quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

FELIZ NATAL

 



Na qualidade administrador do blogue, desejo a todos os membros um feliz Natal na companhia de quem mais amam. Nesta época festiva - mas normal e menos atípica -, tenho por costume oferecer uma viagem ao Reino Unido.

Este ano, valha-nos o nosso imenso pesar, devido ao malfadado corona-vírus, vi-me completamente impossibilitado de cumprir a tradição. Ainda tentei marcar com a embaixada para a possibilidade de falar com Boris Johnson, mas disseram-me que o primeiro-ministro inglês estava no cabeleireiro a tentar um penteado decente para comemorar o recente acordo com a União Europeia.

Assim sendo, nem imaginam como estou pesaroso, tenho de adiar a entrega de vouchers para o ano. Fica a nossa esperança. Mesmo assim, Feliz Natal para todos.


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

PIETÁ





Não, a mulher está dormindo,
juntamente com o menino,
talvez sonhe que está indo,
levando o seu pequenino,
para a sua terra, partindo;
Ali, na Loja do Cidadão,
onde começa o Eldorado,
para uns, que já cá estão,
pensam: “está tudo arrumado!”,
outros, valorizam até tostão;
Tal quadro não deixa de ser irónico,
o “hoje”, afirmativo, da cidadania,
a disfunção entre o “ser” e o biónico,
concentrando a vontade e a mais-valia
na máquina, desprezando o “ser crónico”;
A alma desta mulher é a “Piedade”,
retrato dum tempo corrente,
sofrida, chora de saudade,
pela injustiça que sente,
nos humanos, a sua maldade;
Lá, o menino representa Jesus a morrer,
nos braços caídos da Virgem Maria,
a mulher dorida simboliza o sofrer,
a Loja do Cidadão, a fé, a utopia,
a gente que passa, a insensibilidade do “ser”. 


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

CONTO DE NATAL: A “TI” RITA

 

(Imagem da Web)




Durante tantos anos que até lhe perdi a conta, da minha janela, eu segui os seus passos. Eles eram metódicos como um relógio suíço. De segunda a sábado eu sabia o que ia acontecer fora da sua casa. E lá dentro, no aconchego das suas quatro paredes, eu especulava com cada passo percorrido no soalho de madeira. Chegava mesmo a parecer ouvir o seu arrastar cadenciado e silencioso dos seus pés naquele chão brilhante e bem-limpo de um primeiro-andar.

Impreterivelmente, às 9h30, com a sua roupa simples e chinelas de trazer por casa, ela descia os vários lances de degraus e saía para comprar o jornal ao quiosque ali a dois passos. Uma hora depois, às 10h30, saía com o marido de mãos dadas para fazer a sua caminhada – ambos vestiam fatos de treino e calçavam sapatilhas. Pelos traços e madeixas brancas, ambos estariam aposentados.

Sessenta minutos depois regressavam ao lar. Como se eu fizesse parte de um enredo de espionagem do escritor John Le Carré, do meu ponto de observação, eu registava tudo o que via e tentava adivinhar o obscuro e imaginável.

Aquele casal no patamar dos três terços da vida era a porta de entrada de um tempo misterioso e imprevisível que se aproximava de mim a passos rápidos. Na casa do meio-século, provavelmente, em relação a eles, eu teria menos vinte anos. Aqueles cônjuges simbolizavam a paz interior que eu tanto desejava e não tinha na minha vida. Olhava para eles e, como se constituíssem um quadro realista de um bom pintor, sei lá, talvez Henrique Medina, realizava a minha catarse, método psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações recalcadas. Tantas vezes, olhando da minha janela, eu dava por mim a apanhar duas lágrimas rolantes pelo meu rosto ressequido de amor.

Profissionalmente, eu trabalhava em costura. Era costureira, ou modista, se preferirem por ser mais pomposo. Foi devido ao meu talento para o corte e costura que fui trabalhar para aquele estabelecimento de pronto-a-vestir e de vestidos por medida. O atelier era também no primeiro-andar. Com uma grande janela que abarcava todo o largo em frente aos meus olhos, eu memorizava cada gesto, cada sorriso dos vizinhos próximos. Era uma espécie de peça de teatro em jogo mental, em que os actores, os confinantes, logo que davam um passo em direcção à rua, antecipando-me à realidade tangível, efabulava o que ia suceder antes de acontecer.

Estou em crer, nenhum dos “vigiados”, em tempo algum, se deu conta do meu atrevimento. Um facto curioso, apesar dos anos passados na função investigadora, nunca cheguei a saber o nome verdadeiro de qualquer deles. Quando nos cruzávamos, reciprocamente, apenas saía a saudação habitual: “bom dia ou boa tarde ou boa-noite”.

Eles eram apenas figurantes de uma comédia, entre o trágico e o cómico, inventada por mim. Mas todos tinham nomes. Sem padre de paróquia, eu fazia a sua consagração. Foi assim que baptizei a “Ti Rita”.


II


Como estava na hora de almoço, antevia “Ti Rita” agarrada ao fogão. Tendo em conta que possivelmente seriam assalariados por contra de outrem, ou talvez funcionários públicos, seria, porventura, uma cozinha modesta, numa casa tradicional portuguesa, onde se viam muitos objectos pendurados nas paredes. Era como se cada coisa identificasse uma época das suas vidas cheias de pequenas coisas, e cada coisa contasse uma passagem.

Enquanto a esposa fazia o almoço, o marido, com muito carinho estaria a pôr a mesa. De seguida daria um amoroso beijo ao de leve na consorte e, pondo a rodar um vinil de Leonard Cohen no pick up. Ouvindo, absorvendo a voz rouca do canadiano, sentou-se no sofá da sala a ler o jornal do dia - fantasiava eu na minha memorial história melosa.

Quando o relógio, da marca “Reguladora”, pendurado na parede branca da sala por cima do terno de sofás de veludo, bateu as 2h30, como habitualmente, já o casal transpunha a porta de saída e o batente em ferro secundou a máquina horária de corda manual.

Como sempre, o marido, todo janota, soergueu o tronco, puxou as calças para cima na zona do cinto, distendeu o colete, ajeitou a gravata, acariciou o chapéu e deu um pequeno beijo da amor à mulher.

A “Ti Rita”, toda apessoada e produzida em quase uma hora em frente ao espelho da retrete, num relance como só uma mulher consegue, como nada disse, deu por aprovada a indumentária do companheiro. E, num passo cadenciado de militar russo, atiraram-se à rua.

Eu sabia que, com grande precisão, noventa minutos depois eles regressariam ao ponto de partida. Na meia-hora subsequente, a mulher iria estender os seus trapinhos humildes. Pela qualidade dos lençóis algo coçados e sem marca dava para ver que eram mesmo um par de pessoas simples como tantos milhares que atravessam este Portugal de norte a sul.

Uma vez por semana, junto à porta, um automóvel meio-descolorido e já cansado de rodar parava. Do seu interior, um homem na casa dos “cinquentas”, abandalhado no porte, saía e tocava à campainha. “Ti Rita” vinha à janela e debruçava-se sobre o visitante. Em seguida atirava uma chave para baixo. O indivíduo, baixando-se sobre o chão, apanhava o objecto que permitia a intrusão. Abria a porta traseira do carro, retirava uma trouxa atada com dois nós e subia as escadas de acesso ao piso cimeiro. Dez minutos depois, fazia o trajecto inverso com roupa muito bem dobrada – presumi que seria um seu filho único, sem trabalho nem vontade de trabalhar. Um peso-pesado que, parido por aquela mãe, o que os ligava era o amor incondicional e a consanguinidade.


III


Um dia, logo de manhã, fui alertada pelo som aflito de uma ambulância com o sonar ligado e a parar junto à casa da minha narrativa. Em corrida, entraram dois para-médicos com uma maca. Passados escassos minutos levaram o homem da casa para o hospital.

Passados dias, do meu ponto de observação, apercebi-me que “Ti Rita” vestia de preto dos pés à cabeça – coitada, o marido morreu!, dei por mim a lamentar e a pensar que a minha história estava quase a ver o fim.

Ainda não tinha caído uma folha anual no calendário quando, de repente, vejo a mulher, como fresca e viçosa alface, toda rejuvenescida a sair para comprar o jornal. Seria a mesma? Dei por mim, em solilóquio, a questionar os meus botões. Anda passarinho novo a fazer ninho no beiral, concluí.

Poucos dias passados, comecei a ver um carro de boa marca a parar junto à porta da velhota. O condutor, numa prestação de cavalheiro estudada em longas noites de insónia, rapidamente saía e ia abrir a porta lateral à madame.

Da minha janela, eu adivinhava o deleite da velha senhora. Entravam juntos e cerca de uma hora depois o galã, com ar um pouco ajoujado, batia a porta e seguia a sua existência no seu popó, extensão de si mesmo.

Curiosamente, o vestuário estendido a secar na roldana subiu de patamar de classe. Agora a roupa da cama era muito mais fofinha.


IV


Depois de largo tempo de rotina repetida, novamente uma ambulância estava parada junto à casa por mim inspeccionada. Sentada numa cadeira de rodas, vi então a “Ti Rita” ser transportada, presumivelmente, para ser avaliada por um médico no hospital.

Mais uma vez, arranhando na cabeça, em perspectiva, estava a ver o breve fim da minha cusquice.

Para minha surpresa cerca de uma semana após a saída da velha moradora, vi que o pequeno edifício estava parcialmente coberto com tarjetas de “Vende-se - negociação particular”, seguido de um número de telefone.

Em pensamento de epitáfio, soletrei: descanse em paz!. E fiz o funeral à minha analisada.

Passados meses, foi num Dezembro de Natal que avistei vários homens a retirarem os muitos anúncios de venda. Mais uma vez, numa conjectura tão minha, acreditei que ia ter novos locatários e, assim, prosseguiria o meu jogo.

Foi então, para minha grande surpresa, que avistei a “Ti Rita”, ainda um pouco combalida, a entrar no seu velho lar.

No quiosque dos jornais, vim a saber que o filho, dando-a como morta e falsificando documentos, esteve à beira de lhe vender o prédio.

Rematou o vendedor de jornais: “olhe, menina, foi um verdadeiro milagre de Natal a senhora ter recuperado a saúde!”


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

VEM AÍ O NATAL! OUTRA VEZ? JÁ?

 

(Retirado da Web)



VEM AÍ O NATAL! OUTRA VEZ? JÁ?


É Dezembro, as folhas, cansadas de uma vida presa, vão caindo lentamente...

Dando lugar a outras que nascerão de novo na Primavera em sua substituição...

O Outono, em sopro de brisa suave, vai caminhando em busca do seu sucessor...

O tempo, na sua marcha lenta, dá uma das suas muitas faces de quarto-crescente...

As andorinhas, abandonando seus ninhos, já partiram em busca de outro chão...

Deixaram memórias vivas, construídas em beirais, de uma vida errante, o lavor...

A percorrer milhares de léguas, cortando continentes, vão regressar alegremente...

Num milagre da Natureza, os novos passarinhos irão recomeçar a multiplicação...

No seu intenso chilrear ao sol-pôr mostrarão que a felicidade é apenas um clamor...

Um sentir dentro do peito, um bater no coração, uma flor que cresce, uma semente...

Um rio de águas calmas, um prado verde deitado ao Sol, as palavras de uma oração...

Numa roda natural, a seguir ao frio de geada, inevitavelmente, virá o tórrido calor...

Por maior desastre que aconteça, em equilíbrio preciso, tudo tenderá para o ausente...

Um porvir de mudança, um futuro de esperança, uma existência nova, uma bênção...

Um Natal solidário, uma quadra solta de poesia apócrifa, uma perene época de amor.

NOTÍCIAS DE BARRÔ: AMANHÃ O SENHOR PADRE VISITA-NOS

 





Amanhã, Quarta-feira, pelas 10h00, inserido em visita de cumprimentos natalícios e pastorais às comissões de capelas do concelho, na qualidade de pároco agregado, o padre Rodolfo Santos Oliveira Leite visita Barrô.

Segundo Edite Pedro, da missão de capela local, “ao que sei, o sacerdote, numa visita rápida, já que vai fazer o mesmo em outras aldeias, vem apenas apresentar cumprimentos à nossa comissão. Evidentemente que se alguns moradores quiserem estar presentes serão bem-vindos. Contudo, a visita específica para se apresentar à população, tanto quanto julgo saber, será agendada para mais tarde, certamente quando passarem os efeitos nefastos da pandemia.”

Relembro que o actual sacerdote substituiu recentemente o padre Carlos Alberto da Graça Godinho. Segundo o Anuário Católico de Portugal, consignado pelo Arcipreste Coimbra Norte, Rodolfo Leite, o novo presbítero, tem à sua conta o serviço pastoral em Barcouço, Casal Comba, Mealhada, Vacariça e Ventosa do Bairro, Luso e Pampilhosa. Para além disso, é também Capelão da Santa Casa de Misericórdia da Mealhada.


“MENSAGEM DE NATAL DO PÁROCO”


Esta semana, Barrô foi surpreendido por um desdobrável em folha A4, em cores em que o azul predomina, com a “Mensagem de Natal do Pároco – Dezembro 2020 – Unidade Pastoral da Mealhada”.

Dividida por dois itens, o primeiro, a predominar, é uma “oração para a noite de Natal”. Para ser lida “na melhor oportunidade, antes ou após a consoada”, é apresentada como uma peça de teatro; temos um narrador, o público assistente e o leitor.

No segundo, na última parte, a “Mensagem do Pároco”, naturalmente sobre o Natal, sobressai:

“Caros paroquianos:

Venho saudar-vos com muito afeto, nesta época tão especial e tão bela que estamos a viver. Contudo, este ano, não deixa de ser um natal diferente. A pandemia veio transformar os nossos hábitos, complicar as nossas vidas e pôr em suspenso os nossos projetos e o nosso futuro. (…)”

E termina com um “Santo Natal!”.

Assinado, “O vosso Pároco, Padre Rodolfo Santos Oliveira Leite”


domingo, 13 de dezembro de 2020

NOTÍCIAS DE BARRÔ: O BOM FILHO À CASA TORNA

 

(Foto de arquivo)




Depois de trinta e três anos por terras helvéticas, António Dias Taveira – o Taveira como era reconhecido no meu tempo e na sua passagem pela escola primária da Lameira – regressou de vez à terra que o viu nascer, mais propriamente à aldeia de Barrô.

Decorria o ano de 1987 quando o Taveira, fazendo um balanço entre o que tinha à sua disposição e o futuro que se aproximava a passos largos, rumou à Suíça, um país montanhoso e situado no centro da Europa considerado à época o eldorado de alguns barrosenses e muitos outros milhares de nacionais.

Como exemplo do português “self made man” que tão bem conhecemos, sem qualquer receio, metendo as mãos ao que aparecia para alcançar a desejada tranquilidade pessoal e familiar, começou por trabalhar numa quinta agrícola (“une ferme”, como recorre o António, ainda muito familiarizado com o francês) onde fazia o que era necessário.

Depois de poucos anos na agricultura, foi para uma empresa de construção onde se manteve também alguns anos.

A seguir, numa experiência que considera única e de grande formação humana, encaixou-se numa casa mortuária. Durante cerca de uma dezena de anos, dando cada vez maior valor à vida, conviveu de perto com a morte.

Para terminar a sua faina laboral em beleza, manteve vários anos e até há pouco a ligação a um escritório que tratava de tudo o que respeitasse a correspondência.


UM FIOZINHO CHAMADO SAUDADE


Mesmo com a inolvidável maravilha natural dos lagos, das vilas, dos picos elevados dos Alpes suíços, o António, naqueles momentos de maior introspecção, dava por si a pensar na sua pequena aldeia, Barrô, aquele enclave situado entre a Mealhada e o Luso, onde se encontram os seus ancestrais. Tinha muita saudade do Sol que beija as cercanias desde a Ribeira do Salgueiral até ao alto do Couto, no ponto norte da povoação. Tinha nostalgia dos seu familiares e, apesar de estar afastado há muitas décadas, das gentes humildes do lugar. É certo que os mais novos, os filhos da velha geração, não os iria reconhecer. Mas, tinha a certeza, sendo o povoado historicamente decano na arte de receber, tudo iria correr bem.

É também certo que a decisão de regressar às origens juntamente com a sua esposa implicava separar-se dos seus quatro filhos, todos já com a vida organizada na nação dos trilhos e estações do esqui e dos célebres bairros medievais, mas o corte nunca seria definitivo, de tempos a tempos voltaria a abraçar os seus, o sangue do seu sangue.


E COMO VÊS BARRÔ, AGORA?


Na comparação entre a povoação que deixou em 1987 e hoje, António Taveira não tem dúvidas: “não tem nada a ver com esse tempo! Mas vejo isso a duas velocidades”.

A primeira, hoje, para seu contentamento, todas as ruas estão alcatroadas – embora umas melhor que outras. Nota-se uma grande preocupação geral com o meio-ambiente. A limpeza é uma constante. Nota ainda que, aparentemente, todos os habitantes têm um nível económico muito acima do que se vê noutras terras.

A segunda, apesar de ainda estar aqui há pouco tempo, apercebe-se que, quando anda por aí a passear os cães, não se vê ninguém nas ruas. “Ora, embora tente entender os novos costumes, isto é uma total contradição com o nosso tempo de meninos”, enfatiza.

Em meu nome pessoal e em nome do nosso lugar de eleição, se posso escrever assim, apresentamos as nossas cordiais saudações e as boas-vindas ao António Taveira.


FALECEU UM DOS NOSSOS GRANDES COLEGAS

 





Antes de ontem, na sexta-feira, realizou-se o funeral do nosso prestigiado e reconhecido colega das lides comerciais, Jorge Manuel Baptista Mendes, de 89 anos, sócio-gerente do grupo de lojas Jorge Mendes. Com três estabelecimentos com o mesmo nome em Coimbra, dois na Praça do Comércio e outro na Rua dos Combatentes, o Kilo Americano, todos dedicados à decoração para o lar.

Com um pouco de atraso, à família enlutada, em meu nome pessoal e em nome da Baixa comercial, se posso escrever assim, as nossas mais sentidas condolências. Que o nosso querido amigo descanse em paz.


UM POUCO DA SUA HISTÓRIA


Nascido em 1931 numa família de cinco filhos onde o bichinho do comércio era o sangue que corria nas veias e artérias e alimentava o coração da prole, nem o facto de a economia mundial se encontrar em profunda depressão – originada pelo “crash da bolsa”, em que os valores cotados na Bolsa de Nova Iorque caíram a pique e, com essa queda abrupta, ter desencadeado uma crise mundial – levou a que o velho Mendes, o progenitor do agora homenageado, deixasse de incentivar o seu rebento a seguir as suas pisadas logo a seguir aos estudos básicos.

Decorria o ano de 1946 quando, com 15 anos de idade, começou a trabalhar no número 99 da antiga praça velha, no estabelecimento familiar.

Quis o destino que seu pai, o timoneiro do negócio, adoecesse precocemente e, por este facto anómalo, fosse empurrado ainda novo para o leme do barco mercantil. Apesar dos tempos difíceis que se viviam em Portugal, sobretudo com o rebentamento da guerra nas ex-colónias, o jovem Mendes, então com 33 anos, sonhador e com grande sensibilidade para a nobre arte de negociar, balouçava entre atirar-se para novos projectos na área do desporto ou na decoração de interiores. Como o gosto pela segunda tocava mais fundo e era uma paixão, acabou por enveredar num longo caminho que, apesar das dificuldades que todo o comércio a retalho atravessa, nunca se arrependeu – falava o agora falecido numa longa conversa, agora recuperada, há dois anos, em 2018, por ocasião do seu 87º aniversário.


O COMÉRCIO TRADICIONAL VISTO PELO OLHAR DE UM VETERANO


“As grandes superfícies comerciais são as grande causadoras da morte da decoração de interiores e de vários ramos do comércio tradicional. Prometem muitos empregos mas depois vê-se que não é assim. O grande empregador foi sempre o comércio tradicional” - enfatizava Manuel Mendes numa conversa que, pelo gosto em ouvir, me deu muito prazer.

“Você já viu o Leroy (Merlin)? Tem tudo! Não é barato! Tem é mais quantidade que qualquer loja. Tem stocks brutais!

O comércio está muito enfraquecido! Os comerciantes, no geral, perderam a capacidade financeira. O comerciante está desmotivado e afogado em dívidas. O comércio de rua continua a perder qualidades. Hoje a concorrência está em roda livre. Estamos subjugados ao grande capital Global. O pequeno comerciante não pode competir”.


E COMO VÊ A BAIXA, SENHOR MENDES?


“Vejo o futuro da Baixa muito complicado. Um dos muitos problemas é o estacionamento a pagar, porque afasta os clientes. Outro ainda foi a saída das lojas-âncora da zona histórica.

Para a Câmara Municipal de Coimbra o comércio não tem qualquer registo de importância.

A Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra tem feito um bom trabalho para trazer pessoas para a Baixa, mas para o comércio, especificamente, traz pouco retorno.

O metro ligeiro de superfície é fundamental para o desenvolvimento da Baixa. Estou muito esperançado. Se for concretizado, vai haver uma mudança muito grande nesta zona.

Para inverter a actual situação é preciso haver menos casas abertas mas de melhor qualidade - e aqui estou a incluir o comércio e a indústria hoteleira. A maioria não tem qualidade.

Por outro lado, há uns anos falei com o engenheiro Craveiro (João Paulo Craveiro) e ele defendia uma tese que eu não concordei. Dizia o engenheiro que, devido ao facto de algumas ruas serem muito estreitas e impedirem o sol de entrar, se a oportunidade surgisse, era preciso que a autarquia adquirisse e mandasse demolir alguns quarteirões com prédios centenários para construir ilhas onde a luz entrasse e evitasse o cheiro fétido que se respira por vezes. Hoje, passado algum tempo, concordo inteiramente com ele. Repare o que se fez no Largo do Romal. Há cerca de cinquenta anos mal se respirava. Alguns edifícios foram abaixo e hoje, como vê, está lindo.

Estou muito feliz por ainda estar a trabalhar diariamente nas lojas. Cumpro três horas de manhã e outras três durante a tarde.

Nunca atropelei ninguém. Fiz sempre o mais correcto com a concorrência. Por isso tenho muitos amigos. Nas minhas lojas foram muitos os comerciantes que ali tiraram o curso.”. Entrevista realizada em 2018.