quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

OS LEÕES DE CARDINALI

Circo Cardinali garante que leões apreendidos pela GNR "estão registados"
(Foto do Jornal de Notícias)



 A notícia caiu ontem, terça-feira, em tudo o que era título de informação: “GNR apreendeu nove leões do circo Victor Hugo Cardinali”. Ao que parece, e estava escrito assim, por os bichos não terem registo ao abrigo da convenção sobre comércio internacional de animais selvagens. Para além de não poderem ser usados em futuros espectáculos da companhia circense, a multa mínima é de 38,500 euros.
Começo com uma ressalva. No meu quintal, tenho um cão que está preso, ao longo de uma extensão em ferro –não sou dono dele, porque os animais são filhos da natureza, sou apenas seu protector-, e que alimento todos os dias. Para além disso, diariamente, dou comer a uma série de gatos vadios, cujo gesto não é relevado pelos felinos já que nem uma festa no lombo lhes posso fazer porque não se deixam apanhar.
Gosto de animais, de todos sem excepção –penso que quem não gosta deles será incompleto, de coração frio, não é tocado pela sensibilidade de dar amor ao próximo. Sou incapaz de tirar a vida qualquer ser rastejante pelo prazer sádico de matar. Porém, não sou obsessivo com a sua defesa. Há limites. Antes deles estou eu, a minha família, os meus vizinhos e outra qualquer pessoa mesmo que não conheça de lado nenhum. Numa equidade necessária, tentando respeitar a vida de todas as espécies, para mim o humano está sempre primeiro, é o primus inter pares, considerando que a existência das cavalgaduras merece o mesmo respeito. Não gosto de mostras bárbaras como, por exemplo, touradas ou luta de galos, onde a crueldade no sofrimento desnecessário impera e o pior que os humanos têm dentro de si ressalta. Mas, no caso das touradas, verifico que nos últimos anos as posições de quem as defende e quem as renega radicalizaram-se a defenderem o impossível. Isto é, a meu ver, as touradas poderiam perfeitamente continuar a existir sem a dor exposta dos touros, sem a colocação de bandarilhas e ferros no corpo da besta. Porque não poderia ser apenas uma luta entre homem e cornúpeto, como a pega de caras? Numa barbaridade sem limites, por que razão, fazendo jorrar o sangue de quem não se pode defender, se há-de espetar o animal numa completa atrocidade? E no extremo o que pode justificar matar o gado na arena apenas pelo divertimento de anormais que se afirmam normais, como se voltássemos ao tempo dos romanos? O problema é que os anti e os prós, tendo em conta o superior interesse dos animais, não estão dispostos a abdicarem de nada. Uns e outros, os que estão a favor e os que estão contra, querem ganhar em toda a linha. Querem tudo sem condescenderem em nada. De um lado, querem a morte exposta, de outro, defendem a extinção pura e simples do costume ancestral. E aqui reside o problema. Quando há posições extremadas ninguém se entende e perdem todos. Para piorar as condições das próprias vítimas, uns e outros, acabam por influenciar os governos que, verdadeiramente sem estarem interessados na fauna selvagem mas antes em ganhar simpatias, legislam ao sabor de lobbies de pressão, numa hipocrisia completa, tentando agradar a uns e outros sem conseguirem contentar nenhuma das partes.
Neste caso do circo, é meu entendimento que estamos perante mais uma estupidez assente numa completa dissimulação, onde o que parece ressaltar é a defesa dos leões mas o que emerge é uma caça à multa e o mostrar serviço a uma comunidade nacional, que emprenha pelos ouvidos e, numa síndrome de carneirada, acaba a parir pelos olhos, e internacional fingida que, com estes actos parece mesmo preocupada com os direitos e extinção da vida selvagem. Basta atentar nas notícias do tráfico, nos milhões gerados em receita não contabilizada, para verificar que estamos perante uma montanha de fumo. Senão vejamos, quantos circos há em Portugal a usarem animais? Se calhar nem uma dúzia. Ora, será esta minoria que está a contribuir para o achincalhamento e desaparecimento destes seres vivos? Tenham dó desta pobre cabeça que escreve! Mais ainda, hoje é moda ser defensor dos animais e todos termos pelo menos um gato em casa. Será que a domesticação não é uma desvirtuação, uma alteração idiossincrática da natureza? Por que é que estes fundamentalistas não soltam as feras ao vento? Para se dizer que não se deve praticar o abandono? Será? Ou, antes pelo contrário, dá jeito ter um animal para companhia e afogar neles a solidão já que os humanos, como companheiros, não valem um pífaro? Ainda mais uma coisita, se os animais num circo incomodam tanta gente, por que razão não se fazem manifestações à porta do Jardim Zoológico a reivindicar a libertação de todos os irracionais? Será que ali os pobres coitados não sofrem de stresse? Será que, no meio de uma cidade, numa área limitada, estão no seu habitat natural?
Sem pretender ofender ninguém mas apetece-me fazer um manguito para os defensores da libertação dos leões do circo Cardinali. Por que não se preocupam mais com os humanos e, muito particularmente, com as dezenas de famílias que, num trabalho meritório, quase históico, de entrega à comunidade e que tanto bem nos fazem, (sobre)vivem do circo? Num escândalo sem precedentes, se abriram uma cláusula de excepção para matar touros em Barrancos, estão à espera de quê para fazer o mesmo com o maior espectáculo do mundo? Tenham dó! Não me façam mais tolo do que já sou!


TEXTOS RELACIONADOS

"Vamos ao Circo?"
"A sociedade protectora animal"
"A ilusão de óptica da modernidade"
"Morrer no dia de Natal"

Sem comentários: