(Imagem da Web)
Durante
tantos anos que até lhe perdi a conta, da minha janela, eu segui os
seus passos. Eles eram metódicos como um relógio suíço. De
segunda a sábado eu sabia o que ia acontecer fora da sua casa. E lá
dentro, no aconchego das suas quatro paredes, eu especulava com cada
passo percorrido no soalho de madeira. Chegava mesmo a parecer ouvir
o seu arrastar cadenciado e silencioso dos seus pés naquele chão
brilhante e bem-limpo de um primeiro-andar.
Impreterivelmente,
às 9h30, com a sua roupa simples e chinelas de trazer por casa, ela
descia os vários lances de degraus e saía para comprar o jornal ao
quiosque ali a dois passos. Uma hora depois, às 10h30, saía com o
marido de mãos dadas para fazer a sua caminhada – ambos vestiam
fatos de treino e calçavam sapatilhas. Pelos traços e madeixas
brancas, ambos estariam aposentados.
Sessenta
minutos depois regressavam ao lar. Como se eu fizesse parte de um
enredo de espionagem do escritor John Le Carré, do meu ponto de
observação, eu registava tudo o que via e tentava adivinhar o
obscuro e imaginável.
Aquele
casal no patamar dos três terços da vida era a
porta de entrada de um tempo misterioso e imprevisível que se
aproximava de mim a passos rápidos. Na casa do meio-século,
provavelmente, em
relação a eles, eu
teria menos vinte anos. Aqueles cônjuges simbolizavam a paz interior
que eu tanto desejava e não tinha na minha vida. Olhava para eles e,
como se constituíssem
um quadro realista de um bom pintor, sei lá, talvez Henrique Medina,
realizava a minha catarse, método
psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações
recalcadas. Tantas vezes, olhando da minha janela, eu dava por mim a
apanhar duas lágrimas rolantes pelo meu rosto ressequido de amor.
Profissionalmente,
eu trabalhava em
costura. Era costureira, ou modista, se preferirem por ser mais
pomposo.
Foi
devido ao meu talento
para o corte e costura que fui trabalhar para aquele estabelecimento
de pronto-a-vestir e de vestidos por medida. O atelier era também
no primeiro-andar. Com
uma grande janela que abarcava todo o largo em frente aos
meus olhos, eu
memorizava cada gesto, cada sorriso dos vizinhos próximos. Era uma
espécie de peça de teatro em jogo mental, em que os actores, os
confinantes, logo que davam um passo em direcção à rua,
antecipando-me à realidade tangível, efabulava
o que ia suceder antes de acontecer.
Estou
em crer, nenhum dos “vigiados”,
em tempo algum, se deu conta do meu atrevimento. Um facto curioso,
apesar dos anos passados na função investigadora,
nunca cheguei a saber o nome verdadeiro de qualquer deles. Quando
nos cruzávamos, reciprocamente, apenas saía a saudação habitual:
“bom dia ou
boa tarde ou
boa-noite”.
Eles
eram apenas figurantes de uma comédia, entre
o trágico e o cómico,
inventada por mim. Mas todos tinham nomes. Sem padre de paróquia, eu
fazia a sua
consagração. Foi
assim que baptizei a
“Ti Rita”.
II
Como
estava na hora de almoço, antevia “Ti
Rita” agarrada ao
fogão. Tendo em conta que possivelmente
seriam assalariados por
contra de outrem, ou talvez funcionários públicos, seria,
porventura, uma cozinha modesta, numa casa tradicional portuguesa,
onde se viam muitos
objectos pendurados nas paredes. Era como se cada coisa identificasse
uma época das suas vidas cheias de pequenas coisas, e
cada coisa contasse uma passagem.
Enquanto
a esposa fazia o almoço, o
marido, com muito
carinho estaria a pôr
a mesa. De seguida
daria
um amoroso beijo ao de leve na consorte e, pondo
a rodar um vinil de Leonard Cohen no pick
up. Ouvindo,
absorvendo a voz rouca do canadiano, sentou-se
no sofá da sala a ler o jornal do dia - fantasiava
eu na minha memorial história melosa.
Quando
o relógio, da marca
“Reguladora”,
pendurado na parede branca da sala por cima do terno de sofás de
veludo, bateu as 2h30, como habitualmente, já o casal transpunha a
porta de saída e o
batente em ferro secundou a máquina horária de corda manual.
Como
sempre, o marido, todo janota, soergueu o tronco, puxou as calças
para cima na zona do cinto, distendeu o colete, ajeitou a gravata,
acariciou o chapéu e deu um pequeno beijo da amor à mulher.
A
“Ti Rita”,
toda apessoada
e produzida em quase uma hora em frente ao espelho da retrete, num
relance como só uma mulher consegue, como nada disse, deu por
aprovada a indumentária do companheiro. E, num passo cadenciado de
militar russo, atiraram-se à rua.
Eu
sabia que, com grande precisão, noventa minutos depois eles
regressariam ao ponto de partida. Na meia-hora subsequente, a mulher
iria estender os seus trapinhos humildes. Pela qualidade dos lençóis
algo coçados e sem marca dava para ver que eram mesmo um par de
pessoas simples como tantos milhares que atravessam este Portugal de
norte a sul.
Uma
vez por semana, junto à porta, um automóvel meio-descolorido
e já cansado de rodar
parava. Do seu interior, um homem na casa dos “cinquentas”,
abandalhado no porte,
saía e tocava à campainha. “Ti
Rita” vinha à
janela e debruçava-se sobre o visitante. Em seguida atirava uma
chave para baixo. O indivíduo, baixando-se
sobre o chão, apanhava o objecto que permitia a intrusão. Abria a
porta traseira do carro, retirava uma trouxa
atada com dois nós e subia as escadas de acesso ao piso
cimeiro. Dez minutos
depois, fazia o trajecto inverso com roupa muito bem dobrada –
presumi que seria um seu filho único, sem trabalho nem vontade de
trabalhar. Um peso-pesado que, parido por aquela mãe, o que os
ligava era o
amor incondicional e a consanguinidade.
III
Um
dia, logo de manhã, fui alertada pelo som aflito de uma ambulância
com o sonar ligado e a parar junto à casa da minha narrativa. Em
corrida, entraram dois para-médicos com uma maca. Passados escassos
minutos levaram o homem da casa para o hospital.
Passados dias, do meu ponto de
observação, apercebi-me que “Ti Rita” vestia de preto
dos pés à cabeça – coitada, o marido morreu!, dei por
mim a lamentar e a pensar que a minha história estava quase a ver o
fim.
Ainda
não tinha caído uma folha anual no calendário quando, de repente,
vejo a mulher, como fresca e viçosa alface, toda rejuvenescida a
sair para comprar o jornal. Seria a mesma? Dei por mim, em
solilóquio, a questionar os meus botões. Anda passarinho novo a
fazer ninho no beiral, concluí.
Poucos dias passados, comecei
a ver um carro de boa marca a parar junto à porta da velhota. O
condutor, numa prestação de cavalheiro estudada em longas noites de
insónia, rapidamente saía e ia abrir a porta lateral à madame.
Da minha janela, eu
adivinhava o deleite da velha senhora. Entravam juntos
e cerca de uma hora depois o galã, com ar um pouco ajoujado,
batia a porta e seguia a sua existência no seu popó,
extensão de si mesmo.
Curiosamente, o vestuário
estendido a secar na roldana subiu de patamar de classe. Agora a
roupa da cama era muito mais fofinha.
IV
Depois
de largo tempo de rotina repetida, novamente uma ambulância estava
parada junto à casa por mim inspeccionada. Sentada numa cadeira de
rodas, vi então a “Ti Rita” ser transportada,
presumivelmente, para ser avaliada por um médico no hospital.
Mais uma vez, arranhando na
cabeça, em perspectiva, estava a ver o breve fim da minha cusquice.
Para minha surpresa cerca de
uma semana após a saída da velha moradora, vi que o pequeno
edifício estava parcialmente coberto com tarjetas de
“Vende-se - negociação particular”, seguido de um número
de telefone.
Em pensamento de epitáfio,
soletrei: descanse em paz!. E fiz o funeral à minha analisada.
Passados meses, foi num
Dezembro de Natal que avistei vários homens a retirarem os muitos
anúncios de venda. Mais uma vez, numa conjectura tão minha,
acreditei que ia ter novos locatários e, assim, prosseguiria o meu
jogo.
Foi então, para minha grande
surpresa, que avistei a “Ti Rita”, ainda um pouco
combalida, a entrar no seu velho lar.
No
quiosque dos jornais, vim a saber que o filho, dando-a como morta e
falsificando documentos, esteve à beira de lhe vender o prédio.
Rematou
o vendedor de jornais: “olhe, menina, foi um verdadeiro milagre
de Natal a senhora ter recuperado a saúde!”