segunda-feira, 3 de março de 2014
ROSTOS NOSSOS (DES)CONHECIDOS: O PROFESSOR
Como andorinha em busca de um beiral, encontramo-lo
muitas vezes a calcorrear as pedras da calçada. Como se andasse em busca de um
passado que não passa disso mesmo e não volta mais, o seu passeio pela Baixa é
rápido e repetido pelos mesmos locais. Tem os seus poisos pré-definidos, como
quem diz, um amigo numa das ruas estreitas e outro na rua larga. Quando em descanso
o seu rosto é fechado, como se estivesse em permanente defesa. Se alguém lhe fala
com ternura, escancara as portas da alma e sorri como uma criança de colo.
Dá pelo nome de José
Manuel Menezes Lopes Cabral. Deu aulas de educação visual em Moçambique e em meio
Portugal. Também passou pela ilha dos Açores. No Continente, atravessou o interior
desde a Covilhã, passando pelo Fundão, até Castelo Branco. Por cá, mais para litoral,
passou pela Lousã, Penacova e em Coimbra, nas escolas Eugénio de Castro e Silva
Gaio. Pelos mais velhos, outrora seus alunos, é tratado com carinho e reconhecido
por “professor”. Tem 70 anos, é
solteiro e bom rapaz. Nunca casou porque
não ganhava o suficiente para manter uma mulher, confidencia-me. Também diz
que foi abandonado pelos pais em criança e este facto marcaria para sempre a
sua existência de eremita. A vida que leva não o satisfaz. Sente-se muito só. Apesar
de auferir uma reforma razoável, talvez para colmatar os buracos da solidão, nos
últimos anos deu em comprar coisas compulsivamente e sem necessitar. Meteu-se
em créditos desnecessários. Depois de descontados à cabeça no final do mês,
fica com pouco. Quase nada. “Já tive
tudo, carros bons e sempre a estrear. Agora tenho pouco mas, paciência! Quando
pagar tudo, dos meus empréstimos, ainda vou ter um carrinho em segunda mão!”
sábado, 1 de março de 2014
POR AMOR DE DEUS, SUBSCREVA ESTA PETIÇÃO

Começo por confessar sem qualquer humildade que esta petição já foi utilizada em 2010. Quero dizer, portanto, que me estou a repetir e estamos perante um refugado mais que fugado e "re, re". Acontece que em 2010 funcionou. Palavra de honra! Juro que depois de mandar isto lá para cima, para o gabinete do Céu, tivemos um verão de arfar... assim como um cão com língua de fora, sequioso... não sei se estarei a ser claro. Bom, mas isso também não interessa nada. O que chateia deveras é que esta chuva chata e aborrecida, de molha tolos e curiosos, enviada lá dos confins do firmamento, sem critério e sem racionalidade, amesquinha deveras. E, por isso mesmo, antes que o caldo se entorne entre mim e o Criador, vou enviar novamente esta petição metafísica. Se concorda faça o favor de a subscrever:
Exm.º Senhor Presidente da Assembleia
da República do Céu.
Luís Fernandes, um mero terráqueo, insignificante como ó caraças, um bocado “pró feiote” -tão "bota-da-tropa", que nem a menina Ernestina, uma velhota de oitenta e picos anos, olha para ele- farto desta escandaleira de chover quase todos os dias cá no rectângulo, vem por este meio solicitar a V. Ex.ª se digne mandar criar uma comissão de inquérito a esta bandalheira.
Em juízo de valor, perdoe V. Santidade se ofende alguém, mas tudo indica que estamos perante actos de corrupção do camarada São Pedro. Perante tão notórios indícios, é mais que certo que Ele está a trabalhar –ou melhor, vendeu-se- por conta dos chineses. Como sabe, são eles que fabricam tudo o que é têxteis e guarda-chuvas. É mais que certo que o guardião dos céus “passou-se” para os lados do sol nascente. Isso até é muito fácil de constatar: antigamente, quando Portugal tinha muitas fábricas de têxteis e sombrinhas, quase que não chovia. Agora, que nem uma de abafa-chuvas existe por cá, o gestor da grande chave económica do Céu, abriu as torneiras completamente. É preciso escrever mais alguma coisa? Não é, pois não? Mas, mesmo assim, o peticionário escreve mais, porque está profundamente irritado.
Não era para pegar neste assunto, mas as enxurradas no Parque Verde –com todo o respeito pelos empresários hoteleiros, vítimas da situação-, está de ver que aqui, na decisão castigadora do Senhor São Pedro, também anda a mãozinha da corrupção. Aposto que foi a esquerda, à esquerda do PS, cá do lugarejo que corrompeu o homem que “manda-chover”. E porquê? Simplesmente para o presidente da Câmara de Coimbra, Manuel Machado, poder mandar mais umas farpas ao deposto Barbosa de Melo, culpá-lo e retirar dividendos. Isto tudo até andarem os dois à murraça, como se fez na Assembleia Municipal de Penacova, cujos eleitos, por acaso, cá o rapaz não conhece pessoalmente, mas pelo que se leu na comunicação social devem ser mesmo uns amores de pessoas e que gostam de aproveitar bem o tempo livre para o exercício físico. Nem é preciso dizer que nem o Machado nem o Barbosa são nada embirrentos. Nem coisa que os valha, como os querem pintar! São suportáveis de vez em quando! Só não se podem é ver nem salpicados a ouro, mas isso também tem a ver com este tempo invernoso. Quando chegar a primavera, está de ver, passará tudo e, os dois, irão dar dois beijinhos e um abraço no hemiciclo e, numa cena de “perdoa-me”, ainda irão ser grandes amigos.
Aproveita também, e essencialmente, o signatário a oportunidade para demonstrar o seu descontentamento com o Presidente Supremo do Céu. Nesta apatia, de nem atar nem desatar, no seguimento da filosofia do “sim… não… talvez antes pelo contrário… nin”, já parece o doutor Aníbal Cavaco Silva. Tudo indica, Eminência, que nem nota o que se está a passar por aqui. As pessoas andam todas abespinhadas, ensimesmadas e a contar as pedras do chão. Esta rebaldaria não pode continuar. Merecemos respeito. Homessa! E é melhor tomar atenção antes que chamemos outra vez o Carvalho da Silva e o camarada Jerónimo para as ruas e, com um chinfrim do caraças, todos juntos, se defenda a privatização das águas da chuvas. Está de ver que São Pedro não percebe nada de gestão. Até aposto que deve ter uma licenciatura c´mó outro que veio do Brasil. Só povo, na sua douta e eterna sabedoria de nada saber e ser uma entidade abstracta de "Maria vai com as outras", será capaz de distribuir e administrar melhor a pluviosidade como deve ser.
Em nome de todos os humanos -da
Terra, obviamente-, solicitam todos os subscritores, abaixo-assinados, que
se acabe com esta pouca-vergonha. Estamos todos fartos disto! Aja decoro
na distribuição das águas!
Seguem-se as assinaturas dos descontentes:
Seguem-se as assinaturas dos descontentes:
COMO JÁ CHATEIA TANTA CHUVA....

É Certo que já escrevi este amontoado de letras há mais de cinco anos e, portanto, estando a citar-me deveria ter vergonha. Mas a vergonha, coitada, em resultado de tanto ser vergastada, desapareceu e nunca mais quis saber do que faço. Em suma, porque continua a chover que até chateia, cá vos deixo esta singela prosa:
UM DIA DE CHUVA
Hoje a cidade está macilenta
as pessoas “correm”, encolhidas,
olham as pedras do chão, tolhidas,
a sua disposição está cinzenta;
Não se vê uma cara com um sorriso,
no casaco albergante arrumaram a alegria,
concentrados na chuva e no frio que fazia,
como se, em flocos, caísse uma nuvem de siso;
No guarda-chuva, dogma de fé, fizeram protector,
pouco importa se passa um qualquer farsante,
um vendedor do Borda d’Água, um talhante,
que “pique” o monstro, a solidão, esse Adamastor;
Nem as bolas azuis, no céu de esperança, deste Natal,
nem o “espírito” de Bocage, presente, junto ao café Nicola,
parecem fazer acordar a gente que passa, sem ligar “bola”,
caminham embrulhados com a chuva, não têm tempo, nem faz mal;
A rua está triste, está muda, só o bater das botas ecoa na calçada,
nem um som rogado de um pedinte se ouve: “uma moedinha senhor”,
nem uma concertina, nem uma trompete aquece o frio com calor,
como se o inverno fosse inimigo de quem precisa, fosse uma maçada;
No largo, o “mata-frades”, de costas para a heresia, parece escrever,
olha as nuvens negras, apreensivo, não sabemos bem acerca de quê,
vai passar ao papel, com a pena, talvez seja entendível para quem lê,
provavelmente pensa na justiça, na insegurança, neste entreter;
A cidade, não dando nada, continua a ser a Meca da esperança,
centro de confluência, núcleo de atracção, entre rico e indigente,
todos abandonaram tudo pelo“eldorado”, miragem de tanta gente,
correm na rua, não sabem porquê: é algo que não se alcança;
Secos de fé, não vêem o Natal, muito menos o menino, em essência,
autómatos, vão em frente, sem rumo, como caminheiro errante,
agora, nestes tempos, o seu “Deus” é económico, esse tratante,
não olham para Ele como salvador do espírito, é a sobrevivência.
as pessoas “correm”, encolhidas,
olham as pedras do chão, tolhidas,
a sua disposição está cinzenta;
Não se vê uma cara com um sorriso,
no casaco albergante arrumaram a alegria,
concentrados na chuva e no frio que fazia,
como se, em flocos, caísse uma nuvem de siso;
No guarda-chuva, dogma de fé, fizeram protector,
pouco importa se passa um qualquer farsante,
um vendedor do Borda d’Água, um talhante,
que “pique” o monstro, a solidão, esse Adamastor;
Nem as bolas azuis, no céu de esperança, deste Natal,
nem o “espírito” de Bocage, presente, junto ao café Nicola,
parecem fazer acordar a gente que passa, sem ligar “bola”,
caminham embrulhados com a chuva, não têm tempo, nem faz mal;
A rua está triste, está muda, só o bater das botas ecoa na calçada,
nem um som rogado de um pedinte se ouve: “uma moedinha senhor”,
nem uma concertina, nem uma trompete aquece o frio com calor,
como se o inverno fosse inimigo de quem precisa, fosse uma maçada;
No largo, o “mata-frades”, de costas para a heresia, parece escrever,
olha as nuvens negras, apreensivo, não sabemos bem acerca de quê,
vai passar ao papel, com a pena, talvez seja entendível para quem lê,
provavelmente pensa na justiça, na insegurança, neste entreter;
A cidade, não dando nada, continua a ser a Meca da esperança,
centro de confluência, núcleo de atracção, entre rico e indigente,
todos abandonaram tudo pelo“eldorado”, miragem de tanta gente,
correm na rua, não sabem porquê: é algo que não se alcança;
Secos de fé, não vêem o Natal, muito menos o menino, em essência,
autómatos, vão em frente, sem rumo, como caminheiro errante,
agora, nestes tempos, o seu “Deus” é económico, esse tratante,
não olham para Ele como salvador do espírito, é a sobrevivência.
EDITORIAL: UM PAÍS MASCARADO
(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)
Numa decisão populista em que se pretendia convencer –somente
demonstrar e nada mais- de que é preciso trabalhar, o Governo retirou a
tolerância de ponto ao dia de Carnaval. Agindo como Talião, pegou na espada e
cortou a cabeça ao Rei Momo. Esqueceu que um costume empírico tem mais de sete
vidas e, pela ancestralidade e enraizamento na população, por mais proibições e
cortes que se executem, é inevitável, jamais desaparecerá. Tentar apagar esta
prática popular será o mesmo que tentar evitar que as águas corram para o
mar. Só citadinos de fatinho e gravata, burgueses sem conhecimento do povo no
seu dia-a-dia, que nunca desceram ao país do "poeta Aleixo" e do salteador “Zé do
Telhado” podem tomar decisões contra-natura e ferir a cultura de um colectivo
que precisa da festa para expurgar os demónios que se exercitam dentro de si.
Como era de prever, os efeitos resultantes
e conclusivos da medida de proibição são catastróficos. O que se vê é um país à
deriva, acéfalo, sem cabeça –ou o contrário, com muitas cabeças-, onde parece
não se saber quem manda nem para onde se caminha. As autarquias dão o mote para que toda a orquestra
económica desafine. Então, num ano de eleições europeias, assistimos a coisas
do arco-da-velha. Como os autarcas se
estão a marimbar para o executivo e para a Nação e só lhes interessa o futuro
próximo, que é já em Maio, resolvem a seu bel-prazer e sobretudo para agradar
às suas clientelas. Os edis do contra, representando
a oposição e as cores mais à esquerda, aproveitam para desalinhar das ordens emanadas
de Lisboa e, fazendo política partidária, encerram os serviços camarários na
terça-feira. Numa vergonha sem precedentes, e numa altura de crise económica, a
Câmara Municipal de Lisboa fecha dois dias, na segunda e na terça. Não está em
causa a legítima autonomia das autarquias. O que deveria estar -e é isso que se
espera de um político eleito- era que, mesmo discordando do decreto governamental,
o superior interesse público fosse colocado acima de todas as conveniências.
Mais ainda, o que se salienta nestes egoístas despachos arbitrais é o fraco
modelo que estes governantes transmitem aos eleitores e à sociedade. Numa
altura em que a credibilidade dos agentes políticos anda pelas ruas da amargura
e era necessário mostrar que o que conta menos é a ideologia e seus proveitos
ocasionais, com estas medidas sem racionalidade cai a máscara a todos e faz-nos
acreditar que não teremos futuro com esta gente que nos administra.
Não tenho dúvidas que até se entende a decisão dos edis, em cujas terras tenham grande tradição do corso, como é o caso de Mealhada, Ovar, Torres Novas e outras, em fazerem feriado. Nestes casos, fazer ponte, é estarmos perante uma decisão de necessidade. É a economia da cidade, ou da vila, que está em causa. Mas e as outras como Coimbra, por analogia, que não têm tradição carnavalesca? Fará algum sentido os serviços camarários da cidade dos estudantes encerrarem no dia do entrudo? Será que o executivo municipal não deveria fazer passar uma ideia de grande responsabilidade pela deficitária economia da cidade? Em face deste (mau) exemplo, e seguindo o ano passado, a maioria das lojas da Baixa vão estar fechadas. Afinal, estamos ou não estamos em tempo de vacas magras? Não era melhor o Governo decidir de uma vez para que se não passe esta ignomínia?
Não tenho dúvidas que até se entende a decisão dos edis, em cujas terras tenham grande tradição do corso, como é o caso de Mealhada, Ovar, Torres Novas e outras, em fazerem feriado. Nestes casos, fazer ponte, é estarmos perante uma decisão de necessidade. É a economia da cidade, ou da vila, que está em causa. Mas e as outras como Coimbra, por analogia, que não têm tradição carnavalesca? Fará algum sentido os serviços camarários da cidade dos estudantes encerrarem no dia do entrudo? Será que o executivo municipal não deveria fazer passar uma ideia de grande responsabilidade pela deficitária economia da cidade? Em face deste (mau) exemplo, e seguindo o ano passado, a maioria das lojas da Baixa vão estar fechadas. Afinal, estamos ou não estamos em tempo de vacas magras? Não era melhor o Governo decidir de uma vez para que se não passe esta ignomínia?
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HISTÓRIAS CURTAS E MARCANTES
(Imagem da Web)
“De tempos a tempos apercebia-me de que do
lado de fora da montra da minha loja ele olhava para mim, que estou dentro, atrás
do balcão e à espera de quem não prometeu vir, e nada dizia. Não era um olhar
igual a outro qualquer. Era um raio de súplica. Um grito surdo que parecia
querer soltar-se das amarras. Como se aquele vislumbre quisesse dizer alguma
coisa e desistisse a meio do caminho. Mas eu sou mulher e, em minha defesa calculista, fazia que não notava. E
ele voltava novamente outro dia qualquer e permanecia com os olhos fixos na minha imagem. Até que
há tempos reparei na sua vacilação, entre o falo ou não falo? E então cumprimentou: “bom
dia!”. Cordialmente, respondi da mesma forma. É um homem sozinho, de meia-idade.
Veste com simplicidade e reside por aqui, num qualquer quarto da Baixa. Certamente, carrega sobre os
ombros o peso de muitos sonhos idealizados e algumas realizações falhadas. Imagino que a sua
auto-estima, depois de subir a montanha e atingir o pico, desceu e estabilizou no sopé. Volta e meia passa
aqui e, como sempre, saúda. Sinto cada vez mais que a pequena lojeca de bairro,
como a minha, é muito mais do que um ponto de compra e venda. É um candeeiro de
luz que ilumina corações tristes. É um centro de relações humanas.
Agora, que já venceu a inibição, se, para além de mim, não estiver ninguém no estabelecimento ele entra e fala da sua vida: “desculpe incomodar, mas não tenho com quem conversar. Sinto-me só, sabe? Já tive tudo, já fui rico, muito rico, e agora vagueio por estas ruas e ruelas como cão escanzelado e sem dono. Gostava que a minha única filha, que está no estrangeiro e não me liga nenhuma, me olhasse pelo que sou, enquanto pessoa, e não pelo que já fui e deixei de ser. É muito triste a solidão!”
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