Será que ainda irei a tempo de criar uma fundação? Se calhar, pelo andar da carruagem, já não vou conseguir. Bom, mas nem que me ficasse pela aproximação, e se eu fosse pela A funda São? Ou , no mínimo, se não desse mais nada, fazia mas é uma fundição para fundir certos tipos que estou a pensar. Substituía o "Zé Povinho", do Bordalo, pelo "Arreganha a Taxa", que seriam representadas por uma série de políticos no activo e outros reformados em trono de ouro. Ora leia aqui a notícia onde me inspirei.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
ESTA MINHA MALUQUICE...
Quem faz o favor de ser cliente
aqui no meu jornaleco já viu que, quase todos os dias, estou a fotografar os “figurões”
da cidade. Certamente, para si mesmo, já teria interrogado da razão deste
empenho. Como tenho uma página semanal no jornal “O Despertar” –“Rostos Nossos
(Des)conhecidos”-, repetidamente, lá vem um retratado. O engraçado é que sempre
que escrevo e publico a sua imagem, estou em crer que nesse dia, para eles e
para os amigos, é uma festa. Os que ainda não foram visados, sempre que me
encontram, referem: “Ó senhor Luís, então, quando venho no jornal?” –e, é claro,
tenho de dizer, fico envaidecido. Sei lá! Há aqui, entre os dois, uma troca de
emoções, uma reciprocidade de compensação. Um alimentar de egos. Eu sinto-me
bem porque me sinto reconhecido, por eles, pelo “trabalho” que desenvolvo e
eles, através da minha atenção, sentem que são mais iguais aos outros, são
gente, que também têm o seu momento de glória. Penso que estamos perante um
jogo de espelhos, em que cada um sente e vê simplesmente o que quer ver.
E isto é giro! É giro porque, por
um lado, acho que estou a mostrar um pouco da cidade no seu lado mais básico,
por outro, estou dar vida a alguém que, como é hábito, apenas é notícia
quando morre.
Agora há uma pergunta sacramental
que é preciso fazer: este acto é inocente? Isto é, retrato-os com espírito de
missão? Ou, pelo contrário, haverá da minha parte um certo abuso no aproveitamento
da sua fragilidade? Isto é, sirvo-me deles, utilizo-os, para encher, como
assunto, uma página do quotidiano? Aqui, mesmo sendo eu a colocar-me a questão,
fico meio encalacrado e respondo que serão as duas coisas. Sendo assim, é evidente
que tendo consciência dos meus actos, terei de inclinar mais um dos pratos da
balança para o espírito de missão.
E já agora, já que estou numa
espécie de catarse, uma viagem ao interior das minhas emoções, o que me fará
andar atrás deles? Das suas poses, dos seus gestos, do seu vestir? É uma boa
pergunta que me faz, diria eu se não fosse eu mesmo a formular a interrogação.
Acontece que não sei bem. Às vezes penso que será o facto de eu vir lá do fundo
da latrina, do meio humilde e pobre, que me faz tomar mais atenção a estes
cromos –porque não tenho dúvida, ainda que no lado contrário, sou outro cromo
igual a eles. O que sei é que sempre me senti atraído por estes estranhos
personagens que vagueiam pela cidade –quando era criança, lembro-me, havia na
minha aldeia um assim, era o Pinhão. Todos os lugares habitados, lugarejo, vila, ou outro, há histórias assim. Estes estranhos personagens, em metáfora,
são rosas bravas, cactos selvagens –no sentido de que não alinham no
estandardizado social- que, como num jardim, têm uma incontornável e extraordinária
beleza no conjunto geral.
E comecei a escrever esta
lengalenga porque, hoje, na Rua Adelino Veiga, na parede do café Flórido, fui
dar com uma fotocópia de um poema que publiquei n’O Despertar acerca do “Carlitos Popó” -trocando o "Popó" para "Pipi", não se sabe ao certo qual o que prevalece. Certamente algum amigo do nosso embaixador de todas as culturas do mundo
entendeu que todos os transeuntes daquela rua do poeta morto deveriam ler. Naturalmente não
visando a minha pessoa, mas focando o conteúdo e o rosto ali representado: o “Carlitos”.
É lógico, sem falsa modéstia,
senti-me envaidecido e muito bem ao ver aquilo ali. Penso que, de certo modo, é um
declarado tributo a estes pequenos textos que elaboro. A quem o fez, conjuntamente com o agradecimento do retratado, o meu
muito obrigado.
UM SISTEMA ENROLADO SOBRE SI MESMO
(Imagem de Leonardo Braga Pinheiro)
O “Manel” é um caminheiro destes
becos e ruelas. A sua idade física deve andar à volta dos 65 anos. Nunca lhe
perguntei, mas, pela sua disponibilidade de tempo, deve ser aposentado. Como é
um tipo que foge ao comum dos reformados, no sentido de que é esclarecido, calculo
que tivesse sido funcionário público, sei lá, talvez contínuo, por aqui, numa
qualquer escola. Fala com desenvoltura. Nota-se alguma acidez e desdém,
materializados numa falta de fé no presente e sem esperança no futuro.
Como uma projecção de mim nas
lides jornalísticas, volta e meia vem ter comigo e soletra: “ó Luís, já viste o
que está ali, na rua tal? Já passaste no beco xis? Viste o aborto que lá está?”.
E eu lá lhe agradeço a nota, embrulhada numa promessa de passar lá assim que
puder e escrever sobre o assunto.
Ontem, mais uma vez, veio ter
comigo. “Ó Luís, não passas lá para cima, para a Alta, para os lados da Rua da
Matemática? Sabes lá o que uma certa cambada deu em fazer lá? Então não é que
começaram a pintar os candeeiros daquela artéria de vermelho? Já pintaram dois
e, pelos vistos, vai tudo a eito. Filhos de uma mãe, que deve estar mais que
arrependida em ter gemido tanto, em sofrimento, para os pôr cá no mundo! Uma
pessoa passa lá à noite e não vê nada. Aquilo é para fumarem umas passas à
vontade e para ninguém ver. Estamos nisto, Luís! Havia de ser numa época em que
vivi, no tempo do “Botas", que eles iam ver o que lhes custava andarem a pintar
o cenário de cores matizadas e que só a eles convém.”
Às vezes falta-me a
paciência para aturar gente como o “Manel”. Estas pessoas, ao virem ancorar a
sua frustração no meu porto de abrigo, neste procedimento, há aqui um certo
abuso de confiança. No fundo eles não concordam com o sistema em que estamos
inseridos, reclamam por entre dentes, mas nunca dão a cara para mudar seja lá o
que for. E então, como sabem que escrevo, ancoram-se. E se umas vezes até são
assuntos de nota, outras vezes é de “lana caprina”. Tendo alguém que sirva de
muro de lamentações é mais fácil porque ficam em paz com a sua consciência e,
ao mesmo tempo, estão sempre protegidos pelo anonimato. São assim uma espécie
de grupo de forcados que está atrás do primeiro que arrisca enfrentar o touro.
Se a coisa correr bem, mesmo agarrando o rabo do animal, todo o grupo vai
receber por inteiro a ovação do público assistente. Se correr mal quem apanha a
cornada é o que enfrenta a besta.
Desta vez não resisti e
interroguei: diz-me lá, por que não vais à Câmara Municipal e apresentas lá uma
reclamação? Respondeu-me: “eu já lá fui, mas disseram que não era nada com
eles. Que fizesse uma queixa na polícia. Então achas que eu vou para a polícia?
Estes gajos são doidos!?!”
É evidente que não sei se teria
sido assim. Mas uma coisa dá para ver: o sistema não está preparado para
receber a colaboração do cidadão comum. O engraçado, sem graça, é que os
detentores do poder estão sempre a apregoar a participação pública de cidadania
activa. Mas isso não é mais do que nuvens de fumo em dia de forte vento. Para
participar, por exemplo, uma qualquer ocorrência, uma injustiça, implica ao
civitas uma grande segurança na sua acção. Tem de ser tomado por algum
conhecimento básico do seu direito para conseguir partir a barreira de vidro
invisível e levar o seu intento até ao fim. Como, na maioria, não é assim,
entende-se porque temos um tão elevado índice de queixas anónimas. Qualquer autarquia
deveria ter um gabinete direcionado ao munícipe –claro que se um funcionário da
edilidade local me estiver a ler mentalmente diz logo: a Câmara Municipal de
Coimbra tem um. Acontece que não falo de um gabinete igual aos outros. Este
pequeno balcão deveria estar fora do conjunto. Deveria, por exemplo, estar à
entrada, no átrio, com um funcionário preparado para lidar com gente simples. Não
é que não entenda que o outro pessoal da casa não esteja, o que digo é que terá
de ser de outro modo, mais prático e menos burocrático. O problema é que basta
fazer a experiência no atendimento ao munícipe para verificar a
impessoalidade do espaço –que é enorme e até assusta. Depois o trato dado por
um funcionário que tem de saber milhentas coisas e apanha de tudo e leva
pancada de todos –e este facto dá-lhe a necessidade de se escudar, criando máscaras de defesa
materializadas numa certa distância e frivolidade. Para a pessoa comum o
simples acto de retirar uma senha e estar largos minutos à espera já é um
obstáculo quase intransponível. Quem quer colaborar com as autoridades,
defendendo valores da coisa pública, quer ser ouvido rapidamente e com atenção
porque acha que está a prestar um serviço, logo não pode ser tratado de igual
modo a um qualquer indivíduo que vai cuidar de um projecto para uma casa.
Aquele cidadão que dá a cara e participa activamente na vida da cidade não
pode, nem deve, ser olhado da mesma forma. Ele é diferente. É um indivíduo
preocupado com o que se passa à sua volta e, sendo assim, é preciso agarrá-lo
com ambas as mãos. Mas, é óbvio, não é assim. Em contrário, dá a parecer que o próprio
sistema, em processo desmotivador, se protege nestes emaranhados protocolares para evitar a denúncia. Até se entende por que é assim, mas não
devia. Talvez valha a pena pensar nisto.
OS ESPERTOS E OS OUTROS
Miguel Pais do Amaral é administrador de 73 empresas
"O presidente não-executivo da Media Capital acumulava no final de 2010 cargos de administração em 73 empresas.". LEIA AQUI.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...
Orquídea Selvagem deixou um novo
comentário na sua mensagem "HOJE O DIA MUNDIAL DO ORGASMO":
Eu por acaso acho imensa piada às comemorações do dia disto e daquilo...
Uma das vantagens é alertar-nos para assuntos que merecem a nossa atenção e até os mais "fúteis" servem para termos temas interessantes para colocar nos nossos blogues! :))
Pena que o ano comum apenas tenha 365 dias... o que obriga à comemoração em simultâneo de mais do que um tema.
Feliz dia para ti e tudo de bom!
Eu por acaso acho imensa piada às comemorações do dia disto e daquilo...
Uma das vantagens é alertar-nos para assuntos que merecem a nossa atenção e até os mais "fúteis" servem para termos temas interessantes para colocar nos nossos blogues! :))
Pena que o ano comum apenas tenha 365 dias... o que obriga à comemoração em simultâneo de mais do que um tema.
Feliz dia para ti e tudo de bom!
NOTA DO EDITOR
Em primeiro lugar, obrigado por
teres comentado. Na parte que me toca, se, por um lado, estas comemorações,
disto e daquilo, não me causam arrepios nem borbulhas no fígado, por outro, olho
de soslaio com alguma desconfiança pela “curriqueirice” com que nascem ou
renascem, como andorinhas na primavera, estes dias mundiais de tudo e mais
alguma coisa. É assim tipo balão de chiclete, surge de repente, rebenta e já
foi. É certo que terá algum efeito para quem o produz, mas para quem vê,
parece-me, não passa de uma orquestração, assim, para dar uma de modernidade e
sensibilização geral das massas… que estão mais duras que as pedras da calçada.
Abraço e agradecido.
UM COMENTÁRIO RECEBIDO SOBRE...
Anónimo deixou um novo comentário
na sua mensagem "HOJE O DIA MUNDIAL DO ORGASMO":
A diferença entre o orgasmo e tudo isso que disseste é o facto de que o Orgasmo é um dos pontos mais altos do que se pode atingir numa relação. Digam o que disserem, é ou não mais fácil que uma relação seja quase perfeita se existirem orgasmos, se existir prazer? Para além do mais, esta foi uma reivindicação das mulheres, porque o seu prazer, o facto de atingirem o orgasmo foi durante muito tempo oprimido. E lembro-te que em várias culturas continua a sê-lo e continuamos a assistir a testemunhas de mulheres que foram mutiladas, só porque não devem ter um órgão que só sirva para sentir prazer. Mais triste que isso, há aquelas que nem chegam a poder testemunhar porque não sobrevivem. Há lugares neste mundo onde as mulheres são apêndices dos homens, onde não podem mostrar o seu corpo, o seu rosto. Este dia só por si não é suficiente, mas, se juntarmos todas estas coisas, talvez se mudem umas quantas. Agora do pedinte? Do cravanço? Lol.
NOTA DO EDITOR
Calma, amiga que já foste! (Estou
de braços no ar, rendido completamente à tua argumentação). Eu só quis fazer um
pouco de humor, mais nada! Como tu, nos últimos tempos, parece-me, andas um
bocado desprovida dele, toca de me bater –é certo que foi ao de leve e, tenho
de te confessar, até gostei. Será que estou a ficar masoquista?
Apesar de estar aqui com um ombro
todo negro por causa da tua pancada, concordo inteiramente contigo. Aliás, vou
até mais longe, não é só em “outras” culturas que o orgasmo continua a ser
tabu. É também aqui na nossa. E não é só o orgasmo, é tudo o que diga respeito
a sexo. Nesta sociedade moderna e aberta pode falar-se de tudo, de economia,
futebol, política e religião, mas quando chega ao sexo, alto e pára o baile!, “isso
não, que é da minha intimidade!”
Vivemos em uma sociedade de
aparências, onde tudo “aparude”. Parece que somos doutorados em sociologia
geral. Para além disso, somos todos muito abertos e aceitamos todas as
correntes de opinião… menos discutir sexo. “Isso não! Que é da minha
intimidade!”. Um século de escuridão é muito tempo –não são apenas 48 anos conforme
se diz- e, inevitavelmente, gera cromossomas na genética. Mais grave do que
isto é não se discutirem os afectos. Tudo começa e acaba aqui. É certo também
que praticamente o estudo deles, enquanto ramo da psicanálise, tem menos de cem
anos e, portanto, ainda está numa fase embrionária. Mas não deixa de ser
paradoxal, hoje, neste tempo de emoções de viajantes intercontinentais sem sair
do mesmo lugar, qualquer um de nós, sabendo tudo o que se passa em todo o
globo, intuindo facilmente o pensamento do outro, pasme-se: não nos conhecemos
ou pouco sabemos de nós próprios.
Muito obrigado por teres comentado.
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