domingo, 31 de março de 2024

BARRÔ: NOTÍCIAS BREVES



BARRÔ: NOTÍCIAS BREVES


* A cargo da Junta de Freguesia de Luso, recentemente, foi substituído o velho e decrépito abrigo de paragem, onde desembocam os alunos que descem e ascendem ao autocarro escolar em direcção às freguesias e particulares que o desejem, por um outro mais moderno, mais aprazível esteticamente e com maior protecção para os utentes durante as intempéries.

Durante esta intervenção de substituição de mobiliário urbano, foram também removidos uns ferros de suporte aos contentores de lixo existentes na Rua do Carril e na altura transferidos para o Largo da Capela há cerca de um ano;


* Conforme foi noticiado aqui, em cumprimento de uma promessa eleitoral, que fazia parte do caderno de encargos do executivo PS liderado por Claudemiro Semedo, da Junta de Freguesia de Luso, em Setembro do ano passado, 2023, a capela de São Sebastião, situada no largo com o mesmo nome, foi requalificada, por dentro e por fora, incluindo a cobertura e sanitários, com uma pintura que a transformou mais bela ao olhar comum.

Acontece que no fim da reparação foram retirados dois assentos em forma de bancos de jardim, adquiridos há cerca de vinte anos com verbas angariadas em petição popular para arranjo geral da pequena ermida, colocados na frontaria do templo. Nos últimos anos, estes assentos foram poiso quase diário de vários moradores já falecidos. Ao cair da tarde, era quase obrigatório parar ali e desenrolar dois dedos de conversa em torno das recordações da aldeia.

Em interrogação a um responsável pela curadoria do santuário pelo destino das duas poltronas em madeira, foi afirmado por este elemento que os cadeirões tinham sido mandadas retirar pelo presidente da junta para serem arranjadas as travessas em madeira e pintadas de novo. No fim do processo regressariam ao seu lugar original. Mas acrescentou ainda: “se queres que te diga, nem fazem falta nenhuma. Aliás, até estorvam em dias de procissão”.

Em Dezembro, na última Assembleia de Freguesia, na parte concedida à intervenção do público, um freguês de Barrô inquiriu o chefe do executivo sobre o destino dos dois apoios, e para quando a sua devolução. Por Claudemiro Semedo foi dito que, de facto, os bancos foram retirados para serem reparados. E muito em breve regressariam ao lugar onde sempre estiveram.

De Setembro até agora passaram cerca de sete meses, e dos assentos só resta a memória. O que será preciso fazer para repor a legalidade? Um abaixo-assinado?


* Para quem se recorda, já se deu notícia aqui, com inscrição no Plano, Orçamento e Contas para o ano de 2024, na rubrica “Mealhada um concelho mais verde e hipo-carbónico – página 6/14”, está inscrita a criação das praias fluviais em Barrô, Ferraria e Santa Cristina.


* Nas últimas eleições autárquicas, por promessa eleitoral do executivo PS, liderado por Claudemiro Semedo, foi prometido um parque infantil para aldeia.

Como falta um ano e meio para o digníssimo representante autárquico se despedir do lugar – uma vez que, por cumprimento de três mandatos consecutivos, não se poder recandidatar – e, diz quem sabe, ocupar um lugar de vereador na Câmara Municipal, é só mesmo para lembrar.

É certo que a povoação, presentemente, não tem muitas crianças, mas sem um lugar de recreio para elas quem pode pensar em fazer bebés?


* Já passaram três meses depois da festa em honra de São Sebastião, que decorreu em 20 de Janeiro. Relembra-se que foi feita uma angariação de verbas entre os “barrosenses” e foi realizada uma bonita e tradicional procissão na efeméride do santo padroeiro.

Depois do tempo passado, era bom que as contas, receitas e despesas, da alegoria fossem mostradas publicamente na vitrine existente na parede da capela.

Deu prejuízo?

Deu lucro?

Se o saldo foi positivo, a quem, e de que forma, foram distribuídos os dividendos?


sábado, 30 de março de 2024

DIZEM QUE LOGO MUDA A HORA. ORA, ORA! UMA HORA CONTINUA A SER IGUAL.

 

(Imagem retirada da Web)




“Quando damos por nós, olhamos o espelho
e já não reconhecemos a imagem que nos
aparece reflectida. Parece de alguém muito
chegado, mas só isso.”

Ao que tudo indica, logo à noite, vamos, todos, adiantar os ponteiros do relógio para uma hora à frente –a chamada hora de Verão. Será que valerá a pena cumprir esta tradição anualmente? Ou seja, os proventos serão de tal importância que valham o desarranjo que esta alteração nos provoca no ritmo biológico? O facto de passar a amanhecer mais cedo, e com o alegado de não haver desfasamento na luz solar, justifica o alterar a rotina dos marcadores e controladores do nosso tempo?

“Em conformidade com a legislação, a hora legal em Portugal continental:
  • será adiantada de 60 minutos à 1 hora de tempo legal (1 hora UTC) do dia 25 de Março e atrasada de 60 minutos às 2 horas de tempo legal (1 hora UTC) do dia 28 de Outubro.” –retirado da página do Observatório Astronómico de Lisboa

Confesso que gostava de escrever sobre este tema algo sério, mas não sei se sou capaz. É que este costume, a meu ver, intrometido e reaccionário, começa por me dar uma tremenda vontade de rir –lá para o fim do texto dá vontade de chorar.
Não é por nada, mas alguém apresentou um estudo científico a provar a mais-valia para a economia deste dogma? Ao que me parece “tudo começou com Benjamin Franklin, o político e inventor do para-raios e das lentes bifocais. Em 1784, num artigo publicado num jornal francês, Franklin sugeria que a França adiantasse uma hora no Verão, alegando que Paris poderia poupar anualmente 32 mil toneladas de cera de vela. Só mais de um século depois é que a sugestão seria tida em conta, no contexto da Primeira Guerra Mundial, para economizar energia”.
O facto de amanhecer mais cedo e anoitecer mais tarde, à hora da ceia, legitima tudo isto? É que esta convenção, embora provisoriamente, começou em 1992, com o governo de Cavaco Silva, e definitivamente com o Decreto-lei número 17, de 8 de Março, em 1996, e dando cumprimento a uma directiva europeia. E aqui faço logo a primeira pergunta estúpida: se com esta mudança se enriqueceu a economia, como é que, passados 20 anos, estamos mais pobres do que anteriormente?
Como duvido sempre dos axiomas, as tais verdades sem contestação, ainda faço outra interrogação sem pés nem cabeça: como é que sem esta tão iluminada medida viveram os nossos pais? E mesmo alguns de nós, em crianças?
Será que neste afã do homem querer controlar tudo, até a luz solar, nos tornou mais felizes? 
Com a desculpa do aproveitar o máximo de luz, enquanto fonte de energia bio-rítmica, nos dias que correm haverá menos solidão, menos depressão, menos suicídio, isto comparando com épocas recuadas?
O curioso é que nesta tentativa vã de apanhar o tempo ficámos sem tempo para olhar as estrelas, a Lua, o magnífico nascer do Sol no horizonte, a leste, o extraordinário Pôr-do-sol a cair sobre o mar, o crepúsculo, e toda a manifestação de uma Natureza viva e magnificente.
Perdemos hábitos de leitura, de escrita, de falar com o vizinho. 
Como se perdêssemos o romantismo e ganhássemos o facebookismo, deixámos de ter uma necessária contemplação introspectiva do mundo à nossa volta.
Vivemos o tempo da necrologia, que é o olhar a página dos jornais diários a ver quem dos nossos amigos morreu –ou, especulando um pouco, para vermos se a nossa foto lá está, porque, bem no fundo, já nem os jornais se lêem como antigamente. É tudo a correr. "Não temos tempo", dizemos todos em coro. Os dias, as semanas, os meses, os anos, todos são iguais e passam num ápice. Quando damos por nós, olhamos o espelho e já não reconhecemos a imagem que nos aparece reflectida. Parece de alguém muito chegado, mas só isso.
Até mudaram a ortografia –estou a escrever e, volta e meia, lá me surge o sublinhado vermelho a indicar erro, ou seja, o computador a querer controlar a minha vontade. Fosca-se para estas mudanças! Porque é que não inventam uma máquina do tempo, onde, em turismo, pudéssemos ir fazer umas férias de longo curso?
Mas, afinal, o que é que se alterou? Se, igualmente, uma hora continua a ter sessenta minutos, mudou o quê?

BARRÔ: AMANHÃ CELEBRA-SE A PÁSCOA

 





Este ano, contrariamente aos antecedentes, com início no Domingo de Ramos e ao longo da Semana Santa, as portas principais das casas da aldeia quase não foram enfeitadas com a cruz envolvida num pano de cor púrpura – a cruz simboliza a crucificação de Cristo e o tecido roxo a tristeza, a dor e a penitência. Ou melhor, para ser mais correcto, exceptuando o átrio da capela, em cerca de sete dezenas de lares (com alguns vazios), apenas três habitações da mesma família, a propósito, mereceram o privilégio da atenção concedida.

A primeira pergunta que ocorre é a razão deste desligamento com a tradição cristã.

Porquê?

Será que a aldeia cortou relações com o Criador?

Não se sabe ao certo, mas é bem provável que assim seja.

Historicamente, os moradores do lugar nunca foram muito ligados à igreja. Tiveram sempre uma relação distante, parecida entre o padrinho e o afilhado. Em caso de extrema necessidade, os pedidos solicitados e as promessas, a cumprir em caso de deferimento tácito, foram sempre realizadas no maior segredo e aconchego do lar, doce lar.

Fosse por Barrô derivar de zona fértil em barro, em que a argila precisa de ser moldada, ou não, a verdade é que os nativos desta povoação foram sempre impregnados de uma introspectiva sombra facial, uma retraída e profunda tristeza, a dar vontade de lhes fazer um largo traço de sorriso ao longo da boca. Como se, seguindo a tradição pascal, o seu fim anunciado fosse a crucificação.

Ao longo dos últimos três quartos de século, a capela de São Sebastião somente era visitada nos funerais dos que iam caindo em combate e na festa anual da comemoração do Santo – neste 20 de Janeiro, a presença dos locais e outros da diáspora foi sempre uma obrigação individual para mostrar o bom fato de elegante corte e o ostentatório automóvel de marca cara, sobretudo, para que todos vissem bem a aura de sucesso de um filho da terra que partiu com uma mão atrás e outra à frente e agora parecia rico – mal saberá ele que entre-dentes da vizinhança, em surdina, se diz que saiu pobre e regressou rico porque andou a roubar na estrada.

Fosse por razões de ADN, ou simplesmente por questões de defesa pessoal em rosto fechado a fazer lembrar o “Incrível Hulk”, a verdade é que os actuais locatários mantêm esse peculiar traço hereditário de identidade a pender para o desdém e a tragédia iminente.

Pode acontecer com a maior naturalidade um chegado recente, vindo de fora, dar um abraço de afeição ao seu conterrâneo e procurar marcar um encontro mais tarde para colocar a conversa em dia e receber em resposta: “podes vir conversar, mas se é para pedir dinheiro não venhas”.

Depois das explicações ontológicas, da existência e do ser, a tentar justificar a falta de saudação pascal, temos que concordar que deve haver mesmo algumas razões materiais para as pessoas se comportarem de forma pouco amistosa para com o Filho de Deus.

E pensando bem, há carradas de motivos para mostrar um certa animosidade.

Há imensos exemplos de que Cristo, com a sua vetusta idade, se tornou desleixado com os seus discípulos. Lembremo-nos das enxurradas de chuva, vento e frio que tem assolado esta terra no último mês.

Recordemos que a alma das gentes do povoado anda negra como o chamiço. Consta-se que há várias separações e divórcios em perspectiva.

Só para citar, a menina Genoveva já plantou várias vezes batatas, couves e favas, e veio o temporal, e pumba. Foi tudo para o galheiro.

O Hermegildo, boémio e um doce de rapaz, tinha planos já traçados para trocar o seu BMW. Até tinha contactado já o stand. Subitamente, foi chamado ao escritório da grande empresa em que é colaborador e foi informado de que, por motivos de reorganização, vai ser dispensado. Coitado! Isto faz-se?

A Laurinda, que faz vestidos por medida, com longa clientela conseguida ao longo de meio-século, anda desolada. Os fregueses são cada vez menos. Culpa a “Primark”, uma marca de roupa barata e feita no Oriente, e os imigrantes chineses, com os seus espaços de venda a fazer lembrar estádios de futebol.

São Sebastião, o padroeiro da povoação, em face do clima de rebelião, está cada vez mais ensimesmado. Como se já lhe não bastassem as setas cravadas no peito e os bicos de papagaio. Com os olhos vazios e perdidos no além, olha para cima, para o Céu, em busca de uma resposta que tarde ou nunca virá. A sua maior preocupação são as manifestações do povo. E que, mais tarde ou mais cedo, em consequência do descontentamento popular, acabará por lhe caber em sorte.

Feliz Dia de Páscoa.


sábado, 9 de março de 2024

AMANHÃ É DIA DE ELEIÇÕES LEGISLATIVAS


 



Depois de uma campanha - para uns atribulada, para outros normalíssima, para outros ainda risível e pouco esclarecedora – onde, sobretudo, sobressaiu o apelo ao voto, chegámos à véspera do acto eleitoral, o chamado “Dia da Reflexão”. Este dia de meditação, em que não se pode fazer campanha, com apelo ao voto, e falar em partidos concorrentes às eleições, onde o atropelo é severamente sancionado pela Comissão Nacional de Eleições, trouxe, de novo mas com maior acutilância, à discussão pública da necessidade de manter este quebra-rotina, este interregno eleitoral.

Depois do voto antecipado se tornar uso para alguns milhares de portugueses, o argumento dos defensores da abolição do “período de nojo” começa a fazer sentido. Contudo, como neste tempo efémero de campanha, por ventura, nunca houve tanta indecisão, cerca de 20 por cento de eleitores, se calhar, continua a fazer sentido, nem que seja para abafar o ruído provocado pelos candidatos.

Ainda que o meu voto valha o que vale, somente uma unidade pessoal e intransmissível, talvez o único acto que no momento de colocar o “papel” na urna, de facto, não distingue classes, ricos, pobres e remediados, confesso que, desde sempre que votei, jamais me senti tão indeciso em a quem dar o meu voto. Ainda que isto pouco interesse, mas só ontem à noite tomei uma resolução. Para mim, salvo uma excepção partidária em que o eleitor é fiel, com maior relevância, contou menos a ideologia e mais o perfil dos candidatos.

Ainda que esta cruzada fosse classificada como os bons elegíveis, os menos eficientes no desempenho que se espera, e os maus a evitar como belzebu, onde, pelas poucas diferenças apresentadas pelos concursantes aos cidadãos, caíram as poucas barreiras que dividem a Esquerda e a Direita.

Hoje, o eleitor comum apenas está preocupado com os problemas que o assomam e preocupam no quotidiano. E tanto lhe faz que a solução resida num lado como noutro – para além de outros que, depois de cinquenta anos a votar sempre nos mesmos e as dificuldades básicas se manterem, como exemplo, a habitação, o ensino, a saúde e a deterioração dos serviços públicos, decidem romper com a tradição na agremiação que abraçaram desde novos.

Todos os partidos e candidatos, uns mais que outros, devem merecer o nosso respeito pela sua vontade de, com a nossa colaboração expressa no voto na urna, tornar Portugal um país melhor onde, jovens, cidadãos de meia-idade e idosos, se possa viver com dignidade, segurança e alguma felicidade, seja esta ciclónica, curta e faseada.

Nunca na minha longa vida aconselhei o voto seja em quem for – e detesto quem o faz ainda hoje com mensagens telefónica ou através das Redes Sociais. Por conseguinte, tal como em períodos eleitorais análogos, faço o apelo para que, amanhã, não deixe de exercer o seu direito/obrigação e, com desculpas esfarrapadas, “como estava a chover ou tive uma dor de barriga”, deixe de exercer a sua vontade, repito, a sua vontade, em quem deve vestir o fato da responsabilidade e governar o país nos próximos quatro anos.

Não deixe que, devido ao seu comodismo, outros decidam por si. Todos temos uma quota-parte de responsabilidade na “entronização” do próximo primeiro-ministro.

Vamos lá!


domingo, 11 de fevereiro de 2024

25 DE ABRIL, 50 ANOS DEPOIS

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)





Almerindo Oliveira, num daqueles dias em que tudo parece pardo e desvirtuado, sentiu-se nostálgico. Fosse pelo peso das suas 65 primaveras, e prestes a entrar na reforma, sem penalização. Fosse pela maldita barriga que, mesmo comendo pouco, teimava em não abater. Fosse pela enorme clareira que dividia a sua cabeça num campo de aviação para animais voadores e duas margens densas para nidificar a caspa, a verdade é que as constantes manifestações de classes profissionais ocorridas no último ano, tem-no deixado apreensivo.

Reivindica-se trabalhar menos horas e auferir maior ordenado; pede-se que o Governo acabe com o IMI, Imposto Municipal sobre Imóveis, e Imposto de Selo. Em contrapartida, que se construa mais largos milhares de habitações sociais, e passe a ser o pai espiritual de milhões de filhos de pai incógnito; reclama-se o aumento desenfreado para os aposentados com reformas baixas– mesmo para quem não descontou. Muitos contribuintes, jovens e menos novos, viram descer até ao gratuito o custo dos passes sociais e descidas nos escalões de IRS – mas é pouco e querem muito mais, como, exemplo, a gratuitidade de propinas universitárias. Requer-se a baixa de IVA para todos sectores da actividade económica.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS), depois de classificado como excelente, bestial, durante a pandemia em 2020/2021/2022, de repente, num virar de página, como se uma nova pandemia social maléfica se instalasse, as denunciadas falta de médicos e filas para marcar uma consulta passam a constituir abertura de telejornais diariamente. Os professores, mesmo com a razão que lhes assiste, liderados – ou instrumentalizados - por vários sindicatos, contribuem para o caos. Com os tribunais atulhados de processos em atraso vergonhoso, os oficiais de justiça fazem greve a exigirem novos aumentos.

Com um Presidente da República mais interessado em concentrar o olhar nos índices de popularidade e o Ministério Público acutilante e actuante, transformado em Deus omnipresente e vingador, o Governo, com casos suspeitos e outros insuspeitos, caiu nas suas malhas e o Primeiro-ministro, António Costa, de um pedestal de estrela brilhante, caiu, resignou e passou a gestor de um executivo em coma de apagamento.

Alegadamente, assente num erro discriminatório no aumento de uma ramificação policial pelo Conselho de Ministros, os restantes responsáveis pelos vários ramos de segurança, PSP, GNR, Guardas Prisionais e Agentes da Polícia Municipal, mesmo sabendo que o Governo, em modos limitados de Gestão, não pode assumir compromissos para o futuro que onerem o país, fazem uso de baixas médicas fraudulentas para faltar a compromissos inadiáveis e tomam a rua como centro de anarquia, lançam o medo e a insegurança. Numa mimética comprometedora, os Bombeiros Sapadores entram no cortejo reivindicativo dos subsídios de risco.

Os agricultores, depois de décadas de exploração pelo grande comércio nacional e deixados pisar por normas concorrenciais ultrajantes exaradas pela Comunidade Europeia, perante o ruído devastador dos rurais franceses, decidem acordar agora, precisamente, quando o Governo pouco pode fazer.

Em casa onde não há pão, todos ralham e nenhum tem razão.

No próximo 10 de Março, perante 8 candidatos a primeiro-ministro sem cadastro, sem bússola ideológica onde o que conta é o assédio eleitoral sem limites, e sem provas dadas que garantam confiança governativa, vamos ter eleições legislativas.

Como se de um “complot” se tratasse, um plano cúmplice maquiavélico a conduzir em direcção à tragédia, parece tudo muito estranho.

A trabalhar desde criança, Almerindo, filho de pais humildes, não pode estudar em tempo útil, mas, mesmo assim, apanhando o comboio das letras de noite e trabalhando durante o dia, tirou o curso de TOC, Técnico Oficial de Contas. Subindo a pulso no escalão social, conseguiu entrar nos quadros da função pública e tornar-se “manga de alpaca”.

Desde que se lembra e até hoje, sempre teve dois empregos, um a servir o patrão Estado até meio da tarde e o restante, até altas horas, a fazer contabilidade em pequenas e médias empresas. O sacrifício familiar foi uma constante sem precedentes em toda a sua vida de marido, pai e avô.

Desde a modesta casa até ao mais que rodado velhinho Fiat Punto, de 1984, tudo fora adquirido a prestações. Numa graça sem limites, no meio de uma gargalhada, diz que a sua maior alegria é a liquidação da última prestação.

Como se numa catarse, uma libertação de sentimentos ou emoções reprimidas, tivesse necessidade de se embrenhar no passado distante, tão longe, por se esfumar nas trevas da memória, e tão perto, por o tempo, marcado a ferros e parecer que foi ontem, passar a correr.

50 anos depois de 1974, aceita sem rebuço que a vida quotidiana dos portugueses melhorou muito. Mas nunca chegará ao ponto de ser perfeita.

Contudo, não podemos esquecer que o Estado Social não dá nada sem que antecipadamente tenha recebido. Ou seja, numa justeza equilibrada, é um distribuidor que, com divisão coerente evita uma discrepância social entre os que mais têm e os menos bafejados pela sorte.

Embora compreenda que o dissenso social é o motor do desenvolvimento, Almerindo, perante a sua longa experiência de vida, trabalhosa e difícil, custa-lhe entender tanta exigência ao Estado. Se todos queremos legitimamente auspiciar uma vida melhor, naturalmente, devemos ser serventes do Estado Social.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

MEALHADA: O ÚLTIMO DIA DO MERCADO DE SANT’ANA





O relógio da torre sineira da igreja matriz da Mealhada terminou há pouco de bater a última das doze badaladas. O tempo, como se indeciso entre o rir e o chorar e a oscilar entre dois polos, ora intermediava entre um sol brilhante e radioso e uma chuva copiosa.

O senhor Ventura, com o interior da caixa-aberta da sua camioneta repleta de caixas de madeira, preparava-se para abandonar o Mercado de Sant’Ana pela última vez. Esta popular praça, de roupas novas e usadas, calçado, árvores fruteiras, aves de criação, carnes vermelhas e brancas, sementes e hortícolas encerrava definitivamente hoje, 10 de Fevereiro de 2024.

Durante as últimas três décadas, impreterivelmente, pelas sete da matina de um qualquer Sábado, gelado ou tórrido, o comerciante de frutas e hortaliças marcou presença e, como fazendo parte integrante de um coro em notas musicais desafinado, com os pregões brejeiros e de assédio, ajudou a tornar aquele espaço, onde a ruralidade franca, com o calão, o palavrão e o vitupério, numa miscelânea de cores variadas, misturada com a “finesse” citadina, se torna encantadora. Como se um território neutral se tratasse, numa paz orgânica, tolerante e apaziguadora, ali, numa amizade cimentada nas diferenças de cada um, num caldinho multicultural, conviveram vendedores de etnia cigana, negros, e homens e mulheres de todas as cores.

Com a mão esquerda na manete da porta do automóvel, o pé do mesmo lado no patim e o direito na terra batida e esburacada pelo calcar das máquinas e carroças de duas rodas, o comerciante de frutas e leguminosas, com um olhar apagado e tristonho, com a mesma nostalgia de quem se despede de um amigo que parte para sempre, aparentando não ter qualquer pressa, parecia amarrado e adormecido perante a paisagem que se estendia à frente dos seus olhos.

Não era uma bela vista paradisíaca, daquelas metafóricas pinturas materializadas que transcende a realidade e faz bem à alma de qualquer um carecente. Pelo contrário, numa imensidão de chapas de folhas onduladas meio retorcidas a proteger parcialmente das intempéries e da canícula e suportadas por barras de ferro enferrujadas a fazer lembrar uma imagem terceiro-mundista, era um cenário de extrema pobreza visual.

Com o motor a ronronar, como se de um gato se tratasse, parecia que o “bicho”, sem respeito pelo sentimento de solenidade do momento, aguardava o par de mãos do dono para se pôr a andar dali para fora. Mas o homem, como se estivesse pregado com cimento àquele chão pleno de crateras, teimava em não dar acordo de si.

Só quem sente abruptamente o corte de qualquer coisa, um hábito, uma rotina, que se colou a nós e, como revigorante, nos ajuda a encarar o dia e a ser o que somos, consegue compreender o sofrimento do desaparecimento de algo que morre, ou desaparece, e perceber a lágrima solitária e furtiva que se soltou daqueles olhos cansados.

Mas, foi emoção de um momento. Segundos ou minutos, ou coisa que o valha. O som estridente de uma buzina acordou o senhor Ventura daquele longo torpor.

No próximo Sábado estará novamente pronto a atender os seus muitos fregueses na nova infra-estrutura comercial.


O NOVO MERCADO ABRE NO PRÓXIMO DIA 17


Depois de 115 anos a servir a população, entre o provisório e o definitivo, o Mercado de Sant’Ana fecha a última página de uma história que dava um livro. O terreno, onde funcionou mais de um século e está englobado no átrio da Capela com o mesmo nome, é propriedade da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada. Alegadamente, destina-se à construção de novas valências sociais, como lar de terceira-idade, a desenvolver por conta da Irmandade mealhadense.















quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

BARRÔ: ENSAIO PARA QUE A FESTA DE ANO NÃO ACABE (3)

 



Nos últimos três dias, numa espécie de rosário (terço), trazendo à discussão a festa de ano em Barrô, fui desfolhando as contas. Ainda que possa parecer provocatório, a intenção é, trazendo o assunto à liça, tentar perceber o que se passa, dando ideias, e, pelos interessados, fazer reflectir para o futuro.

Bem sei que, alguns, estarão a pensar: “olha p’ra ele armado em esperto. Se sabe tanto, que faça ele!”

Como ressalva, pelo que vou escrever a seguir, mais uma vez peço desculpa se alguém se sentir ofendido.

Levando à letra o pensamento que me levou a redigir esta série de textos, a solução para elevar esta terra no espectro concelhio não reside num homem só, mas sim num grupo de moradores dispostos a largar a sua área de conforto e que esteja disposto a romper com a inércia, a preguiça da inactividade. Sobretudo, despender algum do seu tempo em nome de um projecto social sem fins lucrativos que, destinado a um colectivo amorfo e silencioso, pode falhar e implicar o endividamento dos envolvidos.

Apesar de habitar, de facto, há cerca de quatro anos, já deu para ver que, na generalidade, os moradores na aldeia são pouco solidários uns com os outros.

Numa catarse mal tratada, muitos permanecem em conflito consigo mesmos desde que nasceram e procuram na religião a abstracção que lhes traga a redenção.

Numa espécie de capa comunitária de mentira, todos se dão bem. Mas isso é apenas o que parece. No fundo, bem no fundo, dissimulado nas entranhas, há um ódiozinho de estimação a minar as relações de fraternidade.

Voltando a ideias que possam dar resistência e manter a festa de ano de pé, vou elencar algumas “deixas”:


1 -Anualmente, deveriam ser nomeadas duas comissões de mordomos:


A sacro, que seria responsável unicamente pela realização das homilia e procissão solene.

Este grupo, constituído por três residentes, embora independente, ficaria ligado à Comissão de Capela. Com uma conta bancária associada mas autónoma, este movimento de entradas e saídas de dinheiro, embora sobre consulta por parte da comissão de capela, apenas seria movimentado por dois elementos nomeados para gerir a festa do ano em curso.

Em caso de contas positivas, sempre tornadas públicas sejam negativas ou positivas, o remanescente deveria ser depositado num fundo de reserva transitando de um ano para o seguinte e servir de almofada a quem vier de novo.

A este grupo de três pessoas, mais que certo senhoras, durante o ano de vigência mordoma, cabe-lhe tomar várias iniciativas, na aldeia e fora dela, de modo a conseguir verbas que lhe permita fazer melhor do que o ano anterior – mais abaixo enumero uma série de actividades que podem ser aplicadas, isto para além do peditório directo ao povo;


2 – A profana, constituída por três pessoas essencialmente homens, seria a comissão nomeada anualmente para realizar as festividades alegóricas, tais como, arruada com gaiteiros, contratação de grupos de baile e outras iniciativas artísticas.

Embora independente, este grupo ficaria ligado à Associação Recreativa - tenho esperança que, mais dia menos dia, acorde do seu longo sono letárgico -, com uma conta bancária independente do clube. Esta conta seria movimentada por dois dos três mordomos nomeados. Em caso de resultados positivos, o remanescente transitaria para um fundo de reserva, para servir de almofada para os anos seguintes.

A Associação Recreativa, sem força executiva nos planos de mordemia, serviria como incubadora, parte consultora e comparte na ajuda à realização dos eventos;


3 – Iniciativas para angariar fundos ao longo do ano (que podem servir para as duas comissões Sacra e Profana):


Janeiro – percorrer as casas com o cantar das Janeiras (5, 6 e 7 de Janeiro), pedindo dinheiro ou géneros. Esta alegoria seria para usar na festa a seguir, passados uns dias.

- Pedir nos estabelecimentos comerciais, no concelho, géneros variados.

- Os géneros, garrafas de vinhos, licores, chouriças, salpicão, presunto, broa, roupas, artigos de bricolage, outros, seriam leiloados no Sábado ou Domingo do Dia da Festa, a ocorrer em 20 de Janeiro, no Largo da Capela.

- Alguns destes géneros, assim como outros angariados, seriam canalizados para uma quermesse com rifas enroladas junto à capela e outra dentro do salão recreativo.

- Sendo este o dia das festividades, recuperar a moda do Ramo, a dança da flor nos arraiais.

- Venda de garrafas, ou outros, em leilão nos intervalos musicais.

- Concurso para os melhores pares dançantes.

-Realizar, neste dia, uma Feira de Velharias no Largo Assis Leão.


Fevereiro – Feitura de vários livros, com senhas numeradas, com três prémios a sortear no dia da festa.


Março – Primeiro peditório porta-a-porta na povoação. Possibilidade de angariar fundos em outros lugares da freguesia.

(usar o Dia de Páscoa como instrumento para captar fundos)


Abril – Primeiro grande almoço a realizar na Associação Recreativa de Barrô para angariação de fundos.


Junho – (re)criar os populares “cravanços”, constituídos por duas pequenas fitas cruzadas e um alfinete.

Começar a cravar os populares com uma moeda, fora e dentro do lugar.


Julho – Realizar o segundo almoço na Associação Recreativa de Barrô, para angariar fundos.


Setembro – Realizar um almoço no Pavilhão de Várzeas para angariar fundos – em troca, Várzeas usaria o salão de Barrô em Novembro, aquando das festas locais.


Novembro – Num Domingo, realizar uma matiné na Associação Recreativa de Barrô com um grupo musical, por exemplo, um organista e outro.

Convidar, por exemplo, o Ruizinho de Penacova para actuar em Barrô.


Dezembro – Usar o presépio de Natal, no Largo da Capela, como incentivo a pedir donativos aos visitantes.


FIM