sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

DEUSES E DEMÓNIOS MERCANTIS






Escrevi esta crónica em 16 de Maio de 2012.
Correndo o risco de cair no ridículo pela auto-citação,
pela actualidade, volto a publicá-la.
Curioso o facto de a pessoa que fez o comentário mais
abaixo, a azul, depois de lhe responder à letra, cortou
relações comigo. Ou seja, tudo igual aos dias que
correm. Quem discordar do pensamento único e plasmado
pela maioria, no máximo é insultado e no mínimo vai para
o “Index”.

“Permita-me discordar de alguns pontos. É certo que o pequeno comércio ficou abalado com as grandes superfícies, é certo que a crise agora é desculpa para tudo e acredito que tem afetado mais uns do que outros. No entanto, o comércio tradicional, e neste caso o da baixinha, tem sofrido mais devido a tacanhez de alguns comerciantes. Ainda hoje constatei isso, quando quis ir comprar uns sapatos e encontrei muitas e muitas lojas encerradas à hora de almoço, quando a maioria das pessoas é a essa hora que aproveitam para fazer as suas compras. Fiquei igualmente desapontada quando entrei numa loja e passado uns minutos a senhora desligou as luzes e disse que reabriam as 15h00. E noutras situações, fui quase que "maltratada" quando devia ser o oposto. Ainda sou das pessoas que gosto de fazer as compras na Baixa, sou "fiel" a algumas lojas na Baixa pela simpatia de atendimento, pelo facto de saber que estão abertas à hora de almoço e por muitos outros motivos. Ora é claro que por causa de uns pagam outros comerciantes que se esforçam, que lutam por aquilo que é deles. Portanto, não creio que devemos atirar as culpas à autarquia, ou o executivo. A culpa é na sua maioria dos comerciantes. Tenho pena que esta loja, há tantos anos instalada na Baixa, e que acho que até há pouco estava aberta à hora de almoço, tenha fechado, mas duma forma geral a culpa das vendas não serem as desejadas é muito por causa dos comerciantes, ou pelo menos de alguns que estão sempre à espera que façam alguma coisa por aquilo que é deles. Calhando o que a Baixa precisa é duma reciclagem de alguns comerciantes. Bem-haja!”
(Funcionária pública)


Vamos lá ver se consigo fazer de advogado do diabo. Começo por te dizer, cara amiga, que, a meu ver, tens razão quanto à rigidez dos horários comerciais na Baixa. Na parte que me toca, e não estou sozinho nesta questão de alargamento, há cerca de um ano e meio, corri as lojas todas para tentar que todos abríssemos ao Sábado à tarde. De um universo de 500 estabelecimentos, no primeiro dia estiveram abertos 60, no segundo à volta de 40 e nos seguintes e, tal como hoje, há volta de uma vintena.
No meu modo de ver, nesta inamovibilidade, nesta prisão a velhos conceitos, reside o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” dos homens do comércio. Ou seja, como é que se pode transmitir à opinião pública uma situação de aflição de uma classe se a maioria não mostra querer esforçar-se para mudar e conseguir novos clientes. E então, perante esta rigidez, parecendo que estão todos bem, as pessoas pensam da mesma forma que tu pensas.
Porém há questões de pormenor que temos de interrogar:

-Por que razão procede assim a maioria dos comerciantes?
-Há ou não, de facto, situações de grande miséria no comércio?
-Serão os comerciantes os grandes causadores desta situação?
-Serão as autarquias culpadas da crise no comércio?

Vou tentar responder à primeira pergunta: por que razão procede assim a maioria dos comerciantes?

É assim: hoje o universo comercial é um arquipélago de várias ilhas. Há umas maiores que, quer por herança, quer porque a seu tempo, souberam apostar no imobiliário e, como recebem várias rendas, estão muito bem. Alguns destes, poucos, embora tenham várias lojas encerradas, ainda detêm um ou outro estabelecimento aberto na Baixa, mas como não estão dependentes do que se vende diariamente aqui pouco lhes importa o movimento. Alguns têm lojas nos centros comerciais. Falar com estas pessoas para alargarem os horários nem vale a pena. Para eles a Baixa é uma espécie de gueto que não interessa ao menino Jesus. É muito provável que se o comércio continuar a cair, dentro de pouco tempo, encerrem tudo de vez por aqui.

A seguir vêm umas ilhotas sem grande significado, mas cujo espaço é deles, na maioria dos casos por herança, portanto não pagam renda. Como nunca se atiraram em grandes empreendimentos, porque nunca precisaram, hoje estão sem dívidas e muito bem de vida. Esforçam-se, sim, mas apenas no horário convencionado. Convencê-los a irem mais além é impossível. Jamais!

A seguir vem uma ilhota mais pequena formada por velhos comerciantes que partiram do nada e, ao longo das décadas, foram subindo a corda a pulso com muita dificuldade. Compraram o prédio onde detêm os estabelecimentos e ainda hoje o estão a pagar ao banco. Alguns deles embarcaram no “canto da sereia” do Procom, programa de ajuda ao comércio, em 1996 e anos seguintes, e hoje estão completamente aflitos. Para comprarem as suas colecções, utilizavam contas caucionadas de valores médios na ordem dos 40 mil euros. Como nos últimos dois anos a procura caiu, os bancos, vendo a probabilidade de mais um incobrável, hipotecaram o património destes mercadores e hoje, estes, têm um garrote no pescoço e em vias de perderem tudo –este é a principal causa de insolvências na Baixa. Como já estão muito debilitados físico e psicologicamente e sem qualquer esperança no futuro, também não é possível contar com eles. Esta é a geração mais maltratada do comércio. Alguns deles estão a passar muito mal, com dificuldades em comprar medicamentos, por exemplo.

Depois umas ilhas pequenas, sem património, sem dinheiro e sem crédito, cujo rendimento da loja é o seu único sustento –porém estão a pagar uma renda exorbitante. É tudo calculado ao milímetro. A água que se gasta, a luz da montra. Já há muito que não detêm multibanco para não pagarem as elevadas taxas. Estas pessoas, embora não se lhes dê valor, são verdadeiros heróis contorcionistas a tentarem um equilíbrio impossível para trazerem a cabeça erguida. Não alinham no alargamento de horários para não aumentarem as suas despesas. Estão mesmo no limite e em muitos casos já estão a passar mal em casa.

Passando à segunda questão, há ou não, de facto, situações de grande miséria no comércio?

Embora já tivesse respondido em cima, reitero que sim. Há muitos, mas mesmo muitos profissionais a passarem mal.

Passando a outra interrogação: serão os comerciantes os grandes causadores desta situação?

Antes de prosseguir, vou começar com uma pergunta: serão os funcionários públicos os causadores das próximas rescisões contratuais e actuais cortes nos subsídios?
Por aqui já vemos que culpar os comerciantes pela actual crise comercial é falacioso, gratuito e até ofensivo. Os problemas do comércio tradicional nas cidades radicam em vários factores, sem ordem de prioridade:

-Elevada oferta (dentro do próprio meio, com demasiadas lojas);
-Descentralização e esvaziamento dos centros urbanos;
-Abertura de muitos pontos de venda em vilas e cidades limítrofes;
-Alteração profunda dos costumes; a não identificação dos jovens com o comércio tradicional;
-Envelhecimento do cliente-modelo do comércio de rua e não renovado pelos filhos, que passaram a ser atraídos pelas grandes mecas do consumo;
-Abandono de políticas de revitalização predial por parte das autarquias;
-Políticas governamentais de arrendamento criminosas nos últimos 38 anos;
-Abertura desmesurada de grandes áreas comerciais em torno da cidade, com maior possibilidade de escolha e, em alguns casos, melhores preços –estes impossíveis de praticar num pequeno negócio;
-Oferta de estacionamento gratuito nas grandes superfícies –impossível de competir nesta gratuitidade nas grandes cidades;
-Políticas comerciais agressivas, de "terra queimada", com recurso a”dumping", no grande comércio e visando destruir o pequeno;
-Grande investida do comércio electrónico;
-Desmantelamento da produção nacional, o que tem obrigado a não haver grande escolha e todos venderem “made in China”, com a agravante de não poderem competir em preços com as grandes cadeias;
-Embaratecimento brutal no vestuário e no calçado, sobretudo na última década, diminuindo os lucros nas vendas;
-Deslocalização de serviços administrativos para a periferia;
-Transferência de residentes pobres para bairros económicos dos arrabaldes;
-Crise estrutural (interna) a partir de 2002, com a procura a cair vertiginosamente e esmagamento das margens de lucro;
-Crise conjuntural (mundial) a partir de 2008, verificando-se uma deflação acentuada no vestuário, sapatos, artigos decorativos e outros, levando à falência em barda de pequenas e médias empresas.

E última pergunta: Serão as autarquias culpadas da crise no comércio?

Ora bem, embora já tivesse respondido em parte em cima, sempre vou adiantando que as autarquias também fazem parte do problema. Nos últimos 20 anos, para mostrarem obra aos eleitores, os executivos, na maioria dos casos, a troco de umas piscinas, uns pavilhões multiusos, umas rotundas e mais uns acessos, alteraram os PDM’s para permitirem a instalação de grandes áreas comerciais. Sem terem em conta o impacto no equilíbrio de oferta, entregaram o comércio tradicional numa bandeja de latão. Supõe-se que, enquanto as obrigações para o comércio de rua nos últimos anos têm aumentado, para estas grandes superfícies, pelo contrário, continuarão a ser largamente beneficiadas.

CITAÇÕES DE UM CONHECIDO...

voltaire

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

EDITORIAL: ESTA BAIXA QUE TODOS AMAM, MAS CADA UM À SUA MANEIRA

(Leonardo Braga Pinheiro)




1 - Ontem, na Página da Câmara Municipal de Coimbra (Não Oficial), no Facebook, um membro do grupo postou uma foto de um antigo estabelecimento, felizmente ainda em actividade na Baixa e com cerca de um século, com a seguinte legenda: “Contra tudo e contra todos lá vai sobrevivendo.”
Em seguida um membro fez o seguinte comentário: “Amigo nem sei como.... Com um empregado que não tem nenhum bom modo de atender clientes... Já me aconteceu a mim, nunca mais entrei naquela casa. Menos um cliente.”
Outro agregado escreveu: “eu costumo dizer o meu dinheiro só dou ganhar a quem me atende bem. Um bom ano.”
Outro participante escreveu ainda: “permita-me que eu também me pronuncie acerca destes comentários. Não são agradáveis, é verdade, mas infelizmente não é caso único este tipo de comportamento para com os clientes. Também é verdade que não agradamos a todos, mas quem está atrás de um balcão seja patrão ou funcionário deverá primar pela simpatia, pois é uma mais valia para angariar clientes. De certeza que a loja não fechará porque teve um comentário negativo, agora não podemos é esconder o que está mal pois só assim é que se evolui. Também não conheço o proprietário, mas estive muitos anos atrás de um balcão. Também é verdade é que esta loja ficou parada no tempo, o que é bem visível. E parece-me que compete ao proprietário zelar pelo que é seu. Se ele não o fizer não há animação da Baixa, revoltas, críticas, positiva ou negativa, que lhe valham. Estamos no séc. XXI, a agricultura teve uma grande evolução e agora até está na moda. Porque não actualizar-se? Será que não atrairia mais clientela?”
2 – No Diário as Beiras de hoje, um advogado colaborador do jornal, com o título da crónica “O futuro da Baixa. Uma questão de mentalidade”, num longo texto de meia-página, perora sobre o estado anémico da Baixa de Coimbra. Segundo a sua explicação, porque trabalha o dia inteiro, decidiu vir depois das 19h00 fazer compras para o Natal e para o Ano Novo. “Mas às 19h05 já estava praticamente tudo fechado”, constatou.
Acerca de o comércio encerrar às 19h00, o digníssimo articulista procurou investigar a razão. Citando entre aspas o que ouviu de pessoas ligadas ao comércio, plasmou: “o comerciante também tem direito a descansar” e “depois das 19h00 também já ninguém vem à Baixa de Coimbra”. Pelo meio ainda ouvi o já tradicional queixume de que as “pessoas preferem ir aos centros comerciais porque têm estacionamento” e “se a câmara instalasse nos edifícios sua propriedade alguns serviços públicos as pessoas viriam à Baixa e assim comprariam no comércio tradicional”.
Acerca desta parte, termina assim: “Como já eram 19h25, fui ao Centro Comercial fazer as minhas compras.”
Continuando a reproduzir, “Em outro dia daquela última semana de 2017, nova tentativa e decidimos “ajudar o comércio tradicional indo jantar a um típico restaurante da baixa de Coimbra”. Procurámos um daqueles espaços característicos da restauração portuguesa que todas as cidades têm e que Coimbra, pela sua história, terá certamente também! Escolhemos um restaurante. Começou o calvário: rapidamente fomos confundidos com forasteiros, fomos mal servidos, convivemos de muito perto com uma higiene péssima, uma apresentação de meter dó e, o pior de todos os males: convivemos com as sucessivas tentativas de enganar os clientes (algo que não aconteceu só com a minha mesa, mas que estava a acontecer um pouco por todas as mesas). Após as reclamações, a culpa parecia ser sempre do cliente, pois nós é que não sabemos apreciar o excelente serviço com que nos presenteiam... Sei que há excepções e por isso não quero generalizar, no entanto, após estas duas experiências, vou pensar duas vezes antes de ir à Baixa gastar o meu dinheiro! Esta foi só a minha primeira conclusão. A minha segunda conclusão foi que “assim, a Baixa está mesmo condenada”.
Passando por dar resposta às suas próprias interrogações, para terminar, culpa os comerciantes com a seguinte expressão: “Há que dizê-lo: a principal dificuldade da Baixa de Coimbra é a mentalidade com o que os comerciantes encaram o comércio.”
3 - Comecemos pela similitude entre as manifestações dos comentadores do Facebook e do causídico articulista:

a) -Todos amam cegamente a Baixa. Esta cegueira fá-los agir em contra-mão, no interesse contrário do centro histórico;
b) -Em nome desse incondicional amor, como anjos anunciadores da boa-nova, crêem ter a solução para um problema que só é irresolúvel porque os comerciantes não estão dispostos a mudar;
c) -Em nome desse incondicional amor que apregoam, sem terem conhecimento de todas as premissas, julgam-se no direito de julgar uma classe apenas com assento em um ou dois casos em que foram intervenientes -no caso do legisperito é mais grave. O doutor, pela profissão que exerce, pelo equilíbrio entre partes, pela justiça que deve defender, sabe que está a ser profundamente injusto. Embora diga que não, num apriorismo bacoco, parte de citações particulares para o geral, o que não se admite vindo de um jurisconsulto. Basta ler os seus desabafos para se verificar que confunde facilmente o rebanho com o pastor;
d) -Em nome desse incondicional amor que apregoam, sem se aperceberem, pelas suas injustas frases escritas, estão a contribuir para o mais rápido afundamento da zona comercial e também da indústria hoteleira -no caso dos comentadores do Facebook, parecem ignorar que ao particularizar o queixume numa empresa e difundindo-o através das redes sociais com o possível intuito de a prejudicar -mesmo que a razão lhe assista-, correm o risco de serem demandados por difamação;
e) -Quer uns quer outros, no caso o advogado e os comentadores de ocasião, sabem que há instrumentos apropriados para fazerem desaguar o seu desagrado. Entre outros e mais à mão: o Livro de Reclamações. Pediram-no no local próprio? Aposto que não! Como Maria Madalena no santo sepulcro, é mais fácil vir carpir mágoas para as redes sociais ou para os jornais diários. Dá mais status, mais pica!
4 – Diz-nos a experiência, como boa conselheira, que quando apreciamos uma situação sem percorrermos todos os passos necessários para aferir da verdade corremos o sério risco de cairmos no ridículo. Se eu afirmar que, para tratar de um assunto jurisdicional, fui a dois advogados e, cobrando-me principescamente, ambos não me souberam esclarecer, ou seja, fui mal servido, posso afirmar que aqueles profissionais não dignificam a classe? Que a principal dificuldade da advocacia é a mentalidade com o que os advogados encaram a sua profissão? Posso, mas devo tratar disso em local próprio: isto é, a Ordem dos Advogados.

5 – Para terminar, a meu ver, a recuperação da Baixa dispensa completamente este tipo de comentários. Sendo sério, uns e outros têm alguma razão? Têm sim, mas apenas alguma. Não toda, como querem fazer parecer a quem não está dentro das dificuldades da zona comercial. Ou seja, armados em salvíficos, tomando a parte como o todo, querem apenas defender a sua tese destrutiva. Só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro.
Qualquer solução para um problema que se arrasta no tempo é sempre resultado de vários factores: estruturais, conjunturais e ocasionais. Tomarmos apenas uma asserção e dela fazermos a demonização é cair numa análise curta e deficiente. Para melhor exemplificar, é o mesmo que afirmarmos que os incêndios de Junho e Outubro, que ocorreram em Portugal, foram apenas uma consequência do elevado calor atmosférico.

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Foto de José Dias.





O movimento Cidadãos por Coimbra (CpC), no próximo Sábado pelas 20h00, dia 06 de Janeiro, no Café Nicola, vai realizar um jantar de Ano Novo destinado a amigos, simpatizantes, candidatos e camaradas. O encontro, com um custo de 12.50 euros por pessoa, que inclui entradas, bebidas, bacalhau à Nicola, sobremesas, doce e café, será abrilhantado com animação musical à entrada e à saída.
Com intervenções políticas de José Manuel Pureza, deputado eleito à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda, e José Dias, cidadão conimbricense e mentor do CpC o convívio promete.
Os organizadores, no espírito associativo de “Bem haja Saúde e Bom Ano Novo”, convidam todos quantos se quiserem inscrever pelo número de telemóvel 962 916 842.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

COMÉRCIO: CONSTATAÇÕES E PARADOXOS






Para os mais atentos e que se preocupam com questões de cidadania local, este final do mês de Dezembro, do ano transacto, diferindo um pouco dos anteriores finais de ano, ficou marcado por uma manifestação pública de cerca de quatro dezenas de comerciantes em frente à Câmara Municipal de Coimbra, no dia 20, a pugnarem por uma intervenção, ou seja, um outro olhar camarário sobre o estado decadente da Baixa comercial.
Por parte do executivo, em constatação, parece que nada aconteceu na cidade. Isto é, usando o ostracismo, o desprezo, como arma política, os vereadores do executivo, com pelouro, fazem de conta que tudo continua na modorra e na paz dos anjos de sempre. Assim como se o que tivesse de encerrar encerrasse de vez e já estancasse a sangria. Acontece que não é assim.
Em paradoxo, o executivo, fingindo que não vê, não ouve, não pressente, está a fugir à sua responsabilidade. Porque vejamos, em metáfora, se uma árvore no Parque Manuel Braga adoecer e morrer, em princípio, não será assunto a ser discutido em reunião camarária, mas, continuemos a imaginar, se todas as plantas do parque público, uma atrás de outras, começarem a apresentar indícios de maleita e a morrer já é obrigação do governo local tomar providências para acautelar a calamidade.
Agora passemos para a realidade comercial. Nos últimos tempos, sobretudo na meia dúzia de anos que passou, praticamente assistimos a uma razia no desaparecimento de lojas comerciais mais antigas. Especulando, é de antever que o seu universo, na actualidade, nesta zona velha teria passado de cinco para cerca de três centenas, pergunta-se:
-Sabendo a importância que estes pontos de venda têm na vivência da urbe e que fazem parte da atracção turística, é possível compreender a quietude do órgão municipal?
-Mais: sabendo nós que as Ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges, sendo as artérias principais da Baixa, têm neste momento 17 estabelecimentos comerciais encerrados (incluindo três entradas de porta que foram, durante muitos anos, negócios) e que outros estão em linha, não será assunto para ser debatido pelo governo local?
-E percebermos que a Rua da Sofia, uma notável antiga artéria de colégios que, pela sua longa historicidade, deu aso a ser classificada pela UNESCO como Património da Humanidade, tem 8 estabelecimentos encerrados, não deveria gerar preocupação?
-Se considerarmos que a Rua Adelino Veiga, outrora uma das mais importantes para o comércio, hoje tem 18 lojas encerradas -há poucos dias encerrou uma ourivesaria-, isto não deveria constituir um ponto na ordem de trabalhos dos dirigentes pela (des)ordem pública?
-Se entendermos que a Rua Eduardo Coelho, até há poucos anos uma das vias estreitas com mais movimento de transeuntes, hoje está desertificada e tem 8 lojas encerradas, isto não será tema para quem manda?
Enquanto eleitos por sufrágio popular, fosse por escassa ou larga margem, estas pessoas com assento parlamentar são os representantes dos eleitores. Esperando que a sua insensibilidade não seja para lamentar -resta sempre uma vã esperança de intervenção-, são elas que têm obrigação de analisar o que está acontecer e tomar medidas para contrapor a devastação. A lamentação de que os comerciantes são assim ou assado, não se entendem, ou não têm quem os represente são simplesmente desculpas esfarrapadas para se manterem quietos e calados. Questões internas de associação, se é certo que os fragilizam, apenas dizem respeito aos intervenientes. O que deve prevalecer é a defesa da cidade, da sua segurança -um encerramento contribui fortemente para a sensação psicológica de temor de quem cá permanece ou simplesmente passeia- da sua vitalidade, do seu futuro. Uma urbe, como catalizador, deve gerar vários movimentos de regeneração -e até sentimentos- entre emprego, prazer de viver, orgulho citadino, e, acima de tudo, deve ser um polo gerador de riqueza -que, tendo governantes justos, a devem distribuir com equidade e tomando atenção aos mais frágeis. Um lugar habitado sem vida é um poço de doenças sociais.

E A OPOSIÇÃO? COMO É QUE SE APRESENTA?

Nem sei se estas palavras serão minhas, mas costumo dizer que a oposição só governa bem quando está no lado oposto da barricada. Para perceber melhor, basta ver que a Baixa caiu muito mais a partir de 2013, ano em que o Partido Socialista (PS) tomou conta dos destinos da cidade. Com a Coligação PSD e CDS no poder, entre 2001 e 2013, a Junta de Freguesia de São Bartolomeu, com Carlos Clemente a liderar, elevou sempre a Baixa bem alto na Assembleia Municipal. Nessa altura, Clemente era o rosto visível da oposição no terreno. Já a Junta de Santa Cruz, com representante eleito nas cores do então executivo, nem por isso dava nas vistas. Hoje, com Clemente a ser “comido” pelo poder -é adjunto da presidência-, o Centro Histórico está afónico, sem voz e sem representantes que se notem. É certo que a agregação das juntas de freguesia pelo país fora concorreu para isso, e, neste caso, em que se transferiu a sede da União de Freguesias de Coimbra para os Arcos do Jardim, juntando as duas premissas, tudo concorreu para a Baixa continuar órfã, sem voz no hemiciclo. É certo que os novos eleitos só há pouco tomaram posse e, sendo justo, sobre a sua posição e sobre o que vão fazer ao longo dos próximos quatro anos, mantém-se a dúvida. Com justiça, não é fácil de mostrar ao público o seu trabalho já que os jornais locais pouca importância dão à oposição.
Portanto, em constatação, verifica-se que, pela passividade, a forma de estar da oposição sobre a decadência do comércio local é algo oportunista. E, pelo desaire, incomodativa. Pelo nada fazer, é como se esperasse que caia ainda mais no charco para ver o que acontece e só depois agir. É verdade que os manifestantes, até certo ponto numa certa inocência -ou arrogância?-, até repudiaram o seu papel, mas, tendo em conta o interesse público, cabe a esta mesma oposição escolher, com bom-senso, entre os valores menor e maior.
Em paradoxo, salta à vista o lugar escolhido, cómodo, de nada fazer, pela oposição. Sabe-se que o seu desempenho instrumental, perante os eleitores, deve resultar sempre da inoperância do partido que ocupa o poder, no preenchimento de lacunas governativas, e mostrar que é uma alternativa. Ora, ao não aproveitar as notórias deficiências da vereação PS, parece que os eleitos pelo contra, tal como os seus congéneres, estão a dormir em serviço.

E OS COMERCIANTES? ESTARÃO MESMO EM CRISE?

Já nem pego nas milhares de frases e orações que tenho escrito nos últimos anos acerca da depressão continuada que atravessa o comércio tradicional, mas basta olhar para o clima, pesado e de apelo, lamentoso nas redes sociais, e sem esquecer o protesto no passado dia 20 para a constatação de que o comércio de proximidade está atravessar a sua pior fase. Já muito escrevi sobre as várias ameaças que saltam de todo o lado, desde o comércio electrónico até à continuada proliferação de grandes áreas comerciais, tudo parece indicar que os tempos que se avizinham serão de muita preocupação.
Em paradoxo, como entender que hoje, terça-feira, somente cerca de trinta por cento das lojas da Baixa se encontrem abertas? Afinal, estamos em crise ou não? Se calhar só alguns a sentem, poucos, como eu.
Para ilustrar, os meus desaparecidos pais, nas décadas de 1950 e seguintes, trabalharam sempre durante todos os dias da semana, incluindo Domingos e feriados. Porquê? Porque eram muito pobres e só assim evitaram que a fome entrasse na nossa casa. Apesar de nem um nem outro saber ler, pelo bom-senso, pela sua experiência de vida, sabiam que de pouco valeria pregar ajuda ao povo do lugar que eram necessitados se o seu comportamento não fosse consequente.
Os mais velhos, com toda a sua ignorância, querendo nós ver, ensinam-nos muito. O problema reside quando os mais novos não querem saber. Claro que nunca pensaram que mudando-se os tempos, tão marcadamente, se mudariam os procedimentos e as vontades.

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...





Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "A MANGO FAZ UM MANGUITO À BAIXA":


Eu não faço ideia como é que um presidente de câmara pode evitar fechos de bancos ou de lojas. Podem os comerciantes ocupar toda a praça oito de maio, tocar pandeiretas, desfraladar bandeiras, que continua o presidente da câmara impotente para tal coisa. Mais valiam manifestações à porta de cada um dos habitantes da cidade, protestando por eles não fazerem compras na baixa, preferindo ir a centros comerciais. Que havia de fazer a câmara? Recordo que quando abriu o coimbra shoping os comerciantes foram lá manifestar-se. Conclusão: a única solução seria a cidade de Coimbra ser, por imposição da toda poderosa câmara, a única cidade do país sem centros comerciais e hipermercados.




Maria de Lurdes pedroso deixou um novo comentário na sua mensagem "A MANGO FAZ UM MANGUITO À BAIXA":

A Mango perdeu qualidade, e será o destino de todas as Mangos! Aliás, as lojas que já encerraram, algumas delas, estão com processos de insolvência e outras se seguirão! Já se viu que pechisbeque tem os dias contados! Procura-se um "Salvador" para a baixa e, de preferência, não seja demagogo nem insolvente! A CMC certamente dará uma ajuda!





Unknown deixou um novo comentário na sua mensagem "A MANGO FAZ UM MANGUITO À BAIXA":
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José Augusto Fernandes Gomes deixou um novo comentário na sua mensagem “ A MANGO FAZ UM MANGUITO À BAIXA”


A maior parte dos eleitores de Coimbra decidiu que o senhor Machado é um bom presidente e deveria continuar. Como sabe, uma grande parte dos comerciantes da baixa não vota nas freguesias da baixa e alguns nem sequer no concelho de Coimbra vota. Outros há que nem foram votar por acharem que não fazia qualquer diferença. Agora temos a consequência disto. A pergunta que faço é: quando é que os comerciantes vêm o que está à frente dos olhos?