segunda-feira, 20 de julho de 2015

A CITAÇÃO DO DIA




CITAÇÃO DE MARCO TULIO CÍCERO


"O orçamento deve ser  equilibrado, o Tesouro Público deve ser reposto, a dívida pública deve ser reduzida, a arrogância dos funcionários públicos deve ser moderada e controlada e a ajuda a outros países deve ser eliminada, para que Roma não vá à falência.

As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver às custas do Estado.”

Ano 55 AC –Proclamada, portanto, há 2070 anos.

TOMEMOS PARTIDO MESMO QUE ISSO NOS CUSTE A AMIZADE DE ALGUÉM

BOM DIA PESSOAL...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

UM HOMEM FELIZ (DE ROSTO FECHADO)



Ontem o Marek Adam Kepacz, o músico de rua conhecido entre nós por Marco, estava muito feliz. Tinha no seu regaço a realização do seu sonho idealizado durante anos: um acordeão Scandalli com 120 baixos. O Pai Natal de figura humana, que dá pelo nome de José João Cardoso, tinha-lhe antecipado a prenda do Menino Jesus.
Tudo começou em Março deste ano quando escrevi no semanário O Despertar a história do Marco e que, sendo músico de rua, não podia exercer a sua aptidão por não ter um instrumento que lhe permitisse ganhar a vida. No fundo, apelava a alguém que tivesse em casa um aparelho musical arrumado e que, fazendo empréstimo, pudesse contribuir para a felicidade de um homem que sendo pobre, já de idade e estrangeiro, natural da Polónia, não tinha grandes posses para alcançar um meio para trabalhar. À chamada, respondeu o meu amigo Cardoso, que tinha lá em casa um velho Hohner, com 72 baixos, de família e que se prontificou a ceder gratuitamente ao Marek. O momento da entrega foi divino com abraços e beijos – já que o polaco pela tradição do seu país de origem beija-nos no rosto em sinal de cumprimento, respeito e agradecimento.
Os meses foram passando e o Marco ia deixando escapar que estava a poupar e um dia, não sabendo qual, havia de ter um “maquinão” com 120 baixos. Neste meio o tempo, o José João, que é uma boa alma -ateu de convicção mas que é melhor pessoa do que certos crentes que andam por aí a bater com a mão no peito- conseguiu saber que um seu chegado tinha um Scandalli na prateleira e sem qualquer utilidade. Conhecendo eu como julgo conhecer o Cardoso, está de ver que não mais deixou de azucrinar o amigo para o ceder e fazer uma boa acção. E o resultado foi ontem ter encontrado o Marek de lágrimas nos olhos e a repetir exaustivamente: “estou muito agradecido a ti e ao teu amigo! Tive um sonho em que me aparecia uma mulher com um saco de notas. Vou jogar esta semana no Euromilhões e, se me sair, vou compensar-vos e fazer de vocês milionários.”


BOM DIA, PESSOAL...

O BOLO CACO NA BAIXA






IMAGEM E EDIÇÃO: ALEX RAMOS
TEXTO, LOCUÇÃO E REALIZAÇÃO: LUÍS FERNANDES


Abriu ontem, na Rua Visconde da Luz e no antigo espaço da Perfumaria Pétala, o “Caco - o Original”. É um novo conceito, isto é, no sentido de se enveredar pela originalidade, de se apostar em produtos novos e não existentes no léxico comercial da Baixa da cidade. Dá para perceber que todos estamos um pouco fartos de mais do mesmo e, sem deixar de respeitar o tradicional, buscamos novidades e uma diversidade que, nos últimos anos se perdeu. Por isso mesmo, está de parabéns o "Caco - o Original".
Tanto quanto pude apreciar, as pessoas acorreram às provas para verem e para crerem, e querem. Podiam ver-se vários clientes encostados ao balcão e também no primeiro-andar a comerem a “sandes desfiada” –uma especialidade da marca- de carne, com ou sem queijo da serra. Reparei também que acompanhavam a refeição com batatas fritas –de receita caseira e temperadas com orégãos- e molho de alho. A sopa do dia pareceu-me também tentadora. Quantos aos doces prefiro nem referir a tentação e o quanto tive de me conter para não me atirar de cabeça. Desde os palitos do Caco, com Nutella ou ovos-moles de Aveiro, até ao croissant brioche e os pastéis de nata, de fabrico próprio, todos pareciam sorrir para mim.
O “Caco –o Original”, depois de Lisboa, Leiria e Faro, abriu em Coimbra o sétimo ponto de venda. Segundo Ricardo Mendes, o gerente desta loja de Coimbra, “foram criados cinco novos postos de trabalho, para já, até termos uma noção das necessidades.”

O QUE É O BOLO DO CACO?

O Bolo do Caco é um pão de trigo, tradicional da Ilha da Madeira, com um formato redondo e achatado. Outrora, na Pérola do Atlântico, segundo referem alguns forais quinhentistas, era proibido construir fornos particulares para que a população fosse cozer o pão às fornalhas do Rei, aos conventos religiosos, ou ao grande senhor abastado de terras e, naturalmente, fosse taxada –como se vê o irracional confisco de impostos já vem de longe. Então, para grandes males grandes remédios e a provar que o português é desenrascado, o povo, utilizando as condições naturais da luz solar, passou a cozer o Bolo Caco em cima de um caco de basalto. O facto de não precisar de forno generalizou o seu fabrico em cima de uma chapa ou de pedra. É este cozimento que o distingue do pão tradicional assim como ter batata-doce e outros ingredientes secretos na sua confecção.




quinta-feira, 16 de julho de 2015

A BOA MORTE DO LOUREIRO





“Ai que saudades daqueles anos quando abrimos a loja A. Loureiro!”, e o seu rosto até aí sereno contrai-se e os seus olhos brilhantes viram-se para cima e parecem cravar-se num lugar distante, no infinito.
Maria da Boa Morte Vieira da Costa Loureiro, mais conhecida por “Mariazinha”, com 82 anos de idade, no fim deste mês de Julho vai quebrar uma rotina de 45 anos. Fecha as portas definitivamente do seu comércio, a sua segunda alma, e encerra uma história de um tempo que, enquanto durou, foi feliz. Mesmo agora, que as pernas teimam em pesar mais do que o corpo, amparada em duas canadianas continua a ir diariamente ao estabelecimento. É um costume adquirido que, paulatinamente, devagar, devagarinho, se foi entranhando e passou a fazer parte dos seus hábitos. Entrar naquela casa com quase meio século, todos os dias, olhar os objectos expostos nas prateleiras é como entrar na igreja, fixar as imagens sacras, e, sem falar, monologar com Deus.
A firma A. Loureiro, Ld.ª abriu portas em 1971 com venda de electrodomésticos, louças e cutelarias, vidros e produtos para instalações eléctricas. Em 1973, quando entrou o Edmar –que ainda hoje se mantém vinculado- estavam quatros pessoas a trabalhar todos os dias sem mãos a medir. Para além disso, Mariazinha que tinha na costura a sua veia criativa, conjuntamente com o negócio tradicional chegou a ter 14 pessoas a cortar e a coser. A oficina era na sua casa particular e era nos andares superiores do edifício comercial que se faziam as provas. “Até 1990 foram anos de ouro!”, enfatiza Mariazinha. “A saída do trânsito automóvel destas ruas largas ajudou a acabar com o negócio. Tinha clientes de alguma idade que deixaram de vir. Recordo a calçada, de manhã à noite, sempre a fervilhar de pessoas. Em 1980 a circulação de compras e vendas era tanta que as caixas com mercadoria entravam pelas janelas superiores puxadas por cordas. Várias alterações ao funcionamento da Baixa, com a saída de vários polos de desenvolvimento, como, por exemplo, a saída da Biblioteca Municipal, em frente à polícia, e que passou para o cimo do Jardim da Sereia, ajudaram a desertificar esta outrora zona tão movimentada de pessoas. A abertura das primeiras grandes superfícies, em 1993, iniciou o processo. Nessa altura, sentimos imediatamente a retracção. A crise económica fez o resto”, lamenta Maria Loureiro. “Ao longo deste quase meio-século de vida comercial, neste espaço, uma geração foi muito afortunada. Se estas paredes falassem, muito teriam que contar. Aqui amei, aqui fui muito feliz. Aqui conheci a maior dor lancinante que pude sofrer quando vi partir o meu marido, em 2009. Aqui comecei com 38 anos. Agora acaba tudo. Sinto que é um dos meus lados que se vai. Já chorei muito. Apesar de já estar conformada, mesmo assim, quando me sinto pior tomo um comprimido para dormir. É uma grande tristeza. O negócio foi uma extensão de mim.
Até a Baixa dar a volta muita água vai passar debaixo da ponte. Nunca menos de uma década e, para isso, é preciso que a Câmara Municipal olhe pela zona histórica. Acho que não olha. Não faz nada para dar a volta a isto. O estacionamento pago é muito caro e desmotiva as pessoas a virem fazer compras. Sem uma outra forma de encarar estes problemas vamos continuar a remar contra a maré.
Precisávamos de gente a morar cá. Há poucos residentes e, por isso mesmo, é mal frequentada. Pela criação de novas centralidades, como a Solum, por exemplo, esta parte da urbe foi ficando abandonada. Tenho tanta saudade do tempo em que aqui estava o coração da cidade!
Vou-me embora, vou partir. Embora um pouco triste, sentindo que fiz tudo o que pude, parto feliz. É a vida! Temos de dar o lugar a outros. Um enorme agradecimento aos meus clientes ainda vivos e que nos apoiaram. Do fundo coração, muito obrigados.”