quarta-feira, 27 de julho de 2022

RETALHOS DA ÚLTIMA REUNIÃO DA CÂMARA MUNICIPAL DE MEALHADA

 

(imagem do jornal online Bairrada Informação)




“Numa troca de palavras acesas, atirou o antigo “boss” ao novo pretor:

“Eu não tenho confiança na sua honestidade”.

E erguendo no ar uma imagem ameaçou: “vou ceder esta

fotografia ao senhor Procurador da República.”


Retirando as melancolias de fumaça que têm atravessado o tecto colectivo que nos cobre em consequência dos incêndios que devastam o país de lés-a-lés, nesta última Segunda-feira, dia de Reunião de Câmara Municipal, o Céu, sem nuvens, pintado de cor azul-marinho, apresentava-se limpo.

Na parede do Salão Nobre, em figurativo institucional, Marcelo Rebelo de Sousa, o revisor constitucional, com cara de enjoado, parecia estar a fazer um grande frete.

Mal o relógio da torre sineira da Igreja Matriz da Mealhada bateu as nove badaladas, António Jorge Franco, o homem do leme do navio autárquico, apresentou cumprimentos a todos os presentes e aqueles que se mantinham em casa a ver o encontro executivo através do YouTube, via “streaming” – nas suas costas, Marcelo não respondeu.

Rui Marqueiro, ex-presidente e agora líder da oposição, o vereador que, inevitavelmente, escrevo mais do que os seus pares todos juntos, pelas suas características singulares de intervenção, entre o irónico e a arte da prestidigitação, no retirar coelhos da cartola, parecia calmo e falava baixinho. E pelos tão famosos "Casos do Dia". Devagar, devagarinho, atirou a primeira seta ao comandante dos trabalhos: “já acabou as obras do Mercado?”

E Franco respondeu: “não, não acabei as obras!”

Em seguida, Hugo Alves Silva, o responsável pelo pelouro da juventude, puxou a brasa à sua sardinha e disse: “o Fest - o Festival da Juventude que decorreu na Quinta do Murtal no último fim-de-semana – correu muito bem! Contabilizámos cerca de três mil visitantes”.

Luís Tovim, da bancada de oposição, aquiesceu: “reconheço que o festival foi uma iniciativa bem conseguida. Dou os parabéns.”

Perguntou ainda Tovim a Franco: “quanto custa a passagem da Volta a Portugal no concelho?”

Respondeu o prefeito:”custa 20 mil euros mais IVA.”


E VEIO O PERÍODO DE INTERVENÇÃO DO PÚBLICO


Eram 10h00, momento de interregno dos trabalhos de agenda, tempo de ouvir o cidadão.

O primeiro a intervir foi um eleitor de Barrô. Apresentando uma dissertação sobre um possível (re)aproveitamento do magnífico espaço construído e ainda não inaugurado do novo Mercado Municipal, o munícipe recomendou e defendeu que a maioria, com envolvimento da oposição, impedindo que a edificação realizada se transforme em mais um “elefante branco”, seja criativa e capaz de dar a volta por cima e transformar o projecto vindo do anterior executivo num portão de oportunidade.

Sem compromisso vinculativo, por parte da maioria foi deixado no ar a ideia de “a ver vamos como diz o cego”.

A seguir falou outro munícipe. Afirmou que estava ali para pedir explicações ao senhor vereador Rui Marqueiro. Disse ainda o arguente que entre outras más-abonações o eleito, numa anterior reunião de Câmara, verbalizara que não o conhecia. Falou que, pela desconsideração aduzida, se considerava ferido na sua honra de empresário dinamizador de vários projectos de hotelaria na cidade.  Isso não é verdade, disse o queixoso, o “senhor doutor Rui Marqueiro conhece-me bem”

Na contra-argumentação, disse o nosso mediático animador das lides parlamentares: “sentiu-se ofendido? Paciência!”


E ENTROU-SE NO PERÍODO DA ORDEM DO DIA


Como já vem sendo hábito, a pedido da bancada socialista, havia quatro pontos inscritos na agenda do dia, o 2, o 3, o 4 e o 5 – este último, “Análise ao Gabinete de apoio do Senhor Presidente desde o início do mandato”, acabaria por ser retirado a pedido do chefe da oposição.

No ponto 2, “Análise à factualidade de acidente de trabalho” de um funcionário recentemente ocorrido, Marqueiro, virando-se para Franco, acusou de, a toda a pressa, se ter alterado o cenário para fazer crer que as normas de segurança estavam a ser cumpridas. E concluiu: “não se verificavam normas de segurança no momento do acidente.”

Ripostou o visado: “lamento a sua posição. O senhor veio para aqui contar histórias. (…) O senhor quer criar aqui uma história.”

Numa troca de palavras acesas, atirou o antigo “boss” ao novo pretor:

“Eu não tenho confiança na sua honestidade”.

E erguendo no ar uma imagem ameaçou: “vou ceder esta fotografia ao senhor Procurador da República.”

E caiu-se no ponto 7, “Fixação do prazo para entrega do imóvel da Cafetaria da Alameda da Cidade”. Dado o prazo de 10 dias para o alegado incumpridor retirar o seu material do espaço comercial. 

E chegou o ponto 9, “Proposta de deliberação sobre representação do Município na ERSUC”.

Por António Franco foi dito que a percentagem da Câmara Municipal no capital da Empresa de Resíduos Sólidos Urbanos de Coimbra é de 8,34%.

Referiu ainda o nome do representante da edilidade no Conselho de Administração da ERSUC, José Calhoa.

E continuou: “A Câmara não se revê no actual representante” (eleito no tempo de Marqueiro). (…) Quem foi eleita foi a Câmara Municipal. José Calhoa representa a Câmara Municipal. (…) Não vemos ninguém por lá. (…) Por que não nos sentimos representados, estar lá ou não estar é a mesma coisa. Queremos acabar com esta representação.”

Acompanhou Gil Ferreira, vereador da Cultura: “a pessoa deveria ter colocado o lugar à disposição.”

Foi votada a não continuação da autarquia no Conselho de Administração da ERSUC e, com 3 votos contra dos socialistas, foi aprovada por maioria.


A PRÓXIMA REUNIÃO APENAS EM “STREAMING”


Por estarmos em Agosto, a próxima reunião será realizada no dia 9 e transmitida via “streaming”, “porque muitas pessoas estão de férias”, discorreu António Franco no final da reunião.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

REUNIÃO DE CÂMARA MUNICIPAL DE MEALHADA: OS CASOS DO DIA

 

(imagem do jornal online Bairrada Informação)


PRESIDENTE DA FMB GANHA MAIS DO QUE O PREFEITO


Foi no Período de Antes da Ordem do Dia, assim naquela coisa entre uma no “cravo e outra na ferradura” que o assunto foi chamado à colação por Rui Marqueiro, ex-presidente da Câmara Municipal de Mealhada e, em representação do Partido Socialista, agora líder da oposição.

No cravo, o ex-pretor urbano começou por “censurar” António Jorge Franco, actual presidente da edilidade, por este ter afirmado que a autarquia não meteria mais dinheiro na Fundação Mata do Bussaco.

Em tom de desaprovação, Marqueiro reprovou a afirmação de Franco e disse que a entidade, apesar de ter alguns projectos candidatos a fundos europeus, continua a precisar de ser financiada na gestão corrente. Para além disso, nos últimos dois anos a gestão só conseguiu ser equilibrada graças ao facto de Guilherme Duarte, não estar a auferir salário – já que, nomeado por Marqueiro, esteve em regime interino desde o início de 2021 e só há cerca de um mês o ministro da tutela o nomeou presidente efectivo.

Sobre esta alegação, respondeu o actual locatário do cadeirão maior não ser verdade. O que disse, isso sim, era que a Fundação, com recursos próprios, tinha de ser auto-sustentável e sem ser preciso a Câmara meter lá mais dinheiro. E rematou: “para investir bem fundamentado a Câmara Municipal da Mealhada estará ao lado da Fundação Mata do Bussaco.”

Quando tudo parecia indicar que o assunto estava sanado, Marqueiro dá uma na ferradura. E o atingido pela martelada foi o seu correlegionário Guilherme Duarte: “o senhor presidente da Fundação Mata do Bussaco ganha mais do que o presidente da Câmara Municipal. Com Segurança Social, aufere qualquer coisa como 6.000 euros por mês, vezes quatorze.”

Fosse do calor extremo que se tem feito sentir nos últimos dias ou não, alguém ficou com as orelhas a arder lá para os lados da montanha maior do nosso concelho.


MARQUEIRO NO LIMBO JUDICIAL


Como se numa bivalência, por um lado, mostrasse que continua a dar cartas no campo da informação do concelho da Mealhada sobre assuntos públicos que o envolvem e só ele decide quando quer falar. Por outro, numa aparente mas implícita crítica ao jornalismo pobrezinho, graças a Deus, da nossa santa terrinha e que nem o mais pintado jornalista se dignou estar presente nas várias sessões de instrução do Tribunal Administartivo e Fiscal de Aveiro, Rui Marqueiro declarou hoje no denominado Período de Antes da Ordem do Dia que, apesar da sede de Instrução ter decorrido em Dezembro último, a “juíza tomou a decisão de adiar o processo”. E concluiu: “com o atraso dos tribunais administrativos e fiscais que se conhece, se calhar, eu ainda morro antes da decisão.”

Relembra-se que “o ex-presidente da Câmara da Mealhada, Rui Marqueiro, e os três vereadores socialistas do executivo estão acusados pelo Ministério Público (MP) pela prática de vários crimes, entre esses abuso de poder e prevaricação, num processo de alegada regularização ilícita do vínculo contratual do assessor de imprensa do município, Miguel Gonçalves” – in Jornal da Bairrada

Estamos completamente de acordo com o desabafo de Marqueiro. Este deixar andar e queimar em lume brando a honra e a dignidade dos cidadãos pelos tribunais é intolerável. Não se admite, em qualquer margem da história e muito menos nos dias que decorrem, um absurdo deste calibre.


ANTEPROJECTO EM FORMA DE IDEIA COMPLEMENTAR AO NOVO MERCADO MUNICIPAL DA MEALHADA, APRESENTADO HOJE NO EXECUTIVO POR UM MUNÍCIPE

 



Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Mealhada


INTRODUÇÃO


NOVO MERCADO DA MEALHADA: SACO SEM FUNDO OU UMA OPORTUNIDADE?


Ao primeiro olhar a sua imponência volumétrica impõe-se e estranha-se. Por momentos, damos por nós a pensar que é um monstro de cimento a conspurcar a paisagem.

Damos uma volta, à sua volta, e a leveza da arquitectura paulatinamente entranha-se. Espreitamos através dos vidros e verificamos, com agrado, o seu arejamento saudável e complementado pela sua total exposição à luz solar e pouca dependência de energia eléctrica. Com mais uma circulatura em volta da área rectangular do edificado, estamos rendidos à sua beleza impressionista e moderna.

Aparentemente tudo parece pronto para cortar a fita da inauguração. Quer lá dentro do prédio, quer cá fora na área circundante, não se avista vivalma, como quem diz, qualquer operário a reparar seja o que for. Só o silêncio nos acompanha nesta empreitada de “espreita” e faz-nos sentir nefastos invasores de uma quietude quebrada.

No exterior, cerca de meia centena de lugares de estacionamento, e onde será realizada a feira semanal, esperam a sua ocupação.

No interior, com uma área coberta de aproximadamente 2000 m2, ao longo de toda a superfície visível pelo olhar, cerca de quatro dezenas de bancas individuais, apetrechadas com tudo do mais contemporâneo, para assegurar o asséptico, livre de germes, e a adivinhar o cheiro a novo, esperam os pequenos produtores do concelho. E também "com dois alinhamentos de bancadas fixas, permitindo a existência de 80 mesas de venda".

A Norte, a Sul, a Nascente e a Poente, em torno do palco de gentes, operadores e clientes que se adivinham, entre espaços administrativos, 16 lojas aguardam novos locatários.



ANTEPROJECTO EM FORMA DE IDEIA


I


António Luiz Fernandes Quintans, natural de Barrô, Luso, vem por este meio expor a V. Exª o seguinte:


1 - Em face do “imbróglio” gerado em volta do novo Mercado Municipal da Mealhada, em que com o edifício totalmente pronto, num obra adjudicada em cerca de três milhões de euros, aparentemente para que não se transforme em mais um “elefante branco” com custos incomensuráveis para os contribuintes, tudo indica parecer não se saber o que se fazer com o “monstro”;


2 - Assim sendo, em conformidade, na minha vontade de cooperar com o poder local adstrito à minha residência, tomo a liberdade de lhe apresentar uma ideia singular para preencher com originalidade todo o espaço coberto do novo Mercado Municipal. Um projecto que a ser levado à prática será, por ventura, o primeiro a ser implementado no país. Como referência, o mais parecido será o “Museu do Pão”, em Seia, já com uma vivência de mais de vinte anos.


II


MERCADO MUNICIPAL E CENTRO DE MESTERES ANTIGOS DA MEALHADA (ARTES & OFÍCIOS TRADICIONAIS)


3 – Chegados a este ponto, perguntará V. Ex.ª: afinal, em que consiste este anteprojecto? Pois bem, sem mais demora, apresento-lhe a ideia.


Em abstracção, imagine transpor a porta de uma moderna área comercial e deparar-se com uma vivência “retro”. Com pessoas a trabalharem vestidas à moda de um tempo recuado, onde o mobiliário era antigo, e até na forma de falar se empregasse o vocábulo “vossemecê”, “vossa mercê”.

Perante aquele museu vivo e interactivo, talvez V. Ex.ª deixasse cair o queixo com estrondo pela surpresa.



Pois bem, escrevo sobre um centro comercial, edificado em instalações modernas, virado para a contemporaneidade e, ao mesmo tempo, retratando cenas, usos e costumes de um passado não tão longínquo quanto isso.

Podendo interagir com a compra e venda do presente, pretende-se, acima de tudo, mostrar algumas profissões em vias de desaparecimento, ou já desaparecidas, a laborar interactivamente.

Paralelamente, junto a estes artesãos funcionaria uma parte museológica inactiva também respeitante a profissões já desaparecidas e outras temáticas – Mais à frente mostrarei a listagem para escolha.


4 – Antes de entrar em considerações mais profundas, embora o concelho detenha alguns museus, como sabe a cidade da Mealhada não possui nenhum. Ora, em face desta lacuna cultural, fará sentido pensar num projecto desta dimensão.


5 – A abrangência cultural que defendo para este projecto vai muito para além do local da sua implantação. Visa, sobretudo, a esfera e o alcance nacional – e por que não a internacionalização deste polo de manufactura e mecânico?

Na sua essência, pretende, como objecto, ser um museu vivo, uma estrutura de conhecimento do passado e para os nossos descendentes vindouros.

A ideia é ultrapassar a dimensão doméstica da cidade, dando-lhe uma projecção externa e mediática e explorá-la de uma forma pedagógica, abrindo-a à urbe, aos arredores, ao todo nacional, às escolas, permitindo aos alunos a sua experimentação e o conhecimento científico. Ou seja, transformar este Mercado Municipal e Centro de Mesteres Antigos (Artes & Ofícios Tradicionais) num polo de dinamização, de permuta de conhecimento, com trocas de experiências, e sobretudo permitir o enriquecimento da história do concelho através das suas profissões.

Tem ainda por ambição capitalizar futuros mecenas, assim como, também captar o espólio de coleccionadores de arte e de antiguidades em fim de vida.


III


6 – Como sabemos, para o bem e para o mal, nas cidades, a nível local e nacional, o espectro comercial tem sido invadido por grandes e médias superfícies comerciais modernas, levando ao progressivo desaparecimento de muitas lojas e ofícios tradicionais que fazem parte da nossa memória colectiva. Muito saber empírico, muita experiência adquirida que, se não houver sensibilidade social e política, inevitavelmente se irão perder. Então, tendo em conta que as cidades vão ficando mais desertificadas e que, a nível local, cada executivo autárquico terá de ser criativo, no sentido de trazer pessoas de outros lugares ao seu concelho, através de projectos originais.


7 – Aproveitando o já construído Mercado Municipal em fase de conclusão, juntando o útil prometido ao inovador agora apresentado, por que não juntar sinergias e abrir nas suas instalações um Centro de Mesteres Antigo, onde estariam representadas profissões já desaparecidas e outras em vias de extinção?

Assim como ilustrar a memória com estabelecimentos que só os mais velhos relembram, ou outros “ex-libris”, como exemplo, uma mercearia antiga (a funcionar) onde serão comercializados produtos endógenos, uma tasca antiga (a funcionar), um café/restaurante (a funcionar), um moinho de farinha (em representação figurativa), uma padaria onde se visse amassar o pão e a ser cozido no forno, o assar leitão ao vivo (a funcionar) com balcão para venda directa ao público.

Assim como, costureira-modista, relojoeiro, carpinteiro-marceneiro, barbeiro, construtor de instrumentos musicais, ceramista, arte do vime, alfaiate, ferro forjado (entre outras à escolha). Relembra-se que a nova praça tem 16 lojas.


8 – Estes pequenos estabelecimentos, em réplica o mais fiel possível, e algumas profissões estariam a funcionar, numa fase experimental, entre as 10 e as 19h00, de Segunda a Sexta-feira, e entre as 10 e as 22h00 ao Sábado e Domingo.

A montagem de adereços nas lojas, em principio, seria da responsabilidade dos agentes económicos sob tutela do pelouro da Cultura.


9 – Este parque temático funcionaria também como Escola de Artes & Ofícios Tradicionais. Com protocolo firmado entre instituições de ensino do género, CEARTE, por exemplo, relançar-se-iam workshops sobre várias profissões. Assim como outras áreas diversificadas: teatro, folclore, escutismo, carnaval performativo.


10 – várias profissões já desaparecidas, seriam representadas teatralmente ao Domingo no átrio da Praça Central, que seria no meio do salão, com diversos pregões a acompanhar.

Como amostra, entre muitos possíveis, o vendedor de banha da cobra, o amola-tesouras, o azeiteiro, o “pitrolino”, a leiteira, o vagabundo, o pedinte, o pastor, o ardina, a varina, a criada de servir, o fotógrafo “à la minute”, a prostituta, o paquete, o vendedor de gelados, o vendedor cigano de retalhos de pano.


11 – Assim como vários jogos tradicionais da nossa recordação: jogo do pião, jogo do pau, jogo do botão, gancheta de arco em ferro, volante de madeira, saltar à corda, atirar às latas, jogo da macaca, jogo dos rebuçados de feiras, cabra-cega, partir a bilha com venda, saltar ao cavalinho (mosca), jogo do saco, lencinho.


IV


12 – Deveria ser concessionada uma loja para velharias/antiguidades/alfarrabista.


13 – Deveria juntar-se os artesãos, floristas, outros pequenos vendedores, incluindo os de artigos da terra.


14 – Uma vez por mês, ao Domingo, deveria realizar-se uma feira de velharias, no Verão fora da zona coberta, no Inverno dentro.


15 – Recomenda-se que as futuras feiras de Artesanato e Gastronomia fossem realizadas na área envolvente a este Mercado Municipal.


16 – Não deve ser esquecida a vertente museológica relativa à água de Luso e aos centenários Refrigerantes Bussaco. Se possível, a área envolvente ao edificado, através de motores de sucção, poderia ser acompanhada de cascatas de água a correr.


17 – A ser levado a efeito um museu erótico, reservado a maiores de 16 anos, o acesso seria onerado.


18 – A cada mecenas doador de acervo museológico deveria ser dado o seu nome a uma sala durante um ano.


19 – Cada operador a laborar no novo mercado far-se-á inscrever na Autoridade Tributária como empresário em nome individual.


20 – A renda a pagar por todos os operadores deve ter um período de carência de um ano.


21 – Deverá ser levado em conta que há ofícios cujo saber é essencial transmitir aos vindouros, logo, por inerência, no seu ensino, não deverão ser onerados. Como exemplo: latoeiro, engraxador, cesteiro, sapateiro, arte em vime.


V


PERGUNTAS/RESPOSTAS


22 – P: como arranjar acervo para o pequeno museu inativo?

R: através de protocolo, com cedência de museus de Coimbra e de doações ou empréstimo de peças de propriedade particular.


23 - P: como seria apresentada a configuração do piso térreo?

R: seria diminuída a área ocupada com bancas e mesas.

No meio do salão seria criada uma praça em cujo centro estaria montado um carrossel da década de 1930/1940, que constituiria o “ex-libris” do empreendimento – este instrumento, provavelmente, único no país, seria cedido por mim a título gratuito durante cinco anos.



Em volta deste carrossel, na denominada praça central, actuariam os grupos de animação geral, folclore, teatro performativo, poesia, magia e outros.

VI



24 – Muito obrigado, senhor Presidente da Câmara Municipal, pelo tempo dispensado na consulta deste anteprojecto em forma de ideia.

Quero ressalvar que, ao apresentar este plano não pretendo acolher qualquer benefício. O que me move, dentro do espírito da cidadania activa, é poder contribuir para o engrandecimento do nosso concelho de Mealhada.


(em anexo algumas listagens de profissões em desaparecimento e vias de estar e fotografia do Carrossel antigo)

 ANEXO


PROFISSÕES EM VIAS DE DESAPARECIMENTO


- Afinador de pianos

-cerzideira

-Franjeira de Xailes

-Peruqueira

-Bordadeira

-Ajour

-Consertador de canetas

-Restaurador de cerâmica

-Técnico de Máquinas de escrever mecânicas

-Técnico de Máquinas de costura

-Vitralista

-Chapeleiro

-Resineiro

-Cauteleiro

-Ardina

-Amola-tesouras

-Datilógrafa

-Telefonista

-Azeiteiro

-Pitrolino

-Leiteiro(a)

-(Vagabundo)

-(Pedinte)

-Revolucionário

-Pastor

-Parteira

-Calceteiro

-Varina

-Onzeiro (espécie de agiota que emprestava dinheiro a juros de 11%)

-Albardeiro

-Ferrador

-Aguadeiro

-Moleiro

-Criada de servir

-Limpa-chaminés

-Fotógrafo “à la minute”                              

-(prostituta)

-Moço de fretes

-Paquete

-Carteiro

-Polícia sinaleiro

-Vendedor de Banha da Cobra

-Trapeiro

-Vendedeira de rendas

-Vendedeira de galinha e ovos

-Vendedor de castanhas assadas

-Vendedor de gelados

-Vendedor de corte de fato (cigano)

-Escamizada/apanha de azeitona/

-Caçador

-Paliteira (Penacova)

-Cigana a ler a sina

-A presciente da bola de cristal


ARTES


-Representação dos “Robertos”

-Carrinhos de rolamentos


JOGOS TRADICIONAIS


-Jogo do pau

-Pião

-jogo da malha/fito

-Jogo das moedas

-Jogo de cartas

-Jogo do botão

-Gancheta de arco em ferro

-Volante de madeira

-Saltar à corda

-Atirar às latas

-Dardos

-Jogo da Macaca

-Jogo da Roleta de rebuçados

-Fisga

-Cabra-cega

-Partir a Bilha com venda

-Saltar ao cavalinho (mosca)

-Jogo do Saco

-Jogo do lencinho

-Jogo do anel

-Jogo do prego



Com os melhores cumprimentos


Mealhada, 25 de Julho de 2022


(António Luís Fernandes Quintans)

 











sábado, 23 de julho de 2022

NOVO MERCADO DA MEALHADA: SACO SEM FUNDO OU UMA OPORTUNIDADE?




Ao primeiro olhar a sua imponência volumétrica impõe-se e estranha-se. Por momentos, damos por nós a pensar que é um monstro de cimento a conspurcar a paisagem.

Damos uma volta, à sua volta, e a leveza da arquitectura paulatinamente entranha-se. Espreitamos através dos vidros e verificamos, com agrado, o seu arejamento saudável e complementado pela sua total exposição à luz solar e pouca dependência de energia eléctrica. Com mais uma circulatura em volta da área rectangular do edificado, estamos rendidos à sua beleza impressionista e moderna.

Aparentemente tudo parece pronto para cortar a fita da inauguração. Quer lá dentro do prédio, quer cá fora na área circundante, não se avista vivalma, como quem diz, qualquer operário a reparar seja o que for. Só o silêncio nos acompanha nesta empreitada de “espreita” e faz-nos sentir nefastos invasores de uma quietude quebrada.

No exterior, cerca de meia-centena de lugares de estacionamento, e onde será realizada a feira semanal, esperam a sua ocupação.

No interior, com uma área coberta de aproximadamente 2000 m2, ao longo de toda a superfície visível pelo olhar, cerca de quatro dezenas de bancas individuais, apetrechadas com tudo do mais contemporâneo, para assegurar o asséptico, livre de germes, e a adivinhar o cheiro a novo, esperam os pequenos produtores do concelho. E também com dois alinhamentos de bancadas fixas, permitindo a existência de 80 mesas de venda", in Bairrada TV.

A Norte, a Sul, a Nascente e a Poente, em torno do palco de gentes, operadores e clientes que se adivinham, entre espaços administrativos, 16 lojas aguardam novos locatários.


PERGUNTAS QUE NOS ASSALTAM


1ª CONSTATAÇÃO


Sem fazer juízos de valor sobre a construção do novo mercado, quer no investimento, quer na localização – neste momento são externalidades, como quem diz, discussões estéreis -, sabe-se que o que está na origem deste projecto de implantação foi o facto do proprietário do terreno, onde funciona actualmente a velha praça junto à Igreja de Santa’Ana, a Santa Casa da Misericórdia da Mealhada, reivindicar a sua posse para ali construir uma valência geriátrica.

Em péssimas condições de alojamento, em chão de terra-batida, funciona apenas ao Sábado e, presumivelmente, com uma vintena e meia de pequenos retalhistas, entre fornecedores de “comida de rua” e pequenos produtores e intermediários.


2ª CONSTATAÇÃO


Com um concelho com cerca de vinte mil habitantes, a cidade da Mealhada detém actualmente duas médias superfícies: o Intermarché e o Lidl. A curto prazo um novo operador, o Continente e, ao que parece, a médio-prazo o Aldi.


3ª CONSTATAÇÃO


Tal-qualmente como outras pequenas cidades do Interior e Litoral, o comércio local, de rua, dito tradicional, na Capital do Leitão, no momento em que escrevemos, alegadamente, em resultado da uma procura rarefeita e incipiente, é pouco pujante a nível de oferta.


PERGUNTAS


Sem se saber nada acerca do Regulamento do Novo Mercado, interroga-se:


a) Pelos valores do investimento, mais de dois milhões de euros cabimentados, 2,148,000 € (mais IVA), o novo edifício comercial vai ter de funcionar todos os dias, de Segunda a Domingo, em regime de condomínio fechado, com um horário entre as 8 e as 19h00, certo? Ou errado?


b) Onde se vai contratualizar mais de uma centena de operadores para preencher os espaços disponibilizados? De que forma se vão conseguir receitas para amparar o seu funcionamento?


c) Perante a concorrência desenfreada que se adivinha, com custos acima da média, se não enveredar por uma linha inovadora, diferente de tudo o que se fez até agora, vai o novo Mercado Municipal aguentar-se? Se sim, durante quanto tempo?


INOVAÇÃO PRECISA-SE COMO PÃO PARA A BOCA


Num tempo em que tudo parece já inventado, e não é fácil ser-se original seja lá no que for, haverá alguma forma de, através de novos conceitos comerciais, criar no novo Mercado Municipal uma exclusividade, uma atractividade, única e singular, que faça convergir visitantes do país inteiro para a Mealhada e assim engrandecer em sinergias a riqueza local?


sexta-feira, 22 de julho de 2022

MEALHADA: 2,3,1 FEST… ALÔ, EXPERIÊNCIAS…

 




Passa pouco mais das 17h00, o Sol, na sua canícula dos últimos dias, continua a queimar na Quinta do Murtal. Dentro de aproximadamente cinco horas arranca o 231 Fest, o Festival da Juventude que, hoje e amanhã, vai animar a cidade da Mealhada.

Entre chamadas de atenção “o som está demasiado grave… agora está agudo”, os preparativos para logo à noite decorrem a toda a pressa.

No meio do relvado da Quinta, um espaço fenomenal e de excelência para este tipo de eventos, numa tenda montada para assessorar e disponibilizar algo de última hora, Hugo Alves Silva, o vereador da Juventude, como a querer mostrar que político, quando é preciso, também mete as mãos na massa, está em constante movimento e a ajudar um grupo de jovens.

Nas diversas barraquinhas de “comes e bebes”, para além de afiarem as espadas para o combate que há-de vir, fazem-se contas à vida. Esperam-se duas noites musicais de arromba.

Tudo caminha para o sucesso.


E A SINALÉTICA, SENHORES?


As pequenas placas, que mal se vêem na estrada, é que não ajudam muito. A cidade parece ter qualquer coisa contra a eficácia da sinalização. Coloque-se junto à rotunda um placard que se veja… ou então, e porque não, um sinaleiro a indicar a Quinta do Murtal?


quinta-feira, 21 de julho de 2022

ALVOROÇO NO BECO DA PAROLEIRA

 





Diariamente, mal o Sol avermelhado cor de fogo cai a pique no horizonte longínquo, por volta das 9 badaladas - equivalentes a 21h00 -, o Beco da Paroleira entra num silêncio profundo e envolvente. Depois deste horário, podem ser trazidos gostosos e apetitosos pratos pantagruélicos que ninguém move uma palha. Pode até haver dança do ventre ou, sei lá, “strip tease” que ninguém levanta uma pálpebra. A partir do momento em que a noite entra com o seu breu abrangente, pequenitos, crescidos e mais velhos, todos fazem pacto de remanso.

Nesta betesga o dia de trabalho começa cedo. Mal o relógio da torre sineira da capela da aldeia dá o toque de levantamento, às seis horas da matina, logo o Acácio, o renegado, dá em cantar desalmadamente para acordar todos os que respiram na estreita viela. Não se sabe se o faz por vingança e ressentimento, se por serviço público. O “renegado” dorme sozinho há muitas noites, tantas que já lhe perdeu a conta. Tudo começou quando o malandro, em manifesta violação moral, se começou a pôr nas irmãs. Expressamente para o efeito, foi convocado um conselho familiar para analisar as medidas a tomar perante o comportamento desviante do alegado pedófilo. Foi dada a possibilidade de defesa ao acusado. Bem tentou o malvado invocar que era simplesmente assédio, mas o veredicto do plenário foi implacável: expulsão imediata do seio familiar.

O arvorado macho-latino, que não controla as hormonas, não se deu por achado e rapidamente tentou integrar-se nas famílias vizinhas. Não contava com os tempos que vivemos onde o rumorejar se transforma em seta olímpica que atravessa o mundo quanto mais numa ruela. Resultado, foi imediatamente colocado de lado pelas várias proles e a sofrer de perseguição e “bulling”. Mal ele se aproxima para consumir uma côdea ou uma espiga de milho, ou de uma dama sozinha, que até parece pavonear-se em posses provocativas, como tocasse a rebate, ouve-se o tamborilar de alerta do José Fanha, o general-em-chefe da guarda pretoriana, e, numa louca correria histérica e colectiva, afastam o condenado das meninas virgens e inocentes. Ali não há pão para malucos, parecem dar a entender.

Coitadinho, o Acácio, condenado e muito bem condenado, até merece pena; de olhar triste, amargurado, mal-arranjado nas vestes, parece que perdeu a alma.


II


Mas hoje, estranhamente, passaram as nove horas, já o manto da noite escura tomava conta do Beco da Paroleira, e os representantes mais velhos das famílias estavam todos espertos e despertos. Até o Acácio, sempre longe da possibilidade de socializar, embora afastado, não fosse o diabo tecê-las, estava vigilante e atento ao que se iria mostrar.

Talvez o caso não fosse para menos, iria passar na televisão SIC uma entrevista à família de Famalicão que tudo tem tentado para obstaculizar que dois dos seus filhos frequentem as aulas de cidadania, disciplina obrigatória para a passagem de ano subsequente. Assim que acabou a reportagem do canal privado, estalou a discórdia entre os assistentes.

A primeira a pedir a palavra foi a menina Etelvina, mãe solteira, desempregada, com vários bebés a aconchegar: “eu quero que os meus filhos tenham uma boa formação na escola pública. Eu vou educá-los da mesma forma que a minha mãezinha, que Deus a guarde lá em cima, no Céu, me educou a mim. Os pais educam e a escola forma. Eu não tenho medo da influência manipulatória do Estado na formação dos meus pequenos…”

Atalhou a Efigénia, matriarca de seis herdeiros já entradotes: “ó filha, isso são questões para gente brasonada e rica debater. Eu não tenho medo de discutir a orientação de género dos meus filhos. Como sabem o meu mais velho, o Horácio, é homossexual. E isso importa-me para alguma coisa? Eu quero é que todos sejam felizes…”

Retorquiu a Maria Papoila, carpideira de muita lágrima mal derramada, avó e mãe de muitas parideiras: “é o medo, querida! É o medo que os faz agir assim. Será que em vez de rapazes fossem meninas a celeuma se levantava?

Fossem eles pobres como nós e veriam vossemecês se a atoarda se levantava. Era o levantas!”

Foi então que o José Fanha, o galo mais importante da capoeira, discorreu em corte: “Não estava em discussão a criação de um Serviço Nacional de Saúde para todos os animais?”


domingo, 17 de julho de 2022

BAIXA DE COIMBRA: FALECEU JAIME LOBO

 

(foto de Aguinalda Simões Graça Amaro)




Inicialmente noticiado pelo Diário as Beiras e republicado nas redes sociais, ficámos a saber que, com 90 anos de idade, faleceu ontem, e pelas 11h30 de hoje foi o funeral, Jaime Lobo, ex-professor de natação que “será principalmente recordado por ter ensinado gerações de jovens de Coimbra a nadar” – pode ler aqui a sua biografia completa.

Mas Jaime Lobo, depois de se ter desligado das lides desportivas aquáticas, em que lhe foi atribuído muito legitimamente o seu nome a uma piscina na margem esquerda da cidade, foi também nas últimas três décadas um sábio mas discreto vendedor de artigos de coleccionismo com loja na Praça 8 de Maio. Até há cerca de quatro anos, foi a sua ocupação diária.

Com marcação certa, pela sua postura urbana e de grande seriedade, foi um expositor querido, mensalmente, na Feira de Velharias desde o seu início.

Não se pense que as suas aventuras no negócio começaram apenas no início de 1990. Nos vinte anos anteriores, associado a um irmão que era mudo, esteve estabelecido na Praça do Comércio na actual tabacaria Mellos, ao lado da Casa Confiança.

O “Senhor Lobo”, como era gentilmente reconhecido e tratado por todos na Baixa da cidade, era a discrição em pessoa e a calma de um vale relvado com enredos edílicos de pássaros e água a correr. Sem exagero, era um doce de pessoa. Inabalável perante qualquer adversidade, parecia que nada o tocava. Com a sua voz tranquila, sorriso contido de menino, sem o dizer textualmente, parecia transmitir a serenidade de um pôr-do-sol místico e paradigma da vida relaxada em constante mutação.

Em nome da Baixa de Coimbra, se posso escrever assim, os nossos sentidos pêsames.

Até sempre Jaime Lobo. Descanse em paz.