quinta-feira, 2 de julho de 2015

A BAIXA VISTA DA MINHA JANELA (CARTA DE UM MORADOR)




POR ALEX RAMOS
(E LUÍS FERNANDES)

Olá:

Espero que esteja tudo bem com o senhor. Acima de tudo, o meu respeito por defender um património humano e cultural. Poucas pessoas o fazem.
Concordo com muitas coisas que diz no blogue.  Nunca escrevi, pois não sou exímio a escrever como o senhor. E depois... não sou dado às letras,  seja para escrever ou ler mas, confesso, das poucas páginas da Internet que, dia sim dia não, venho ver se há novidades, e até leio às vezes com atenção, é o seu blogue.
Com o devido respeito acho que tem uma visão algo romântica de Coimbra.  Entende-se, não? Para mais, afinal Coimbra é a capital do romance, da saudade... Mas passo a  explicar  o meu ponto de vista, se me deixar elencar os problemas na Baixa.
Eu moro desde os 5 meses ao lado da Maria, a nossa amiga comum, na rua larga. Sou do tempo em que a Baixa fervilhava de gente, de vida. Agora parece um deserto. Tenho 35 anos...
Coimbra é uma cidade que vive essencialmente de quê?  Respondo: juventude. Você pode dizer não. Vou explicar melhor. Antigamente não o era,  havia a Estaco, onde a minha mãe trabalhou, havia a Triunfo, a fábrica de cerveja. Havia indústria, algo que desenvolvia a cidade. ...Esse foi o primeiro desastre para a Baixa. O acabar com a indústria em Coimbra. As pessoas tinham dinheiro, vinham à  Baixa, faziam as suas compras. Hoje  não há fábricas. Coimbra é apenas uma cidade de estudantes. Ora, sendo assim,  no meu ver, é aqui que se deve apostar e forte. Se temos a Universidade como Património Mundial da Unesco, naturalmente, que usemos esta valorização em nosso favor.

O PERIGO PODE VIR DO CÉU

Na Baixa há prédios em perigo de matar alguém. Na Rua da Moeda há um deles, em que passam ali dezenas de pessoas. Já olhei para cima tantas vezes. Vêem-se vidros numa janela que às vezes, penso, basta um ventinho mais forte, cai e mata alguém.  O presidente da Câmara queixou-se de uns fios  feios nas ruas, mas disso, do perigo que pode vir do céu, não se queixa ele... fios no ar não matam, agora um vidro com ângulo certo .... pode arrumar qualquer um que por lá passe no minuto errado. Já agora, porque não fazer na Baixa o que se fez na Rua Corpo de Deus? Ou seja, tirar os fios aéreos, que passavam por cima, e remetê-los para o solo? Há zonas na Baixa que mais parecem centrais eléctricas de tanto fio. Isso sim, é feio.
 
CASAS A CAIR DE DESGOSTO

Em relação aos edifícios degradados porque não reabilitar esses prédios para habitação e meter  na Baixa jovens? Outrora não havia qualquer casa que não tivesse morador. Hoje assistimos ao inverso: é difícil  ver residentes. E por que não povoar esta área antiga com jovens? Por outro lado, não vejo como é que alguém que viva nas zonas da Solum, ou Bairro Norton de Matos, venha para a Baixa fazer compras tendo lá perto O Dolce Vita e o Coimbra shopping. Havendo aqui gente a morar, é evidente, eles não irão para o outro lado da cidade. Aqui fazem as compras, aqui consomem. Mas há ainda outra coisa: os mais novos têm carros,  onde estacionam? Esse é um dos maiores erros aqui na Baixa. Tiraram os carros na Rua Visconde da Luz, a meu ver, a Praça 8 de Maio está mais linda -sim, tirando a “piscina”. Mas agora as pessoas que vêm cá onde estacionam? E depois as que moram cá onde estacionam?  Em Coimbra qualquer canto é a pagar. Um jovem, pagando renda de casa, com tantas dificuldades, não pode pagar à Câmara para ter algo que é seu para estar estacionado perto de si. Não há estacionamento gratuito... e quando há é longe da  Baixa, o que não ajuda no dinamismo que deve estar subjacente ao seu almejado crescimento.  Às vezes, nas minhas caminhadas, passo na praça velha... e são carros parados ao desbarato. Acho mal, muito mal mesmo! É uma praça pedonal, não um estacionamento.

ASFALTO ENCARDIDO

Outra situação. Por que razão as ruas da Baixa e não só estão sempre tao sujas? Antes, era eu pequeno, passava ao Sábado um carro que lavava as ruas. Agora só na Queima das Fitas e nem sempre. Às vezes, na Baixa, passo em ruas que é um cheiro horrível. Dou um exemplo, perto do largo do antigo Saul Morgado, na rua Paço do Conde, tantas vezes, é um cheiro mau, parece que está por lá alguém morto. Não vejo lixo mas acho que passar numa artéria onde cheira mal... A minha mãe acha que é por não lavarem os ralos dos esgotos. Acredito, mas também pode ser algo mais. Há ruas sujas  onde as pedras estão mesmo muito porcas, para além disso,  depois há a falta de civismo tantas vezes relatada por vossa excelência.

O LIXO SOB OS NOSSOS PÉS

Por exemplo, veja-se o lixo no chão deixado ao lado dos contentores onde se deveria meter o entulho. Isto não é gozar com quem o recolhe? Há algo curioso, ao fundo da Rua Adelino Veiga colocaram dois contentores muito melhores dos que os que lá estavam e o cheiro desapareceu, até ver. Por que não distribuem mais uns dois ou três na Baixa  em locais estratégicos? E por que  não é recolhido o lixo, digamos, três vezes por dia, de manhã, à tarde e à noite? Já agora que se fala tanto em reciclagem... na Baixa não vejo um único Ecoponto. Separamos os detritos em casa para quê? Vamos andar dois ou três quilómetros para o recolher nos contentores devidos? Se muitos jovens nunca o fariam, pela debilidade dos mais velhos, acha que pessoas idosas teriam este cuidado?  Há que haver infraestruturas adequadas para facilitar as coisas.

COISAS DO DEMO

Depois há coisas na Baixa que não lembram ao diabo. Onde moro, na Rua Visconde da Luz, quando falta uma pedra junto a um ralo o que se faz? Não metem pedra mas sim cimento. Será que há assim tanta falta de calcário? Ou o que não há é formação das pessoas que trabalham as pedras, os calceteiros?  Ainda outra coisa, na Rua Ferreira Borges as sarjetas, ralos, estão inclinados. É bom para as pessoas desprevenidas darem uma queda. Também os passeios, alguns, vêem-se desnivelados. Na minha rua, a Visconde da Luz, e seguinte, na Ferreira Borges, deveria haver intervenção.

WIRELESS E CONFORT

Outra coisa, por que  não há Internet da PT  na Baixa de Coimbra? Há da Vodafone, da Cabovisão. E por que não há da Meo?  Porque não pode a pessoa escolher? Porque tem que se restringir a uma velocidade pequena, ou a um operador? Já agora as casas deviam ter um mínimo de conforto como, por exemplo, casas de banho. Há lares que só com remodelação profunda… não quero dizer que as casas devam ter ar condicionado, mas com janelas  duplas, sem retirar a traça original. Até deveria poder ser janelas de alumínio,  mas inseridas na traça original do prédio. Hoje há tantos materiais a imitar a madeira!

I LOVE YOUR, BAIXA

A Baixa à noite, mesmo com cafés abertos, é um deserto  a partir das 22h00. Muitas vezes já não passa cá ninguém. As Marchas Populares são uma boa iniciativa,  “djs” nem tanto. Passo  a explicar. Na última “Noite Branca, realizada no Sábado, sim houve cá muito povo. Mas animadores de música nem por isso. Sem luz? Sem luzes é o mesmo que arroz doce sem arroz. Os “djs” devem dar música, mas sem esquecer um “background” que anime  as pessoas. Apenas meter música? Para isso meto colunas na janela e, olhem, também sou “disco jokey”!    como seria o ideal? Vou dar uma ideia. Por exemplo, na  Praça do Comércio e naquelas pracetas  como há várias deveriam meter armações em treliças e meia dúzia de luzes em cada uma, mas luzes que animassem e não a do  tipo dos concertos de fados ou ranchos, que só acendem e pronto! Na praça  velha, nestes dias de festa, poderia ser mesmo uma discoteca ao ar livre, assim no género como foi com o grupo “Os Azeitonas”, no ano passado. Na minha rua mais larga, a Visconde da Luz, podiam meter arcos em treliça com projectores. Os transeuntes passavam e seria lindo, brutal, dava muito mais animação à Baixa. É uma uma ideia que fica à disposição, mas depois pagam os direitos de autor…heheheh!
Agora a sério, por que não inovar, fazendo algo  que puxe os jovens? Quanto às lojas abertas até à meia-noite....

OS HORÁRIOS DOS SMTUC

Ainda não acabei. Há ainda mais propostas. Há pessoas que não vivem cá, residem nas redondezas. Por que é que a APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, não estabelece um protocolo com as empresas rodoviárias, como os SMTUC, Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra,  para as carreiras nesses dias estarem até a funcionar até às 2h00? Há pessoas que trabalham aqui e ate gostavam de estar abertas mas não há transportes.

IDOSOS E O POLICIAMENTO

A Baixa deve renovar sua oferta às pessoas idosas. Como o senhor disse numa crónica recente, os mais velhos não têm força anímica,  mas há jovens que devem querer investir na zona e aí a Câmara deveria dar incentivos fiscais para quem  abrisse uma loja na Baixa. Para fomentar a participação, nas “Noites Brancas” deveria haver incentivos camarários para quem estivesse aberto.
Deveria haver policiamento efectivo. Não é meter câmaras de videovigilâncias e já esta! Assim também eu! É a lei do menor esforço. Deveria haver agentes na rua para as pessoas se sentirem seguras. Moro na Baixa há mais de 30 anos e agora, sobretudo durante a noite,  sinto receio de andar  em certas ruas, pois são um deserto de vida.  Na noite do concerto dos Azeitonas um colega meu de Lisboa  disse-me: “Alex, jamais  passava aqui nesta rua” –referia a Rua Adelino Veiga. Esta artéria estava completamente vazia e o concerto a bombar ali a poucos metros. É incompreensível a falta de pessoas e uma enorme sensação de insegurança numa zona que é o coração da cidade. Não deveria ser assim.

UMA DISCOTECA NA BAIXA

Sou da opinião e muito mais gente também concorda que se houvesse aqui uns bares e uma discoteca a Baixa tinha mais vida –por exemplo, aquela loja enorme em frente da Igreja de São Tiago (as antigas Galerias Coimbra), porque não fazer ali uma discoteca ou bar para atrair mais juventude? Claro que sem esquecer a  protecção contra o ruido. É que tantas vezes estou na minha janela e vejo os jovens a vir do Largo da Portagem e a irem para a Alta. Porque não se dá a volta a isto? Creio que trazia mais vida à noite nesta parte velha da cidade. Na Baixa há falta de oferta.

ELECTRÓNICA E CINEMA

Como já disse em cima trabalho em computadores. Quero comprar um componente, onde vou? Tenho que ir à Worten -onde há pouca oferta- ou mandar vir de lojas online. Por que razão não há uma loja de  informática na Baixa? A loja Sportino, na rua Visconde da Luz, acho que  está a ter sucesso, porquê? Parece-me, porque é direcionada para os jovens.
Por que não há  na Baixa um cinema?  Para ver um bom filme temos que ir aos centros comerciais. Lembro-me do Centro Comercial Avenida a fervilhar de  gente. Íamos ao cinema, víamos as lojas e comprava-mos. E agora? Acabou o cinema e está às moscas.

VENHA O FADO

 Acho bem a iniciativa de haver às quintas-feiras fado de Coimbra na Praça 8 de Maio. Embora não goste dos ranchos folclóricos, acho bem à sexta-feira haver espectáculos destes agrupamentos. Agora pergunto e para os jovens não há nada?  Na década de 1990, Manuel Machado, o presidente da edilidade da altura e actual, pode ter feito asneiras mas com os concertos que fazia na Praça 8 de Maio trazia multidões.  Havia teatro com pirotecnia,  havia ritmos cubanos  para dançar e até havia rock. Por que não reactivar esses  tempos  de glória e  trazer para a Baixa concertos que atraiam os jovens? Acho que é destas iniciativas que a zona precisa. Temos uma Praça 8 de Maio boa para concertos e uma Praça do Comércio óptima. Acho que é  desvalorizar estes espacos se forem destinados somente para explanadas.

A AGÊNCIA DEVE ABRIR OS BOLSOS

A APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, faz iniciativas disto e daquilo, algumas certas outras nem tanto. Acho que cada um se esforça para dar seu melhor.
No Natal, no meu tempo de ainda mais jovem, havia música  nas ruas todas da Baixa; havia iluminações natalícias em toda esta área.  No ano passado as ornamentações ficaram apenas pela Rua da Sofia, Rua Ferreira Borges, a minha rua, e algumas pracetas. No Natal deste ano, por que não junta a APBC uns euros,  contrata uma empresa e ilumina as ruas todas da Baixa que tenham comércio? No Natal passado, não  fossem os laços de papel e não parecia a época mais bonita do ano. Há que animar as ruas nesta quadra

PRESERVAR ÍCONES

A meu ver, no virar do milénio, Coimbra virou só cidade estudantil.  E é aqui que se deve apostar: nos estudantes. A Câmara Municipal deveria dar incentivos, quer fosse no pagamento de água e luz ou até no arranjo, para manter certas relíquias comerciais no activo, para que não encerrassem. Há um estabelecimento que, sempre que por lá passo, me deixa abismado: a Farmácia  Nazareth. Com os seus traços vintage a lembrar o antigo, tem aquele romantismo, aquela arquitectura  bela e única, que me tira as palavras e coloca o coração a pulsar. Assim como na minha rua, há um prédio verde com brasão da cidade. Lindo!  Devia-se preservar estas preciosidades do passado, sem dúvida, mas também adaptá-las a uma nova visão. Dar-lhes outra utilidade. Sou jovem, gosto de coisas antigas. Acredito que uma pessoa idosa  é uma biblioteca ambulante e quando  desaparece, pela morte, fica mais pobre a cultura do país.

AQUI NASCEU A CAPITAL DO REINO

É nas zonas antigas, como a Baixa e a Alta, que está a identidade de uma cidade, da sua população e quem sabe de um país. Ali na Igreja de Santa Cruz estão enterrados  os primeiros Reis de Portugal.  Foram eles que erigiram Portugal. Num lado está a bandeira actual, noutro, já algo suja, está desfraldada a primeira bandeira oficial da Nação. Gostando do antigo e interessando-me por história não concordo com o desmazelo.
Não tenho mais nada a dizer.  Despeço-me e agradeço  ter tido a maçada de ter lido o meu testamento. Com alguns erros, admito, mas, tenho a certeza, o senhor corrige. Escrevo como costumo falar ao telemóvel.
Abraço e continue essa luta, pois acredito que se um homem não pode mudar o mundo pode fazer muito por ele.
Cumprimentos calorosos deste jovem que o respeita. Desculpe qualquer coisita.    


O BAILARICO DA ROSA



IMAGEM E EDIÇÃO: ALEX RAMOS
LOCUÇÃO E REALIZAÇÃO: LUÍS FERNANDES



Ontem, dia primeiro de Julho e primeira jornada das Festas da Cidade, sob produção bipartida da Câmara Municipal de Coimbra e da APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, realizou-se mais uma “Noite Branca” na Baixa com um espectacular Baile da Rosa, na Praça do Comércio. Mesmo com o fantástico som bem afinado da “Orquestra Smooth”, constituída por 12 músicos, as ruas em redor da belíssima praça, tão indicada para palco natural de grandes espectáculos, estavam desertas. Tal como em anos anteriores o público, como abelha em torno de pólen, constituído por largas centenas de pessoas, concentrou-se junto do palco. Talvez valesse a pena pensar que os “djs” espalhados pela Baixa no último Sábado, em vez dessa “Noite Branca”, poderiam ter contribuído para juntar a este Baile da Rosa e animar outros largos e becos desta zona velha.
Se a intenção era animar toda a Baixa, o tiro saiu pela culatra aos organizadores. Apenas as ruas largas, no eixo entre o Largo da Portagem e a Praça 8 de Maio, tiveram movimento de pessoas. As restantes vias estreitas mantiveram-se vazias de vida. Os comerciantes, convidados pela APBC a colaborarem na iniciativa até à meia-noite, fizeram ouvidos de mercador e apenas seis estabelecimentos estavam abertos ao público por volta das 22h30.



MAIS UMA TRAGÉDIA COMERCIAL SILENCIOSA





Encerrou a frutaria da Rua da Gala. Durante cinco anos, e seguindo o mesmo ramo anterior de comércio de frutas, funcionou com novo operador. Abruptamente, sem ser anunciado, há dias encerrou sem que Santo António, em painel de azulejos na fachada do prédio, lhe valesse.
Segundo um vizinho que pediu o anonimato, “é mais uma tragédia que se abateu em várias famílias. É um drama para a prole do próprio, o senhor que explorava o negócio –que intencionalmente não refiro o nome-, e para outras que, alegadamente por falência do primeiro, encadeados, teriam ficado em muito mau estado.”
Se é certo que, ao longo da história, sempre assistimos a insolvências, o que perante os nossos olhos está acontecer, demasiadamente repetido, dever-nos-ia fazer pensar. Como estamos num mundo do salve-se quem puder, ninguém fala nisto. Os comerciantes desaparecem da mesma forma que, como cogumelos, emergem na cidade. Não quero dizer que não fosse sempre assim. O que pretendo demonstrar é que esta insegurança que vivemos não pode ser boa para ninguém. Um investimento não pode ser uma armadilha seja para quem for. Quando assim é, demasiadamente renovado perante os nossos olhos, alguma coisa está a funcionar mal. Ou seja, num individualismo feroz, fazemos todos de conta de que não se passa nada. O desespero alheio passou a fazer parte integrante das nossas vidas. O próprio Estado, enquanto garante de salvaguarda do cidadão que ousa romper as malhas de imobilidade e criando riqueza recusa ficar quieto, não cumpre com a obrigação a que está adstrito e abandona quem, por direito, deveria merecer mais protecção do que quem confortavelmente se mantém a surfar a onda. Para os governos centrais e locais os empresários pequenos e pequeníssimos são uma espécie de erva daninha, nascem, crescem e morrem, sem que o seu ciclo de vida seja sentido pela administração. Seguindo a mesma linha do Estado Novo, o poder político apenas se interessa pelo volume do investidor, seja grande grupo ou individual, porque, como parasita a sugar, vive do seu sucesso. É assim que se vê e revê nas fotografias de jornais. A consequência de toda esta omissão, mais que certo, é uma tragédia colectiva para muitas mais famílias que fazem do risco o seu modo de vida. O que estranho é que ninguém fala deste problema. Falta discussão em torno deste assunto.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

LOGO À NOITE AS RUAS VÃO SER LAVADAS

(Foto da Web)



Segundo tomei conhecimento de fonte credenciada com assento camarário, logo à noite as ruas da Baixa da cidade vão ser todas lavadas pelo pessoal camarário. Foi preciso a gerência na edilidade decidir dar uma limpeza ao asfalto para imediatamente, num acto invejoso e insolente, o São Pedro, como político a vender programa, esta tarde, veio logo fazer-se anunciar com uns chapiscos. Será de supor, portanto, que esta madrugada os becos e as ruelas sejam duplamente limpas.

LOGO À NOITE HÁ NOITE COM BAILARICO, NA BAIXA






Logo à noite, quando o Sol estiver a preparar o aconchego, e o São Pedro a pensar se deve mandar uns baldes de água cá para baixo, a Praça do Comércio estará transformada num enorme salão de Baile e a Miquelina, senhora de enormes virtudes, com poiso certo na Avenida onde exerce a profissão de vendedora ambulante de carinhos aos mais solitários, bem agarradinha ao “Toino Malaqueco”, protector de todas as meninas abandonadas da vida difícil e a que alguns maldosamente chamam de fácil, estará ansiosa para mostrar os últimos passos de dança ensaiados. Para além disso, presume-se que cerca de uma dezena de lojas vai estar aberta até à meia-noite –pelo menos os velhinhos, os coxos e os que não sabem dançar vão marcar presença na “Noite Branca”, realizada pela APBC, Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, que se junta à autarquia por efeitos do programa das Festas da Cidade e cujo dia comemorativo é no próximo Sábado, 4 de Julho.
Quando baterem as vinte e duas badaladas na Cabra –é a torre da Universidade, nada de confusões- a orquestra “Smooth”, “com doze músicos e duas vozes”, conforme consta no repertório anunciado às massas, como quem diz aos comerciantes, e espalhado pela Baixa.
É de prever que poucas lojas comerciais estarão abertas. E não é por mais nada, simplesmente os comerciantes, velhos e novos, habituados a dançar sempre a mesma música “isto é que vai uma crise”, é mais que natural que vão aproveitar para dar um pézinho de dança. E podem, Não podem? Claro que podem! Homessa!

BOM DIA, PESSOAL...



"Mondego Triste", uma composição cá do "Je" e muito bem executada pela denominada "Orquestra de Músicos de Rua de Coimbra"


MONDEGO TRISTE



Anda mui triste o Mondego,    
feito gentil trovador,
dizendo à Lua em segredo
as suas trovas com medo,
os seus poemas de amor.

Suas areias douradas
que as águas iam beijar,
são saudades que lá vão,
são os tempos de então,
vão as águas para o mar.

Mondego…
               traz os poetas de volta,               
traz a Lua para a porta
do meu amor encantado.

Passa o tempo corre breve,
passa a vida num momento,
faça chuva, brisa leve,
arco-íris pinta o vento,
sons em nota de lamento.

Rio que já não namoras
as pernas às lavadeiras,
carícias que tanto adoras,
suor de tanta canseira,
amas de outra maneira.

CARTA AO VEREADOR





Meu caro Carlos Cidade, espero que esta minha carta o vá encontrar de boa saúde que eu, na companhia de muito lixo e já muito cansado de andar a pregar como um vendedor de banha da cobra, cá vou resistindo graças ao altíssimo, que apesar de também não me atender as preces, aparentemente vai cuidando da minha saúdinha. Não sei se Ele o faz por sadismo, para me testar e me obrigar a demonstrar a minha tenacidade, se, sei lá, me designou a missão de chatear o meu caro amigo –que, pela sua sensibilidade de interajuda, até sabe que gosto de si- e outros seus colegas de vereação e, como não podia deixar de ser, também o camarada presidente, que não vai à bola comigo nem que eu fosse uma gaja boa.
Então é assim, meu amigo, vou direito ao que me levou a escrevinhar estas frases mal-amanhadas. O assunto é a situação insustentável do lixo espalhado diariamente em algumas artérias e largos da Baixa. Como sabe, já várias vezes levei ao seu conhecimento este anómalo facto. E confesso-lhe, apetece-me desistir. Se não fosse o facto de ter fé que o meu amigo ainda vai ser presidente da Câmara e, dando-me um lugar de assessor, juntos vamos dar a volta a isto, nem ligava nenhuma. É que a persistência de quem não se importa nada com o alindamento desta zona histórica é inversa à importância que dou a este caso. Ou seja, quem coloca os detritos a qualquer hora do dia na via pública continua a fazê-lo sem desistir e eu, pobre velho e coitado, vou desistindo de me aborrecer com quem o faz. Penso que o amigo, pelo tempo que leva de experiência autárquica, já viu que denunciar alguma coisa, dando a cara, e actuar, é só mesmo para gente doida –ou então, como é o meu caso, que espere um lugarzito bem remunerado no futuro já que o meu presente, num embirrento passado, já há muito que deixou de o ser e, a sê-lo, é cada vez mais um presente envenenado.
Bem sei que o seu tempo é precioso e deveria ser mais sucinto. Desculpe lá! Mas agora sim! Agora vou direitinho ao facto. Então aí vai: já há muito tempo que o Largo da Freiria está transformado em montureira –penso que deve estar a ver onde é este largo, onde presumivelmente no princípio do Renascimento teria havido freiras virgens. Coisa rara, já sei, mas isso não é conversa para aqui. É de tal modo habitual que quando não temos lixo na rua a ser farejado por um ou outro cão até ficamos preocupados e, de boca-em-boca, a pergunta arrasta-se: o que teria acontecido? Não sei se está a ver a coisa, numa espécie de síndrome de vasculho, pela agressão continuada, por tanto sermos lixados, passámos a amar o agressor lixeiro. Nos últimos tempos até andamos de olho nos sacos a ver se encontramos um nome, um endereço, para agradecer tão nobres lembranças. Mas, se calhar, pela falta de capacidade investigativa a coisa está difícil.
Continuando, não foi o caso de ontem que, durante todo o dia, teve os restos mortais de uma cozinha e outros dejectos exposto para quem passou. Foi uma felicidade para todos nós podermos cheirar aquele perfume encantador. Gostos não se discutem, e pronto! É amor declarado de um outro nosso vizinho anónimo, e mais nada! Hoje, por volta das 9h30 o cenário era pior do que ontem- quer dizer pior para quem avalie assim. Eram uns sacos pretos e muita roupa, desde calças a blusões, em bom estado. Ver os transeuntes pararem e, meio envergonhados, a vasculhar é um procedimento digno de caso de estudo. Os lamentos são assim: “dizem que há crise? Crise onde? Ai que roupinha tão boa! Se eu tivesse um saco ia levar à Casa dos Pobres!”. Passava alguém seu conhecido e a pessoa, justificando-se, dizia: “é para levar à Casa dos Pobres! Não é para mim… que graças a Deus não preciso!”. Fosse ou não fosse, lá levou uma catrafada de têxteis.
Agora vamos ao lado sério da coisa, desta vez a sorte sorriu para nós e, ao remexer nos sacos, encontrámos o nome da nossa vizinha generosa –sim, porque era mulher. Então, porque estamos perto do Dia da Cidade, achámos que a esta senhora deveria ser atribuída a medalha da cidade. Vai daí, eram 9h40, ligámos para a Polícia Municipal (PM) –atendeu-nos a agente Brigite- e contámos que era preciso identificar a contemplada. Esperámos, esperámos pelas forças municipais mas ninguém apareceu. Acha bem, camarada Cidade? Foi então que, uma hora depois, vimos sair alguém do andar em referência e, através do aviso de que a PM estaria para chegar e, mais que certo, deixaria uma lembrança à volta de 30 euritos, o personagem, com a nossa ajuda apanhou o lixo e levou-o aos contentores do Bota-Abaixo.
Através de perguntas bacocas, peço-lhe uma opinião: acha que a PM se importa com estes desvios procedimentais? Não veio porque é uma questão menor de cidadania? O que nos aconselha? Devemos continuar a ligar ou não vale a pena?