sexta-feira, 29 de junho de 2018

BAIXA: A MORTE SAIU NAS TORRES DO ARNADO





Ontem, por volta das 13h30, um homem de cerca de 35 anos, depois de ter acessado às torres do Arnado pelo rés-do-chão, entrou no elevador que dá acesso a diversos serviços judiciais ligados ao Ministério da Justiça, abriu uma das portas de emergência do 6.º andar e atirou-se no vazio.
No pouco que consegui saber, era um homem de olhar perdido, vazado, de rosto amargurado, cabelos desgrenhados e barba de muitos dias. Digo eu, extraindo palavras não proferidas, anunciava e cheirava a morte.
O assunto, hoje, no rés-do-chão do centro comercial é tabu. Ninguém sabe nada, ninguém viu nada, ninguém quer falar do que aconteceu. Conseguir algo substancial para escrever a notícia é quase preciso percorrer loja por loja, restaurante por restaurante. Eureka!, lá se conseguiu tirar qualquer coisinha de um super-anónimo, muito anónimo, e mais ainda incógnito sublinhado pela recomendação “eu sei pouco! E não quero lá o meu nome, está a ouvir?
Quando pergunto a razão de todo este segredo, se será porque pode prejudicar a reputação do centro comercial implantado no centro da Baixa, o meu interlocutor não sabe responder. “É assim porque é assim! E pronto! O que é que interessa isto? A morte de alguém, mesmo para noticiar, importa a alguém?”, interroga-me com cara de anjo.”


UM CASO PARA REFLEXÃO


Os jornais diários da cidade de hoje, Diário de Coimbra e Diário as Beiras, não escrevem uma linha sobre a ocorrência. Não tenho a certeza mas creio que há legislação nacional que sanciona a divulgação de suicídios, pelo menos, de forma sensacionalista. Mas, tanto quanto julgo saber, o critério de noticiar ou não uma morte por autocídio fica no âmbito da metodologia da redacção de qualquer órgão de comunicação social, embora, diga-se, a Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda que, para não se estimular o acto de pôr termo à vida, que se trate o assunto com “pinças”. “O suicídio é um problema de saúde pública, e o tema não deve ser abordado de forma sensacionalista. Cada caso encerra um mistério, uma história de vida muitas vezes dramática, e com grande sofrimento”, escreve Pedro Afonso, no Jornal online Observador.
Continua o articulista, “Apesar de aparentemente estas situações terem na sua origem patologia psiquiátrica, importa refletir sobre as consequências e os perigos de se divulgar os suicídios, de forma sensacionalista, na comunicação social. Há muito tempo que se sabe que o suicídio não deve ser publicitado, de forma sensacionalista, pelos perigos que advêm do efeito mimético que a sua divulgação pode provocar em pessoas fragilizadas pela depressão. Desde o século XVIII que se conhece o fenómeno do “suicídio imitativo”, designado por “efeito Werther”
A questão é: a total supressão da notícia é bom ou mau para a colectidade? Porque uma coisa é noticiar o facto como mais uma morte incidental, sem alardes de sensação, e outra é fazer de conta que nada se passou e tratar o acontecimento como se não existisse.
Embora aceite que é um assunto que cabe à decisão dos jornalistas, tenho para mim que, fazendo de conta que nada ocorreu, seja lá no que for, não é o melhor caminho. Empobrece a comunicação social e deixa uma sensação de vazio no público leitor que, diariamente, anseia por notícias do seu bairro, da sua terra. É como se estivéssemos todos a enterrar a cabeça na areia. Em vez disso, da abolição, dever-se-iam escrever bons textos, sérios, de análise social que levassem o leitor a entender o que se está a passar na sociedade portuguesa. O que é que está a concorrer para estes casos serem repetidos à exaustão? É a economia nacional? São as políticas sociais que estão a falhar? É o modelo hodierno de convivência que está a ruir?
Numa altura de grave crise em que se encontram os jornais em papel, digo eu, não se deve aceitar de ânimo leve certas directivas, mesmo vindas da OMS.










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