quinta-feira, 13 de abril de 2017

MINHA FILHA QUERIDA... (O PUNGENTE RELATO DOS PAIS DE SÓNIA, A MULHER ACAMPADA HÁ DOIS MESES NA BAIXA)





Já passou mais de dois meses que Sónia Monteiro, de 36 anos de idade, alegadamente a sofrer de distúrbios mentais, acampou na Praça do Comércio, num banco de madeira. Pelo inadmissível prolongamento, a maioria de leitores, que têm acompanhado o assunto aqui no blogue, sem conseguir compreender o que se passa com este caso, presumivelmente, ficou completamente extasiada, e dá opinião. Por que, inevitavelmente, a culpa terá de recair em alguém, os comentários no Facebook ora incidem na Lei de Saúde Mental, nas autoridades, ora nos pais. Por que infelizmente conheço de perto o sofrimento, a impotência de nada se poder fazer, imaginava o quanto estarão a ser dilacerados na alma os familiares próximos da mulher aparentemente perdida nos interstícios da burocracia. Sem pretender fazer qualquer obséquio, sem juízo de valor, por uma questão de justiça, entendi que deveria ouvir Elza e Mário Monteiro, os progenitores da Sónia. Na primeira pessoa do plural, falando em coro de unidade a uma só voz, várias vezes com os olhos inundados com lágrimas, a cru e a nu, vou transcrever as suas declarações:

“A nossa filha, desde o seu nascimento, foi sempre uma criança normal, para melhor. De uma generosidade invulgar, muito afeiçoada aos outros, nada lhe metia medo. Foi sempre muito desenrascada. Enquanto pais, no seu crescimento entre a infância, puberdade e adolescência nunca notámos nada que nos preocupasse. Nunca bebeu, nem se meteu em experiências de drogas leves. Temos a certeza. Foi sempre uma rapariga feliz. Na escola e no liceu e até na Universidade de Coimbra, foi sempre muito boa aluna. Entrou na faculdade, no curso de jornalismo, precocemente, na idade em que a maioria ainda lutava para finalizar o ensino secundário.
O primeiro baque de apreensão que sentimos, tinha a nossa filha 21 anos, frequentava o quarto ano de jornalismo. A Sónia, sem especificar o que tinha, começou a dizer que se sentia mal. Abandonou os estudos sem concluir o curso. Começou a ser seguida pelo psiquiatra Carlos Amaral Dias. Foi-nos sugerido que fizesse um estudo do sono. Foi-lhe detectado o “síndrome das pernas inquietas” -segundo o que nos disseram, qualquer pessoa, durante o estado letárgico de sono, mexe-se 47 vezes, em média. Alegadamente, por estar sempre inquieta e a movimentar-se a dormir, a nossa filha começou a ter dificuldade em descansar. A Sónia dormia as duas primeiras horas e nada mais. Até ao raiar da aurora, vagueando pela casa, via televisão, alternava entre o seu quarto e a cozinha. Lia muito. Ela sempre leu muito. Passou a ser medicada. Começámos a ter alguma dificuldade em fazê-la tomar os medicamentos. Sempre acompanhada pela médica de família, e sem nada podermos fazer além disto, virámos para a esperança divina, que nos acompanha sempre. Sem deixar que nada lhe faltasse, de certo modo, fomos obrigados a conviver com a sua rotina diária de a ver ir comprar pão, entre as quatro e cinco da manhã, na padaria de Alfarelos. Alternado entre picos, melhores e piores, o tempo foi passando.

E CHEGÁMOS A 2015 E 2016...

Durante o início do ano de 2015 deu em auto-flagelar-se no corpo e no rosto. Dispensando o nosso acompanhamento, foi sozinha aos HUC, Hospitais da Universidade de Coimbra. Foi internada no Sobral Cid onde ficou em tratamento cerca de um mês. Quando saiu vinha muito mais calma. Durante meses andou muito bem. Parecia ter retomado o gosto pelo viver. Tomava a medicação regularmente. Estava estabilizada. A nossa menina parecia outra. Chegámos a pensar em milagre.
Não sabemos como, mas certamente através dos seus muitos contactos, em finais de 2015 foi cuidar de Barbosa de Melo, o conimbricense e antigo presidente da Assembleia da República. Durante vários meses, até ao seu falecimento, trabalhou em sua casa, aqui em Coimbra. Como ela é muito dedicada à afeição, é possível que a morte do ex-professor da Universidade de Coimbra a tivesse afectado gravemente. Barbosa de Melo faleceu em Setembro de 2016. A partir daí, Sónia ficou de férias e deixou de tomar os remédios. Sem ser medicada, começou a ser acometida de ataques de pânico e a sentir um certo atrofiamento nos músculos. Como dormia pouco, quando acordava sentia tremores nocturnos. Mais uma vez, nada que não estranhássemos, a sua inquietude tomou conta de nós e, perante os seus passos cruzados a atravessar a noite, demos por nós abraçados e a chorar desalmadamente.

E VEIO 2017...

Em 25 de Janeiro deste ano de 2017 foi a uma consulta de psiquiatria. Ao ser atendida pela médica especialista, disse que os pais a tinham expulsado de casa.
Sem que nada o fizesse prever, subitamente, desapareceu. Depois de recorrermos a todos os nossos meios possíveis e imaginários, incluindo polícias e redes sociais, foi encontrada, por acaso, na Figueira da Foz. Em 1 de Fevereiro foi à esquadra da PSP solicitar uma ambulância. Fomos contactados e fomos buscá-la à cidade da claridade. Pareceu-nos muito débil. Disse que queria ir ao hospital. Transportámo-la para casa. Comeu como se não o fizesse há meses. Tomou banho, deitou-se e dormiu como um anjinho. No dia seguinte, aparentemente refeita, já não quis ir ao hospital.
No dia 09 de Fevereiro voltou a sair de casa. Sem sabermos onde se abrigava, durante três dias manteve-se novamente desaparecida.
No dia 12 foi apanhada em Alfarelos. Foi chamada a GNR e esta fez comparecer uma ambulância que a transportou para os HUC. Nós, pais, seguimos também atrás do carro de socorro. O médico que estava de serviço era o mesmo que a acompanhava no Sobral Cid. Este clínico saiu de turno à meia-noite. Quem o substituiu, talvez porque a Sónia se recusava a tomar a medicação, colocaram-na na rua sem levarem em conta o seu estado desequilibrado. Embora sem lhe passarem importância, no hospital invocou que a mãe a queria matar. Tentámos ali aproximar-nos dela mas repeliu-nos.
Seguindo-a à distância para não a perturbar, vimos a nossa filha caminhar a pé, em direcção da esquadra da PSP. Apresentou queixa contra a mãe por maus-tratos. Fez também participação no DIAP contra o irmão por agressão. Naturalmente, como não havia provas, o processo foi arquivado. E o nosso sofrimento no meio disto tudo, será que alguém consegue contabilizar e compreender?

DE PÔNCIO PARA PILATOS...

Fomos falar pessoalmente com a médica de família. Declarou-se completamente impotente para resolver a situação. Disse que, no tocante à sua pessoa, não podia fazer nada. Aconselhou-nos a ir falar com o Delegado de Saúde de Soure. Com a ajuda da clínica, foi marcada uma consulta para sermos recebidos por este responsável no dia 14 de Fevereiro. Apresentamo-nos à hora combinada, mas este médico não estava. Segundo informação que nos foi transmitida, estava a fazer juntas médicas em Montemor-o-Velho. Logo a seguir, voltámos à médica de família a contar o que tinha acontecido. A doutora telefonou para Montemor e tentou falar com o Delegado de Saúde mas este, mandando recado, disse que não estava para ninguém.
Perante a negação do delegado regional de saúde de Soure, esforçadamente, a médica de família contactou outros responsáveis concelhios, incluindo o de Coimbra. Todos foram unânimes em declinar. Nenhum se quis intrometer no assunto uma vez que era da alçada do Delegado de Saúde de Soure.
Obtemos a informação onde almoçava. Tentámos falar com ele no restaurante, não nos atendeu. Marcou na Delegação de Saúde de Soure para passados dois dias. Na delegação de saúde, antes de nos ouvir, passou-nos um raspanete que, pela agressividade e frieza, ainda temos o seu troar nos ouvidos. Que não tínhamos nada que o incomodar enquanto estava a almoçar. Ficámos chocados! Tanta crueldade para almas amarguradas. Tanta insensibilidade! Será que estas pessoas não terão filhos? No nosso entendimento, um pouco contrafeito, mandou-nos ir ao Sobral Cid buscar o relatório médico da Sónia. Perguntamos: será que ele, se compreendesse o nosso sofrimento, não o poderia obter mais rapidamente através da Internet?
No dia seguinte, na sexta-feira, 17 de Fevereiro, deslocamo-nos ao Sobral Cid. Sabíamos que a médica dava a consulta às quartas-feiras, mas como estávamos tão desesperados, mesmo assim, tentámos falar com a assistente social daquele serviço. Sem sequer nos receber, esta mandou dizer que estava indisponível. Desnorteados em face de tanta má-vontade, dirigimo-nos a outro pavilhão e pedimos para falar com outra assistente social que, como é óbvio, não estava a par do desenrolar deste processo kafquiano. Com uma humildade digna de registo, ouviu-nos e pareceu tocada pela nossa aflição. Ligou para a médica que acompanhava a Sónia naquele serviço de saúde do Estado. A médica, pura e simplesmente, declinou em falar connosco através do telefone.
Porque não podíamos ficar parados perante tanta impiedade, ainda nesta sexta-feira, fomos falar com o comandante da GNR. Sensível às lágrimas que não nos largam, este homem mandou-nos para o Tribunal de Coimbra. Chegados aqui, fomos recebidos por uma funcionária a quem expusemos a gravidade dos nossos queixumes. Apesar de muito rogarmos para falamos com um juiz ou procurador do Ministério Publico, nenhum deles se dignou receber-nos.
Porque praticamente todos os dias telefonamos para o tribunal, sabemos que em 22 de Fevereiro, por uma juíza do Tribunal de Coimbra, foi pedido, com urgência, aos HUC um relatório de avaliação psiquiátrica.
Porque fomos convocados também para ser ouvidos, entretanto, foi marcada uma consulta de psiquiatria para a nossa querida filha em 30 de Março com dois médicos psiquiatras. Uma clínica dos HUC e outro nomeado pelo tribunal. Com a Sónia “acampada” à vista de toda a gente, há cerca de dois meses na Praça do Comércio, em Coimbra, a PSP mandou dizer que não a encontrou. E a consulta passou. Perante esta aparente negligência da PSP, tentámos ser ouvidos pelos dois médicos presentes nos HUC. O nomeado pelo tribunal já tinha ido embora. A outra médica falou connosco e disse que não podia esperar mais pela Sónia.
Tanto quanto julgamos saber, foi marcado novo pedido de avaliação pelo Tribunal de Coimbra.

CANSAÇO, EXAUSTÃO, DESÂNIMO...

Estamos esgotados, tanto físico como psicologicamente. O nosso desânimo é constante e só nas lágrimas conseguimos exaurir o sofrimento atroz que nos mina o espírito. Sentimo-nos impotentes para procurar ajuda para a nossa filha. Sentimo-nos descoroçoados. Ninguém quer saber do nosso problema. E se acontece algo de grave à nossa filha? Haverá responsáveis?
O nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que quer acabar com os sem-abrigo. Pelo que constatamos, parece, isso sim, é que, pelo abandono e condenação à morte, querem é acabar com as pessoas!”

quarta-feira, 12 de abril de 2017

EDITORIAL: UM CÃO VALE MAIS DO QUE UMA PESSOA?




Depois de ter recebido vários e-mails de alguns comerciantes e pessoas anónimas, hoje, quarta-feira, funcionários do Canil municipal levaram consigo a cadela Preciosa de Sónia Monteiro, a rapariga “acampada” na Praça do Comércio, há cerca de dois meses e que, pelos vistos, está para estar.
E fizeram mal em levar o animal? Pretendo fazer uma crítica aos serviços? Não senhor, fizeram muito bem! Segundo testemunhos que ouvi, o canino estava a decair na saúde, dia-após-dia. Ao que parece não estava desparasitado e estava a ser mal-alimentado e, porque lhe era dada, ingeria água conspurcada do lago da Praça 8 de Maio.
Então, se está tudo em conformidade, sendo assim, por que raio escrevo sobre o assunto? Perguntará quem me lê?
Peço-lhe, leitor, pense comigo: A rapariga, Sónia Monteiro, de 36 anos, alegadamente a sofrer de distúrbios mentais, está há cerca de dois meses “acampada”, num banco de madeira, em frente à Igreja de S. Tiago. Apesar do enorme sofrimento e de tudo fazerem para resolver esta situação, os pais não conseguem sensibilizar as autoridades para o problema da filha, isto é, para que seja realizado o internamento compulsivo -ainda hoje, se tiver tempo, vou mostrar aqui o pungente desabafo dos progenitores desta mulher que aparentemente parece estar plena das suas faculdades mas está completamente desregulada psiquicamente.
Já escrevi duas crónicas sobre o assunto -que foram lidas por milhares de pessoas-, já enviei para todas as televisões e jornais locais e nacionais. A mulher, para desespero dos seus mais queridos, continua lá entregue à sua sorte.
Continue a pensar comigo: Para internar o animal bastou uns e-mails e, a correr, veio a autoridade sanitária em defesa do cãozinho e, mais que certo, a esta hora estará a ser mais bem cuidado que a sua dona, para seu azar, de raça humana. Se fosse bicho era tudo mais fácil. Não é irónico? continuamos com o humanismo em queda e o "animalcentrismo" em ascensão.
Continue a pensar comigo: Por muito amor e respeito que tenhamos aos quatro patas, alguma coisa não bate certo. Concorda comigo? Estamos a transformar-nos em quê? Completamente abertos para as questões dos animais e insensíveis para o sofrimento dos humanos? É isto? E ninguém faz nada? Ninguém diz nada? Que estranho mundo é este em que estamos a viver?
Será que não estamos a fazer da Baixa um enorme jardim zoológico? Onde a alimária tem toda a protecção e as pessoas estão ao abandono? Afinal, entre uns e outros, quem é a besta?

BOM DIA, PESSOAL...

terça-feira, 11 de abril de 2017

CARTA ABERTA AO CANDIDATO AUTÁRQUICO JAIME RAMOS (E A OUTROS CANDIDATOS SUPERVENIENTES)

(Foto do Diário as Beiras - Luís Carregã)




Meu caro Jaime Ramos, candidato a presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Sem demérito ou desvalorização para os concorrentes já anunciados e outros que vão surgir, tomo a liberdade de me dirigir a si mais em particular por pensar que é o mais bem cotado no ranking da corrida eleitoral local para se bater, taco-a-taco, com o actual presidente em exercício, Manuel Machado.
Pelo que tenho lido, o candidato Jaime Ramos, em périplo, romaria em volta do mesmo espaço central, continua a contactar com tudo o que mexe, que seja poder instalado de facto ou de influência na cidade. É notório que nesta pré-campanha pretende atingir dois objectivos: um, apreender o pulsar dos agentes, decisórios e de influência, outro, ser notícia permanente nos meios de comunicação. Qualquer deles são legítimos e, a meu ver, demonstram inteligência.
Escrevo-lhe esta carta pela sua recente tomada de posição em relação à instalação do IKEA, no Planalto de Santa Clara. Citando o “Notícias de Coimbra”, V. Ex.ª afirmou o seguinte: “Coimbra quer-se jovem e sexy e é tempo de recuperar o tempo perdido e assegurar para Coimbra investimentos como este. Criam valor, fixam populações e asseguram emprego. Ao mesmo tempo, como factor de coesão social, deve ser apoiado o comércio tradicional e promovidas as suas zonas históricas. (…) Coimbra precisa de estabelecimentos deste género, de negócios âncora, como este do IKEA. Se as pessoas vierem a Coimbra, compram na loja, mas também no comércio tradicional, que acaba por ganhar com o investimento.”
Perante esta sua inusitada e incongruente manifestação de amor ternurento pela cidade e pela Baixa, enquanto comerciante na zona histórica, em meu nome pessoal, tenho de lhe dizer que dispenso completamente este seu carinho. Como sabe tão bem como eu, não se pode agradar a todos. Ou seja, enquanto caminheiros, perante duas estradas, por não termos o dom da ubiquidade, temos de escolher apenas uma. E o senhor com esta opção pretendeu estar nas duas ao mesmo tempo, como quem diz, teve a veleidade de ter um pé no Céu e outro no Inferno. Em metáfora, defino “Céu” como o estádio em que os consumidores -massa abstracta, insensível e brutalizada-, sem racionalidade, procuram somente o seu interesse egoísta e o “Inferno” o limbo em que foram empurrados e estão todos os pequenos comerciantes, operadores de serviços, alguma indústria hoteleira, proprietários e inquilinos na Baixa da cidade.
Até consigo compreender que o caro amigo candidato, estando afastado da vida de Coimbra há muitos anos, não sabe o estado empobrecido em que se encontra o comércio tradicional. E saberá por que se encontra depauperado? Entre vários motivos, o que causa directamente mais dano ao comércio de rua é exactamente o excesso de oferta. Diga-me, é preciso ser economista para ver que a oferta na cidade dos estudantes está esgotada? O que me custa mais a aceitar é que tantas conversas já tidas até agora e ainda não deu para ver que a urbe esta cercada por grandes e médias superfícies -a fazer lembrar as antigas torres de menagem da Idade Média- e que o nascimento de outras só pode dar em tragédia? Desculpe mas julgava-o mais inteligente. Erro meu, obviamente.
Assim sendo, explique-me como se eu fosse uma criança: como pode o candidato Jaime Ramos defender a instalação de mais uma grande área comercial que vai provocar ainda mais desgraça nas famílias da Baixa e, ao mesmo tempo, pugnar pelo apoio ao comércio tradicional? Desculpe a pergunta: não está a fazer de nós parvos, pois não? Em comparação, o seu exemplo absurdo faz lembrar as políticas de patrocínio de armamento na implementação de minas terrestres e ao mesmo tempo o custeio de próteses para os acidentados.
Percebo que o candidato Jaime Ramos, representante do PSD/CDS/PPM/MPT, quer conquistar o maior número de votos, venham eles de onde vierem, mas assim não aceito, meu caro senhor. Pouco lhe deve importar -afinal é apenas um- mas, a defender a instalação de mais grandes superfícies em Coimbra, não contará com o meu voto.
Consigo conceber que queira passar a mensagem de querer criar postos de trabalho na cidade. Mas há uma coisa: não se pode gerar emprego a qualquer preço -e estas palavras nem são minhas. Sabe quem as proferiu? Manuel Machado, o seu opositor. Mais que certo para desculpar a sua incapacidade, quer de conseguir desenvolver a cidade no seu todo, quer de retirar o Centro Histórico do marasmo apoplético em que caiu, fruto das suas políticas comerciais expansionistas iniciadas no início dos anos de 1990, com a abertura do Continente, da Makro (1993) e planos em papel para o antigo Dolce Vita e Fórum Coimbra, Retail Parque de Taveiro e Retail Park de Eiras, que viriam a ser concretizados por Carlos Encarnação, assessorado por Pina Prata, ambos do partido de génese Sá-Carneirista, bandeira que o senhor almeja desfraldar na varanda da Câmara Municipal.
O trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas um meio para gerar rendimento para as famílias e, por consequência, bem-estar e felicidade. Se tudo servisse para o proliferar de colocações, legalizava-se o esclavagismo intra-específico, entre humanos.
Se me permite, estou em querer que o senhor vai ter de repensar a sua campanha propriamente dita. Ou se demarca do seu opositor, com propostas sérias, com políticas integradas para conseguir recuperar a Baixa, ou então, nem o candidato Jaime Ramos passará de vereador no executivo a eleger em Outubro próximo, nem esta zona comercial aguentará mais quatro anos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)


Andrea deixou um novo comentário na sua mensagem "FOI-SE O VALA DA ACADÉMICA (E UMA VALA FICOU NA NO...":


As fillhas do Zé Vala, Andrea e Joana, gostariam de agradecer esta homenagem ao nosso pai. Obrigado Luís Fernandes. 

sábado, 8 de abril de 2017

BOM DIA, PESSOAL...

O INADMISSÍVEL PROLONGAMENTO DO CASO DA MULHER ACAMPADA





São 20h30 desta última quarta-feira. A Rua Eduardo Coelho parecia estar vazia, sem vivalma. Em passeio, caminhava em direcção à Praça do Comércio. Os candeeiros, sucedâneos dos antigos lampiões a gás de há mais de um século, a espreitar no alto da minha cabeça, muito sujos e com teias de aranha na vidraça e só deixando metade da sua transparência à vista, só há pouco tinham acordado para cumprir a sua função de iluminar, mal, uma via que, pela fraca luminosidade pública lhe confere um ambiente fantasmagórico. Foi então que comecei a ouvir umas risadas curtas e esganiçadas que ecoavam ao longo da artéria. Refreei a passada e fingi estar a ver uma montra completamente apagada.
Apercebi-me então da origem das gargalhadas histéricas. Em passo cadenciado, entre a paragem e o avanço, avistei uma jovem mulher. Conhecia-a imediatamente. Era a Sónia. Já escrevi sobre a sua estranha e prolongada permanência na rua. Desde Fevereiro que, alegadamente, por distúrbios psicológicos acampou num banco de madeira em frente à vetusta Igreja de São Tiago. Ao que parece, os seus familiares, a sofrerem com este impasse, não conseguem convencer quer o psiquiatra que a acompanha quer o Ministério Público de que a rapariga precisa urgentemente de ser internada compulsivamente para tratamento psiquiátrico.

Por aqui, pela zona comercial, por ventura não haverá ninguém que não a identifique. Perante o seu prurido de rir, as pessoas começam por olhar surpreendidas e depois de um diagnóstico rápido de desvalorização, manifestado num encolher de ombros, seguem o seu caminho. Afinal a Baixa, como todos os lugares habitados do planeta, sempre teve os seus loucos de estimação. Uns, porque nasceram diferentes, outros, por que são resultado da sua própria fragilidade biológica. Por vezes, a concorrer, as autoridades, que deviam ser lestas e cuidar da sua rápida recuperação, pelo contrário, estando mais preocupadas com direitos, liberdades e garantias, causam incompreensíveis dificuldades e o resultado final é a sua morte prematura.
Tenho a rapariga a dez metros de mim. Parece ignorar-me completamente. Agora parou. Como se estivesse a representar num grande palco, eleva as suas mãos e, dividida entre a cólera e um discurso paternal, soletra: “ele queria que tu fosses? Isso é que era bom! (ahahhahah) Não vás! Tu sabes muito bem o que deves fazer! Estás a ouvir-me? (ahahahhahhh) Faz o que te digo...”
Como se eu fosse invisível, ultrapassou-me sem aparentemente dar conta de mim. Mais à frente, no largo do antigo armeiro Carlos de Almeida, voltou a estacar e, como a querer assustar os pombos estendidos nos beirais, como se troçasse de tudo e todos, voltou a dar vários gracejos em forma de grito satânico: ahahahahhhhahahah!
Lentamente, seguindo a sua curta silhueta esbelta, fui avançando. Pelo que tenho observado, sabia que se dirigia para o “seu” banco, o seu presumível porto de abrigo.



UM BANCO DE MADEIRA EM FORMA DE CASA

Sem saber quem vigiava quem, se era eu a ela ou ela a mim, sentei-me no banco ao lado. Tentando não dar nas vistas, fazendo de conta que apreciava a velha igreja medieval à minha frente, volta e meia desviava os olhos para a mirar. Dei por mim a pensar que, tendo em conta o período histórico da vetusta catedral, esta cena poderia perfeitamente ser inserida numa passagem do livro “Harry Potter”, da escritora inglesa J. K. Rowling, que viveu no Porto. Desde as tendas dos vendedores ambulantes, desprezados e maltratados por este e outros executivos que deveriam responder em tribunal por promessas nunca cumpridas, até aos prédios decrépitos à volta, tudo estava a coincidir.

Reparei que o seu banco de apoio tinha sido completamente ocupado com grossos cartões, roupas em desalinho, e muito lixo à mistura. Do meio daquele entulho todo, a mostrar que em todos os cenários impossíveis há sempre vida, saiu um pequeno cão de pelo acastanhado e aparentemente bem cuidado. Num ápice, largando a sua contemplação etérea e desnorteada, pegou no canídeo, levou-o até aos lábios cobrindo-o de beijinhos, e falou com o animal como de pessoa se tratasse: “tiveste saudades minhas? (ahahhhaha) Tiveste? Eu não te deixo... (ahahahahh)”
Recostado nas ripas de madeira a suportar as minhas costas, pelo gosto em observar pessoas, imaginei-me o vagabundo Joe Stassio - um personagem dos livros policiais de Ross Pyne, um escritor português já desaparecido de nome Roussado Pinto, e que em adolescente fez o meu deleite de momentos de solidão. Ao ler os seus livros parecia que estava lá. Era como se, através da leitura, pudesse ouvir a aragem do vento, o chilrear dos pássaros, a tristeza que ia no coração das personagens.
Continuei a ver a estanha mulher. Fazendo perguntas e dando respostas, estava com a mesma lenga-lenga. Umas vezes a vociferar outras a apaziguar: “Não achas que já devias ter filhos, Inês?” -lembro que o seu nome é Sónia. Interrogava com uma inigualável convicção. “Eu acho que devias sim! (ahahahahah)”, para logo a seguir, numa moderação contida, responder: “Não, senhora! Ter filhos? Tens muito tempo! (ahahhhaah)”


Em pé, Sónia não parava quieta. Ora mexia no cão, ora revolvia os cartões e passava-os de um lado para o outro. Como se estivesse a arrumar a sua casa, lá ia debitando lamentos: “está tudo desarrumado! Uma mulher sai por momentos e quando volta está tudo num caos! (ahahahahah)”
Depois de cerca de vinte minutos, largando gritos sarcásticos misturados com palavras, levantou-se, pegou em quatro garrafas de plástico de litro e meio, e dirigiu-se novamente para a Rua Eduardo Coelho.
Com razoável distância, seguia-a até à Praça 8 de Maio. Sentou-se no parapeito do lago que está no centro do antigo largo de Sansão. Arregaçou as mangas, mergulhou os braços na água turva e, esfregando-os com sabão, lavou-os obsessivamente. Os seus risos em esgar de ironia pareciam atravessar toda a velha praça. Passado um certo tempo, encheu as quatro garrafas com água suja e, levantando-se, foi colocá-las no parapeito de pedra da Igreja de Santa Cruz. Abandonando-as, virou-lhe costas e, por entre risadas descontroladas, dirigiu-se novamente para a Rua Eduardo Coelho. Antes de chegar à Praça do Comércio, fez um desvio para a Rua do Almoxarife e, enterrando as mãos no lixo que estava para ser recolhido, baldeou tudo e separou alguma coisa que lhe terá despertado o interesse.
Dei por encerrada a minha missão de análise comportamental. Naturalmente que não sou psiquiatra nem pretendo ser, mas, para entender melhor o que se passa, queria ver de perto como se comportava esta estranha mulher. Penso que, pelo meu exaustivo relato, dá para ver se a Sónia Monteiro está, ou não, plena das suas faculdades mentais. Será preciso fazer um desenho ao Ministério Público?

A TENSÃO AVOLUMA-SE

Sem uma solução à vista, já passaram cerca de dois meses em que Sónia Monteiro acampou na Praça do Comércio. Pelo que me foi dito, já se tentou que a rapariga fosse dormir a uma instituição próxima, porém foi sol de pouca dura. Voltou novamente a acampar junto à Igreja de S. Tiago.

Se numa primeira fase os comerciantes à sua volta, até movidos pela compaixão, lhe davam roupas, comidas e todo o apoio possível, talvez no aforismo popular de que um hóspede ao fim de uma semana já cansa, a verdade é que, segundo os seus lamentos, começa a ser perceptível na mulher uma certa animosidade e agressividade para quem a rodeia. Para piorar, provocando descontentamento nos lojistas vizinhos, o cão, para além de defecar em tudo o que é sitio, deu em roer algumas roupas em exposição dos vendedores. Um deles, pedindo o anonimato, desabafou: “já viu? Para além de termos de gramar todo esse lixo amontoado em cima do banco e limpar o cocó do animal várias vezes ao dia, ainda temos de suportar o prejuízo que nos está a causar? A mim já me roeu duas camisolas e uma “écharpe”. Quer dizer, o negócio está como está, e ainda temos de levar com isto?”