sexta-feira, 5 de agosto de 2016

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




MÁRCIO RAMOS deixou um novo comentário na sua mensagem "A BAIXA COMERCIAL EM BUSCA DE DIAS MELHORES": 


Na zona histórica há quem seja optimista e diga que vamos voltar à Baixa do tempo de 1980. E até superar esses anos de glória. Outros dizem que já deu o que tinha a dar e vai se afundar como o Titanic. No meu entendimento, morador na zona, nem oito nem oitenta. Exemplifico:

1 -A meu ver a Baixa estagnou no tempo. Não se modernizou não se adaptou aos tempos actuais.
Sim, também houve muitos culpados, mas já foi tantas vezes debatido neste blogue que não vou falar deles. Há vários aspectos que ninguém vislumbra com olhar atento. Vou mencionar alguns.
Na Baixa dos anos de 1980, e mesmo 1990, havia um factor que hoje é pouco expressivo, ou quase nulo: habitantes. Havia muitos moradores. Juntamente com os serviços que havia na época e que lentamente foram desaparecendo, faziam fervilhar esta zona comercial. A meu ver a retirada do trânsito das Rua Visconde da luz e Ferreira Borges foi uma tentativa de ligar a Alta, que já era um bairro de residentes, à Baixa, que foi sempre um centro comercial a céu aberto. Transformando estas vias largas em pedonais, logo seriam mais turísticas. Projecto semelhante, parece, querem fazer na Rua da Sofia. Será que irá acontecer na rua da sabedoria o mesmo? Não será mais uma facada mortal para a Baixa? Não havendo moradores nestas zonas não podemos esperar milagres.
2 -A situação económica dos anos 80 e 90, do século passado, era totalmente diferente de hoje. Na altura havia poder económico. Desde 2001, a partir do derrube das Torres Gémeas, nos Estados Unidos, que o país começou a afundar-se numa crise económica sem precedente, onde cada ano que passa o Orçamento Geral do Estado aplica mais impostos estrangulando as famílias. A maioria passou a poder comprar apenas bens de primeira necessidade e deixando para segunda escolha outras, como o vestir e calçar.
Mas, apesar do contexto depressivo, há uma luz para a Baixa: os jovens. Na minha rua (Visconde da Luz) vejo algumas lojas às moscas, sem negócio, mas curiosamente há outras que têm sempre clientes. Estes espaços cativam mais pois são direccionadas para o publico mais novo, desde roupa calçado, acessórios de moda. Os jovens adoram variar, de gastar dinheiro em novos artigos, gostam de estar na moda. Essencialmente, a Baixa terá que passar pelos jovens, ter lojas exclusivas para esta faixa etária. Sendo uma urbe universitária, é de lamentar ser uma cidade envelhecida na oferta.
3 -Durante a noite, principalmente no verão onde bom tempo convida a passeios, vejo na minha rua e pela zona envolvente as montras com os expositores sem luz. Compreendo que numa altura de contenção se deva poupar na electricidade, mas havendo hoje lâmpadas de alto brilho e que pouca energia gastam -falo das LED-, não entendo como há lojas apagadas. Como querem os comerciantes atrair potenciais clientes, com suas montras sem luz? Aqui os lojistas têm culpa.
Depois, para combater as grandes superfícies, porque é que não estão abertas, pelo menos no verão, até as 22h00? Há lojas na minha rua a fazê-lo. Não aceito que certos lojistas mesmo em cima das 19 horas já estejam a encerrar. Com tantas pessoas a dar o seu passeio até à meia-noite, é desolador ver a maioria dos espaços fechados, sem luz nas montras, já para não falar nos locais que não têm comércio.
4 -Coimbra sempre esteve de costas voltadas para o rio. Mas o Mondego gosta tanto da cidade que antigamente até nos beijava amiúde. Porque é que não há mais actividades, competições, e espectáculos no rio? Atraía mais pessoas à Baixa. Do pouco movimento que se nota nas águas, a maioria é feito pela Associação Académica de Coimbra, entre outras entidades, mas é pouco. Depois de o leito ser dragado será uma oportunidade de ouro para planear eventos. Espero que não se desperdice.
5 -Boa decisão teve a Câmara Municipal de realizar o Fim-de-Ano na Baixa. Mas deveria ter também colocado iluminação de Natal decente, e por toda esta área velha. Antigamente vinha-se à zona histórica ver os enfeites natalícios e na volta compravam algo. Com iniciativas assim se ajuda a erguer esta zona.
6 -Deveria haver uma maior sensibilidade por parte dos donos dos prédios para arrendar as lojas. 
Para terminar, recordo que a nossa bandeira tem duas cores, em proporção desigual, verde representa a esperança em menor área e vermelho numa maior área, o sangue dos guerreiros que defenderam a Pátria. Pelo seu sacrifício, os mártires desta nação. A esfera armilar, representando os descobrimentos, a descoberta do mundo desconhecido.
Na Baixa os comerciantes antigos representam a bandeira, mas nos novos comerciantes não vejo a parte vermelha. À mínima dificuldade fecham portas. A vida também e feita de sacrifícios. Depois da tempestade vem a bonança.
Acredito que a Baixa está a sair do vendaval. Virá aí uma acalmia de radiosa esperança brilhante. Só temos que saber aproveitar. E não desanimar.

PARA PENSAR...

(Retirado da Web, com a devida vénia ao autor)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A BAIXA COMERCIAL EM BUSCA DE DIAS MELHORES




No próximo Sábado, 6 do corrente, vai encerrar a Bijou Brigitte, na Rua Ferreira Borges, um estabelecimento com cerca de uma dezena de anos de existência naquele local nobre da Baixa.
A semana passada, duas lojas, uma de roupa e outra de consertos de electrodomésticos, cerraram portas nas ruas estreitas.
Embora a busca de espaços para arrendamento comercial continue em alta -já que é uma solução possível para criar o próprio emprego- e as rendas, aos poucos, até se tenham ajustado ao mercado, a verdade é que os encerramentos continuam. As deslocalizações em busca de um contrato mais económico são uma espécie de tiros em cruzamento numa barraca de feira.
Embora as projecções macro-económicas não o refiram, os preços, acompanhando o índice da procura, continuam a cair. Para não assustar, não se fala em deflacção, mas o certo é que estamos a caminhar em direcção ao abismo.
Apesar das medidas anunciadas pelo Governo de reforço do rendimento das famílias, apesar da anunciada Bazuca do Presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, para criar estímulos a economia continua a cair sem o fundo à vista.

E O MILAGRE DO TURISMO?

Mesmo com os publicitados aumentos de turistas entrados no país, o certo é que este ano, pelo menos na Baixa, notam-se menos estrangeiros e com menor poder de compra. Se 2015, mais que certo pela classificação de Coimbra como Património Mundial, foi uma experiência positiva para o comércio de rua em geral, até agora está muito longe das metas alcançadas no ano passado.
Tudo indica que, infelizmente, o comércio tradicional continuará a cair e a ser, cada vez mais, o parente pobre da economia do país.

E PARA A HOTELARIA?

Obviamente que escrevo pela observação e sem conhecimento de dados estatísticos substantivos de fundamento, o que me parece é que mesmo para a hotelaria -refiro cafés e restaurantes- as diferenças continuam a pesar.
É irrefutável que o sector hoteleiro, com a redução do IVA, teve um bónus do Governo mas, mesmo assim, este ramo de transformação continua a penar. Até porque, sobretudo na Baixa, verifica-se uma tendência natural para que o comércio a retalho vá desaparecendo e dê lugar a típicas casas de fado -vale a pena fazer uma visita à zona do Quebra Costas. A revolução começou ali e, creio, progressivamente irá alastrar à Baixa.

MAS, AFINAL, COMO É QUE ESTÁ A BAIXA?

A Baixa desde tempos remotos, continua a dividir-se em duas partes: a Calçada, constituída pelas Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, e as vias estreitas. Nas palavras escritas de Fernando Assis Pacheco, “in Trabalhos e Paixões de Benito Prada”, “Jorge Galo, que também mudara o estabelecimento para a zona chique, era o autor da teoria segundo a qual o comércio de Coimbra estava escalonado em reinos contíguos e bem caracterizados: o inferno, estendendo-se pelo labirinto da Baixinha, cuja sobrevivência assentava numa prática de preços populares, pouco acima do custo de fábrica; o céu, constituído por um largo, da Portagem, e duas ruas, Ferreira Borges e Visconde da Luz, formando juntas a calçada, onde podia restar alguma exploração mais modesta, mercearia, capelista, engraxador, mas a tendência era para concentrar o negócio fino; e o purgatório, que ocupava territórios de passagem como as Escadas de de São Tiago ou fronteiriças tipo Sansão -chamado na toponímia oficial Praça Oito de Maio, adjacências tão naturais que se protestaria terem o mesmo concurso da Calçada nobre e afinal não tinham, pois um cavalheiro não se abastecia de ordinário nesses ermos, e uma senhora muito menos. Eram factos sem explicação por virem de bastante longe no tempo. “O mais”, filosofava Jorge Galo, “é Marrocos, bom para aviar sabão macaco e alcagoitas.”
Por conseguinte, quer dizer-se que as ruelas e becos, em contraposição às ruas largas, continuam a ser Marrocos e prosseguem a sua histórica dificuldade.

E NÃO HÁ ESPERANÇA DE MELHORAS PARA O COMÉRCIO?

Tenho para mim que, por vários motivos, o comércio tradicional, tal como o conhecemos com a pequena loja de bairro, está condenado ao desaparecimento. Um deles, são as cada vez maiores exigências (obrigações) para os lojistas -em contraposição com as vendas online de particulares que, fazendo disso um negócio, nada pagam. Outro, são as constantes promoções nas grandes superfícies no encadeio da linha de destruir para reinar. Outro ainda, é a filosofia da “mão invisível” -na teoria da Economia Clássica- em que o Estado deixa de intervir na Economia e é o mercado a estabelecer o preço entre a oferta e a procura. O problema é quando a oferta (global) é uma diarreia quotidiana e a procura é uma bufa temporal.
Com a liberalização, que começou em 1985, entrou-se numa escalada de abaixamento de preços de venda sem fim à vista. Se até aí, com os preços tabelados pelo Estado, por um lado, o que contava era atingir a maior margem de lucro possível, por outro, os grandes e pequenos empresários estavam todos defendidos e, por isso mesmo, no mesmo patamar de concorrência.
Com a liberalização total que se seguiu passou a procurar-se o menor lucro marginal vendendo cada vez mais barato. Entrou-se na lei da selva com o mais forte a derrubar o fraco somente com meros intuitos de destruição. O resultado desta política ultra-liberal, numa primeira fase, foi bom para todos os consumidores (que somos todos). A democratização do acesso a todos os bens pelo preço baixo, ao trazer uma aparente felicidade, transformou-nos em instrumentos de fácil manipulação política. Na segunda fase, a partir de 2000, veio a factura para pagar. Como o abaixamento contínuo de preços e acréscimo de custos médios leva ao encerramento paulatino de indústrias, comércio e serviços, e por isso mesmo ao desmesurado aumento de desemprego, com os rendimentos das famílias a diminuírem cada vez mais, a consequência está à vista de todos. Não saímos da cepa torta, com a dívida pública a não parar de subir.

MAS, POIS SIM! E O COMÉRCIO DA BAIXA?

Já não são muitas as lojas mais antigas ainda em exercício. Como a maioria não terá seguidores e a idade dos comerciantes destes estabelecimentos, neste momento, caminha acima dos sessenta anos, é de prever que nos próximos cinco anos vai ser uma razia. Pode até pensar-se que desaparecendo estes velhos lobos do comércio outros ocuparão o seu lugar. Puro engano. É impossível porque, por um lado, estas pessoas, na generalidade, estão bem de vida e não dependem da caixa diária, por outro, o seu amor ao comércio, à sua loja, é insubstituível. Quem vier a seguir, por impossibilidade financeira e falta de experiência empírica, vai limitar-se a fechar a porta.
Apesar de ser muito diferente do que foi há cerca de vinte anos, e já pouco ser em semelhança, o modo como conhecemos hoje a Baixa vai só restar na memória. Para os conformados, dirão que é a dinâmica natural das coisas. Para os outros, para os optimistas/realistas perguntarão: mas tinha mesmo de ser assim? Não poderia ter sido de modo diferente?







BOM DIA, PESSOAL

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA





 POR MÁRCIO RAMOS

Li com atenção a queixa apresentada à policia sobre o miúdo-maravilha que toca violino.
Acho que não incomoda, dá outro ânimo à Baixa da cidade. É melhor ouvir sua música que a de outros artistas que circulam por esta zona histórica, mais parecendo ruído. Acho que deve continuar, até porque numa altura que Coimbra é invadida por turistas estes levam uma boa imagem da cidade para mais tarde recordar. Mas, a meu ver, porque não fazer mais por estes artistas que dão mais beleza a cidade?
Ainda em exposição, está patente no Museu temporário da Memória, na Rua Velha, na Baixa, a mostra “Rostos Nossos (Des)conhecidos”. Amiúde passamos por eles na rua e os olhamos tantas vezes como mobília da cidade sem querer saber da sua história.
Com os artistas desta urbe agimos de igual modo, incluindo a Câmara Municipal, que obriga a que o artista pague sua legalização. Resumindo, tem que pagar à edilidade para mostrar sua arte que vai animando a Baixa tantas vezes triste. Não concordo.
Todos os anos há as Noites de Verão. Como se sabe, consistem em mostrar aos turistas o fado de Coimbra -geralmente à quinta-feira- e folclore regional -à sexta-feira.
Uma boa iniciativa, mas que deveria ser alargada a outras artes como teatro. Deveria também trazer outros conceitos. Não só o fado e os típicos ranchos são importantes. Nomeadamente o fado de Coimbra tão único dentro deste estilo musical.
Ao ler o texto sobre a queixa de comerciantes acerca do miúdo maravilha pensei num conceito que poderia funcionar.
Num Sábado de Verão, porque não montar aparelhagem sonora e luzes a condizer e fazer um espectáculo mas onde os intervenientes fossem estes artistas de rua? A autarquia tem os meios e podia convidar estes intérpretes a participar nesse espetáculo. Assim estes criadores tinham mais visibilidade, eram mais aceites pela comunidade, e, além de mais, expunham sua arte performativa.
A meu ver estes obreiros dão uma lufada de ar fresco a esta zona comercial da cidade, tantas vezes ensimesmada, triste, e envolvida do manto do silêncio avassalador. Não deveria a Câmara Municipal e a Baixa agradecer-lhes, criando esta apresentação?

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...




SuperFebras deixou um novo comentário na sua mensagem "AFINAL QUEM É QUE CHUTA OS MEIRELES PARA CANTO?":


Amigo:
Quando um agente não tem capacidade de actuar consoante a sua intelectualilade e humanismo e age cegamente a ordens vociferadas, estamos perante a prova que estas forças servem os magnos e suas corporações.
Apesar de em maioria ser o Zezinho a pagar a factura dos seus ordenados e subidas eméritas de suas carreiras baseadas (haja padrinhos, cunhas ou patuscadas) quase ordinariamente nos anos de serviço e não na distinção do saber -ou predicado laboral-, é mais que evidente que brutalmente exercerão, acções contra nós e em defesa dos que estão no poleiro -e de maneira alguma querem o putrificado e viciado galinheiro vasculhado.
Conheço o duo artístico de que nos fala. Não pessoalmente, mas há muitos anos que vão passando pelos ecrãs, graças à sua aptidão artesanal e dom artístico, tanto das nossas televisões como os dos nossos monitores de computador.
Certamente, a primeira vez que os vi foi, há vários anos, num grande documentário de vários episódios apresentado pela Globo TV Internacional e que estudava a historia do nosso cavaquinho -aqui, no Canadá, ukalele- e seu desenvolvimento como instrumento e envolvimento na musica de vários povos mundo fora. Neste programa televisivo conheci o pequerrucho. Ainda ao colo do pai, fiquei a saber que já estudava violino.
Saiba caro amigo, não é o Sr. Meireles que me preocupa -pois tal como um bom lavrador sabe quando mete os bois ao carro e qual é a besta que mais depressa se espanta também ele se saberá defender das investidas dessas feras e, pelo que conheço dele, tem calibre de quem pega a rês pelos cornos- mas o menino. Que pensará ele de nós adultos à sua volta? E das forças policiais?
E do mundo que o rodeia? Digamos que este mundo não será muito maior que a cidade de Coimbra, e que nas suas viagens a outros lugares nunca terá presenciado e sentido a brutalidade da rejeição, uma face tão especial da sua vida que lhe esmurra a alma e a afinidade musical que dentro dela vive.
Não deveria ser nosso dever -dever de todo o conimbricense, até causa política- defender esta criança, esta mais valia para Coimbra?
Não é ela, criança, embaixadora, sem salário, de Coimbra e de conimbricenses, no pais? E estou eu aqui, a seis mil quilómetros, na América do Norte, a escrever sobre ele, no mundo? Ou será grande a perturbação aos assalariados?


Um grande abraço.

Álvaro José da Silva Pratas Leitão
Bradford, Ontário
Canadá

P.S. Desculpe ter sido escrito com teclado para Inglês.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

AFINAL QUEM É QUE CHUTA OS MEIRELES PARA CANTO?






        Hoje, durante a manhã, quando o duo Meireles, pai e filho, actuava na Rua Visconde da Luz um agente da PSP, alegando queixa de comerciantes da principal artéria da Baixa, dirigiu-se ao Fernando Meireles para que este, na companhia do primogénito, se deslocasse para outro local já que, alegadamente, com o som amplificado saído dos instrumentos de corda, estaria a incomodar. “Chamou-nos à parte e disse: você tem de sair daqui porque os comerciantes fazem queixa. O agente até foi simpático. Até disse que gostava de nós, mas que estava a cumprir a sua função.”
Para quem não conhecer os Meireles, dois talentos da cultura musical coimbrã, em poucas palavras, resumo apenas que são dois ícones sem reconhecimento público. E o puto é uma revelação. Repetindo o que já escrevi mais vezes, o Fernando Meireles (pai), artesão, investigador, músico de talento indiscutível, membro do grupo “Os Realejo”, e que já tocou com Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral, Amadeu Magalhães, é um exemplo vivo de que a cidade que o alberga não o merece. Quando o seu “know how”, o seu saber fazer, deveria estar ao serviço da comunidade, na Baixa, num prédio camarário, e a ser aproveitado como professor de construção de instrumentos de artes e ofícios, o que se constata é o oposto, está a trabalhar numa sala esquecida da Associação Académica de Coimbra. Meireles, auto-didacta, instrumentista e estudioso da música tradicional portuguesa, entrega-se à sua arte de corpo e alma e, felizmente, não tem dificuldade em sobreviver, mas é triste verificar que, por falta de visão holística, do todo, os políticos que exercem o poder local percam uma boa oportunidade de serem úteis e neguem o conhecimento aos vindouros. Ninguém entende que estamos perante um talento extraordinário, singular e diferenciado, no modo como fomos habituados a ver muitos músicos saídos dos conservatórios e escolas de música tradicionais.
Salienta-se que já por várias vezes esta acção por parte de agentes da PSP se tem verificado. Também é verdade que, na maioria dos casos, é sempre feita com cordialidade. No entanto, é de ver que o que é de mais aborrece e faz transbordar o copo mesmo do mais paciente.

E A CÂMARA, NÃO DEVERIA MANDAR CUMPRIR?

Há vários anos que a ocupação de espaço público por artistas de rua não é cumprido. Ou seja, quem quer exibir a sua arte fá-lo livremente na via pública. Em princípio este procedimento até estaria correcto se não provocasse injustiças e abusos. Isto é, no tocante à equidade, como a edilidade não aceita inscrições nem passa licença, acontece que qualquer um pode estar sujeito à arbitrariedade de quem manda, como já foi o caso do Luís Cortez, que foi recambiado para a imediação da Loja do Cidadão. No que fere o bom-senso, a raiar o abuso, basta verificar um ajuntamento diário que ocorre habitualmente na Rua da Sofia, em que se juntam no passeio várias pessoas andrajosas acompanhados com cães e a consumirem vinho. Os queixumes dos comerciantes locais são vários mas, como é preciso dar a cara e a coragem é coisa rara nos tempos que correm, até agora o acantonamento vai continuando e à espera que sejam terceiros a resolver a situação.

E COMO DEVERIA SER?

Já se sabe que a liberdade mal usada conduz ao libertarismo -a maximização da liberdade de escolha, que por sua vez conduz ao caos e ao anarquismo, enquanto filosofia. E quando acontece passar-se os limites da decência, num egoísmo individual sem precedentes, o instrumento necessário para lhe pôr cobro é a lei. O problema é que nestas alturas não se procura somente ratificar e disciplinar o costume mas, pelo contrário, vai-se do oito aos oitenta. Por parte do legislador, há sempre um aproveitamento económico da questão em análise. Quero dizer que, sobre este quadro dos músicos de rua, se até agora a exibição dos artista é gratuita no caso de haver uma postura municipal, mais que certo, os preços pedidos pelo licenciamento da actividade serão incomportáveis para quem o solicitar. A meu ver, regulamentar para disciplinar, o que deveria ser obrigatório era a inscrição prévia na autarquia, com dados identificativos -e a entrega do requerimento já obriga a um custo de 10 euros. No caso de ser permanente -ainda que a prestação seja ambulante-, poderia ser licenciado com um custo mensal mínimo. É bom não esquecer que quem recorre à rua para apresentar a sua perfomance, na maioria, por um lado, fá-lo porque não terá outro palco nem outro meio de subsistir, por outro, o que dá à comunidade é muito mais do que recebe -é aqui, neste equilíbrio precário que o poder decisório municipal, sendo justo, tem de pesar os prós e contras.

MAS VOLTANDO AOS MEIRELES...

Ora, se o argumento empregue pelos agentes da PSP é que os comerciantes da Rua Visconde da Luz se queixam a esta polícia, interessa saber o que pensa a maioria dos profissionais do comércio e, sobretudo se possível, tentar saber quem é contra a permanência do músico. Por isso mesmo, fui ouvir alguns deles.
Carlos Barros, do “Caco – o Original”, à pergunta o que pensava sobre a prestação dos Meireles, disse o seguinte: “é muito agradável. É muito bom para a rua. Há clientes que aproveitam para se sentarem na esplanada a ouvir a sua musica. E também para nós, que estamos a trabalhar. Animam o dia e tornam-no menos enfadonho. É um absurdo pensar que alguém está contra uma prestação desta qualidade, e gratuita ainda por cima?! Querem o quê? Uma cidade inodora? Sem cheiros, sem ruídos, sem movimento?”

Jaime Fernandes, da Óptica Fernandes, explanou assim: “a prestação musical desta família, pai e filho, é uma acção que enaltece a rua. Eu gosto!

Rosinda Henriques, de A Casa dos Enxovais, manifestou assim a sua declaração de vontade: “gosto de os ouvir. Às vezes têm a amplificação muito alta. Se o som estivesse mais moderado era ouro sobre azul. É bom para a rua. É interessante para o turismo. Todos devemos ter alguma compreensão e paciência. É muito bom para a Baixa.”

Francisco Braga, da casa Bragas, L,da, enfatizou assim: “ouve-se bem, sem enfado. É bom para a rua porque dá animação e torna a via pública diferente, quebrando a rotina. Há outros aí bem piores, e, pelo princípio da tolerância, temos de ter alguma paciência! Nesta altura do turismo faz todo o sentido. Alegra o nosso meio envolvente. É importante.”

Nádia Baptista, da loja Calcedónia, à pergunta formulada se o barulho incomodava, respondeu assim: “não incomoda nada (o miúdo toca tão bem, coitadinho!). É muito bom para a rua. As pessoas param para os ver actuar. Vê-se sempre muita gente à sua volta. Ajuda a dinamizar a Baixa -já que ninguém faz nada! Acho que faz todo o sentido. Prefiro ouvir este duo que outros que por aí passam, cujo ruído, por vezes, é infernal.”

Margarida Santos, da Casa Baltazar, mostrou assim a sua opinião: “acho bem este grupo fazer parte da nossa rotina diária. Não faz mal nenhum, antes pelo contrário. Os turistas adoram. Animam a rua. É um contra-senso não gostar destes músicos de excelência.”

Paula Costa, da casa Brancal, à pergunta se conhecia algum colega que estivesse contra a manifestação cultural, disse o que pensava: “ É bom para a rua. Anima e altera uma quietude que, por vezes, se torna triste e monótona. È muito agradável. Tocam muito bem. Gosto muito de os ouvir. Nunca ouvi dizer nada contra. Por outro lado, parece-me inconcebível haver alguém que não goste de um espectáculo assim. É uma pena! Bem sei que, apesar de todos precisarem de ganhar a vida, há por aqui alguns músicos que exageram, mas estes não.”

Ana Filipa, da loja Namib, extrapolou assim o seu pensamento sobre este assunto: “animam a rua. Não costumam estar muito tempo. Estão uma horita, pouco mais, e vão-se embora. É bom para os passantes. Quando vamos para o estrangeiro, por lá, também gostamos de ver. Há por aqui outros bem piores, que, para além de não terem qualidade, fazem bem mais barulho.”

Liliana e Clarinda, funcionárias da MultiÓpticas, a uma só voz, falaram assim: “é óptimo podermos contar com a sua sonoridade para animar a nossa zona envolvente. Dinamizam a rua. É diferente, para melhor. Quebram o tédio. Para nós, que estamos a trabalhar, é muito agradável. Para o turismo, que nos visita, é fantástico. As pessoas param e ficam ali especadas a ver. É certo que alguns, pelo som por vezes estridente e monocórdico, incomodam, mas estes não.”

Ricardo Veiga, da Casa dos Linhos, disse o seguinte: “É agradável ouvir estes músicos. Desenvolvem e animam a rua. Há outros -esses sim- que incomodam mesmo. Estes não perturbam!”

Em resumo final, em apelo dirigido ao comandante da 2ª esquadra da PSP, talvez fosse bom que os agentes policiais, sempre que se dirigirem ao Fernando Meireles para circular e invocando o nome de comerciantes para justificar o seu mandado, dessem o nome dos descontentes. Sem duvidar da alegação, pelo princípio da transparência dos actos administrativos, seria bom que, futuramente, assim acontecesse.