terça-feira, 8 de dezembro de 2020

PROCURA-SE A MAGIA PERDIDA DO NATAL

 

(Imagem da Web)



Estamos a cerca de duas semanas do Natal. Como prisioneiros que esperam apenas o anúncio da hora da execução, os comerciantes em geral, a restauração e a hotelaria, enrolados num manto de melancolia causada pela pandemia, perdidos num estado de emergência, que, sendo alegadamente excepção, passou a ser a norma vigente, dentro de outro Estado avassalador.

Olhando a porta de entrada - sempre que a podem manter aberta -, à espera do cliente-surpresa que lhe safe o mês, vêem o fim cada vez mais próximo – este início de texto é desgraçado e apocalíptico? É, sim senhor! Mas fique o senhor leitor a saber que é a verdade. Este é o ambiente que se vive atualmente em Portugal.

Com poucas saídas, o pequeníssimo comerciante de roupas, fazendo directos em vídeos de vendas, repetitivos, uns atrás de outros, vira-se para o online. Sem se aperceber que está a dar um tiro no pé, prossegue o seu caminho em busca da salvação financeira. Sem dar conta que o que vende, sob honrosas excepções, é tudo igual e provém do mesmo fornecedor chinês, no norte do país, o seu horizonte, a curto prazo, é a destruição individual e colectiva de todo o sector. Substituindo a técnica da feira popular de rua, invadindo tudo o que é página da Internet, a vulgaridade veio para ficar até ser compulsivamente arredada por ineficácia.

Na sua filosofia, a compra sempre esteve envolvida em três premissas: o desejo, a originalidade e o mistério. Ora, está de ver que estas compulsivas ofertas em massa arrasam todos os princípios de motivação social.

Por outro lado, o preço sempre foi o fiel da balança que separa a sociedade, mas sempre a cair, inevitavelmente, contribui para a vulgaridade e o desinteresse geral.

O usuário da Internet é como um predador em busca da sua presa. Incessantemente, procura galinha gorda por pouco custo e a novidade. Se quanto ao preço estamos conversados, por que à medida que os preços embaratecem por força desta concorrência selvática, a margem de lucro diminui e o vendedor, sem o conseguir evitar, vai resvalando mais para o fundo do fosso; já no que toca à originalidade, sendo quase tudo igual, está à vista uma overdose colectiva, cujas consequências se adivinham pessimistas.

Escamotear esta veracidade é negar a própria vida e fazer de conta que tudo vai bem.

É difícil não ser negacionista e não aceitar o que está a acontecer como uma tese da conspiração. Que o que se perspectiva, por um lado, é o desmantelamento da economia social, tal como a conhecemos até aqui, assente numa classe média com auto-emprego nos seus pequenos negócios, por outro, um ataque certeiro à liberdade. Assente nas actuais condições de ciclo, produzir, vender e comprar, se a venda e a compra desaparecerem na micro-economia o processo económico das famílias desmantela-se como um castelo de cartas. Quem sai bem deste desastre anunciado? O império das grandes marcas e a grande economia, naturalmente.

Felizes daqueles que, extasiados num amanhã que nunca chega, se negam a aceitarem esta certeza e continuam a pedalar numa bicicleta presa ao chão.

No conjunto, os comerciantes mais antigos, sem força anímica, desbaratando diariamente as poupanças de uma vida, estão velhos pela idade e os mais novos, recém-chegados à actividade, descapitalizados e sem chão, estão envelhecidos pela frustração de verem os seus sonhos, carregados de otimismo utópico agora realizados, serem esmagados pela brutalidade da realidade.

Se o desanimar é o verbo, a esperança numa época de vendas como era o Natal já foi. Para aumentar o desalento crescem interrogações para o futuro.

Com uma CCP, Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, débil na defesa do comércio nacional, com associações locais insolventes ou com um pé na falência, os lojistas, sem um órgão associativo forte que os defenda institucionalmente, estão entregues à sua sorte.

Uma coisa é certa, os pequenos operadores, neste Natal e outros que virão, estão entalados entre um presente cheio de incógnitas e um futuro que, infelizmente, cada vez mais se augura pouco auspicioso. Mesmo Assim, sem se saber onde e como, tenhamos fé.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

QUE DIA É AMANHÃ?

 

(Imagem da Web)



QUE DIA É AMANHÃ?


Amanhã é dia de Natal!
Eu quero lá saber se amanhã vai chover,
se não vai haver vinho para beber,
se esta noite, com insónia, vou dormir mal?
Amanhã é dia de Natal!
Que me importa os vetos e os recados do presidente,
o desdém, a dor de corno que alguém com isso sente,
e digam que esse comportamento só lhe fica mal?
Amanhã é dia de Natal!
Gritem à vontade contra esta maldita virulada,
contra o estado de emergência, o confinar, que são chaga,
Mas, por favor, não me desanquem a bater no meu portal,
Amanhã é dia de Natal!
Não me falem das assinaturas para a candidatura do Marcelo,
acerca do tabu, do mistério que eu não afivelo,
é um assunto, não-assunto, natural,
Amanhã é dia de Natal!
Não me embrulhem em coisas que deveriam ser religiosas,
ou outras quaisquer vontades cínicas e manhosas,

não se agarrem ao poderzinho, que parece mal,
Amanhã é dia de Natal!
Que tenho eu a ver com a queda do PSD,
se foi por erro crasso, não fui eu nem você
que contribuímos para o trambolhão e pantanal,
Amanhã é dia de Natal!
Não me enterrem no mar de angústia e tristeza,

como se este mundo lacrimoso findasse a sua natureza,

mostrem-me alegria, riam com graça, façam um arraial,
Amanhã é dia de Natal!
Livrem-me da polémica do Covid-19 e da vacina,

recuperando a fé na economia, acabando com a rapina,

não me azucrinem com a cobardia endémica, que é boçal,
Amanhã é dia de Natal!
Recordem-me o rico o cheiro à abóbora e à canela,

o pinhão que torra no forno-a-lenha, e ao lume a panela,

o leite-creme queimado pela espátula abrasada no metal,

Amanhã é dia de Natal!

Relembrem-me o Menino Jesus, e o espírito que o rodeava,

o sapatinho na lareira, o desejo da criança, nas prendas que ansiava,

o Pai Natal, a descer pela chaminé, com o seu silêncio genial,

Amanhã é dia de Natal!

Tragam-me o Natal perdido. Enviem-me um postalinho,

tenho a saudade a bater à porta desse tempo tão certinho.

o Natal é o toque na alma, o amolecer do espírito seminal,

Amanhã é dia de Natal!
Não me enviem “
boas festas”, em pacote, nas redes sociais,

como se o Natal fosse um barco à deriva em busca de um cais,

que volte depressa a normalidade, o beijo, o abraço, o celestial,

Amanhã é dia de Natal!

domingo, 6 de dezembro de 2020

MEALHADA: CABRALISTAS AO PODER

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)



Na edição desta semana do semanário Jornal da Bairrada (JB), um artigo de opinião faz parar tudo. Com o título “Entregaram o ouro ao bandido?”, Carlos Cabral, ex-presidente da Câmara Municipal de Mealhada durante 14 anos, até 2013, e eleito pelo Partido Socialista (PS) – e que viria a desvincular-se do PS já este ano de 2020 por altura da venda do capital da Escola Profissional Vasconcelos Lebre por parte da autarquia a um grupo privado -, dando nome às coisas, faz ler duas vezes o artigo em questão.

Escrevendo do alto magistério de reputação que se lhe reconhece, sem receio de ferir susceptibilidades dos seus antigos camaradas de partido e sobretudo o seu sucessor na cadeira do poder, Rui Marqueiro, o antigo edil, sem papas na língua, acusa a Câmara e a Assembleia Municipal de, “com a faca e o queijo na mão”, a coberto do interesse nacional, menosprezarem o interesse das populações locais, “quando são perfeitamente conciliáveis”, e com a sua comparticipação política na aprovação de Interesse Municipal na denominada Linha da Concordância, “entregarem o ouro ao bandido”, como quem diz à empresa Infraestruturas de Portugal.

Não é que Cabral diga mais neste artigo do que já foi escrito até à exaustão por vários articulistas, aliás, em 29 de Outubro, último, no mesmo JB e em texto seu, já falava em que vários autarcas da Mealhada, com o seu voto favorável, “entregaram a faca e o queijo” sem conseguirem em troca o que era essencial para as comunidades abrangidas. Mas há quesitos que se levantam.

O busílis da questão reside em duas premissas: primeiro, pela clarividência do artigo, bem escrito e, em lanças bem afiadas, a atingir em cheio a máquina socialista na terra do leitão. Segundo, com mais este artigo, mais que certo, é o anunciar às gentes da Pampilhosa e Travasso que está quase disponível para encabeçar um movimento de cidadãos nas próximas eleições autárquicas, que decorrerão no próximo Outubro.

A ser assim, com uma cajadada certeira mata-se duas formigas (agora não se pode nomear os cães). Uma, pegando nas “mortalhas ensanguentadas” dos prejudicados pela escabrosa decisão, lava a alma e dignidade perdidas dos vários proprietários por onde passa a linha – incluindo os pampilhosenses e a sua Estação com promessas incumpridas pela IP - no conturbado processo da Linha da Beira Alta. Outra cajadada à vista, é que a vingança serve-se fria. Se Cabral nas próximas eleições vencer a Câmara Municipal como independente, como considera ter sido destratado pelos membros do seu antigo grupo partidário, um dia, quando morrer, vai levar um sorriso aberto no rosto.

Estarei enganado?

SIC: DISCRIMINAÇÃO SOCIAL OU LUTO REFORÇADO?

 

(Imagem da Web)




A SIC, nesta tarde de Domingo, alterou a sua programação habitual em memória da lamentável morte de Sara Carreira, de 21 anos, ocorrida ontem num brutal acidente de automóvel na A1.

Todos os Domingos, durante a tarde, a televisão de Balsemão tem apresentado o “Domingão”, um programa de música, protagonizada por artistas portugueses, durante cerca de cinco horas.

Ora, em face do trágico fim da herdeira do clã Carreira, o que fez a televisão generalista? Passou o filme “A vida de Jesus” e, nos intervalos, esteve sempre a mostrar trechos da vida curta da cantora. Estará certo? Como espectador diário da SIC, creio que não. Estamos perante um denodado exagero lutuoso na figura em apreço. Parece que faleceu o nosso Chefe de Estado – vade rectro, Satanás.

Do ponto de vista social, um desastre desta envergadura, sobretudo, envolvendo uma jovem que muito teria para dar às artes, é sempre penoso e lamentável. Do ponto de vista pessoal, qualquer família, seja de que classe for, num caso destes, fica destroçada.

No caso presente, a família Carreira pediu respeito e contenção pela sua privacidade.

Por conseguinte, salvo melhor opinião, estamos perante um abuso de confiança da SIC; uma elevada discriminação; o parecer querer impor um luto reforçado à população portuguesa num período em que o tempo é de angústias e sofrimento.

É certo que podemos sempre mudar de canal, mas, mesmo assim, não está certo. Um canal generalista, fazendo um serviço semi-público, tem uma responsabilidade acrescida na formação intelectual e informação cidadã. E sobretudo, tendo em conta as suas diferenças - sem exagerar -, deve tratar o luto de qualquer individualidade com total comedimento e o menos espectáculo possível.

Apesar do que escrevo, não se pense que não estou solidário com a família Carreira no acontecimento funesto que a escolheu em sorte macabra.

As minhas sentidas condolências.

sábado, 5 de dezembro de 2020

BARRÔ E O SEU DESLIGAMENTO HISTÓRICO DA CULTURA

 

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




Há dias perguntei a um meu familiar próximo se na nossa aldeia, em Barrô, actualmente, havia algum morador que tocasse um instrumento musical, mesmo que fosse jovem. A resposta foi negativa. Ou seja, num universo de cerca de uma centena de residentes, ninguém passa cartão à música. Ressalvo que nas últimas seis décadas também não me lembro de haver qualquer instrumentista no lugar.

De repente, numa viagem ao passado, recordo que a povoação foi – e ainda é – muito rica em jazidas de barro em toda a sua periferia – daí o nome Barrô - e que nas décadas de 1950/60 e 70, pela sua elevada qualidade, deram origem a duas grandes fábricas cerâmicas de telha e tijolo no alto Couto, no cimo do lugar, próximo de Vila Nova de Monsarros – na linha de fronteira com o concelho de Anadia.

Então, olhando para trás, uma pergunta subsiste: sendo o povoado tão rico em matéria-prima, a argila, por que razão nunca teve artistas ligados ao barro?

É óbvio que não se podendo responder com certeza absoluta, só podemos especular. Prosseguindo na conjectura, podemos facilmente adivinhar que a cultura foi sempre o parente pobre das nossas gentes humildes.

É claro que não podemos esquecer a nossa reputada Natália Morais, que sempre se dedicou ao empalhamento de garrafões em vime. Hoje, apesar da sua longa idade, mas de boa saúde, felizmente, a Natália, por força da sua profissão ter caído em desuso, é a nossa embaixadora cultural no concelho – um dia destes falarei dela aqui – e convidada pela Câmara Municipal da Mealhada para qualquer feira, ou mercadinho, como atracção artística.

No limite, até podemos pensar que a cultura não faz falta nenhuma. Mas será assim?

Antes de prosseguir, devemos apresentar o significado de Cultura: Edward B. Tylor dá-nos a definição. “Cultura é "todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”, extraído da Wikipédia.

Claro que a linhagem de um povo, no seu perpassar da tradição, manifestando-se na sua erudição, faz imensa falta. Acima de tudo, na ausência de alegria fisionómica, em manifestação comportamental, e afundamento na solidão e angústia colectivas.

O preenchimento dos tempos vagos com recriação artística é o alimento da alma. Gentes sem substrato cultural são um povo fechado sobre si mesmo, sem consciência da beleza que suplanta a natureza das coisas. O que transforma as pessoas de simples passageiros terrenos para humanos transcendentais é a sua espiritualidade ecuménica, relativo ao universo, à terra habitada.

Só para mostrar, por exemplo, se se pretender criar um grupo coral, um grupo instrumentista, um grupo folclórico e até um grupo de teatro cénico, inevitavelmente, a sua criação esbarra na falta de formação musical.

Se esta crónica não prestar para mais nada, ao menos, faço votos que sirva para alertar os novos pais, sobretudo para incentivarem os seus filhos para aprenderem música.

Vale a pena pensar nisto?


RECTIFICAÇÃO


Após escrever este texto na página do Facebook, vários moradores de Barrô insurgiram-se contra o facto de, segundo um informação menos certa, eu ter escrito que na aldeia não havia um único instrumentista. Felizmente, afinal há mais do que um que tocam vários instrumentos. Por outro lado, para meu contentamento, fiquei a saber que a música já faz parte do futuro de vários miúdos.

Ainda bem que estava errado. A quem se sentiu enganado as minhas desculpas.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

FIM DE VIDA DO ANO 2020

 

(Imagem da Web)




Estamos em Dezembro. A menos de um mês do Novo Ano. A passo rápido aproxima-se o fim do ano de 2020. Em metáfora, pensemos que o tempo que agora acaba está em morte clínica. Os seus sinais vitais já não respondem. Nós, como amigos presentes na hora da despedida, estamos debruçados sobre o “ente” que está prestes a partir.
Muitos dos presentes no leito de morte, aparentemente pessimistas, com receio do que virá a suceder-lhe, parecem fazer tudo para reanimar os seus sinais vitais. Outros, mais realistas, como se
fossem dotados de mediunidade e, nos fluidos emergentes, vissem o espírito do quase finado a flutuar por cima, querem acabar com este sofrimento depressa. Em surdina, clamam pela legalização da eutanásia. Outros ainda, como acusadores públicos, apregoam aos presentes que, à luz das convenções internacionais, pela desgraça criada na humanidade, antes de morrer deveria ser julgado. Este 2020 deixou muita infelicidade e morte. Quantos milhões de pessoas, devido ao seu comportamento autista, destruidor e insensível ao sofrimento, levou à desgraça no país e no mundo? Quanta dor causou na classe média-baixa? Tanta frustração espalhada ao longo do ano corrente, sobretudo quando, por morte do antecedente 2019, deu a sensação de que iria ser muito melhor. E o que se viu? Dor, miséria, desespero e morte.

Como político em campanha eleitoral, fez exactamente o contrário do que parecia auspiciar. Por isso, os justicialistas, mesmo no leito de morte deste acabado 2020, não lhe perdoam. Acham que, nestas circunstâncias, para este criminoso, a morte é o melhor castigo que lhe pode acontecer. “Deverias padecer, maldito sejas ó 20 depois de 2000! Já que não podemos impedir a tua morte, ao menos, apodrece no inferno, ano do demo”, exclamam furibundos os desesperados de justiça.
Outros do imenso grupo, mais condescendentes, presentes na despedida do dois, zero, dois, zero, mais optimistas, tentam acalmar os pessimistas e os justicialistas, e, em tom paternalista, tentam convencê-los de que vale a pena aguardar o próximo 2021.

- Quem sabe como será? –exclamam, aos gritos para serem ouvidos.

Deixemos morrer este desgraçado em paz, e que o seu espírito não venha “encostar-se” ao vindouro. Tenhamos esperança no novo ano que vem aí, carago.

- Mas vocês não ouvem as notícias, ó optimistas?, isto está muito mau!” –interrompe um dos pessimistas com um murro na mesa.
- Claro que ouvimos, aliás, como todos vocês, mas, com este discurso negro apregoado e multiplicado até ao infinito, ainda me dá mais força para acreditar que estamos apenas a atravessar um deserto, e, como sabem, tudo é finito, logo, naturalmente, iremos encontrar um oásis para nos refrescarmos desta secura” – replica o optimista.
- Eu gostava de ser como vocês…”felizes, aqueles que acreditam”… -teima o pessimista – mas só se vê miséria em todo o lado… São lojas a fechar, são fábricas a cerrar portas… Isto está muito mau!… E o culpado disto é este renegado ano, que se não tivermos cuidado arrasta toda a humanidade para o fosso…

- Não sejam assim, porra! - interrompe um dos optimistas com brusquidão. Que culpa tem o 2020 de ter aparecido a pandemia?

Além disso, conforme as notícias, as vacinas estão a chegar. Vai tudo ficar bem!

- Achas mesmo que vai ficar bem? Atira o pessimista de chofre e a crescer para o outro. Essas denominadas vacinas mais não são do que um intravenoso que nos vai pôr à mercê dos controladores do mundo. Esta é a última machadada na liberdade individual. A partir da tomada da vacina todos passamos a cativos, instrumentos ao serviço do “grande Irmão”, como escreveu George Orwel, em 1949, no livro “Mil novecentos e oitenta e quatro”. Trinta e seis anos depois temos aí a tese materializada do grande escritor britânico, profetiza o pessimista.

- Só cá faltava essa… a teoria da conspiração! - atalhou o optimista em tom presunçoso.

Enterra o ano que agora acaba e esquece o que se passou. O ano que aí vem vai ser bom.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

BARRÔ: A CAPELA DA NOSSA ALDEIA

 





Hoje, à hora de almoço, quando fazia a saudável caminhada diária na companhia da minha mulher, para nossa boa surpresa, encontrámos a capelinha alusiva às Alminhas com a porta aberta – segundo a Wikipédia, as “Alminhas são oratórios de culto às almas do purgatório, hoje consideradas património artístico-religioso. São pequenos altares onde se pára um momento para deixar uma oração e, por vezes, uma esmola pelas almas. É, também, frequente encontrar velas e lamparinas acesas, deixadas pelas pessoas que passam no local, ou mesmo outras oferendas como azeite ou flores”.

Espreitando para dentro do habitáculo da pequena ermida, deu para ver o gosto requintado do pequeno altar. Duas jarras com arranjos de orquídeas artificiais e uma vela acesa veneravam uma imagem de Nossa Senhora de Fátima

No chão, aos pés do púlpito sagrado, um presépio alusivo aos dias que decorrem dão as boas-vindas a quem vier por bem.

Nos cerca de setecentos metros que separam este pequeno santuário e a capela principal evocativa ao mártir São Sebastião, em farrapos de memória, recordei a grande festa de ano que, nos idos anos de 1960/70/80, se realizava num grande terreiro junto às Alminhas, salvo erro, no verão. Um dos grandes agrupamentos musicais que relembro a actuar foi o “The Yanques”, de Tamengos, Anadia, e que recentemente apagaram cinquenta velas.

Havia também a festa de São José, salvo erro, em Março, que se realizava no Largo da capela -ainda hoje se pode apreciar um pequeno oratório incrustado no prédio propriedade de José Maria “Barbeiro”. Esta alegoria também se comemorava com conjunto musical.

Depois dessa época, de grande pobreza no pecúlio das gentes mas de ouro na união e na concorrência entre aldeias em redor para ver quem fazia a melhor festa, onde a tradição falava mais alto, progressivamente, quase tudo acabou. Só restou a festa anual do padroeiro-mártir São Sebastião. Talvez sem o pressentirmos, estávamos a cavar a tumba da partilha, da encontro, do abraço sentido entre os que estavam e os que vinham para comer um borrego, matado de propósito, e transformado em carne-assada em “caçoilas” de barro negro e assada em forno de lenha. Ainda hoje, com o devido exagero, consigo apreender pelo olfacto o perfume inebriante e pantagruélico que se disseminava pela povoação, saído das chaminés e misturado naqueles fiosinhos de fumo branco, que se elevavam em direcção ao céu.

Já nessa altura, a capela principal apenas abria na festa em honra de São Sebastião ou se morresse algum filho da terra.


E, DEPOIS DO ADEUS, O QUE FICOU?


Com o apagamento das duas festas anuais, creio, por volta da década de 1980, mesmo assim, a aldeia ainda continuou a respirar laços de convívio. Os seus pulmões que arejavam a povoação eram o “Toino da Loja”, com a sua mercearia e taberna, na rua principal, e o café do Alberto e da esposa Cristina, que abriu portas por volta de 1985.

Na década seguinte, em 1993, nasceram as grandes superfícies em Coimbra, Makro e Continente, e a mercearia do “Toino da Loja” levou o primeiro embate.

Na taberna e no café do lugar, o vinho, era o sangue que corria nas veias da gente simples da terra, sobretudo nos mais velhos, porque o local comercial, dentro da sua simplicidade e graciosidade, era o convento e todos eles os frades da confraria que, em torno de um pipo voltado na vertical, a jogar à sueca, ou na rua, a arremessar malhas de ferro ao fito ou “finto”, se reuniam ao Domingo e festejavam com um vaporoso tinto carrascão, provavelmente da zona de cadouços.

Naturalmente, os mais velhos foram deixando o mundo dos vivos e, aos poucos, o néctar de Deus foi sendo substituído pela cerveja – os mais jovens passaram a beber o elixir da cevada, mas já não iam adquiri-la aos estabelecimentos locais. Por ser mais barata, iam comprá-la directamente às novas catedrais de consumo e bebiam em casa.

O pouco que ficou em consequência desta mudança de costumes, já neste século XXI e na última década, a ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, numa saga persecutória em todo o país, num igualitarismo feroz de tratar tudo por igual na normatividade, e de completa falta de sensibilidade e bom-senso, arrasou o que restava.

Resultado final? Os dois estabelecimentos de congregação e de esteio convivial encerraram.

É certo que temos o melhor pavilhão multi-usos do concelho da Mealhada. Com uma área confortável para fazer desporto e com todos os meios para desenvolver a aldeia, a verdade é que os residentes, fechados no seu casulo, não respondem aos estímulos e não colaboram nas iniciativas. Nos últimos almoços de convívio familiar para ajudar a festa anual, eram mais as pessoas vindas das redondezas do que nativos.


E HOJE, DEPOIS DA GUERRA, O QUE É PRECISO FAZER?


É certo que estamos a viver os efeitos de uma pandemia como a nossa geração nunca viveu, mas o isolamento e distanciamento de pessoas em Barrô já se notava, e de que maneira, nos últimos anos. Temos um lugar habitável magnífico, de casas bem reconstruidas, com artérias bem limpas a fazerem inveja à cidade, onde, havendo uns mais remediados que outros, felizmente, não existem casos de miséria. No entanto, pasme-se, seja noite, seja dia, praticamente não se vislumbram pessoas a transitarem nas ruas.

Para tirar estes residentes de casa é preciso criar uma matriz que sirva de alavanca.

E qual é o modelo a seguir?


A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO


Peguei na frase de Marx, que ficou para a posteridade na introdução à “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, de 1844, para ilustrar o meu pensamento.

Caminhando todos para o isolamento profilático devido ao vírus que nos consome os hábitos de aproximação, o corpo, a carteira e a alma, como escrevi em cima, esta separação, esta solidão que nos consome já vem de longe.

Ora é aqui, neste afastamento entre iguais, que a religião Católica Romana está falhar na re-ligação entre o homem e o seu semelhante. Há muito que, numa espécie de alfabetização espiritual, dando vida às pequenas capelas, através de celebração de missas e ensino de catequese, deveria ter começado pelos pequenos lugares perdidos no mapa deste Portugal esquecido.

Bem sabemos que os padres são insuficientes em número para pregar a palavra do Senhor em todos os lugares sagrados, mas este facto não explica tudo. Os presbíteros são operários da palavra e devem ser desligados da riqueza material. Como sabemos, todo o operário, seja ao serviço de um patrão, seja ao serviço de uma causa ou hierarquia, com o passar do tempo, num cómodo entreter, torna-se egoísta e perde o seu sentido de missão. E a incumbência do mensageiro da paz, insensível às críticas que vêm de fora – que aliás, não considera nem dialoga por classificar provirem de ateus ou inimigos da igreja - coadjuvado muitas vezes por beato(a)s que estão apenas ali para agradar ao senhor vigário, fica confinada à sede da paróquia.

E é aqui que a Diocese deveria intervir numa sensibilização maior aos seus membros evangelizadores para, concretamente, serem o motor principal de revitalização.

Voltando a Barrô, nestes tempos conturbados, de necessidade espiritual, não se compreende a razão de se manter a capela encerrada, praticamente, durante 362 dias – menos três das festas anuais.

Por que não se abre a capela ao Domingo, durante todo o dia?

Qual é a causa do padre nomeado para a paróquia de Luso, de tempos a tempos, não celebrar uma homilia no povoado? É preciso pagar a sua deslocação? Pois se é essa a motivação. Em nome de todos os residentes, faça-se a contra-prestação.