quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O ABROLHOS E O ARRENDAMENTO URBANO



 Ontem não estive com o Almerindo, o Abrolhos, estão a ver quem é, não estão? Já vos falei dele. É um tipo bestial –não seguindo o étimo da palavra, mas no sentido de um bacano; um tipo porreiro. É um fulano como não há igual. É do melhor. Podemos considerá-lo um cromo? Podemos sim senhor. Mas é um cromo de luxo, não daqueles vulgares, que vinham nos rebuçados, lembram-se? Eram de personalidades várias, como os jogadores de futebol, por exemplo. 
O Abrolhos é uma bandeira içada no alto de uma montanha. Onde estiver, pela sua imponência e solenidade, é impossível passar despercebido. Marca um território. O Almerindo tem um carisma particular, uma espiritualidade própria, um “feeling” para tudo o que o rodeia. Confesso que às vezes chego a invejar este homem. Sempre bem-disposto, mordaz, consegue fazer-me rir, pelas suas piadas originais, e, sobretudo, possui uma qualidade que considero sublime: consegue rir de si próprio. É um “coimbrinha” que, mesmo sendo naturalmente hipócrita, no sentido de enganador de conveniência, consegue, embora, sempre, pelas costas, dizer as verdades. 
Gosto dele! Que querem? Adoro tomar a “bica” com ele na esplanada do café Santa Cruz. Bem, desculpem lá, mas vou ter com ele. Vou saber as últimas novidades. Lá está ele, sempre bem vestido como o camano. Vou-me aproximando. Ele está muito introspecto a ler um papel, parece uma carta.
-Bom dia, Abrolhos. Estás bom? É pá, desculpa, que ontem não pude vir cá…
-Ó “meu”, isso não é para nós! Vens quando puderes. Sabes que gosto de conversar contigo -interrompeu-me com seu jeito mordaz.
-Ó pá, então que contas? Novidades? Estou a ver-te aí a ler, completamente entrosado, não me digas que recebeste uma carta de alguma admiradora!? –interrogo, vendo que ele lê, com muito interesse, um papel manuscrito.
-Não “meu”. Apesar de que até gostava. Quem me dera a mim! ando a atravessar uma crisezita no meu casório. Agora que falas nisso…bem precisava de levantar a minha auto-estima…
-O quê? -interrompo-o, intempestivamente. Levantar a tua auto-estima? Tu estás a brincar comigo, não estás, ó Abrolhos? Tu és um sobreiro velho que nunca se abate…
-Isso é o que pensas, “meu”. Quantas vezes rimos para não chorar. Enfiamos a máscara sorridente e passeamos por aí, como se prestássemos um serviço aos outros. Andamos no tempo como se vivêssemos em função deles. Como se fôssemos aquilo que eles querem que sejamos –soletra o Abrolhos enfaticamente, como se estivesse mareando num mar de filosofia.
-Ó Almerindo, desculpa lá, nem te estou a conhecer. Vamos mas é mudar de conversa, pá! Responde lá, afinal, que carta é essa que estás a ler. Foi essa missiva que te deixou assim? –interrogo com uma acutilância quase incomodativa.
-Ó “meu”, é uma carta de uma inquilina para um senhorio. Ela é arrendatária de um terceiro andar, aqui na baixa, em muito bom estado de conservação. Sabes quanto paga?
… (fica a olhar para mim, à espera da resposta).
-Ó pá, não imagino, mas tendo em conta que as rendas são muito baixas…deixa ver, deixa ver... deixa-me pensar…talvez 100 euros –alvitro, quase a jogar um número para o contentar.
-Ó “meu”, é vergonhoso, isto. Ela paga cinco euros e vinte cêntimos de renda mensal. Tu já viste este abuso de direito, “meu”? Ainda por cima com exigências, como estou a ler aqui?! Tu já vais ler que eu já te passo a carta. Ó “meu” eu moro na Baixa… –a cara do Abrolhos está mesmo indignada, está franzida de dureza. Queira Deus que não lhe dê uma qualquer "solipampa".
-Ó pá, se calhar essa inquilina tem mais de 65 anos –tentei amenizar o clima de indignação do Abrolhos.
-Ó “meu”, tem! Mas a idade não pode ser -não deveria ser- condição "sine qua non" para coarctar o legítimo direito ao proprietário de aumentar as rendas. Por isso é que tu vês esta miséria de abandono e mau estado dos prédios aqui na Baixa, e em todo o país. Isto é transversal, infelizmente.
-Mas, espera aí, ó Abrolhos, eu não percebo muito disso, mas não houve, no ano passado, alterações ao código de arrendamento? Até lhe chamaram Novo Regime de Arrendamento Urbano? –interrogo, com desmesurado interesse. Agora a conversa está a caminhar bem.
-Houve sim,”meu”! Mas foi como se não houvesse! Foi simplesmente uma operação de charme, de cosmética. Sabes “meu”, como se fosse a Lili Caneças, nova por fora, mas por dentro completamente esclerosada e anacrónica.
-Então mas não teve efeitos práticos nenhuns? –interrogo.
- Praticamente nada! Num universo de 390 mil contratos, apenas 70 foram actualizados. Isto é um descalabro para as cidades. E repara que já passou um ano desde a entrada em vigor do novo regime –refere o Abrolhos.
-Mas porquê? –interrogo,
-Ó “meu”, porque está tudo mal. Uma lei para ser justa e equitativa tem sempre de ter em conta os direitos e as obrigações, harmonizando os interesses das partes conflituais a quem se destina. Ou seja, como neste caso, inquilinos e senhorios, aqueles são vergonhosamente favorecidos e estes, os proprietários, continuam a serem tratados como se fossem capitalistas ricos, como neste caso desta carta. Isto é como se, estes, tivessem de subsidiar os reformados, substituindo-se ao Estado –explica-me o Abrolhos, com ar solene, como se fosse um professor de direito.
-Mas, diz-me, com esta lei complicaram tudo, foi? –interrogo
-Ó “meu”, completamente. Só para entenderes, criaram as CAM (Comissões Arbitrais Municipais), no entanto, num universo de 308 Municípios, apenas 27 foram até agora constituídas. E repara já passou um ano –continua o Abrolhos a explanar.
- Mas, diz-me, pá, essas Comissões “não-sei-de-quê” vêm resolver alguma coisa? Pergunto, assim como “naquela coisa”.
-Nada, pá! É uma armadilha para os proprietários. Quem pedir uma avaliação está “lixado”, é feita a reavaliação das matrizes dos prédios e o novo aumento de renda não dá sequer para pagar o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) –retorque o Abrolhos, sempre acompanhado de gestos com a mão, como se estivesse a dar uma aula.
-Ó pá! Deixa-me ler essa carta da inquilina para o proprietário. Deixaste-me curioso – solicito em tom neutro.
-Toma “meu”! –entrega-me a carta na mão. Vou começar a lê-la:


“Coimbra, 22 de Julho de 2007


Maria Apaniguada Malempregada Berlaitada


“Inquelina” do 3º andar do prédio sito na “Rua da má-língua”, nº4-3ºandar Coimbra, vem por este meio relembrar aos proprietários Senhor António Calça Rota e mulher, digo relembrar porque no mês de Novembro 2006, foi informado que havia infiltrações de água provenientes do mau estado do telhado e, assim como viu, e disse-me que precisava do telhado ser novo, e que eu tinha que esperar.
E como se está no verão, desde já agradeço que mande fazer as devidas reparações no telhado, porque estragos no recheio mobiliário, e bem assim como no tecto (isto é que fica por debaixo das telhas) e objectos partidos no arranjo do telhado ser pagos e arranjados.
Outra coisa também para ser reparada é a canalização da água, que não está em muito boas condições.
Agradeço que me avisem antes das obras, para eu poder acautelar as minhas coisas.
Que não seja, como em tempos recuados que não me avisaram, fizeram o que quiseram; era água por todos os lados e lixo.
Há outra coisa ainda:
As obras nos telhados tem que ser rápidas, e seguidas. Não se pode
arranjar dum lado e passados 15 a 20 dias arranjar a outra parte que falta.
Sem outro assunto de momento subscrevo-me atenciosamente.
(Maria Apaniguada Malempregada Berlaitada)


-Ó Abrolhos, isto é de mais! Realmente temos aqui uma casa bem arranjada, como quem diz, mal desgraçadamente –refiro, abanando a cabeça, para cima e para baixo e franzindo o sobrolho. Mas, há uma coisa que me está a espicaçar. Tu moras na Baixa, és inquilino e estás tão contra os inquilinos?
- Olha “meu”, conheces-me, eu não posso com injustiças! Sempre fui assim, desde que me conheço –refere o Almerindo, levantando o queixo com grande aprumo.
-É verdade, pá! Eu conheço-te! E por te conhecer bem é que te pergunto: quanto pagas de renda?
-Ó “meu”, não confundas as coisas! Já estou na minha casita há 25 anos. E mais: quando fui para lá a renda era uma fortuna. Além de mais sou eu que tenho sempre pintado tudo a expensas minhas…-responde o Abrolhos um bocado para o irritado.
-Está bem, pá! Mas quantos pagas, afinal?
- Ó “meu”, pago 50 euros. Mas para o estado da casa é de mais – responde divagando como se não falasse para mim.
Como sempre fico de cara à banda com as respostas carregadas de solenidade e justiça do Abrolhos…

terça-feira, 7 de agosto de 2007

UMA HISTÓRIA DOMÉSTICA MUITO VIOLENTA

(IMAGEM DA WEB)


 A primeira vez que vi o João, há cerca de dois anos, pareceu-me um rapaz todo desempenado fisicamente e, pelo pouco que falei com ele, bem formado intelectualmente. Contou-me os sonhos de independência financeira, normais num jovem de 20 anos. Ou, provavelmente, muito mais do que isso, o que pelo facto de simplesmente sonhar –sendo o sonho o princípio da realidade- me levou imediatamente a admirá-lo. Até comentei: “a Margarida teve muita sorte no rapaz que escolheu para seu futuro marido”.
A Margarida é minha prima em segundo grau. Uma miúda linda, própria duma mocetona de 20 anos. De cara angélica e um corpo de "barbie", a boneca criada por Ruth Handler em 1936.
Eu sabia que eles estavam a morar numa aldeia próximo de Coimbra, na mesma casa dos meus familiares. Há cerca de três anos em união de facto, num andar independente, mas de entrada conjunta. Sabia também que eles marcaram o casamento há tempos. Nunca me preocupei em saber como corria a sua relação. Dei por acabado que seriam mais um casal como tantos iguais a outros e fiquei à espera de ser convidado para a celebração do casamento.
No Domingo recebi um telefonema meio angustiante: “tio quando vens cá?...precisava de falar contigo…”-esta comunicação era da mãe da “barbie”, minha prima directa.
Passei então no Domingo, cerca das 21 horas.
-O que se passa”-interroguei- algum problema grave?
-Tio, a Margarida separou-se do João há cerca de um mês…-começou a contar a minha prima- e agora ele não a larga. Ameaça-a constantemente pelo telefone. Há dias deu-lhe um brutal tabefe num café, perante outras pessoas, que ela ficou com os dedos dele marcado no rosto. Como ela trabalha até à meia-noite, em Coimbra, e se desloca no seu carro, ele já, por mais de uma vez, a foi esperar a meio do caminho e, continuadamente, persegue-a. Há uma semana foi ao trabalho dela e ameaçou-a, conjuntamente com um seu colega de trabalho do qual ele sente uns ciúmes desgraçados.
Há dias encostou-lhe uma arma à cabeça e disse à Margarida que a matava se ela não voltasse para ele…-contou, em narração, a minha familiar de lágrimas nos olhos.
-E o que aconteceu agora –interrompi-a- estão juntos outra vez?
-Ela voltou para junto dele ontem, sim é verdade –responde a minha prima.
-Mas achas que ela voltou para ele devido à pressão emocional ou ao medo que ele lhe possa incutir? O receio de represálias físicas? –perguntei com acutilância.
-Tenho a certeza que sim. Ela teme-o. E nós também. Como ele tem, ainda, a chave de casa, vem de noite, faz barulho e vai ter com ela ao quarto, forçando-a…
-Diz-me uma coisa –interrompo- esta violência já vem de longe, não é verdade?
- É sim tio! Ainda eles não viviam juntos, e ele lhe deu uma “malha”. Depois vieram para aqui morar e era uma constante. Há cerca de um ano ela apareceu com um olho todo negro e um dedo “deslocado”. Perguntámos-lhe o que tinha acontecido e a Margarida respondeu que fora uma cotovelada do João…sem querer.
-Então, e, perante esse quadro de violência, ninguém fez nada? –interrogo, entre o incrédulo e o estarrecido.
-Não tio, a gente não gosta de se meter. “Entre marido e mulher não se deve meter a colher”…-responde a minha familiar com sofrida ignorância.
-E se ele a mata? –interrogo- como é que vocês ficam com a consciência? Não sabes que a polícia serve para prevenir esses casos?
-Pois é tio, eu sei, mas o meu marido não quer saber…
- Queres que eu apresente queixa? Acho que devo fazê-lo, é uma obrigação cívica, até, além de mais, para prevenir alguma coisa que possa acontecer –interrogo a minha prima.
- Sim tio. Faça-o!
Depois de ter tomado nota dos nomes da “barbie” e do agressor malfadado rumei ao posto mais próximo da GNR. Pelo caminho ia rebobinando este enredo de terror e fui fazendo o balanço desta família, dividida entre a cobardia e a omissão. Agarrada a aforismos estereotipados que, sendo levados à letra, dão um “geitão” para evitar chatices. Miséria de ignorância das pessoas. Povo atrasado, quase a cair para o mental. Ia simplesmente indignado.
E, a pensar neste abominável caso, cheguei ao posto da GNR, da cidade mais próxima desta aldeia. Eram cerca de 22 horas. Toquei à campainha da porta, veio um guarda e disse-lhe que pretendia efectuar uma participação de violência doméstica. Entrei.
-Violência doméstica? –interroga o cívico, como se tratasse de algo pouco comum- o senhor tem os elementos todos?...O nome da vítima, o nome do agressor? Onde moram?...tem tudo isso?...Mas a vítima não pode vir cá amanhã?
Com manifesta pouca tolerância, repliquei:- O senhor agente, sabe, melhor do que eu, que a violência doméstica é um crime público. E assim sendo, a mim cabe-me despoletar a situação, é a minha obrigação como cidadão. Tenho aqui alguns dados e os posteriores serão da responsabilidade do Ministério Público e da vossa polícia –repliquei sem disfarçar algum enfado.
-Pois, pois! Apenas estava a referir os dados porque é preciso preencher 14 folhas -respondeu o GNR, um pouco mais calmo, como admoestado.
- Senhor agente eu estou disponível. Estou aqui para isso -repliquei.
Começámos a fazer a participação, eu ia falando, ele ia escrevendo no computador.
No fim, deu-me a participação e disse: “assine aqui, se faz favor”.
Referi que gostaria de ler antes de assinar. Li, e no tocante às minhas declarações de denunciante, reparei que numa frase de cerca de duas dúzias de palavras haviam pelo menos 6 erros ortográficos. Comecei a pensar o que deveria fazer. Deveria dizer-lhe, ou não? "Digo, não digo…talvez não deva dizer?". Em conflito mental, acabei por optar no sim, com alguma relutância: “o senhor agente desculpe…” –e o homem lá emendou as minhas declarações.
É preciso dizer mais alguma coisa? Este é o país que temos. Quem ler este texto que faça o seu juízo de valor.


(HISTÓRIA VERÍDICA)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O ABROLHOS E O ENCERRAMENTO DA CENTRAL

Hoje é 2ª feira. Vou falar com o Almerindo Abrolhos. De certeza absoluta que depois de um fim de semana, deve ter imensas novidades para me contar. Vou então, em direcção à Praça 8 de Maio, ao Café Santa Cruz, o "poiso-feliz”, ou “porto de abrigo” do meu amigo Abrolhos.
Ena pá! Tanta gente! O que é que se passa aqui?! Ah…estou a ver ali a Televisão. É a RTP1…é o programa “Praça da Alegria”. Daí toda esta assistência. A locutora pula de cara em cara, tentando obter uma declaração. Todos se esforçam por aparecer no pequeno écran. Individualmente, todos procuram os quinze segundos de fama. Aquela senhora, está a falar. Olhem para a cara dela! Reparem no ar formal, como se estivesse, pelos trejeitos do rosto, a dizer: “mamã estou aqui! Sou eu mesmo mamã! Estou na televisão!”
A esplanada do Café está repleta. Aposto que o Abrolhos não está lá. Ele detesta magotes de gente. Está ali uma pessoa que conheço. Vou perguntar-lhe se viu o Almerindo.
-Bom dia, estás bom Armindo? Desculpa lá, viste por aqui o Abrolhos?
-Vi-o, há uma hora, a entrar na Central, aquele Café encostado ao Nicola, ali à frente, na Rua Ferreira Borges, estás a ver onde é? –interroga-me o meu amigo.
-Claro, pá! Quem não conhece a “Central”, um dos mais emblemáticos cafés da cidade –respondo enfaticamente.
Deixo todo aquele rebuliço da Praça 8 de Maio, ao som do Toy, com o seu refrão “perdidamente apaixonado”. Enquanto não chego à Central, vou pensando na canção do Toy. Engraçado, o amor é como a felicidade, todos corremos atrás deles, como um horizonte perdido no espaço visual. Quando encontramos qualquer um deles, como invisuais, não os reconhecemos, e como indigentes carenciados, continuamos repetidamente à procura. É como se, obsessivamente, precisássemos desta utupia.
Enquanto vou caminhando, lembro-me do Abrolhos. Um ser tão especial. Sempre bem disposto. O facto de estar desempregado há mais de cinco anos não modifica a sua disposição, antes pelo contrário. E agora, parece-me, creio que o seu casamento longo está atravessar uma grave crise. Nem mesmo assim perde a sua mordacidade. Parece que qualquer dissabor, por maior que seja, tem um efeito ejector na sua alegria.
Bom, estou a chegar ao Café Central. Vou entrar. Lá está o Abrolhos. Sentado ao canto, junto às casas de banho. Ele escolhe sempre um sítio onde possa ter uma panorâmica geral de tudo o que se passa à sua volta. Como sempre, está impecavelmente vestido. Com o seu pólo Califa, as suas calças vincadas –engraçado, nunca vi o Almerindo de calça de ganga- e os seus inconfundíveis sapatos de verniz, das Sapatarias Romeu. Olho à volta. O café está praticamente cheio. É quase tudo gente de mais de meia idade. Essencialmente senhoras, possivelmente reformadas, todas apinocadas. E um pormenor engraçado: duas ou três senhoras têm uma cadelinha, ou cão, no regaço. Parecem que afagam um bebé, tal a forma carinhosa como o apertam contra o peito. Há cães com sorte, penso para mim…
-Bom dia, Abrolhos! Hoje mudaste –sublinhei o “mudaste” a lembrar o anúncio da televisão- de poiso –perguntei, dividido entre a interrogação e a constatação.
-Mudei, “meu”, hoje a Praça 8 de Maio está impossível! Estes parolos parecem que nunca viram a televisão. Parecem macacos. Até me enerva esta pacovice barata –responde o Abrolhos.
-É pá, tenta ver as coisas de outra maneira –replico, sem grande convicção- afinal, se atentares, a televisão raramente fala do que se passa aqui, ou vem à cidade. Apesar de ter aqui um departamento, raramente foca a urbe, é como se não existisse. O país está dividido em Lisboa e Porto e o resto é mesmo paisagem.
-Ó “meu” talvez tenhas razão, mas que embirro com isto embirro, pronto! –replica o Abrolhos.
- Vamos mudar de assunto –opino- conta-me as “últimas”. De certeza –eu conheço-te- não vieste a este café apenas porque te enerva o pacovismo das pessoas. Estou errado?
-Ó “meu” tu surpreendes-me! Às vezes chego a pensar que és presciente….
-Sou quê? Estás a insultar-me… Abrolhos? Interrogo, ampliando uma cara de chateado à brava.
- Não, “meu”! “Presciente” quer dizer adivinho…
-Ah…bom! Fico mais descansado, pensei que me estavas a insultar. Respondi com ênfase.
-Realmente, “meu”, estou aqui por solidariedade para com este Café, que regurgita o nosso passado e faz, intrinsecamente, parte da nossa memória colectiva…
-Espera aí! –interrompo abruptamente o Abrolhos- não me digas que é mais um Café que vai fechar? Estou a ver! Mais um “pronto a vestir”! Depois do “Arcádia e da “Brasileira”, é mais um. É pá, não posso crer!
-É verdade, “meu”, infelizmente! Li no Jornal “Campeão das Províncias”. Ó “meu” estou em choque, isto é um sítio curtido. Não há outro igual. Se encerrar é mais um pouco da nossa história, um pouco de nós que se vai –declama o Abrolhos, com uma tristeza nos olhos que fazia dó.
Claro que eu sei que a sua tristeza advém, essencialmente, da falta que ele vai sentir daquelas “cotas” todas aperaltadas, e que, como passagem de modelos, diariamente, posam na “Central”. Com o seu decote pronunciado, como se estivessem a reavivar nos homens um deleite ultrapassado, e sua saia, puxada intencionalmente para o meio das coxas.
- Ó pá, tens razão, mas o mercado é dinâmico, e, naturalmente, uns nascem e outros morrem –tentei consolar o Almerindo.
-“Meu”, este espaço é curtido, faz-me falta, é um candeeiro, na noite escura, da cidade, que se apaga. É mais um que se vai.
-Ó “meu”, paga-me aí o café que me esqueci do dinheiro em casa -levanta-se, vai-se embora, e deixa-me a falar sozinho.
Como sempre fico sem palavras perante o atrevimento do Abrolhos…

sábado, 4 de agosto de 2007

O ABROLHOS NAS FINANÇAS

Lá está o Almerindo Abrolhos sentado na esplanada do Café Santa Cruz. Estão a vê-lo? Não há dúvida! Reparem naquela classe. Aquele homem é uma obra de arte viva. Olhem para aquela pose! Atentem bem. O que vos faz lembrar? Pensem um pouco. É isso mesmo…só que vivo. Sem dúvida parece o Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado, em Lisboa. Tem muitas parecenças. Mas o Abrolhos é muito superior. É uma estátua viva.
Lá está ele a ler o "Diário de Coimbra". Reparem, olhem o que vai acontecer. Estão ver aquela turista de mini-saia e com decote até ao umbigo? Já vão ver o que acontece. O abrolhos parece que pressente, é como se tivesse um sexto sentido. Quando ela passar ali perto, da sua mesa. Tomem atenção. Agora! -O Almerindo levanta os olhos do jornal e, com olhos, segue-a. Reparem no brilho dos olhos deste D.Juan. Eu não vos dizia? Este Abrolhos é surpreendente.
Se não levam a mal, vou tomar um café e conversar um pouco com ele.
-Bom dia Abrolhos! É pá! Estás todo produzido. Este teu perfume…(snif…snif), que cheirinho! È “Banderas”…não é?..Sinceramente, não admira que as mulheres te caiam no regaço. Com esta envolvência perfumática…
-É verdade…”meu”…é mesmo “Banderas”…como é que adivinhaste?...Fogo, com essas cheiradeiras, ainda és convidado para cão-pisteiro da GNR.
Não pude evitar uma sonora gargalhada, pela imediata reacção do Abrolhos. Toda gente começou a olhar para mim. Numa altura em que anda tudo triste, de sobrolho franzido, e eu a rir daquela maneira, das duas uma ou sou louco, ou inconsciente –terá pensado aquela gente, pela forma fixativa como me olhavam.
O Abrolhos, hoje, está vestido que é um espectáculo. Calça branca, bem vincada, repetidamente por um ferro de engomar, uma t-shirt azul céu, da Lacoste, e os seus emblemáticos sapatos abicados, de verniz, da Romeu. O seu penteado para trás, à Errol Flynn, misturado com brilhantina.
Vou chateá-lo. Vou fazer-me distraído, e, como se fosse sem querer, vou calcar-lhe um sapato. Vamos ver o que acontece.
-Desculpa ó Abrolhos, foi sem querer, estava distraído, desculpa ter-te pisado.
-Olha “meu”, não faças isto, detesto que me pisem, sempre abominei. É o meu sentido de independência e liberdade –replica o Abrolhos, sem conseguir disfarçar uma irritação surda, ao mesmo tempo que retira do bolso um lenço branco e impecavelmente dobrado. Dobra-se sobre o sapato maltratado e limpa-o com todo o amor e carinho, como se estivesse a cuidar de um menino.
-Desculpa lá, foi sem querer. Não voltará acontecer – repliquei, com sentido pesar e engelhando a cara, para parecer mais convincente.
-Ok, “meu”. Estás desculpado, sei que eras incapaz de fazeres isto de propósito. Conheço-te…
-Vamos falar de novidades –interrompo-o- pressinto que hoje estás tenso, estás continuamente a tamborilar os dedos sobre a mesa. Até me estás a irritar. O que se passa contigo hoje? Desembucha, homem. Somos amigos, não somos?
-Claro! Desculpa, realmente, hoje, não estou nos meus dias –responde o Abrolhos.
-Porquê? Interrogo. Aconteceu-te alguma coisa que não contavas?
-Bem! Contava e não contava. Deveria ter pago o selo do carro até ao dia 31 de Julho, mas como andava mal de “pilim”, deixei passar o prazo…
-Ainda tens o MG vermelho, de jantes raiadas, descapotável? –cortei eu, de supetão, interrompendo a explanação do Abrolhos.
-Claro, “meu”. O meu carro é a minha alma, a minha identidade, é tudo o que eu sou.
-Continua, desculpa ter-te interrompido. Não pagaste então o selo dentro do prazo –incentivei-o a continuar a narração.
-Pois. Como não paguei atempadamente, fui então às Finanças, ali na Fernão de Magalhães -“tas” a ver?-, logo a seguir, no dia 1. É pá! Montes de maralhal! Esta gente deixa tudo para os últimos dias. Já viste? Este povo é ingovernável, como dizia o tal imperador Romano. São desleixados até à última.
-Então mas ficaste chateado porquê? Não estou a perceber! –Atalhei, meio desconfiado de que deveria haver mais alguma coisa.
-Ó “meu” é que acabei por me vir embora, no dia 1. Era tanta gente. Tudo a olhar para o visor electrónico sequencial das senhas. Era giro. Só queria que visses, tudo de nariz no ar, à espera da sua vez. Mas as chamadas rodavam lentas. Parecia o jerico do Zé Malacueco.
-Mas, interroguei, andava assim tão devagar?
-Andava!? Ó “meu “ a fila não andava, rastejava como um cágado. Havia sete guichets de atendimento mas só quatro estavam a atender. “Tas” a ver, não “tas”?
-Ó pá, também estamos em mês de férias, é Agosto, deve haver menos pessoal –contrapus.
-Olha “meu”, lá o andar devagarinho ainda vá que não vá, mas o que me chateou verdadeiramente foi a cara de enterro dos funcionários. Dois homens e duas mulheres. Só queria que visses o seu semblante. Só uma senhora funcionária, por acaso linda, palavra de honra, de cabelos compridos, é que de vez em quando lá arrancava um sorrisito muito a custo. Ó “meu”…mas se visses quando ela ria. Ai meu Deus!..Que espectáculo…
-Então, voltas lá para a semana –reconfortei o Abrolhos, calculando que voltaria às Finanças com muito gosto pela funcionária de cabelos compridos.
-Ó Abrolhos, deixa-me gabar essa tua camisete da Lacoste. É linda! Foste aos saldos, já estou a ver…
-Ó “meu”, se és meu amigo, não me fales em saldos. Eu abomino os saldos. “tas-me” a ver aí a vestir o resto dos outros? Vade Rectro! Parece que não me conheces. Tem dó, “meu” –replica o meu amigo, quase a espumar pela boca. Desta vez é que deixei mesmo o Abrolhos irritado.
-Ó “meu”, queria pedir-te um favor. Podes emprestar-me 50 Euros?
Fiquei de queixo em baixo a olhar para o Abrolhos…

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A APRESENTAÇÃO DO ABROLHOS



 Hoje, lembrei-me de vos trazer um personagem interessantíssimo que, seguidamente, irei apresentar-vos: Almerindo Abrolhos.
O Abrolhos –para os amigos, como costuma enfatizar -é um homem que gosto muito. Todos os dias estou com ele. Qualquer novidade, “trica”, ou “diz-que-disse”, nada lhe passa ao lado. Este homem, pela força da vida, pela sua experiência empírica, tornou-se relações públicas, psicólogo, filósofo, antropólogo, político, gestor, enfim, uma instituição de sabedoria. Olho para ele como uma mistura de admiração e alguma comiseração pelo seu procedimento. Mas, inevitavelmente, acabo sempre a admirá-lo. O Almerindo é um contorcionista social, um camaleão, jogando ao sabor das cores da conveniência própria. Para quem vive, e viveu, em Coimbra é o chamado “coimbrinha”. Um tipo que vive de esquemas, no interstício do sistema; duma inteligência invulgar e de uma voracidade de conhecimentos que amanhã lhe possam vir a ser úteis. O chamado “chico-esperto".
Quem quer encontrá-lo basta deslocar-se ao Café Santa Cruz, na Baixa de Coimbra. É o seu quartel-general, como costuma soletrar com alguma solenidade. No verão, neste Agosto de canícula, logo de manhã, lá está ele na esplanada do café, e junto à Igreja com o mesmo nome do estabelecimento. Na sua mesa, a chávena de café e três jornais. Dois diários da cidade, “As Beiras” e o “Diário de Coimbra”, e um diário nacional, “O Público”.
O café, “a bica”, que tomara há pouco, fora servida pelo senhor Costa, o empregado de mesa, que nas horas vagas é pintor de telas e aguarela.
O Almerindo tem aproximadamente 45 anos. Desempregado de longa duração. Trabalhou numa fábrica, ali para os lados da Pedrulha, mais de 25 anos. A empresa encerrou há cerca de 5 anos. No princípio, esta vacuidade de vida deprimia este excelso homem de cultura paisagista da urbe. Hoje, fruto do tempo, habituou-se e sem querer outra vida costuma referendar aos amigos que é um desempregado profissional, desempenhando o seu trabalho com empenho, dedicação e carinho.
Toda a gente gosta deste homem. É normal oferecer uma sandes e um sumo à miúda romena que lhe pede uma “moedinha, senhor”! Durante o dia, talvez pela proximidade, vai várias vezes à Igreja. É um católico fervoroso, dizem.
Eu gosto do Abrolhos, não só porque diariamente me dá as notícias de tudo o que se passou no dia anterior na cidade, mas também pela sua pose encenada ao pormenor. Tudo está de acordo com o personagem, como se ele fosse um “Casanova”, o escritor e aventureiro italiano que viveu entre Veneza e Londres, por meados do século XVIII. Ou então, de há trinta anos atrás, quem não se lembra, em finais da década de 70, do "Tonico Bastos", da novela da RTP, “Gabriela Cravo e Canela. Ou, ainda, na actualidade, um "Zé Camarinha", conquistador do belo sexo, dos Algarves e além-mar. O Almerindo é um ícone. Adoro os seus gestos maneiristas, o seu olhar sedutor. Aos seus olhos, não há mulheres impossíveis de conquistar. Tenho de confessar que ao pé dele sinto-me pequenino, quase insignificante, mas cada um é para aquilo que nasce. Eu nasci para trabalhar, ele para conquistar, e certamente deixar o seu nome gravado a fogo de paixão na história da cidade.
Basta reparar na sua imagem. É impossível ignorá-lo, quer seja homem ou mulher. Claro que estas falam a mesma linguagem do Abrolhos. É como se o homem tivesse herdado os genes da mãe e , ao vê-las, houvesse um clique e um entrosamento espiritual entre estes dois géneros, masculino e feminino.
As suas calças vincadas –hoje, por acaso, brancas-, a sua camisa de cor rosa desmaiado, e nas costas o pullover atado no pescoço. O seu sapatinho abicado, de verniz, comprado na Romeu –como gosta de apregoar, alto e bom som. O seu cabelo, penteado para trás, com um pouco de gel fixador, preto, pintado, obviamente, para disfarçar umas cãs rebeldes, que um conquistador nunca se entrega a uma velhice temporal. Eis então o Almerindo Abrolhos. Vou fazer as apresentações:
-Almerindo…apresento-te estes senhores –e aponto para vocês.
-Prazer, Abrolhos, para os amigos –levanta-se da cadeira e faz uma reforçada vénia, com o braço direito a fazer um largo e exagerado círculo de enleio.
Em frente a nós vai a passar um janota bem vestido, parece-me conhecê-lo. O homem dá de caras com o Abrolhos, faz um desvio e vem ter connosco à nossa mesa.
-Bom dia Abrolhos! Cumprimenta o passante, com voz repenicada, deve ser político, penso para mim.
-Bom dia Senhor Doutor, como vai? Gostei muito de o ouvir discursar ontem na Câmara. O Senhor Doutor marca a diferença num hemiciclo onde pondera a mediocridade. Vai ser deputado, pelo partido, nas próximas legislativas, não vai?
Reparei nos olhos do homem, até brilhavam de tanto elogio encomiante.
-Ó Abrolhos…não diga isso… não diga isso… há lá muito melhores do que eu –esta frase foi dita a titubear, quase aos soluços pela emoção.
O homenzinho foi embora, depois de ter pago os nossos cafés, e de se despedir com mil lisonjas ao Abrolhos. Para mim, nem sequer olhou. Era como se eu nem existisse, e como se estivesse invisível.
-Ó Abrolhos, desculpa lá, conheço este gajo de qualquer lado. É político não é? Interroguei.
-É…”meu”…é um vereador do PSD, ali na Câmara…um estronso qualquer-enfatizou.
Entretanto, na mesa ao lado sentou-se um casal quarentão. O homem lê um jornal e a mulher parece divagar, de olhar distante, talvez perdido numa memória.
Às tantas, começo a ver a troca de olhares furtivos, carregados de sensualidade, entre ela e o Abrolhos. Ena pá! O que estava ali a acontecer era um milagre de fluidos químicos entre mortais.
A mulher remexia-se na cadeira, como se estivesse tocada pelo demónio. Eu, sem saber o que fazer, apetecia-me fugir, mas estava preso nesta peça teatral. O olhar dela –meu Deus- parecia querer embrulhar o Abrolhos. Nunca vira nada assim!
Sub-repticiamente, levou as mãos aos seios, acariciando-os e subiu a saia ligeiramente, pondo à mostra uma perna torneada, certamente, por um artista metafísico.
Murmurou qualquer coisa ao ouvido do marido, que continuava entretido a ler o jornal, e, com um longo olhar de enleio, convidou o Abrolhos a seguí-la. Ela levantou-se e entrou na Igreja de Santa Cruz. O meu companheiro de mesa, como autómato, seguiu-a. Nem se despediu de mim. Estava explicada a religiosidade do Abrolhos…

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

UM DIA SEM CARRO

O meu carro, talvez contagiado pelo dono, anda com problemas. Sinto-o abatido, com pouco ânimo. Nos últimos dias, logo de manhã, custa a pegar. Parece que está cansado, pareço sentir-lhe a língua de fora. Levei-o ao seu terapeuta, como quem diz ao mecânico, mas este disse-me que era um problema no sistema electrónico e, assim sendo, como se fosse o seu sistema nervoso, o melhor era levá-lo ao psiquiatra, como quem diz à marca. Sim, porque eu, como gente rica, tenho dois mecânicos, um para coisas simples e a marca para coisas complicadas. Ser rico não é fácil, tem destas coisas. Uma pessoa tem de ter tudo a dobrar. Tem duas vozes que usa conforme as ocasiões. Uma, a mais humilde, assim um pouco a cair para a cana-rachada, que emprega, como lana caprina, com a plebe, em que não se preocupa com o vocabulário, no dia-a-dia. Outra mais grossa, mais empolgante, mais formal, diria uma “voz de senhor doutor”, em que o léxico é escolhido ao milímetro, onde não se permitem deslizes ou verborreias verbais. Ser rico é poder até adiar a morte, como quem diz o anúncio, como aconteceu com Antonioni, o realizador de cinema Italiano, que coitado do pobre homem, então não é que o destino quis que ele morresse no mesmo dia do Ingmar Bergmam? Sinceramente, foi uma desclassificação. Logo morrer no mesmo dia do maior cineasta Sueco. Então a família, para não coincidir com o outro ícone do cinema, adiou o anúncio da morte do meu ex-amigo Antonioni. Fez bem? Claro! Gente rica e famosa é assim. Você tem inveja? Olhe vá bugiar e seja famoso. Alguém tem culpa de você ser um apagado escriturário de 3ª classe? Essa mesquinhes de portuguesito paupérrimo, de bolso roto, de tanto procurar uma moeda, e de sola gasta num sapato que já viu melhores dias. Sinceramente, parece uma pandemia!
Bom, mas com a conversa, quase que me perdi. Fui então à marca, ali para os lados da Pedrulha, que dista para aí uns oito quilómetros da Baixa da cidade de Coimbra –evita de estar toda curiosa que não vou dizer a marca, que cusquice barata, meu Deus, a paciência que tenho de ter com estes pobres.
Deixei então o meu bólide. A marca disponibiliza transporte gratuito –para gente rica como eu, é claro! Mas eu hoje, apetecia-me ser pobre. É daqueles dias que só a psicologia explica. Vai daí, não pedi transporte e fui para a paragem do autocarro em frente. Não fazia ideia a que horas passaria o autocarro. Como eram 9 e 10 minutos, pensei para comigo:”e se eu apanhasse uma boleiazita até à baixa?”. E se melhor o pensei, melhor o fiz. De braço estendido, polegar em riste, aí estava eu, todo lampeiro, como um pobre qualquer. Passou o primeiro, mulher por acaso, só por acaso, nem para mim olhou. Bolas, senti-me completamente insignificante. Bom, foi por acaso, pensei. Veio o segundo, um homem a conduzir, olhou para mim, engelhou a cara, torceu o nariz, arranhou na cabeça e continuou viagem. O que quereriam dizer aqueles gestos? Pensei. Será que ele adivinhou que eu era rico e estava ali a fazer-me passar por pobre? Só podia ser isso. Continuei de polegar em riste. Passou uma senhora, duas, três, quatro, e nada. Alto e pára o baile, agora é que vai ser, pensei, este que vem aí é dos meus, um Mercedes e conduzido por um homem, já cá canta, esfreguei as mãos de contente. Pois sim! O janota piroso, olhou para mim, mediu-me de alto a baixo, e como se pensasse, “querias ser como eu, não querias?” E deixou-me ali a olhar para o traseiro do seu Mercedes. Ainda gritei: “EU SOU DA TUA CLASSE…SOU DA CLASSE A”…mas está bem, ele desapareceu e foi engolido pela curva da rotunda. Até uma carrinha de transporte me ignorou, francamente.
Pois é verdade, ser pobre não é fácil. Durante vinte longos minutos, ninguém me deu boleia. Certamente pensavam que os pobres devem andar de autocarro...e foi o que me aconteceu. Surgiu então um autocarro parcialmente cheio. Reparei que cerca de 80% eram utentes com mais de 50 anos. Só talvez 20% seriam jovens. O que é que isto quer dizer? Nada. Apeteceu-me referir, só isso. Depois de levar com um velho em cima, numa curva, lá cheguei então ao princípio da zona baixa da cidade. Para minha surpresa o autocarro faz inversão de marcha e eu, como caminhante estagiário, desci e fui a pé, cerca de dois quilómetros. Bolas…é complicado ser pobre…

UM POEMA DESNORTEADO

Hoje não tenho motivação,
estou perdido no espaço,
sinto-me sem inspiração,
quase não sei o que faço,
como se tivesse maldição;
Se tenho, alguém me amaldiçoou,
e esse alguém anda por aqui, certamente,
alguém que nunca me perdoou,
mesmo que me ajoelhe nunca vai ser indulgente,
mas se assim é, sei que jamais me amou;
E o que posso fazer para quebrar o feitiço?
Talvez fechar-me numa redoma?
Atar-me como um chouriço?
Evitar que alguém me coma?
Ou não devo fazer isso?;
Alguém me pode ajudar?
Quem me tira este tormento?
Pode ser contrapoder, e me amar,
mesmo que seja só por um momento,
retire esta dor lancinante e me possa sarar;
Quero lá saber se é muito ou pouco bela,
quero apenas sentir o seu espírito, a sua alma,
tem que ter um coração imenso e puro, dela,
ser amorosa, ternurenta, um doce, e ter calma,
poder entrar na sua vida, mesmo que seja pela janela.