sábado, 4 de abril de 2015

sexta-feira, 3 de abril de 2015

HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESPONDE



Há cerca de duas semanas escrevi uma crónica n'O Despertar a contar a história de Marek Adam Kepacz, mais conhecido por Marco, polaco e nosso conviva diário destas ruas e becos. No texto subscrevo a sua vontade de conseguir um acordeão para ganhar algum dinheiro a tocar na rua. Para minha surpresa e a mostrar que há muita gente boa a responder a estes apelos, o polaco já tem um instrumento, cedido a título de empréstimo, que lhe permite ganhar a vida. O benemérito é o meu amigo José João Cardoso. Obrigado João! Esperemos que o Marco esteja à altura do gesto altruísta do Cardoso. Ou seja, ansiamos todos ver o músico a tocar proximamente na via pública. A ver vamos! Mais uma vez, e por que não me cansa enaltecer e agradecer, bem-haja João!

AH, GRANDE VICTOR SANTOS!



Já contei a história  deste cantor, aqui.

O CINEMA DE LUTO E O RENASCIMENTO DO TEATRO





Morreu Manuel de Oliveira, o mais antigo cineasta em exercício. O cinema, pela perda deste grande realizador português, está de luto. Pela teoria da compensação, de que a seguir a um dano segue-se um benefício, o teatro português está a renascer das cinzas. Basta ver as imensas peças na arte cénica que, acompanhadas de lágrimas de crocodilo, estão a surgir de todos os quadrantes políticos. Grandes desempenhos, sobretudo da direita já que esta ideologia adora os bons profissionais que, apenas imbricados na sua arte, não se metem na política e que não fazem ondas. A ala conservadora ama este modelo de português “santo da casa não faz milagre” em que é menosprezado cá dentro e venerado lá fora. E sobretudo pela projecção identitária: porque vindo do mudo –como tantos personagens partidários que conhecemos bem- transforma-se num ícone do sonoro. Igualmente como estes figurantes, que até entrarem na política tinham uma vida a preto e branco e depois passaram ao arco-íris, até nisso Oliveira é o seu ídolo. Além de mais, a direita gosta da etnografia, do “Pintor e a Cidade”. A recompensa por tanta similitude é todos os que não levantam cabelo serem trasladados e repousarem eternamente no Mosteiro dos Jerónimos.
A esquerda, porque não alinha muito em contos de  meninos milionários e talvez porque os dez dias que Oliveira esteve preso pela Pide não fazem do indivíduo um revolucionário do contra, não vai muito na ilusão. Além de mais o homem da câmara de filmar colaborou na revista de cinema Movimento ligada à Mocidade Portuguesa Feminina: Boletim mensal. E também por que, entre o “passado e o presente”, não alinha muito bem com a memória histórica já que lhe traz à recordação trocadilhos mal digeridos, não se mostra muito esfuziante com este ressurgimento abrupto do teatro e prefere manter-se “nim”. Por “O Acto da Primavera” só conhece a Primavera de Praga. No entanto, “Aniki-Bobó” deixa que pensar no fascismo dos anos trinta e transversal à Europa e, com o tempo, até pode ser que venha a idolatrar o grande cineasta. Teatro nem com “Sapato de Cetim”. A esquerda odeia “Canibais”, mormente o grande capital. Mas vamos com calma!
O conservadorismo em Portugal está de parabéns. Pelo manifestado esgar de dor e contorcionismo está a mostrar ao povo que a tradição ainda é o que era. Sim senhor! Pelo menos durante uns dias e umas noites, coincidindo com a Páscoa, esquecemos o estertor do senhor dos Passos, n”A Caça”, e o aventureirismo do Costinha, da “Canção de Lisboa”. Durante três dias -dois de luto nacional- vamos todos assistir numa televisão perto de nós às mais pungentes manifestações teatrais de sofrimento e angústia plasmadas em máscaras sofridas de nada vezes nenhum. Nestas coisas, e como manda o costume, o povinho na sua habitual hipocrisia e “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, agora também não esquece os imensos filmes que (nunca) viu de Manuel Oliveira. Ah grande Nação! Lá diz o povo, há males que sempre vêm por bem. Valha-nos "O Quinto Império"!

UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...

(Imagem da Web)



Tétisq deixou um novo comentário na sua mensagem "UMA MENTIRA CONVENIENTE":


Eu percebi mas, a verdade é que me dava jeito, mesmo.
O metro já era, nos autocarros cada vez mais atrasados, escassos e perigosos não podemos confiar, andar de táxi é um grande teste à paciência tenho apanhado tantos taxistas mal dispostos e 'deselegantes', só porque não sou turista estrangeira ou porque não vou para muito longe que lamento o facto de lhes pagar e manter a trabalhar...
Eu adoptei Coimbra, como venho de fora é mais fácil perceber o quão mal são servidos os que visitam a cidade. Uma cidade que deseja que alguém volte tem que mostrar que é pratica, acessível e simpática fazendo dos que prestam serviços os seus embaixadores...



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SuperFebras deixou um novo comentário na sua mensagem "SEGUNDO ESTUDO PRÉVIO PARA ELÉCTRICOS EM PRESPECTI...":


Amigo

Se não estou mal informado o plano é para que o eléctrico levite magneticamente não sendo assim necessário utilizar verbas públicas no escorar dos prédios da baixa pois não vibrará o solo.

Um abraço.

Álvaro José da Silva Pratas Leitão
Bradford – Ontário

Canadá

BOM DIA, PESSOAL...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O ARTISTA DE LESTE





Veio ter comigo há dias. Transpôs a porta, meteu a mão no bolso e puxou de uma carteira recente. Pretendia vendê-la, defendeu. Era o único bem que possuía e o único meio de fazer algum dinheiro. É um homem mediano, de meia-idade, cabeça calva, onde os cabelos que já a cobriram por inteiro decidiram emigrar, olhos vivos e perscrutadores. Exprime-se num português mal-amanhado e a fazer ressaltar a pronúncia de leste. A carteira não tem qualquer valor, repliquei para seu desalento. Em última cartada, em desabafo, o homem atirou: “Não ter uma única moeda no bolso. Estar muito aflito para pagar quarto e não quer estender a mão à caridade. Não ser capaz. Sempre trabalhar na vida. Nunca estar numa situação assim! Ser pintor e escultor. Ser ucraniano! O Marco enviar cá e dizer que você tinha escrito a história dele e também escrevia a minha” –contei a narrativa do músico polaco Marek Kepacs n’O Despertar, da edição de 20 de Março, e no seu fremente desejo de ter um acordeão para poder dar sentido e cor à sua vida.
Dei-lhe uma folha branca e um lápis e pedi-lhe para me mostrar o seu talento. Passado um bocado, e sob o meu olhar, tinha um Cristo, com ar sofrido, bem desenhado e com traço inconfundível de criador. Não tinha dúvida, à minha frente estava um artista, sem margem para dúvida. Se lhe arranjasse uma cana para pescar, como quem diz, tintas, pincéis e papel de aguarela será que estaria na disposição de ir para a rua pintar e tentar arranjar um meio de sobrevivência? Interroguei. “Claro! Claro! Só precisar mesmo de tintas e pincéis para trabalhar. Todo meu “respeto” para o senhor que tenha um grande “coraçau”. Neste meio tempo apareceram dois meus amigos e ouvindo a conversa e perante o desenho um disse logo que lhe oferecia um cavalete. O outro que lhe comprava as tintas e os pincéis. No dia seguinte o Sergiu Stefanov –conhecido por Sérgio- já estava a pintar no Largo da Freiria e pronto a tentar a sua sorte na rua. Ainda teve tempo para me mostrar uma espectacular escultura de um busto feito com jornais e farinha –e sempre a repetir: “eu não enganar. Eu ser artista! Acreditar em mim!”
Mas afinal quem é o Sergiu Stefanov? É ele que se vai apresentar. “Tenho 49 anos de idade, nasci em 1965. Sou romeno. Disse que era ucraniano para não me tomar por pedinte. Infelizmente sinto que o meu povo está muito mal visto por cá. Estudei na Roménia até ao 10º ano. Fui funcionário da Romtelecom durante cerca de uma década e até 1999. Deixou de haver trabalho e o dinheiro começou a escassear. No regime comunista de Nicolae Ceausescu vivi sempre bem, até à sua queda em Dezembro de 1989. Foi uma mudança violenta que resultou em mais de mil mortes. Desde cedo estive sempre ligado à escultura e pintura. Fiz três exposições em Botosani. Já em democracia, com a economia a dar voltas na barriga de miséria, desde pedreiro a pintor de interiores, a estucador, a artesão, a restaurador de móveis, até passando pela electromecânica, fiz de tudo e não chegou. Atirei-me à Europa e fiz dela a porta da minha esperança. Passei por Itália, Bulgária, França, Holanda. Nestes países fazia de tudo o que aparecia, desde a construção civil até apanhar fruta, e aproveitava o que calhava para sobreviver. Em 2013 vim para Portugal. Por cá, trabalhei numa quinta, na construção civil. Recusei sempre a estender a mão na rua. Tenho dignidade. Continuo a procurar trabalho. Estou inscrito no IEFP, Instituto de Emprego e Formação Profissional. Já tirei vários cursos profissionais, incluindo de português, mas não tem aparecido nada para eu mostrar o que sei fazer. Nunca recebi nada do Estado português até agora –embora já tivesse tratado da documentação para futuramente poder receber o RSI, Rendimento Social de Inserção. Até há pouco, com os trabalhos precários que tenho arranjado, fui conseguindo saldar a renda do quarto. Pago 135,00 euros. Mas agora é que toquei no fundo. Não sei o que fazer nem a que porta posso bater. Não quero ir para debaixo da ponte. Para as refeições, diariamente, vou à Cozinha Económica. Foi então que o Marek Kepacs me indicou o senhor. Pode fazer alguma coisa por mim? Pode ajudar-me?”