sábado, 22 de abril de 2023

MEALHADA: QUINTA-FEIRA HÁ ASSEMBLEIA MUNICIPAL

 





Na próxima Quinta-feira, dia 27 de Abril, pelas 20h30, vai realizar-se mais uma Assembleia Municipal Ordinária no Cine-teatro Messias. Relembra-se que este órgão está obrigado a reunir, pelo menos, em cinco sessões ordinárias, respectivamente, em Fevereiro, Abril, Junho, Setembro e Novembro ou Dezembro. Pode reunir mais vezes em sessões extraordinárias.

Com uma Ordem de Trabalhos variada, em relação às anteriores, pouco ou nada trará de novo. Será mesmo assim? Ou antes pelo contrário?

Será desta que o presidente Carlos Cabral fará cumprir o Regimento, nomeadamente, os tempos de Intervenção do Público, que é de trinta minutos na totalidade e cabendo a cada interveniente cinco minutos para expor (num único assunto preferencialmente) o que o levou a intervir?

Bem como no “Período de Antes da Ordem do Dia” (que deverá ter um tempo de sessenta minutos gerido pelo Presidente e distribuído em função do número de inscritos), com os tempos atribuídos aos deputados a serem respeitados na íntegra e a evitar que o exercício da convocatória se prolongue noite dentro, para além da meia-noite.

Assim como o “Período da Ordem do Dia”, em que a apreciação/discussão a cada ponto inscrito na ordem de trabalhos pelos membros da Assembleia não deve ir além de dez minutos (sem exceder este tempo, pode usar da palavra em duas partes na intervenção). Se a discussão não tiver terminada, haverá um segundo período de intervenções até trinta minutos distribuído pelos intervenientes mas sem exceder os cinco minutos a cada um.

E ainda, conforme a redacção do Regimento, obrigar (todos) os vereadores à Câmara Municipal a estarem presentes nas sessões da Assembleia Municipal.


E NÃO SE PASSA MAIS NADA?


Segundo as previsões meteorológicas do IPMA, ou de uma bruxa, por acaso minha conhecida, é de antever que, num acerto de contas, vai chover granizo entre João Cidra Duarte, Presidente da Junta de Freguesia de Barcouço, e António Jorge Franco, Presidente da Câmara municipal de Mealhada. O caso não é para menos, o primeiro, João Cidra, fartou-se de malhar no segundo, António Franco, em duas edições – última e penúltima – do Jornal da Mealhada.

Se eventualmente as “mocadas” verbais acertaram no rosto de Franco será de prever que o “nosso primeiro”, na próxima Terça-feira, vai aparecer cheio de nódoas negras no Cine-teatro Messias.

Portanto, preparemo-nos para um grande combate verbal entre o eleito pelo PS, em Barcouço, e o eleito pelo Movimento Independente Mais e Melhor, na Mealhada.

Podemos antecipar que o perdedor nesta contenda está obrigado a pagar ao vencedor um leitão no reconhecido restaurante Rei dos Leitões – que, ao que parece, Franco já fez as pazes com o gerente desta famosa casa pantagruélica.

Será mais que provável que o Bloco de Esquerda/Mealhada (mais uma vez) não irá intervir no tempo atribuído ao público. A razão? Sei lá, mas podia alvitrar. Lá poder podia, mas não devo.


UMA TROCA QUE ENVERGONHA

 

(imagem de Leonardo Braga Pinheiro)





Quase batemos de chofre na superfície comercial, ao dobrar um corredor. Era impossível não falar. Ela era uma minha conhecida desde há muitas décadas, eu sabia de todo o seu percurso existencial, desde que nasceu até à actualidade, agora com algumas rugas no rosto e cabelos branqueados resultado de um passado com mais de meio século.

Com a idade a avançar a todo o gás, na qualidade de sexagenário aborrecido e constantemente a fazer o balanço da vida, tenho reparado que me tornei mais “bicho do mato”, fugindo cada vez mais ao contacto com outras pessoas. Por mais dias sobrepostos que passam por mim a correr, a minha maior felicidade é, isoladamente, ler e escrever. Tentar explicar este meu afastamento social, é como se me faltasse a pachorra para conversas vazias e de circunstância. De certo modo, é como se me faltassem os temas para manter um diálogo vivo e interessante; como se o tempo, no seu esmagar de recordações, me levasse, amiúde, a repetir sempre as mesmas coisas; é como se estivesse cansado de me ouvir e farto de escutar os outros. Para os mais velhos, como eu, os tópicos são sempre os mesmos. Em repetição, insistimos no modelo cénico passado a papel químico: então como vai a tua vida? Estás com bom aspecto. E a tua saúde, vai bem? Há muito tempo que não te via…

Para e com os mais novos ainda é mais difícil de entabular diálogo. Aqui noto que o que soçobra é um “bota de elástico”, lá querem eles saber da nossa memória cultural, das dificuldades que passámos, do quanto tivemos que recorrer ao desembaraço, ao desenrascanço para não sermos apanhados em ramo verde. Com defeitos e virtudes, nascemos, crescemos e chegámos à terceira idade como resultado de um circunstancialismo económico, social e cultural.

Evidentemente, os interesses dos mais jovens, como água e azeite que não se ligam, são completamente diferentes dos nossos, dos mais velhos. Afinal, nasceram numa época de desenvolvimento mais rápido que a sombra, molecular, electrónico e digital, como nunca houve outra igual.

Como é normal ao fim de cada ciclo, está para se saber se, como humanos na sua interação, estamos melhor ou pior. Ou seja, se este progresso ao segundo, em busca de uma felicidade perene mas utópica, que é inalcansável, e do menor esforço mental e físico, está a contribuir para um Homem Novo ou, pelo contrário, está a concorrer para um humano perdido, sem crenças em si mesmo, ou no transcendente – por que numa delas, forçosamente, terá de acreditar -, sem saber muito bem para onde se caminha.

Depois da conversa introdutória e de circunstância, que se estabeleceu neste fortuito encontro entre eu e a minha mulher e a minha “amiga” na média-área comercial, atirou: “já não estou com ele… trocou-me por outro… foi viver com um homem. Já viu a vergonha que sinto? Se ao menos fosse com outra mulher, ainda vá que não vá...”

sexta-feira, 7 de abril de 2023

BARRÔ E A VISITA PASCAL

 





Em consequência de haver um único padre na paróquia de Luso, a visita pascal em Barrô foi sempre realizada na Segunda-feira a seguir ao Dia de Páscoa. Neste dia, por cá, ninguém trabalhava.

Embora mais carregada de solenidade sacra, somando à festa das Alminhas, de São José e de São Sebastião, era mais um dia de festividade na povoação. Os residentes vestiam o engomado fato domingueiro - e único, que para além de estar guardado somente para sair em ocasiões especiais, durava toda a vida e serviria para mortalha na última viagem sem retorno.

Enquanto criança nos anos seguintes a 1960, relembro com saudade o ambiente de festa que invadia toda a minha aldeia. As entradas das portas eram todas atapetadas com folhas verdes misturadas com, salvo erro, rosmaninho. A fragrância envolvida, em parafernália de odores, era de tal modo intensa que apagava completamente o cheiro a estrume, aroma que se apanhava facilmente num dia de semana de trabalho árduo no pequeno povoado. Logo de manhã, ao romper da aurora desta Segunda-feira pascal, a minha mãe começava os preparativos para a cerimónia. Depois de, nos dias anteriores, de joelhos, ter esfregado muito bem o chão da sala, de madeira, carcomida pelo tempo, com uma escova de piaçaba e sabão amarelo. A sala, a única divisão com tecto forrado e a maior da casa com melhor apresentação, que no Verão se ajustava para estender o milho para descamisar e a secar e no Inverno para escolher a azeitona, era onde, dos poucos no lar, existiam alguns móveis: um armário muito alto, com várias portas e todo fechado, muito antigo, do tempo dos meus avós, um louceiro simples com espelho e vidros nas portas cimeiras, adquirido a prestações com os denominados “cartões” – e que eu, amiúde, limpava com azeite para o pôr a brilhar -, uma mesa e quatro cadeiras. A minha mãe, depois de ter estendido uma toalha branca, colocava em cima da mesa um bolo doce, de Páscoa, cortado em fatias – que nos dias antecedentes cozera no forno a lenha existente num barracão junto à cozinha, mas do lado de fora -, uma garrafa de vidro com jeropiga, uma tacinha com um pacote de amêndoas às cores -que eu via sem poder tocar, e tentava adivinhar o sabor açucarado, enquanto durasse a exposição e não viesse a comitiva pascal. Logo que a porta fosse transposta pelo acompanhamento, os doces confeitados desapareciam num ápice no fundo de uma saca de pano transportada por um dos miúdos do grupo - e, no centro da bancada, uma laranja com uma moeda de cinquenta cêntimos a servir de coroa ao fruto, e que seria levada também – já que de notas para a côngrua não havia, portanto, não rezavam para a história. Sem poder faltar, havia também em exposição uma jarra com flores e um pequeno crucifixo, com a cruz em madeira e a imagem de Cristo em chumbo moldado – chamado de “bacalhau”, por ser muito achatado. A partir das nove horas, numa ansiedade crescente, todo o lugar parecia estar de sentinela à espera do ansiado toque do sino da capela – sinal de que Monsenhor Mira, acompanhado com um séquito de, creio, três adultos e duas crianças. Vestidos com opas vermelhas e brancas e onde vinha incorporada a esplendorosa e enorme cruz de prata cinzelada e trabalhada um século antes por grandes artífices prateiros.

A seguir ao toque de anunciada começava imediatamente o bradar ritmado da pequena sineta transportada por um dos miúdos. Com o aproximar do “Ding-dong”, “ding-dong”, saído do pequeno sininho, as famílias das casas em redor eram tomadas de uma ânsia apenas explicável pela rara visita do presbítero.

Os vizinhos, pondo de lado as querelas e as arrelias que antes provocaram descontrolo e azedume, tomavam posição na casa em que o Senhor ia ser beijado, e mentalmente pediam perdão por minudências sem sentido. A visita de Cristo à casa de cada um constituía, sobretudo, uma mensagem de paz para com o dono da casa e deste para com os seus confinantes. Quando a pequena procissão entrava dentro de uma casa, com o sacristão, à frente, a carregar a cruz, era secundado pelo prelado que, ao mesmo tempo que pegava no hissope, utensílio usado para aspersão, antes mergulhado na caldeirinha, a borrifar os presentes, pedia a bênção a Deus para aquele lar, humilde ou abastado. E durante, pelo menos, um ano Barrô ficava em paz com a sua consciência colectiva.

Outros tempos!


sábado, 25 de março de 2023

DIZEM QUE LOGO MUDA A HORA. ORA, ORA! UMA HORA CONTINUA A SER IGUAL!

 






“Quando damos por nós, olhamos o espelho
e já não reconhecemos a imagem que nos
aparece reflectida. Parece de alguém muito
chegado, mas só isso.”

Ao que tudo indica, logo à noite, vamos, todos, adiantar os ponteiros do relógio para uma hora à frente –a chamada hora de Verão. Será que valerá a pena cumprir esta tradição anualmente? Ou seja, os proventos serão de tal importância que valham o desarranjo que esta alteração nos provoca no ritmo biológico? O facto de passar a amanhecer mais cedo, e com o alegado de não haver desfasamento na luz solar, justifica o alterar a rotina dos marcadores e controladores do nosso tempo?

“Em conformidade com a legislação, a hora legal em Portugal continental:
  • será adiantada de 60 minutos à 1 hora de tempo legal (1 hora UTC) do dia 25 de Março e atrasada de 60 minutos às 2 horas de tempo legal (1 hora UTC) do dia 28 de Outubro.” –retirado da página do Observatório Astronómico de Lisboa

Confesso que gostava de escrever sobre este tema algo sério, mas não sei se sou capaz. É que este costume, a meu ver, intrometido e reaccionário, começa por me dar uma tremenda vontade de rir –lá para o fim do texto dá vontade de chorar.
Não é por nada, mas alguém apresentou um estudo científico a provar a mais-valia para a economia deste dogma? Ao que me parece “tudo começou com Benjamin Franklin, o político e inventor do para-raios e das lentes bifocais. Em 1784, num artigo publicado num jornal francês, Franklin sugeria que a França adiantasse uma hora no Verão, alegando que Paris poderia poupar anualmente 32 mil toneladas de cera de vela. Só mais de um século depois é que a sugestão seria tida em conta, no contexto da Primeira Guerra Mundial, para economizar energia”.
O facto de amanhecer mais cedo e anoitecer mais tarde, à hora da ceia, legitima tudo isto? É que esta convenção, embora provisoriamente, começou em 1992, com o governo de Cavaco Silva, e definitivamente com o Decreto-lei número 17, de 8 de Março, em 1996, e dando cumprimento a uma directiva europeia. E aqui faço logo a primeira pergunta estúpida: se com esta mudança se enriqueceu a economia, como é que, passados 20 anos, estamos mais pobres do que anteriormente?
Como duvido sempre dos axiomas, as tais verdades sem contestação, ainda faço outra interrogação sem pés nem cabeça: como é que sem esta tão iluminada medida viveram os nossos pais? E mesmo alguns de nós, em crianças?
Será que neste afã do homem querer controlar tudo, até a luz solar, nos tornou mais felizes? 
Com a desculpa do aproveitar o máximo de luz, enquanto fonte de energia bio-rítmica, nos dias que correm haverá menos solidão, menos depressão, menos suicídio, isto comparando com épocas recuadas?
O curioso é que nesta tentativa vã de apanhar o tempo ficámos sem tempo para olhar as estrelas, a Lua, o magnífico nascer do Sol no horizonte, a leste, o extraordinário Pôr-do-sol a cair sobre o mar, o crepúsculo, e toda a manifestação de uma Natureza viva e magnificente.
Perdemos hábitos de leitura, de escrita, de falar com o vizinho. 
Como se perdêssemos o romantismo e ganhássemos o facebookismo, deixámos de ter uma necessária contemplação introspectiva do mundo à nossa volta.
Vivemos o tempo da necrologia, que é o olhar a página dos jornais diários a ver quem dos nossos amigos morreu –ou, especulando um pouco, para vermos se a nossa foto lá está, porque, bem no fundo, já nem os jornais se lêem como antigamente. É tudo a correr. "Não temos tempo", dizemos todos em coro. Os dias, as semanas, os meses, os anos, todos são iguais e passam num ápice. Quando damos por nós, olhamos o espelho e já não reconhecemos a imagem que nos aparece reflectida. Parece de alguém muito chegado, mas só isso.
Até mudaram a ortografia –estou a escrever e, volta e meia, lá me surge o sublinhado vermelho a indicar erro, ou seja, o computador a querer controlar a minha vontade. Fosca-se para estas mudanças! Porque é que não inventam uma máquina do tempo, onde, em turismo, pudéssemos ir fazer umas férias de longo curso?
Mas, afinal, o que é que se alterou? Se, igualmente, uma hora continua a ter sessenta minutos, mudou o quê?


sexta-feira, 24 de março de 2023

13 HORAS À ESPERA NO EXTERIOR DOS HUC… (ENSAIO PARA UM FUTURO MELHOR)

 





Era Segunda-feira desta penúltima semana de Março. Estava um dia lindo, resplandecente, soalheiro como a anunciar a primavera. Mau dia para aqueles cujo sistema imunitário falhou e, por causa de acidente, grave ou leve, com dor, tosse ou mal-estar, os obrigou a recorrer às urgências de um qualquer hospital, privado ou público.

No caso que vou narrar trata-se dos CHUC, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE.

Com dores no peito, uma tosse profunda, tonturas e alguma dificuldade em respirar seriam cerca de 14h30 quando transportei a minha mulher e transpusemos a porta sensorial do Hospital neste dia de sapateiro.

Como ela sentia um profundo desequilíbrio, quando demos entrada nas urgências procurei uma cadeira de rodas vazia para a acomodar. Nem de propósito, alguém, que se prestava a sair, largou uma junto a nós.

Dirigimo-nos ao balcão e fizemos a inscrição para atribuição de uma pulseira de cor que, de acordo com a “Triagem de Manchester”, significa o vermelho (emergente), laranja (muito urgente), amarelo (urgente), verde (pouco urgente) e azul (não urgente).

O funcionário, depois de nos questionar num resumido inquérito, entregou uma cinta amarela à minha consorte.

Apesar de avistar vários funcionários, entre médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar a entrecruzar-se pelo meio de muitas macas com doentes, ninguém se preocupou em nos indicar os passos a seguir. Vi logo que ali funcionava o “quem tem boca vai a Roma”. Pedi a informação a um bombeiro, certamente à espera de um utente para o conduzir de regresso na ambulância, e foi-me indicado.

Continuei a empurrar a cadeira até uma pequena sala com várias cadeiras ocupadas à espera da chamada para classificação e encaminhamento para os vários serviços médicos correspondentes.

Cerca de meia-horas depois, uma voz agridoce anunciava numa coluna de som pregada no tecto: “Ana Maria (…) no Gabinete 1”.

Pensei para comigo que, pela rispidez da chamada, deveria ser uma médica com os pés para a reforma, agastada e farta de auferir pouco para tanto esforço. Mentalmente comparei com o som adocicado das vozes digitais dos megafones das estações de comboios.

Lá nos aprontámos e penetrámos num pequeno gabinete onde, em frente a um ecrã de computador, uma rapariga ainda nova, talvez com vinte e poucos anos, de bata branca, nos recebeu sem grandes alardes de simpatia. Com um seco: “De que se queixa?”, foi tomando notas na máquina digital. Quando acabou o inquérito, virou-se para mim e, sem grande empatia, ordenou: “vai ter de sair. Não pode estar aqui!”

Mais uma vez tive de recorrer a pessoal exterior ao hospital para saber onde era a sala de espera para acompanhantes.


II


A sala de espera era num contentor exterior com cerca de 60 metros quadrados. Lá dentro, com uma casa-de-banho e restante área ampla, meia centena de lugares sentados em chapa de ferro com buraquinhos, alinhadas, a formarem o rectângulo, estavam parcialmente ocupados e poucos lugares vagos.

Do lado esquerdo, uma máquina, muda e encimada por um visor, cumpria uma missão importante, mas não dava a conhecer a sua utilidade. Mais uma vez, vendo fazer outros e interrogando, se ficava a saber que era o instrumento, a ponte para saber informações dos doentes previamente depositados na urgência. Depois de colocar um dedo no equipamento, como se agradecido pelo afago, dava-nos uma senha com um número sequencial, que, a seu tempo, devagar, por que ali, contrariando a azáfama das urgências, calmamente alguém chamaria. E de facto, como a interromper um pensamento, uma voz feminina quebrou a quietude da construção provisória: “Senha I – 220, no gabinete 2”.

Logo a seguir, em fustigo de megafone engasgado, nova mensagem: “Familiares de Luísa ... na entrada das urgências”.

Por cima e do lado do acessório mudo, três aparelhos de ar condicionado, marcando 25 graus de temperatura, trabalhavam incessantemente naquela tarde calorenta. Como um relógio parado que está certo duas vezes, aqueles apetrechos de renovação de ar também iriam estar bem regulados durante a noite, que se adivinhava fria e pouco aconchegante.

Na parede em frente um LCD, sintonizado na TVI, como um pregador que ninguém se interessava por ouvir, debitava toda a sua programação.

No mesmo lado, encostadas à casa-de-banho, duas máquinas de “vending”, uma com sandes, chocolates, sumos e água, outra para bebidas quentes, chá, café, chocolate quente.

Do mesmo lado direito de quem entrava, uma estreita mesa mantinha em cima um frasco com álcool desinfectante. Num novo costume, a fazer lembrar o mergulho da mão na pia de água-benta e acompanhado do sinal da cruz ao entrar numa igreja, a maioria purificava as mãos.

Depois de arranjar um lugar vago, acomodei-me o melhor possível num canto do salão com uma visão ampla do espaço. Embora não fazendo ideia do tempo que iria permanecer ali à espera, ia preparado para esperar: levava comigo três jornais, um diário e dois semanários.

Volta e meia levantava os olhos dos periódicos e apreciava o que se passava ao meu redor. Comecei a aperceber-me que muitos acompanhantes, pretendendo adquirir um produto das máquinas de venda automática para comer ou beber, começavam a distribuir palmadas e apalpadelas no mecanismo. Mas a coisa, como mulher enrugada e habituada a carinhos e açoites nos campos agrestes do interior, não cedia. Num quadro de solidariedade alguém se levantava e ia ajudar o desconhecido.

Enquanto via repetidamente este quadro, pensava se, quando chegasse a minha hora do lanche, iria acontecer a mesma coisa. Apostei comigo que era capaz de me entender com a “barriga de aluguer alimentar” a troco de moedas.


III


Ao meu lado uma família cigana de um reconhecido clã conimbricense estava ali representada em quatro gerações. Entraram cerca das 15h00 a, segundo ouvi, acompanharem um idoso ao serviço de urgências. As horas iam passando e, sem informações do seu familiar, sobretudo homens mais velhos e mais novos, ora davam uma passagem ao exterior, ora se acomodavam na cadeira. Um deles, da geração mais recuada, de voz rouca e um pouco entaramelada, usando na cabeça um chapéu à texano, conversava com o ancião no inconcebível passar de horas sem saber nada do seu ente querido. Mesmo ao meu lado consegui perceber: “Há muitos anos, fulano trouxe aqui um tio. Demoraram horas a atendê-lo. Então, irritado pela pouca atenção dada pelo pessoal médico, partiu a porta e entrou por ali dentro. Acabaram a dar-lhe razão”.

Mais ao lado, duas raparigas da mesma etnia, com vinte e poucos anos, vestidas informalmente com saias de ganga, e uma delas com um menino de cerca de quatro anos ao colo, volta e meia recebia um telefonema a pedirem-lhe informações do doente. Reparei na linguagem cuidada e demonstrando uma cultura acima da média. A outra colega, instigada por uma senhora mais velha, falava com desenvoltura, simpatia e conhecimento. Pensei para mim que, apesar das dificuldades, a batalha pela inclusão deste povo está fazer-se a bom ritmo. E é pela geração das mulheres mais novas.


IV


Eram cinco horas da tarde, tinha concluído a leitura do diário, um dos três jornais que levei para, se necessário, me fazer galopar no tempo. Como sempre faço em situações análogas, pousei o caderno informativo na pequena mesa junto à entrada, para, por um lado, no princípio de economia circular, dar uma nova utilidade ao que já era imprestável para mim. Por outro, porque gosto de fazer este teste para contabilizar os visitantes que iriam desfolhar o título.

Levantei-me e cliquei na máquina das senhas para saber como estava a minha doente preferida. Apesar dela ter ficado com o telemóvel, achei preferível saber informações mais personalizadas.

O meu estômago começava a reclamar por mais atenção. Era chegada a hora de testar a minha esperteza para me entender com a máquina vendedora de comida e bebida. Preparado para o embate, lá fui eu armado em cavaleiro e postei-me em frente da besta. Claro que eu não me iria deixar ficar mal. Olhando de cima a baixo, não consegui entender aquilo. Fónix. Tal como muitos que me antecederam, o remédio foi pedir ajuda para merecer atenção do objecto digital. E pronto, com uma sandes, uma bebida e um chocolate no regaço, estava formado mais um ajudante para outras gentes em dificuldades idênticas. Por curiosidade, chamou-me a atenção os acessíveis preços praticados dos bens.

Regressei ao meu lugar de observação para saciar a fome e à espera de ser chamado para obter informações da minha Ana.


V



E o número da minha senha, em alto som, foi chamado ao gabinete 1. Importava agora encontrar a sua localização. Sem sinaléctica à vista, a coisa não parecia fácil. Mais uma vez o “quem tem boca vai a Roma”. Era no interior do piso das urgências. Uma médica de meia-idade, de sorriso fácil e cativante, recebeu-me com amabilidade. Ao meu comentário de que tinha sido difícil encontrar o gabinete replicou: “Sabe, estamos em obras, está tudo um pouco mais complicado. Atendemos aqui mais de duzentas pessoas a solicitarem informações”. Perante o seu ar assertivo, fiquei sem reacção. Quanto a algo sobre a minha parente disse: “Sei que está a fazer exames, mas aqui não consigo dizer mais nada”, enfatizou.

Acompanhado pelo clamor constante de ambulâncias a passar, regressei ao meu lugar. A sala de espera continuava cheia, praticamente, com as mesmas pessoas. Volta e meia a porta abria-se para deixar passar quem ansiava por saber da saúde de alguém próximo.

A família cigana continuava alerta. De tempos a tempos o telefone tocava para saber do estado do patriarca. E uma das raparigas mais novas confidenciava: “Estamos aqui desde as 15h00. Não sabemos nada ainda”.

Liguei à minha mulher para saber como estava. “estou sentada numa cadeira, já me levaram a de rodas. Ainda não me fizeram nada, nem me perguntaram o que estou a fazer aqui. Isto parece um cenário de guerra, com macas a baterem umas nas outras com os doentes a pedirem atenção e o pessoal médico e auxiliar a atropelarem-se uns aos outros”.

Quando lhe perguntei se já tinha comido alguma coisa, respondeu: “Ainda não me deram nada. Já pedi um copo de água, mas cada um sacode a pulga do capote dizendo que não é com ele”.


VI


Já passava das 18h00, a tarde continuava linda e o Sol, o rei do Universo, como se pretendesse dar força e ânimo aos presentes com a sua matiz vermelho-alaranjado, entrando pelas vidraças de duas janelas, numa exposição telúrica rastejante, parecia confortar e beijar.

Atirei-me ao segundo jornal, certamente pela ansiedade, mesmo encostando a cabeça na parede não conseguia descansar

Eram cerca das 19h00, a sala já apresentava algumas cadeiras vazias. Foi então que entraram dois personagens meus conhecidos e se sentaram. Um deles, o homem, conhecia-o muito bem. Arrumava carros junto à Loja do Cidadão há uma dezena e meia de anos. Outrora profundamente apaixonado pelo álcool, enganado por uma amante e desenganado pela vida, com 66 anos de idade, é uma das poucas figuras típicas da Baixa ainda vivas. Há cerca de uma década contei a sua história de vida. Na altura era colaborador de um jornal com uma página semanal. Escrevi a história deste figurão e praticamente de todos os que deambularam pelas pedras da calçada. Muitos deles já não estão entre nós.

Ela, agora com cerca de 45 anos, era prostituta e sempre fez a sua vida difícil lá na zona. Apesar de nos cruzarmos imensas vezes, creio que nunca falei com ela. Sempre tive ideia de que era tóxico-dependente.

Não pareceram reconhecer-me, fosse por eu estar com máscara, ou não. Cada um, depois de ir à casa-de-banho, retirou o seu telemóvel e ligou-o na tomada, a recarregar a bateria.

Ele viria a emprestar o seu carregador a duas senhoras. Tinha vários num pequeno saco de apertar na cinta.

Passado pouco tempo entrou um terceiro figurante. Alto, com cerca de meio-século, limpo, bem-vestido e calçado com calça de ganga e sapatilhas e um impressionante blusão de cor beije, ostentando nas costas um enorme emblema da Académica. Tinha uma farta cabeleira com cabelo branco levemente a raiar as costas. Os seus modos eram suaves e finos. Não fosse uma pálpebra muito inchada e negra e diríamos que era Beethoven reencarnado.


VII


Já passava das 20h00. A sala, já com menos gente, estava mergulhada na penumbra. Pensei para comigo que deveria ir acender as luzes, mas, acalmando o meu ímpeto, dei por mim a ver o que acontecia. E aconteceu: uma mulher vestida com a farda da Repsol, certamente trabalhadora num posto abastecedor de combustível da reconhecida marca espanhola, levantou-se, acendeu as luzes e fechou as janelas, já que o frio invadia tudo em redor, não fosse os três aparelhos de ar condicionado contribuírem para um ambiente ameno e levemente aquecido.

Os três protagonistas, logo que apanharam um banco vazio só para si, estenderam-se ao comprido e fecharam os olhos. A mulher, com as pernas enroladas, ficou mesmo à minha frente. Durante horas, olhando para cada um deles à vez, fui fazendo uma espécie de catarse, libertação de sentimentos ou emoções reprimidas.

Olhando a mulher deitada no banco com as pernas enroladas em conchinha, relembrei a minha primeira vez, em 1976, em que fui obrigado a dormir num banco de Estação. Foi logo no meu primeiro dia do serviço militar. Era Janeiro. Tinha que assentar praça em Estremoz. Como era intimado a apresentar-me no quartel às 9h00, depois de me informar dos horários, na véspera, abalei de Coimbra de comboio. Só que não me disseram que o trem não ia além da estação de Portalegre, que distava cerca de uma dezena de quilómetros da cidade. Cheguei cerca das 22h00 e só tinha ligação para Estremoz no dia seguinte por volta das 8h00. Dinheiro para pagar a um táxi e pernoitar numa pensão da cidade não havia. A solução foi mesmo passar pelas brasas ali mesmo no banco. Passei tanto frio que, à distancia de 45 anos, ainda consigo sentir o tremor nos ossos.

Pensei que a vida é uma espécie de roleta russa. Em cada seis pessoas, por motivos vários, uma cai no charco e vai descambar.


VIII


O relógio marcava 23h00. A família cigana tinha partido há pouco. Tinha recebido a informação de que não valia a pena esperar pelo diagnóstico. Estava tudo muito atrasado. O melhor mesmo era irem para casa. E foram. O salão tinha agora 8 acompanhantes e os três sem-abrigo estendidos ao comprido.

As informações personalizadas estavam a terminar. A partir daí só telefonando para um número que deveria estar ali anunciado… mas não estava.

Eu já lera os dois semanários que me restavam. Tal como o diário, coloquei-os na mesinha pequena e à disposição de quem quisesse ler. Apenas duas pessoas folhearam o diário. Uma delas foi uma moça cigana. Pensei para mim que a imprensa em papel, acabando os velhos como eu, está mesmo condenada ao desaparecimento.

Liguei à minha amada. Depois de muito reclamar que era diabética, tinham-lhe dado uma copo de água e um pacote de leite. Disse também que a desorientação nas urgências era quase total. Uma senhora ao seu lado tinha recebido a medicação trocada. Para piorar, por que um mal nunca vem só, colocaram-lhe oxigénio… que era destinado à minha companheira. A outra azarada doente exclamou: “Estes gajos querem matar-me”.


IX


Eram cerca de duas horas da manhã. As ambulâncias eram agora mais espaçadas. Passavam duas por hora.

Como se obedecessem a um controle remoto, primeiro levantou-se o arrumador e comeu duas sandes embaladas previamente por si. Senti uma vontade enorme de lhe oferecer uma bebida. Sei lá porquê, não o fiz.

A seguir o Beethoven comeu uma sandes, bebeu um café e foi fumar um cigarro lá para fora.

Em seguida, a mulher de vida difícil levantou-se e foi à casa-de-banho – a propósito, esta parte essencial da higiene humana, apesar de não me ter apercebido de ver alguém a limpar, durante todo o tempo em que estive presente, quer a sanita, quer a bacia de lavatório mantiveram-se sempre limpas.

Tal como os companheiros, a sem-abrigo retirou duas sandes da sacola e comeu com ansiedade.

Eram 3h30 quando recebi um telefonema da minha mulher para me dizer que, provavelmente, ficaria internada e o melhor mesmo era ir embora para casa. E ficou mesmo.

Foram 13h00 à espera. Esta crónica não pretende ser uma via para a crítica fácil a um serviço essencial que, sabemos todos, é estruturante na sociedade portuguesa. Antes é um meio para atingir o pensamento. E todos, mas todos, precisamos muito de pensar o que queremos do SNS, Serviço Nacional de Saúde, para uma vida que, infelizmente, é cada vez mais curta.


domingo, 19 de março de 2023

HOJE É O DIA DOS BONS FILHOS

  



19 de Março é a data atribuída a São José, operário e padroeiro dos trabalhadores e também patrono e protector da Igreja Católica.
Simultaneamente, neste dia celebra-se o Dia do Pai. Ou melhor, é o dia dos bons filhos, aqueles que, com um simples telefonema, ao menos nesta época, não esquecem o seu progenitor.
“Há pais e pais, há filhos e filhos”, como diz o povo. Quer dizer, portanto, que não há procriadores perfeitos nem herdeiros maravilhosos. Uns e outros, no âmbito da sua imperfeição, serão sempre passíveis de ficarem aquém da esperança de ser.
Uns e outros serão sempre o resultado de um tempo cultural, de um costume mais ou menos libertário, de uma circunstância económica, de uma educação acordada e dividida a meias entre o austero e a liberalidade, de frustrações e momentos de felicidade, de muito ou pouco amor dado na infância.
Como tal, por não se saber as quantidades certas dos factores para obter um bom produto, a resultância final balançará sempre entre a alegria e o desânimo.
“É tudo uma questão de sorte”, voltará afirmar o povo na sua eterna sabedoria. Não é certo que um filho muito desejado e muito amado, nascido no seio de uma família de classe média, quando adulto, não seja um escroque, um vadio, uma alma cruel para os seus pais. Uma criança gerada num ambiente paupérrimo, onde pode faltar tudo, desde alimentação até outros bens essenciais, carinho e amor, pela necessidade de ultrapassar a carência, pode perfeitamente vir a ser um pilar de exemplo para os seus e para a comunidade.
Os tempos baralharam tudo. Até aos anos 1970, os filhos estavam subjugados aos mais velhos, pais, avós, padrinhos. Entre eles havia um tratamento reverencial imposto. O trato de “você” era obrigatório. Era normal diariamente os filhos, num acto solene de humildade, pedindo a mão ao progenitor, rogarem: “sua bênção, meu pai!”.
Já não falando nos fortes castigos corporais, por outro lado, era normalíssimo os descendentes entregarem aos pais todo o salário que auferissem no labor do seu trabalho.
A partir do terceiro quartel do século XX, consequência da nova ordem mundial liberal que varreu o mundo, tudo se alterou na relação bilateral entre pais e filhos. Os mais velhos, de mão-beijada, sem pensarem nas consequências futuras, aceitaram conceder aos novos nascidos o poder de decisão que até aí detinham. O poder discricionário, em muitos casos arbitrário, do “Pater famílias”, que já vinha do tempo dos romanos começava a sua iminente extinção.
Os filhos desta altura, por terem sido tão maltratados pelos ancestrais, por ressabiamento com o antanho, desenvolveram uma espécie de reacção de corte com o passado. Os ensinamentos recebidos, que vinham detrás, estavam obsoletos.
O trato de “tu lá, tu cá” passou a ser a nova dinâmica corrente entre velhos e novos. Os filhos, de forma unilateral, em muitos casos, apoderando-se, passaram a ser senhores de decisões no seu dia-a-dia relativas a si e também aos seus ancestrais.
O respeito entre a família, até aí hierárquico e imposto verticalmente, passou a ser, em consequência natural, de aplicação horizontal. Lá em casa, o valor dos votos de uns e outros detinham o mesmo peso. Os mais velhos, perdendo o seu valor empírico e experiencial da praxis, tratados como coisa, ficaram entregues à sua sorte.
A subordinação, progressivamente, foi-se esboroado como castelos de areia batidos pelas ondas do mar.
Sem cálculo intermédio, desaparecendo os princípios do acompanhamento, morais e éticos, que eram o sustentáculo da prole, sem revolta e perante os olhos dos mais velhos, passou-se rapidamente do oito para o oitenta. E a revolução, em nome dos novos tempos, veio para ficar.
Os governos do após 25 de Abril de 1974, minando toda a autoridade do professor na escola, quase fazendo dele um mero narrador de programas que iam mudando conforme o vento, lavrando numa área social desvirtuada que facilmente gerava consensos populistas – tal como hoje se verifica com o exagero na protecção animal , confundindo o caso particular com o geral, tomando o isolado pelo todo, construiram facilmente um detonante complemento educacional-formativo de usar e deitar fora conforme a conveniência.
Se verificarmos hoje, o número de pais maltratados pelos filhos é de tal envergadura que assusta. Por vergonha, se a maioria das queixas que não são denunciadas e sofridas em silêncio no recanto de quatro paredes, se o fossem a colectividade sofria um tremendo abalo sistémico. Olhos que não vêem não sentem.
Bem no fundo, no fundo, nem é para preocupar. “Por que filho és, pai serás”, a natureza, na sua infinita justiça, se irá encarregar de castigar a maldade dos prevaricadores. O que não for perceptível agora, por força do destino, sê-lo-á mais tarde. Sempre assim foi, e sempre assim será.
Já ligou ao seu velho pai hoje? Vá lá! Faça o favor a si mesmo.

sexta-feira, 17 de março de 2023

GRANDE COMÉRCIO: A DEMAGOGIA CONTINUA A CAVALGAR JUNTO COM O POPULISMO (4)

 

(imagem de Leonardo Braga Pinheiro)




“Ter lucros é indispensável.

Mas, se o único propósito for ganhar dinheiro isso já não é bom.

Há que compartilhar com toda a sociedade, com os trabalhadores,

com os fornecedores, com os acionistas.

Mas se não há lucro, não se pode reinvestir, ampliar e manter uma empresa.

Há que transmitir esta mensagem à sociedade”

Juan Roig, presidente da Mercadona



Numa acção mediática concertada, durante mais de trinta anos fomo-nos habituando a ver, a ouvir e a ler que os preços praticados no comércio tradicional eram mais caros em comparação com as grandes superfícies. E nem é difícil de aceitar esta verdade como axioma sem contestação se confrontarmos a capacidade económica de um e outro.

Mas esta mensagem passada aos consumidores (que somos todos) nunca pretendeu estabelecer e atingir o objecto de um paralelo de honestidade intelectual. Pelo contrário, sempre carregou um discurso envenenado.

Por sua vez os sucessivos Governos das últimas décadas, para justificar um descarado proteccionismo ao grande comércio, foram deixando passar que a “mão invisível de Adam Smith”, numa total liberalização, regularia por si mesmo os mercados. Invocando que era bom para os portugueses viverem numa economia aberta, sem empecilhos do Estado, onde as forças em confronto atingiriam um equilíbrio, mesmo nomeando Entidades Reguladoras – que nunca funcionaram com transparência. Numa clara falta de imparcialidade, perante escandalosos oligopólios, como é o caso dos sectores de combustíveis e comunicações, estas entidades sempre pareceram desprezar os mais pequenos.

Eis então que num cenário de guerra e após-pandemia, num palco imprevisível, o Governo PS, com um ministro da economia algo atarantado e sem saber o que dizer, nos apresenta nos últimos dias uma peça bufa, com o burlesco a saltitar de rosto em rosto dos contribuintes das classes baixa e média.

Ao culpar as grandes áreas comerciais de praticarem margens de lucro abusivas, e prometer mandar todo a “infantaria” de fiscais da ASAE para o grande comércio para conter os enormes aumentos, só pode estar a gozar com os reformados de baixas pensões.

Num ridículo sem limite, de repente o país viu-se a contabilizar os preços de venda da cebola, da alface e do peixe congelado. Como se margens de 50% em produtos perecíveis fossem inadmissíveis e constituissem o busílis da questão.

Ao tornar o grande comércio em bode expiatório para acarretar com a responsabilidade dos custos inflaccionistas só pode estar mesmo a brincar com todos nós.