim viver definitivamente
para cá.
O
que mais o prendeu a mim foi a minha sinceridade. Logo nas primeiras
conversas coloquei logo os pontos nos “is”. Ele não me
tentava convencer que fazia milagres – até porque eu não ia
acreditar – e eu também não o induzia para ele crer nas minhas
verborreias. Até por que nem era preciso dizer.
Como
moro a a escassos metros da capela – e também por que a zoada me
incomodava -, dei por mim a sobrepor o patim e a bater com estrépito
na porta de madeira da velha e popular ermida. Mal entrei, fui logo
envolvido pelo o intenso perfume a depressão. Nem sei bem explicar,
era assim uma mistura entre folhas de eucalipto, mirra e urtigas
refogadas.
Encontrei
o Sebastião de rastos, coitadinho. Palavra de honra, jamais o vira
assim, com tamanho ar de enjoo. Tinha descido do plinto (a base onde
assenta os pés) e, sentado na posição de Rodin (o Pensador), com a
cabeça sobre as pernas, parecia uma galinha choca. Mas o que mais me
impressionou foi ter entre as mãos a corda que anteriormente o
amarrava ao troco de árvore. Temi mesmo o pior.
Dando-lhe
um apertado abraço, e misturado com lamurias de grande amigo,
grande amigo, conta-me o que te provoca esse negrume solitário nesse
bondoso coração.
E
a imagem de santo blasfemou, blasfemou, chorou, chorou, falou,
falou, e nunca mais se calou:
“Em
Setembro passado, alegadamente, foram retirados pela Junta de
Freguesia de Luso para serem restaurados os dois bancos que havia
aqui junto à entrada, onde os velhinhos, como tu, se sentavam ao
cair da tarde, quando o Sol se escondia no horizonte. E até hoje não
foram devolvidos. Saberás lá tu, “Toino”, a tristeza que me
atormenta? Bem sei que sou um lamechas, “Toino”, mas que queres?
E
agora fazem-me mais esta… Isto é mesmo para me derrubar. Não
aguento tanta falta de consideração. Já não há mesmo respeito
pelos velhinhos. Porra!
Então
a festa em minha honra, que seria comemorada no próximo Domingo, 21 de Janeiro, só merece uma missa? Uma missa? É só mesmo isto que eu
mereço?
Nem
ao menos uma procissãozinha? Estou farto...”
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