quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

COIMBRA: CIDADE DO NÃO (RE)CONHECIMENTO





Coimbra não tem condições para fixar os jovens nem é capaz de manifestar apreço por quem leva mais longe o nome da cidade. (…) o que lamento é a falta de reconhecimento. O Presidente da República mandou-me um cartão a dar-me os parabéns e a incentivar. Coimbra não. (…) Esta cidade está todos os dias a perder os valores da terra, o orgulho, a auto-estima. Dizem que esta é a cidade do conhecimento mas acho que devia ser também a cidade do reconhecimento, ganhávamos todos muito mais”. André Sardet, cantor e compositor, em declarações proferidas, na última semana, à Rádio Regional do Centro, no programa “Dois Dedos de Conversa”.
Há alguém de acordo? Se há que ponha o dedo no ar. Engraçado, do ponto onde me encontro, em Coimbra, olho, olho e não vejo ninguém com o dedo em riste. Porque será? Atentamente, de rosto em rosto, vou tentando analisar o que pensam os habitantes da Lusa Atenas. Debruçando-me nos seus semblantes fechados, se pudesse ler telepatia, aposto que os seus pensamentos são comuns e expressariam mais ou menos isto: “olha p’ra ele, cheio de manias, lá porque teve êxito no Álbum “Foi Feitiço” já se está a pôr em bicos de pés. Eu nem gosto nada daquela música. É autêntico pimba. É outro Emanuel ou Tony Carreira. Daqui de Coimbra não se espera outra coisa”.
Bom, como ninguém se disponibilizou a ajudar-me na continuação deste texto, vou colocar o dedo no ar e dizer que estou de acordo com tudo o que ele disse. Já agora, aproveitando este tempo de antena que eu, aliás merecidamente, concedi a mim próprio, vou até acrescentar mais umas coisas.
Coimbra é uma espécie de “Portugal dos pequenitos”. É uma espécie de incubadora. antecipadamente, o que se passar aqui a nível político ou social é o que se virá a passar "a posteriori" no rectângulo. Como o país, Coimbra, é uma cidade triste –já o escrevi várias vezes. Colectivamente precisa de fazer psicanálise. Não consegue rir de si própria. Sabe-se que a tristeza e a solidão, se não forem tratadas a seu tempo, desenvolvem várias “patologias”, entre elas a ansiedade e a depressão e, associadas a esta, o egoísmo, o narcisismo elevado, a inveja, a soberba e o mais grave: a apatia e o azedume para tudo e para todos.
Em termos de importância, Coimbra está para Portugal como o nosso país está para a Europa. Ou seja, uma relação directa, em tamanho, entre a pulga e o elefante.
Internamente, Coimbra está refém da sua Universidade. Os braços “desta mulher” escravizam e amarram a cidade, sobretudo, quando num assédio continuado, hipócrita, tentando elevar-lhe o amor-próprio, lhe canta baixinho ao ouvido: “Coimbra do Choupal, ainda és Capital…”
Coimbra, como velha mulher que já teve melhores dias, com mais rugas do que cabelos, rende-se toda aos encantos, “aos bilhetes de amor” e às serenatas do seu “amante”, a torre erecta da sapiência, que, com o passar dos séculos, desenvolveu com ela um amor platónico.
Coimbra vive da recordação do passado. É como os portugueses que, no seu comportamento bipolar, quando estão em "baixo”, evocam os Cantos dos Lusíadas e espalham à boca cheia que este nobre povo lusitano já foi –já foi, era bom não esquecermos!- dono dos mares, do Atlântico até ao Indico.
Os sucessivos executivos municipais –provavelmente a partir de 1928, ano em que Salazar, enquanto professor da Universidade de Coimbra, ascendeu a ministro das Finanças- sempre se derreteram diante de qualquer professor universitário. Por isso a luta, tanto no Executivo como na Assembleia Municipal, é sempre entre estes sapientes, quer sejam de direita ou de esquerda. As suas opiniões, mesmo risíveis e sem contexto, são veneradas por todos os edis.
Igualmente, os burgueses citadinos, sempre que surge um “Dr.” é como se vissem um Deus. É um dobrar da espinha constante num servilismo endémico. Olhá-lo nos olhos é quase blasfémia. Ele, o “Dr.”, por seu turno, do alto do seu pedestal imaginário, mesmo tendo a perfeita percepção da mentira, goza a situação e abusa do futrica, o seu servidor histórico. Acaba por desprezá-lo porque sabe que, embora se trate de uma encenação, é um servilismo bacoco e pacóvio, próprio de uma “civitas” subdesenvolvida onde, num subsistema, labuta um cidadão pouco trabalhador, pouco interessado na cidadania, apenas concentrado no seu umbigo. É um cidadão com medo da sua própria sombra, que, ao mínimo gesto do “doutor” –pode ser um discurso repetitivo e chato ou apresentação de um livro- está sempre pronto a bater-lhe palmas e a dedicar-lhe loas, a troco, na maioria das vezes, de lentilhas ou até de umas simples palavras de aprovação.
Coimbra, como o país, vive eternamente na esperança de que venha o seu Dom Sebastião que a há-de retirar desta modorra de insignificância e, em importância, a coloque ao nível de Lisboa e Porto. De tempos a tempos, saído da bruma dogmática, lá surge um, que mais tarde, depois de encher a pança e, esse facto ser notado até por uma criança que apontando exclama: “olha o Rei está muito mais gordo do que quando foi entronizado”. Só então verificam, tarde de mais, que era (mais um) falso salvador da cidade.
Exceptuando um grupo de cultura, o habitante de Coimbra –o "coimbrinha"- passa a vida a dizer mal da cidade, mas nunca toma uma posição pública contrária aos interesses estabelecidos do pretor urbano, seja ele de esquerda ou de direita. Adapta-se à cor partidária daquele como um camaleão se adapta ao meio ambiente.
Na cultura, Coimbra é sublime. Como raio de luz que ilumina a terra, os defensores da cultura, um grupo constituído essencialmente por professores universitários, efervescentes num caldo de esquerda radical, onde o marxismo-leninismo está anos luz da sua doutrina profetizada, como cruzados a espalhar a fé na Terra Santa, fundamentalistas, julgando-se iluminados por Deus, recorrem a toda a dialéctica, mesmo até ao insulto directo ao vereador encarregue de gerir os (poucos) dinheiros disponíveis.
É uma cultura subsídio-dependente, que, não gerando riqueza, vive ou sobrevive à custa do sistema. Embora seja literalmente uma pequena vaga minoritária, tem muita força. Fazendo muito barulho, acaba sempre por levar a sua avante. O poder instituído municipal teme esta vaga de fundo intelectual e, mais tarde ou mais cedo, acaba sempre por ceder às suas reivindicações. Esta onda de cultura tem poucos rasgos de criatividade. Praticamente não arrisca em ser marginal e pouco mais aposta para além do teatro.
Coimbra não tem boémia. A que existe resume-se a um "modus vivendi" dos estudantes que vivem apartados do resto da urbe, numa “ilha” isolada do resto da cidade –a Alta- e apenas desce à Baixa em alturas de festas profanas, como a Queima das Fitas ou a Latada.
A cidade tem poucos bares com animação abertos até altas horas da noite. As pessoas com mais de 40 anos, no seu trajecto diário, é casa-emprego, emprego-casa. Apesar dos muitos recentes “multiplex”, com filmes a estrear, raramente vão ao cinema, um dos poucos entretenimentos que prolifera em Coimbra. São alheios ao teatro. Sejam boas peças ou más. Aqui, creio, que por culpa das companhias, que nas obras cénicas que produzem são longas e intragáveis.
O jornalismo em Coimbra é paupérrimo. Basta abrir qualquer um dos diários ou semanários da cidade e avaliar os articulistas-colaboradores: só excepcionalmente não são políticos-partidários ou professores universitários. Chega a ser ridículo o que estas pessoas escrevem semanalmente. Mesmo sabendo que prestam um mau serviço à cidade, os jornais da urbe, num calculismo concertado, “pegam nestas pessoas ao colo”, que de novo nada dizem. Ou falam de si ou do partido a que pertencem.
Não existe jornalismo de investigação. O que se pratica na cidade é tipo chapa fotográfica. Apenas é mostrado o que o flash captou. Não há outro mundo para além deste que se mostra “à la minute”. Há dois diários e três semanários. O que se lê num é transversal a todos. É normal a concentração editorial, vindo os títulos da concorrência a serem absorvidos para serem posteriormente, em alguns casos, encerrados.
Há várias rádios. Como o mercado publicitário é pobríssimo vivem dos discos-pedidos e da música contínua em bloco. Aqui há excepções, diga-se a propósito. Há uma que mesmo mareando neste mar turbulento, de marinheiros escanzelados, com falta de víveres, vai inovando e apresenta programas de discussão semanal.
Não existe televisão. Ou melhor, existe, mas é uma espécie de alma penada, só aparece nos maus momentos –mas têm mesmo de ser muito maus. Por exemplo se ruirem dois edifícios de uma assentada, aí estão eles, os canais de TV, quase todos com serviço concessionado a empresas particulares de vídeo, a mostrar ao mundo, todos os dias, durante uma semana, a tragédia da cidade velha.
Se não ruírem dois prédios, nem um homem que morda um cão, Coimbra não será notícia para o país. A cidade é esquecida, ou melhor, é ostracizada por Lisboa e Porto.
Por parte do Governo a mesma coisa. Coimbra vai sendo esvaziada, paulatinamente, até não restar nenhum serviço público de referência. Claro que sempre acompanhado de um longo discurso já gasto pelo tempo: “adoro Coimbra, aqui estudei, aqui me licenciei, aqui amei, aqui casei. Gosto tanto desta cidade…”.
Porra! Só escrever isto fico irritado. Deixem-me expurgar a minha revolta com um grande manguito.

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